Psicodélico: Julho 2011

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Poesia Psicodélica - By Felipe Kariri








BUDISMO CONTEMPORÂNEO

Dimetilarei de todas as triptaminas
com a perspicácia de um Dr. Strassman
na busca de seu primeiro Buda semi-quântico

Sairei setas de vontades
Livres, verdes e vazias
Em escape psicocinético
Da morfogênese padrão

YAGÉ!

- Buda!!! Tua bunda sentou-se em meu cachimbo!
Nele agora há mais ciência que em toda tua pança.

(Felipe Kariri)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

V mostra de psicologia


Fonte : http://enteogenico.blogspot.com/

Divulgando:



Nos dias 21, 22 e 23 de julho acontecerá na Universidade Veiga de Almeida (campus Tijuca), totalmente 0800 (9090), a V Mostra Regional de Práticas em Psicologia organizada pelo Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro (CRP-RJ).


No evento, responsável pelo Site (enteogenico.blogspot.com) apresentará a seguinte palestra : "Psicodélicos e Psicoterapia: em vias de uma reconciliação?". A apresentação será na sexta-feira, dia 22, às 11:30 na Mesa 11.

A programção se encontra AQUI

A VIDA É UM ESPASMO CÓSMICO NO SOPRO DO UNIVERSO - Uma Visita ao Palácio Subterrâneo do LSD de Gordon Todd





POR HAMILTON MORRIS
FOTOS POR DAVID FEINBERG E SANTIAGO STELLEY
Fotos de arquivo cortesia de Krystle Cole

Krystle dentro do túnel do silo onde ela já teve incontáveis horas de viagens psicodélicas.

Não é nada fácil sintetizar os eventos ocorridos no silo de mísseis de Wamego entre 1º de outubro e 4 de novembro de 2000. As informações disponíveis formam uma massa viscosa de verdades, meias verdades, três quartos de verdades e mentiras descaradas, da qual é impossível extrair qualquer substância pura. Os personagens da história são múltiplos e variados. Os elementos químicos em questão são muitas vezes obscuros e de efeito desconhecido. Tudo que se sabe é que, em 1997, um prestigiado químico orgânico chamado Leonard Pickard se aliou a Gordon Todd Skinner, um herdeiro milionário, para criar aquele que se tornaria o laboratório de LSD mais produtivo do mundo. Um laboratório que, segundo fontes, produzia mais de 90% do LSD disponível no planeta, além de quantidades desconhecidas de MDMA, ALD-52, extrato de ergot e, possivelmente, LSZ.

Leonard Pickard é um caso raro entre os químicos clandestinos—um dos poucos que se destaca no ambiente acadêmico. Ele estudou em Harvard, Purdue e na UCLA enquanto produzia quilos de MDMA e LSD em laboratórios secretos da Irmandade do Amor Eterno. Era um sujeito carismático e gentil, de excelente postura (costumava dizer que a coluna vertebral deveria ser mantida na vertical, como “um lindo colar de pérolas”). Uma imagem famosa mostra Leonard em um congresso científico apreciando o aroma de uma rosa. Ele era assim.

Gordon Todd Skinner (mais conhecido como Todd) é um químico autodidata de competência duvidosa—o fato de ele ser considerado um químico é discutível. Ele afirma ter feito sua primeira extração de mescalina a partir do L. williamsii aos 19 anos. Aos 25, estava preso em Nova Jersey acusado de traficar quase 20 quilos de maconha. Para se livrar da pena, começou uma longa e frutífera carreira de informante do governo. Em 1996, adquiriu um silo de mísseis nucleares Atlas E desativado em Wamego, no estado americano do Kansas, e o transformou em um palácio psicodélico subterrâneo. Três anos mais tarde, comprou outro silo de mísseis, para abrigar um superlaboratório de LSD, que permaneceu na ativa por um curto período de tempo, já que, em outubro de 2000, Todd ofereceu aos agentes da DEA (a agência americana de combate às drogas) uma visita monitorada a suas instalações. Afirmar que Todd é um delator seria ignorar o fato de que ele parecia ter um comprometimento profundo e sincero com a distribuição de drogas psicodélicas para o aperfeiçoamento da espécie humana—o que torna sua atitude ainda mais complexa.

Por fim, temos Krystle Cole, uma ex-stripper gótica do Kansas, que se apaixonou por Todd e acabou tendo acesso a seu círculo privado de químicos e traficantes. Krystle conheceu Todd em fevereiro de 2000, e eles viveram uma lua-de-mel lisérgica de seis meses antes que as coisas começassem a catabolizar em caos. Em agosto do mesmo ano, Todd começou a suspeitar que seu laboratório de LSD estivesse sendo vigiado pelo governo e decidiu se esquivar de qualquer acusação criminal que pudesse vir a enfrentar entregando Leonard de bandeja. Isso levou à prisão de Leonard e uma escassez de LSD em escala nacional (e talvez mundial) que se estendeu pelos primeiros anos da década de 2000.

Em outubro de 2000, Todd contatou formalmente a DEA e declarou: “Estou envolvido naquilo que acredito ser a maior rede de distribuição de LSD do mundo… Queria tentar fazer um acordo”. Todd ganhou imunidade total por seu envolvimento com o laboratório, enquanto Leonard recebeu duas condenações à prisão perpétua sem direito à condicional. Logo depois do julgamento, Todd e Krystle viajaram aos Estados Unidos comercializando quilos e mais quilos de MDMA com alto grau de pureza para sobreviver. Com o tempo, Todd foi ficando cada vez mais violento e paranoico, e em setembro de 2003 acabou preso e envolvido em uma batalha judicial que terminou com uma sentença de prisão perpétua por agressão com arma branca (uma agulha hipodérmica) e sequestro.

Desde então, Krystle vem transformando sua experiência em matéria-prima para uma série de livros e vídeos no YouTube, o mais popular deles envolvendo uma discussão aprofundada sobre uma técnica de administração intra-retal de DMT batizada como “o colônico xamânico”—dizem que arde bastante. Krystle é uma das poucas pessoas que participou da empreitada e não está na cadeia, então peguei um avião para o Kansas para entrevistá-la e fazer uma visita ao lendário silo de mísseis. Apesar de ter passado por tudo o que passou, Krystle é um poço de energia enteogênica em ebulição. Quando a busquei para irmos até Wamego, ela estava vestindo uma camiseta tie-dye com o símbolo da paz.

O silo era um testamento da extravagância perdulária de Todd. O abrigo principal era decorado com tapetes persas e luxuosos sofás de couro. Havia também um sistema de som de 120 mil dólares, que ele usava para ouvir Deep Forest e Sarah McLachlan no último volume. O banheiro era equipado com três duchas e uma banheira capaz de acomodar umas seis pessoas. Depois das prisões, o silo foi esvaziado, e tudo o que havia de valor por ali foi vendido. O espaço acabou abandonado, vandalizado, inundado e por fim invadido por comparsas de Todd em busca de um carregamento de MDMA, LSD e DMT escondidos nas paredes estriadas de mármore rosado. Atualmente, pouco do silo original permanece intacto, e a propriedade agora pertence a um fanático por veículos militares, que usa o abrigo de mísseis para guardar seus tanques soviéticos T-34 da época da Segunda Guerra Mundial. Depois de visitar o silo, Krystle e eu batemos um longo papo.

Krystle e Hamilton depois de um belo prato de legumes ao vapor.

VICE: Como você e Gordon Todd Skinner se conheceram?
Krystle Cole:
Eu fazia strip-tease em um lugar chamado Club Orleans. O Todd não frequentava casas de strip, mas seus funcionários frequentavam, e um deles me viu em ação e disse a ele: “Tem uma garota lá que você precisa ver”. A minha apresentação era bem interessante—um número de bondage. Eu realmente me destacava entre as meninas que trabalhavam lá. Eu era gótica, então me apresentava ao som de death metal com uma corrente que eu usava para me enrolar no poste do palco e me chicotear. Eu queria me rebelar contra tudo que o Kansas representava. Quando o Todd apareceu, vi que ele era diferente dos outros clientes, não queria que eu dançasse no colo dele nem nada do tipo. Ele só ficava sentado na área VIP e me dava um monte de dinheiro. Depois de um tempo, me convidou para conhecer o lugar onde morava. Nas casas de strip existe uma regra: “Nunca vá para casa com um cliente, você vai acabar sendo estuprada e esquartejada”. Eu estava com um pouco de medo, mas disse: “Tudo bem, eu vou”. Depois de viajar de carro durante horas, demos de cara com portões de ferro gigantescos com arame farpado em cima. Havia pelo menos dez câmeras de segurança lá fora, além dos sensores de movimento. Não tinha nenhuma outra construção à vista, e a porta do silo era grande o suficiente para um caminhão passar. Quando ele me levou lá para dentro, fiquei apavorada.

Por que o Todd morava em um silo de mísseis nucleares?
Quando conheci o Leonard e o Todd, eles me disseram que eram figurões excêntricos do mercado financeiro. O Todd me disse que tinha estocado alimentos e armas para se preparar para o bug do milênio—nos conhecemos no início de 2000. O Todd tinha tudo que era necessário para sobreviver ao apocalipse naquele silo. Eles me disseram que tinham maletas cheias de dinheiro em moeda estrangeira e em dólares, pois achavam que o sistema financeiro dos Estados Unidos estava à beira de um colapso. Eles esbanjavam dinheiro, andavam de Porsche e me compraram roupas Armani. Eu não precisava mais trabalhar na casa de strip. Aqui no Kansas não temos o costume de ficar interrogando as pessoas para ver se elas estão realmente dizendo a verdade.

Então o Todd falou que era um figurão do mercado financeiro e que estava preparado para sobreviver a um suposto colapso financeiro. Mas como ele justificou os quilos de MDMA?
Ele escondia. Logo que o conheci, eu não via nada daquilo. Eu tinha pouquíssima experiência com drogas. Já tinha bebido e fumado maconha, mas nunca nem tinha ouvido falar em MDMA. “Experimenta só uma vez, você vai gostar”, ele me disse. Nossa, e como eu gostei… Mas só cheguei a ver uma pequena quantidade. Depois de um tempo, comecei a desconfiar que tinha alguma coisa rolando ali, mas não sabia direito o quê. Todo mundo vivia tenso. Se você falasse sobre drogas no telefone, ou entrasse em um site sobre drogas, levava o maior sermão. Só mais tarde me mostraram o estoque de drogas e eu fiquei sabendo que havia um laboratório de LSD além do laboratório de MDMA, que nunca foi descoberto.

Li que ele dizia para as pessoas que estava usando o silo de mísseis para fabricar molas de alto desempenho para a NASA.
Tecnicamente, em um determinado momento, havia molas sendo fabricadas no silo de mísseis. Alguns funcionários disseram que tentaram fazer algumas molas, mas era tudo fachada.

Você chegou a ver alguma mola por lá?
Não, nunca vi mola nenhuma no silo, mas a mãe do Todd é dona de uma fábrica de molas em Tulsa, e eles realmente fabricam molas para a NASA.

Um aparato que consiste de 183 baterias que Todd afirma ter desenvolvido para experimentos eletroquímicos com MDMA.

Quando você descobriu que o Todd e o Leonard estavam metidos com fabricação de LSD, você teve vontade de cortar relações com eles?
Quando comecei a perceber o que estava acontecendo quis me envolver mais. Só soube o que de fato era feito ali depois que o Leonard foi preso. Eu estava usando muitas drogas, e só tinha 18 anos. Não tinha visão nem discernimento para perceber o que estava acontecendo ao meu redor. Nessa época eu só dizia: “Vamos curtir”. Eu não pensava nas consequências, nem no futuro, ou em qualquer outra coisa.

Quais eram as substâncias que o grupo pesquisava e sintetizava?
A especialidade do Todd era as triptaminas. Ele fazia extrações a partir da Mimosa hostilis, mas também sabia produzir DMT sintética. Ele tinha muito orgulho de todos os químicos que possuía. Quem o conhecia bem podia ver sua enorme “biblioteca” de substâncias químicas—centenas de drogas diferentes. Isso foi em 2000, antes de um monte dessas substâncias poderem ser adquiridas na Internet como material de pesquisa. O Todd distribuía essas coisas para todo mundo, e a gente ficava: “Dá uma pra mim”. Não sabia o que a maioria das substâncias era. Eu tomava muitas coisas diferentes, era como se eu vivesse num mosteiro enteogênico. Eu não precisava trabalhar. Não precisava me preocupar com contas para pagar. Não precisava fazer nada além de tomar drogas psicodélicas. Tive a oportunidade de usar coisas muito incomuns, como ALD-52 e extrato de ergot, assim como substâncias totalmente novas das quais eu nunca tinha ouvido falar até então e nem ouvi mais falar desde então.

Que substâncias eram essas?
Bom, antes eu não podia falar muito sobre isso, mas agora posso, porque os crimes já prescreveram. Tinha uma substância em particular que era totalmente nova, que ninguém nunca tinha experimentado. O que eu vivenciei vai além de qualquer descrição. Porque era como olhar… Era como se tornasse a realidade… Quer dizer, era a mesma realidade, mas como se houvesse uma camada sobreposta a ela. É difícil de explicar, mas foi como descobrir que o meu cérebro era um mecanismo neurológico que eu podia acionar e experimentar um estado alterado quando quisesse.

Qual era o nome dessa substância?
O Todd não dava nome para maioria a das substâncias que criava, mas era similar à 5-MeO-MT. Ele me mandou uma porção de cartas da prisão descrevendo a síntese em linguagem codificada. Pelo que ele disse, podiam ser feitas com folhas de ródio eletrificadas em um aquário de 90 litros.1Havia muitas substância novas, mas essa era especialmente louca. Ele também disse que era uma molécula sensível, com tendência à degradação, e então para guardar aquele “livro” em particular em uma de suas “bibliotecas” seria preciso “encadernar” com uma “capa resistente e opaca”. Também tinham outras substâncias novas. O Leonard criou uma nova variante do LSD chamada “diazedina”, mas não sei dizer exatamente do que se tratava.

Você conhece o ácido lisérgico 2,4-dimetil-azetidina?2
Não, mas eles chamavam essa substância de diazedina. Também era muito louca, mas nada espetacular. O Leonard deu para o Todd em uma garrafa de Everclear para testar, e tomávamos uma tampinha por vez. Pelo jeito, a produção da diazedina não era viável em grande escala porque os custos eram altos demais e a quantidade produzida muito pequena. A diazedina causou muito estresse entre o Todd e o Leonard, porque eles tinham uma grande expectativa de que ela fosse uma alternativa ao LSD.

1 Nas cartas que mandou da prisão, Todd relata que usou 5-Fluoro-MT e 6-Fluoro-MT. O primeiro encontra-se disponível comercialmente em pequenas quantidades, e o último foi distribuído pelo grupo de Leonard e descrito como um “demônio”. Ambos têm ação psicodélica, mas nenhum deles pode ser produzido com as matérias-primas e os equipamentos (aquários e folhas de ródio) mencionados por Todd.

2 O ácido lisérgico 2,4-dimetil-azetidina (conhecido como LSZ) faz parte de um pequeno grupo de psicodélicos serotonérgicos mais potentes que o LSD. Apesar de a “diazedina” ser uma corruptela de dimetil-azetidina, o primeiro artigo científico descrevendo a fórmula e a farmacologia do LSZ veio de um laboratório da Universidade de Purdue, onde Leonard havia estudado, sob a orientação do renomado químico David Nichols. Apesar de o artigo ter sido publicado depois da prisão de Leonard, é bem provável que ele tenha tido acesso a pesquisas preliminares. Quando perguntei ao dr. Nichols se ele achava que Pickard poderia ter produzido LSZ, ele respondeu: “Leonard conhecia o nosso trabalho, disso eu tenho certeza”. Durante anos houve boatos de que o LSZ foi vendido sob o nome, mas há poucos relatos confirmados sobre sua existência. Obviamente, o nome diazedina é ambíguo e pode se referir a qualquer coisa, mas eu aposto um quilo de hexafluorofosfato de benzotriazol-1-iloxi-tripirrolidinofosfônio que LSZ e diazedina são a mesmíssima coisa

Buracos feitos pelos comparsas de Todd para checar os “livros” de sua “biblioteca” que continha títulos populares como 500g de MDMA, 100g de DMT, 1g de LSD, 10 mil dólares americanos, 10 mil dólares canadenses e 10 mil florins holandeses.

Em que momento Todd virou um informante da DEA e entregou o Leonard?
Pouco antes do desmantelamento do laboratório, Todd começou a me contar várias coisas sobre o Leonard: que ele estava metido no tráfico de heroína e de mísseis Stinger no Afeganistão, e que tinha encomendado o assassinato de um sujeito que estava fornecendo um precursor de LSD para eles. Não sei se acredito no Todd hoje, mas na época com certeza acreditava. Eu estava completamente apaixonada por ele, e achava que tudo o que ele dizia era verdade. Hoje consigo olhar para trás e ver que ele mentia a maior parte do tempo.

Eu me correspondi com o Leonard, e ele me pareceu um homem gentil e educado.
Você precisa entender que ele não é tão inocente nessa história toda. Quer dizer, é terrível que ele esteja cumprindo uma pena de prisão perpétua por causa de um crime não violento, que na verdade não é nem um crime, e sim um serviço que teve um efeito profundamente positivo sobre a humanidade, mas o Leonard também não era nenhum anjo. Muita gente tenta pintá-lo como um monge budista que jamais faria uma maldade. Mas tanto ele como o Todd eram traficantes de drogas do mais alto escalão, nenhum deles era bonzinho. Por outro lado, não acho que o Leonard seja um assassino.

Leonard parecia ser o tipo de pessoa que se envolveria com tráfico de heroína?
Provavelmente não, mas também não parecia ser alguém que se envolveria com o tráfico de LSD! O Leonard fazia muito bem seu papel. Nunca o vi usando drogas ou mesmo falando sobre drogas. A única coisa que ele me disse foi: “Você devia ir às raves. Você iria gostar”. Foi a única coisa remotamente ligada a drogas que ele já me falou antes de ser preso.

O Todd deixava você ver as drogas serem sintetizadas?
Bom, eu vi quilos e mais quilos de indol. Vi recipientes e equipamentos de laboratório com coisas que estavam nos últimos estágios de síntese ou purificação. Vi potes de vidros cheios de extrato de ergot, mas nunca entrei num laboratório para acompanhar o processo de síntese. Acho que eu conhecia o Todd melhor do que ninguém, mas mesmo assim ele não confiava em mim a ponto de me deixar entrar em seu laboratório.

Todd massageia o próprio ombro enquanto encara pensativamente o vazio.

Eu nunca entendi direito o papel do Todd. Leonard obviamente tinha uma função específica—ele é um químico orgânico extremamente instruído, aluno de Alexander Shulgin—, mas por que Gordon Todd Skinner se envolveu com isso?
Bom, o Todd me contou muitas versões diferentes ao longo dos anos. De acordo com os relatórios oficiais, ele estava lá para lavar dinheiro e cuidar de questões relacionadas ao fluxo de caixa. A princípio, ele me disse que era o encarregado da segurança da Irmandade do Amor Eterno, só que mais tarde, quando começou a confiar mais em mim, me explicou que também era um químico de LSD. Ele falou que era responsável pela produção de LSD “branco algodão”, e que o Leonard fazia grandes quantidades de LSD “lavanda” para vender.3 Pelo que concluí, acho que o Leonard fabricava a maior parte do LSD. O Todd fazia apenas pequenos lotes, mas também fazia toda a DMT.

Certa vez você escreveu que o Todd sintetizou um negócio chamado “ácido preto alcatrão”, que provocava convulsões nas pessoas. Por que ele distribuía uma coisa como essa?
É, eu não sei o que era aquilo. Parecia muito ruim. Não tinha uma coloração cristalina, era preto como alcatrão. Se você tentasse dissolver, a solução ficava bem escura. Isso foi perto do fim, quando ele começou a revelar tudo. Ele estava fazendo várias triptaminas venenosas, que provocavam convulsões nas pessoas. Ele começou a pagar o preço por todo o estresse dos processos judiciais e pelos anos de fuga e negócios escusos com o governo. Por que o Todd dava isso às pessoas, por que fazia o que fazia? Ele era mentalmente doente. Eu realmente acho que ele é um sociopata. Quer dizer, na época eu nem sabia o que era um sociopata. Hoje, depois de ter estudado psicologia e entender o que isso significa, sou capaz de perceber que uma pequena porcentagem da população é composta por sociopatas.

Em um determinado momento, Todd afirmou ter inventado uma vacina para AIDS e estava oferecendo injeções gratuitas para toda vizinhança, é verdade?
Sim, quanto maior a mentira, mais ele se safava. Eu estava tomando tanto MDMA que estava com medo de ter sofrido alguma lesão cerebral, então fui fazer um tratamento com um médico naturopata. O médico receitou algumas infusões intravenosas de vitaminas. Quando o Todd me viu fazendo aquilo, quis preparar suas próprias infusões com drogas psicodélicas na mistura. Ele ia ao consultório do naturopata—imagine, tinha um monte de velhos fazendo quelação naquela mesma sala—e injetava DMT diluído no frasco de soro. Ele ajustava o fluxo de líquido para poder viajar mais e depois reduzia o fluxo para dar uma segurada. Ele ficava lá no meio de um monte de velhinhos, viajando durante horas, e as pessoas achavam que ele estava fazendo quelação. Mas ele sabia manter as coisas sob controle. Eu não conseguiria.

Nem eu…
Uma coisa é fumar DMT e pronto, mas ter uma viagem prolongada de DMT com uma agulha no braço não me parece nada convidativo. Apesar de que, quando você se acostuma com grandes quantidades, pode ter uma viagem agradável em qualquer ambiente. Por exemplo, quando o Todd se tornou violento e sabia que eu ia tentar fugir, começou a espalhar drogas psicodélicas pela minha casa. Ele queria que as pessoas pensassem que eu estava ficando maluca, ou talvez quisesse que eu duvidasse da minha própria sanidade. O Leonard me disse que o Todd deve ter colocado drogas psicodélicas nas maçanetas das portas. Por causa disso fiquei viajando três dias seguidos, e a cada dia a viagem era mais intensa que a do dia anterior. Não sei que substância era aquela, mas foi a coisa mais forte que eu já tomei. É desesperador tentar fazer suas tarefas cotidianas e, de repente, se encontrar inexplicavelmente em uma viagem +++ trip.4 Alucinada muito além da conta. Mas, de certa forma, também foi uma experiência boa. Me fez lembrar que a vida é apenas um espasmo cósmico no sopro do universo.

3 “Branco algodão” e “lavanda” são termos usados para determinar diferentes gradações de LSD, sendo o branco o grau máximo de pureza e o lavanda um nível de pureza baixo. Esses nomes se baseiam na aparência do LSD em sua forma cristalina, mas é importante ressaltar que esse tipo de nomenclatura foi criada pelos usuários, sem nenhum fundamento científico. Se Todd era capaz ou não de produzir “branco algodão” não sabemos ao certo. Em seu depoimento no tribunal, ele afirmou que não sabia sintetizar o LSD, apesar de ter sido agraciado com imunidade total. Sempre me perguntei se Todd simplesmente gostava da ideia de ser uma figura Alexander Shulgin patriarcal e inventou toda essa história de ser químico. Todd considerava Dennis McKenna um amigo íntimo, então perguntei a McKenna o que ele achava. Ele respondeu: “Skinner dizia ser muitas coisas que não era. Até onde sei, essa coisa de químico era uma delas”.

4 Alexander Shulgin desenvolveu uma escala de cinco gradações que vai de +/- até ++++, sendo que +++ indica: “A cronologia e a natureza da ação da droga se tornam claras, e ignorar essa ação passa a ser impossível. O indivíduo está totalmente submetido à experiência, para o bem e para o mal”.

Krystle de lingerie e máscara de gás.

Li que o Leonard também era um informante da DEA. Acho incrível o fato de dois dos maiores traficantes do mundo terem sido colaboradores da DEA de forma independente, sem saber das atividades um do outro. Alguma vez o Todd chegou a insinuar que a DEA tem um envolvimento ativo na distribuição de drogas sintéticas?
Sim, com certeza. Ele disse exatamente isso. No topo da pirâmide, não existe divisão entre a distribuição de drogas e a agência antidrogas. Cinquenta e quatro por cento da população prisional foi sentenciada por crimes relacionados a drogas. A quantidade de dinheiro que esses presos fazem girar pelo sistema judiciário é imensa, assim como os ganhos de imagens geradas por essas prisões. Sem os químicos para produzir drogas, a DEA não poderia lucrar com essas prisões. Eles prendem as pessoas do baixo escalão e mantêm a coisa funcional no topo para garantir o sustento da agência. Sem esses químicos, a organização como um todo desintegraria.

Se eles estavam trabalhando com o Todd e com o Leonard e lucrando com prisões de figuras de menor importância, por que o Leonard foi preso?
Não tenho nenhuma evidência de que eles estivessem trabalhando com o Leonard na época do desmantelamento do silo, mas sei que eles trabalharam juntos no passado de tempos em tempos. Acho que prenderam o Leonard sem dar nenhuma chance a ele porque o Todd foi direto até a chefia da DEA em Washington e fez todos aqueles acordos de imunidade. Então, a coisa tomou uma proporção muito grande, o Leonard não teve como escapar.

O Todd ganhou imunidade no caso do silo. Parece que os contatos que tinha no governo eram tão poderosos que ele era praticamente intocável. Ele acabou sendo preso por algo que não tinha nada a ver com drogas, foi por torturar o seu ex-namorado, correto?
Sim, isso mesmo. Acho que essa imunidade legal começou a deixá-lo maluco. Ele achava que poderia matar e sair impune. Agora está cumprindo pena de prisão perpétua pelo que fez com o Brad, meu ex-namorado. Depois do julgamento, eu tentei me afastar do Todd, porque ele estava psicologicamente abalado. Ele me queria de volta a qualquer custo. Me arrastou até o carro dele e me enforcou enquanto ameaçava atirar o carro de uma ponte. Eu sabia que morreria se não procurasse ajuda. Fui até a delegacia local e consegui um mandado de segurança provisório, mas isso só deixou o Todd mais irritado, então minha única saída foi procurar a DEA. A DEA sabia que eu tinha namorado o Todd, então tinha interesse em me receber. Eu fui até lá com o Brad e confessei tudo. Disse que eu era traficante de MDMA, contei onde ficava um dos laboratórios de MDMA do Todd e disse que ele vinha me agredindo e me drogando contra a minha vontade. Acontece que outras pessoas que tinham sido drogadas pelo Todd também haviam procurado a DEA, então eles tinham elementos suficientes para abrir um inquérito. Eu disse para os agentes: “Não me importo de cumprir alguns anos de pena pelos crimes que confessei. Pelo menos nada de mais grave vai acontecer comigo ou com qualquer outra pessoa”. Foi a coisa mais difícil que eu já fiz, mas não tive escolha, o Todd ia acabar me matando ou matando alguém. Mas os agentes não fizeram nada. Dois dias depois, o Todd me ligou e disse que sabia que tínhamos procurado a DEA. Ele estava furioso, e foi por isso que me sequestrou junto com o Brad.

O que aconteceu durante o sequestro?
Começou com o Todd oferecendo ao Brad hóstias misturadas com psilocina. Não sei por que, mas o Brad aceitou. Então o Todd ofereceu a ele uma droga que supostamente ampliaria os efeitos das hóstias psicodélicas. Era um comprimido branco bem grande. O Brad tomou e ficou inconsciente por umas 12 horas. O Todd fazia isso às vezes quando não queria certas pessoas nas festas, ele as convencia de tomar uma pílula e ela ficavam inconscientes. Ele era uma espécie de titereiro farmacológico, manipulava todo mundo com diferentes substâncias químicas. Ele continuou injetando drogas psicodélicas no Brad, chutou seu pênis e perguntou a ele o que, exatamente, tínhamos dito à DEA.

Krystle e Hamilton são duas metades lisérgicas da mesma laranja enteogênica.

Ele estava usando as drogas psicodélicas como um soro da verdade?
Sim, pelo menos era essa sua intenção. Ele injetava DMT no Brad, enquanto o interrogava e torturava psicologicamente. O Todd dizia: “Podemos ficar com ele, podemos fazer com que ele volte a confiar em nós”. E eu dizia: “Não, não podemos. Ele precisa ir pro hospital”. Ele estava injetando coisas em mim também, tiopentato de sódio, segundo ele. Eu estava morrendo de medo. Só de pensar que alguém pode usar drogas psicodélicas para fazer as coisas que ele fazia… Foi horrível. Quando acabou, o Brad teve que ser internado para se recuperar das lesões que tinha sofrido no pênis, mas eu ainda tive que ficar com o Todd durante um mês. Ele me drogou, me estuprou, me sodomizou. Fez coisas terríveis comigo.

Por onde anda o Brad?
Não sei. Não falo com ele desde então. Com o tempo ele foi se convencendo de que eu era uma satanista, e depois de algumas semanas no hospital estava dizendo coisas como: “A Krystle estava fazendo rituais satânicos com o meu corpo enquanto eu quase morria”. Acho que ele me odeia e, se algum dia tiver a chance de contar a sua versão da história, provavelmente vai dizer que eu era uma diaba adoradora de Satã que estava mancomunada com o Todd desde o início para fazer coisas horríveis com ele.

E você estava fazendo rituais satânicos com o corpo dele?
Não, eu estava fazendo respiração boca a boca! Ele tomou doses gigantescas de barbitúricos e drogas psicodélicas, então suas lembranças do fato são completamente distorcidas. Ele estava quase morrendo. Eu queria chamar a polícia, mas o Todd tinha umas seringas cheias de drogas e dizia: “Se você chamar a polícia, vou injetar isso aqui nele, e ele vai morrer antes de qualquer um chegar”. Eu fiz o que pude para tirar ele daquela situação, e o Brad só está vivo por causa disso.

Depois de ouvir todas essas histórias sobre o Todd—em que ele é retratado como um sociopata, um maníaco controlador—, eu me pergunto: como foi que você se apaixonou por ele?
Bom, no começo ele era muito legal. Ele parecia ser a pessoa mais espiritualizada do mundo. Uma viagem com ele era uma coisa diferente de qualquer outra viagem. Nos comunicávamos por telepatia. Tivemos uma experiência divina juntos. Eu acreditava do fundo do meu coração que ele era a pessoa mais perfeita do mundo, e me apaixonei completamente por ele. Depois disso, comecei a ignorar uma porção de coisas ruins que comecei a ver naqueles dois primeiros anos. Eu dizia para mim mesma que por trás de toda aquela insanidade havia uma pessoa boa. Olhando para trás, vejo que ele estava me manipulando o tempo todo. Eu era uma menina boba. Tenho traumas psicológicos terríveis por causa do que aconteceu. É por isso que o Todd vai ficar preso pro resto da vida—o que ele fez não foi legal. As drogas psicodélicas não devem ser usadas para esse tipo de coisa. Então escrevi o livro Lysergic para que as pessoas tenham cuidado ao escolher com quem vão viajar, para que ninguém cometa os mesmos erros que eu cometi. Porque, no caso do Todd, escolhi um parceiro de viagem totalmente errado.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Natgeo - Drogas S/A - Episódio 01 - Maconha




A maconha é a substância ilícita mais utilizada em todo o mundo e polariza a opinião pública.

Para alguns ela é uma erva daninha enquanto para outros ela é vista como uma erva inofensiva.

Durante anos o seu fornecimento foi controlado por criminosos implacáveis, mas agora existe uma indústria que até parece legítima - um negócio de bilhões de dólares e que está prosperando.

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Duração total: 45min
Tamanho total: 465mb (2x200mb 1x65mb)

Parte 01 - Parte 02 - Parte 03

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Natgeo - Drogas S/A - Episódio 02 - Cocaína




A cocaína é um negócio mundial de 92 bilhões de dólares que emprega dois milhões de pessoas. Enquanto gera uma grande riqueza para uma minoria de chefões do tráfico e representa uma das poucas rotas de fuga da pobreza para fazendeiros de coca e traficantes em zonas urbanas, ela causa sofrimento aos milhões de usuários que nela se viciam. Com um acesso inédito a fazendeiros de coca na Colômbia, cartéis de traficantes no México, traficantes de crack em Miami e traficantes de cocaína em Londres, este filme revela a cadeia de fornecimento de cocaína que se estende por todo o mundo.

Descubra como essa droga funciona no mundo e quais são os efeitos que ela causa

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Duração total: 45min
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Parte 01 - Parte 02 - Parte 03

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Natgeo - Drogas S/A - Episódio 03 - Metanfetamina





A metanfetamina, a "droga do diabo", está assolando a América do Norte e boa parte da Ásia, deixando um rastro de morte e destruição pelo caminho.

De traficantes internacionais e locais, passando pela experiência da droga, ao trabalho dos médicos e policiais que lidam com a questão, mostramos a vida real daqueles que estão inseridos no comércio ilegal de metanfetamina.

Áudio - Dublado pt-br
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Duração total: 45min
Tamanho total: 502mb (2x200mb 1x102mb)

Parte 01 - Parte 02 - Parte 03


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Natgeo - Drogas S/A - Episódio 04 - Heroína





Natgeo-Drogas.SA-Heroina-manic.avi


A heroína é a droga mais destrutiva do planeta.

Dos campos do Afeganistão às ruas de Chicago, ela afeta a vida de todos aqueles que cruzam seu caminho.

Com um acesso sem precedente, este documentário explora o mercado mundial de heroína e mostra como os governos lutam para controlar os estragos que ela causa em todo o mundo. No Afeganistão, seguimos em uma jornada pelo país até um laboratório de heroína perto da fronteira com o Irã.

Em Chicago, traficantes nos fornecem uma demonstração única de como a heroína é preparada para ser vendida nas ruas.

Em Vancouver, usuários da droga falam abertamente sobre os caminhos que levam ao vício enquanto em Nova Jersey, acompanhamos os policiais em uma operação para desmantelar uma grande rede de distribuição de heroína.

Por fim, conferimos os esforços radicais feitos pelo governo suíço para resolver a crise da heroína. Lá eles fornecem heroína gratuitamente para os viciados.

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Embora não faça parte da série Drogas S/A, este doc foi marcado assim por estar relacionado

O inventor do LSD, Albert Hofman, chamou a droga de “a medicina para a alma”. Os Beatles escreveram canções sobre o tema. Experimentos militares de controle mental buscaram explorar seus poderes alucinógenos. Proibida em 1966, o LSD se converteu em uma droga de rua e criou uma reputação de “o brinquedo da contra-cultura”, capaz de inspirar momentos de genialidade ou derivar na loucura. Agora, a ciência toma uma nova perspectiva sobre o LSD, incluindo as primeiras experiências em humanos em 35 anos. Usando imagens cerebrais, versões não alucinógenas da droga e informação alternativa, se tratou pessoas em condição agonizante sem cura e os cientistas descobriram que esta particular droga poderia ser farmacêutica no futuro. Há cinquenta anos, o LSD era considerado como o último recurso da ciência. Após décadas de controvérsia, o LSD está sendo reconsiderado pela comunidade científica para aumentar a força cerebral, expandir a criatividade e, também, curar enfermidades.

Para termos uma idéia de como o LSD é potente, apenas duas gotas proporcionam 12 horas de viagem


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sábado, 9 de julho de 2011

A grama do vizinho é mais verde - A Argentina é a próxima Holanda?

Foto: Domenico Pugliese
Casa Rosada: Sede da presidência da república da Argentina e Pé de maconha: Planta de Cannabis Sativa

Foto: Domenico Pugliese
Acima, os editores da THC, Alejandro e Sebastían, tomando um mate

Foto: Ezequiel Kopel
O ativista Matias Faray e seus companheiros de luta na última Marcha da Maconha

Foto: Ezequiel Kopel
15 mil argentinos na rua pedindo para fumar em paz

Foto: Domenico Pugliese
Flores nas varandas de Buenos Aires


Boom no cultivo caseiro, gente fumando em bares, brownies batizados vendidos na rua, uma Cannabis Cup pra chamar de sua, 15 mil pessoas na Marcha da Maconha, uma presidenta simpatizante da causa... A Argentina será a próxima Holanda?

A cena e a ousadia de Alejandro resumem a situação atual da maconha na Argentina: na teoria, ainda não foi totalmente regulamentada; na prática, o povo liberou geral. “Mucha lala” (“muita maconha”) foi o que a Trip viu nos quatro dias que passou em Buenos Aires. Plantas crescendo em varandas, jardins e engenhosos sistemas indoor, gente fumando nas esquinas, dentro de bares, no último vagão dos trens, hippies vendendo cookies e brownies aditivados com THC na rua... A sensação era de se estar caminhando na próxima Amsterdã.

A comparação não é um exagero completo. Só na capital portenha existem 15 growshops (lojas que vendem tudo que você precisa para cultivar, com exceção das sementes); no Brasil, elas não passam de duas. Nossos vizinhos têm também a sua própria Cannabis Cup (competição anual que acontece na capital holandesa e elege a melhor Cannabis, mas, na versão argentina, é secreta), a Copa Cannabica del Plata, que em julho deste ano comemora sua décima edição. E os cultivadores estão se multiplicando. Para ter uma ideia, em 2010 foram degustadas cerca de 80 espécies no evento – mais que o dobro do que foi apresentado na última realização do campeonato holandês. Nas bancas de jornal, não uma, mas duas revistas especializadas no assunto: THC e Haze, com tiragens de 35 mil e 15 mil respectivamente.

Uma semana antes de nossa visita, 15 mil pessoas caminharam da Plaza de Mayo até o Congresso sob os brados de “¡Despenalizacion ya!”, na que foi a maior Marcha da Maconha da América do Sul e uma das maiores do mundo – no mesmo sábado, na versão carioca, havia, na melhor das projeções, 5 mil participantes, enquanto na versão paulistana, a polícia dispersou os manifestantes com balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio. Alguns dias antes, um jornal popular estampara uma foto da atriz Sofia Gala com um porro (baseado) na capa. Sua mãe, a vedete Moria Cásan, espécie de Hebe Camargo argentina, saiu em defesa da filha, revelando que também é chegada ao cigarrinho de artista. De acordo com o jornal La nacion, são aproximadamente 1,5 milhão de usuários no país, mais de 4% da população. Em outra pesquisa recente, 60% dos argentinos declararam ser a favor do uso recreativo e medicinal.

"Não se podia falar de maconha em casa, havia apenas uma growshop na cidade e a Marcha mal juntava mil pessoas"

A Constituição, no entanto, ainda não reflete o oba-oba das ruas. De acordo com a lei nº 23.747 do Código Penal, a pena para quem vende ou produz entorpecentes é de quatro a quinze anos de prisão e de um a seis anos para quem os usa. Mas desde 2009, quando cinco jovens foram pegos com alguns baseados no bolso, e libertos pelo juiz, a Suprema Corte estabeleceu como inconstitucional a prisão pelo simples porte de maconha, graças a uma jurisprudência que diz que “deve-se respeitar a autonomia individual desde que ela não ponha em risco a saúde ou a integridade de terceiros”.

O anacronismo da lei, aliado à situação política e social do país, podem ser indícios de mudança no horizonte. Um projeto de reforma encabeçado pela deputada governista Victoria Donda, apoiado inclusive por parte da oposição, descriminaliza de uma vez por todas quem usa ou cultiva Cannabis, mantendo a punição para quem comercializa a substância. Todos os argentinos com quem a Trip conversou estão otimistas de que o documento, em trâmite no Congresso desde o ano passado, será aprovado em breve. Contando a seu favor, está a própria presidenta Cristina Kirschner, que já declarou em diversas oportunidades que “é apoiadora da descriminalização e que o foco da luta do Estado deve ser na reabilitação dos viciados e no enfraquecimento dos traficantes”.

Falindo traficantes

No segundo andar de um prédio residencial esconde-se, pero no mucho, um dos principais culpados pela revolução verde em curso no país: a THC, “la revista de la cultura cannabica”. É lá no apartamento de três dormitórios, organizadamente bagunçado e com cheiro de marola entranhado nas paredes, que trabalham nosso jardineiro Alejandro Sierra, seu sócio Sebastían Basalo e mais oito funcionários (dois deles não fumantes).

O primeiro número da publicação saiu há quatro anos e meio, pouco tempo depois que a dupla foi apresentada, em uma Copa Cannabica del Plata. De lá para cá, eles acreditam que muita coisa mudou. “Não se podia falar de maconha em casa, havia apenas uma growshop na cidade e a Marcha mal juntava mil pessoas”, diz Sebastían, puxando o mate da cuia (sem metáforas aqui). “Quando jogamos luz numa cultura relegada, ela se multiplica. A pessoa vê a revista na mochila do outro, na porta do vizinho e se identifica, percebe que não está sozinha. O pai lê aquelas páginas bem impressas, com papel bom, com o preço de 15 pesos [R$ 6] estampado na capa e para de achar que o filho dele é maluco em querer fazer uma estufa em casa”, emenda. Alejandro complementa: “Isso e ter gerado uma legião de cultivadores são as nossas maiores conquistas. Você vai na Marcha e só vê flores [a maconha cultivada em casa]. Dia desses, fui na banca ver como estavam as vendas e o jornaleiro me pediu dicas para cultivar. Isso não tem preço. Estamos falindo os traficantes”.

"Dia desses, fui na banca ver como estavam as vendas e o jornaleiro me pediu dicas para cultivar. Isso não tem preço. Estamos falindo os traficantes"

Os dois regalaram o repórter com a coleção completa da THC. Folheando a revista, entende-se melhor que tipos de pautas contemplam a tal da “la cultura cannabica”: maconha na terceira idade, a vitória do cultivado sobre o prensado, fumando em família, receitas de gastronomia, casos de prisão, entrevistas com políticos, policiais e artistas... mas sem apologia cega à erva. “Não fazemos uma ode à maconha. A revista não é sobre ficar chapado, mas sim sobre um consumo consciente e responsável, embasado por médicos, advogados, sociólogos e professores”, explica Sebastían – os editores, aliás, não quiseram ser fotografados fumando. Sua seção preferida é a Cogollos Argentinos, na qual os leitores colaboram mandando fotos com seus amados vegetais do gênero sativa e/ou indica. Há desde espécies do tamanho de um bonsai até imagens que mais parecem uma plantação de cana. São mais ou menos 30 por edição. Fazendo uma matemática rápida, cerca de 1.200 pessoas já se assumiram cultivadoras através da revista, mostrando a cara e a prova do crime.

Alejandro conta que o próximo passo é distribuir a revista no México, na Colômbia, no Peru e no Brasil – no Uruguai ela já circula. Ele esteve por aqui no ano passado para sondar a possibilidade de montar uma Redação brasileira. “Os advogados passavam as páginas e só diziam: ‘Apologia, apologia, apologia...’. Ou seja, vai ser difícil, mas não vou desistir. Vocês têm grandes ativistas, mas eles não são integrados. Precisam de um veículo para uni-los.”

Mestre da jardinagem
Leo chega atrasado e pede desculpas. Estava na casa de um cliente cujas plantas não conseguiam sobreviver até a época da colheita. “Só uma praguinha fácil de resolver, nada de mais”, diz ele, considerado pelos seus pares um gênio na arte do cultivo indoor. Em sua loja Cultivo Esperanza, a maior growshop de Buenos Aires, ele vende kits com luz, terra, adubo e tudo o mais que alguém precisa para iniciar no ramo da, digamos, floricultura. Um kit completo sai por 600 pesos e, caso necessário, Leo vai diretamente até a casa do freguês instalar todo o aparato. No momento, Leo calcula pelo menos 300 jardins sob os seus cuidados. “Vêm idosos, pais junto com os filhos, advogados, todo tipo de gente.”

Localizada no fundo de uma galeria longe do centro da cidade, com panos cobrindo a vitrine, vira e mexe a loja é visitada por policiais. “Eles vêm aqui tentar achar algo para me incriminar, mas nunca conseguem. O que faço é resolver problemas relacionados a jardinagem, nada mais”, ironiza. “Hoje em dia é muito raro alguém ter problemas com a polícia por causa de maconha. Se te pegarem com um porro na rua, por exemplo, o mais comum é te levarem para a delegacia, averiguarem seus antecedentes e te liberarem em seguida. O que aconteceu com o Matias foi uma lástima, um baita azar.”

Velhinhos adoram
O azarado a que Leo se refere é Matias Faray, um jovem de 32 anos, sendo dez deles dedicados ao ativismo cannabista. Recentemente ele foi alçado ao posto de mártir do movimento por ter passado duas semanas preso em abril por causa de 25 plantas que tinha em casa. O tiro das autoridades saiu pela culatra e só serviu para incendiar ainda mais o debate na mídia. “Muita gente que condenava a maconha, inclusive a minha mãe, passou a pensar diferente depois do meu caso. Velhinhos, consumidores e não consumidores me param na rua dizendo que me adoram”, conta ao lado da loja de sapatos onde trabalha desde a adolescência.

"Hoje em dia é muito raro alguém ter problemas com a polícia por causa de maconha"

Sua liberdade veio através de um pedido extraordinário da juíza, que ficou comovida com o relato de três horas de Matias, em que ele discorreu sobre sua relação com a planta proibida, de como ela o salvou da asma e de como os cultivadores são os verdadeiros inimigos dos narcotraficantes. Ele é mais um que acredita que a liberdade total na Argentina não tardará a chegar: “O governo atual é focado em respeitar os direitos humanos e o direito individual. Ano passado, aprovamos a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Neste, oxalá, regulamentamos a maconha”. Caso as preces de Matias sejam escutadas, vamos ter de assumir: em matéria de Cannabis, Maradona é melhor do que Pelé.

MACONHA - Remédio ou droga ?!?!?


Fonte : Revista Trip

Médicos e especialistas consideram a possibilidade da maconha se tornar remédio

Domenico Pugliese

À esquerda: Maconha medicinal vendida em dispensário na Califórnia l Maconha apreendida na fronteira do México com os EUA

À esquerda: Maconha medicinal vendida em dispensário na Califórnia l Maconha apreendida na fronteira do México com os EUA

Nos bastidores de universidades, médicos e especialistas conspiram para a criação de uma agência para regulamentar o uso medicinal da maconha no Brasil

Pouco se fala sobre o assunto, mas há uma brecha na lei de 2006 sobre drogas que abre a possibilidade de criar no Brasil uma agência para o uso medicinal da maconha, assim como já existem órgãos semelhantes em países como Holanda, Canadá e Reino Unido. "É algo que passou meio batido, mas está lá", afirma o professor da Escola Paulista de Medicina da Unifesp Elisaldo Carlini, um dos mais respeitados especialistas nos estudos sobre maconha no Brasil. Fundador do Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas) e membro do comitê de peritos da Organização Mundial da Saúde sobre álcool e drogas, Carlini, 81 anos, é um dos pioneiros nessa área no país, onde atua há quase seis décadas.

Em maio do ano passado, Carlini organizou um simpósio internacional em São Paulo para discutir os efeitos terapêuticos da maconha e a criação de uma agência brasileira reguladora da Cannabis medicinal. No fim do evento, foi elaborada uma carta com um pedido ao governo para que seja criada a agência com base na lei 11.343 de 23 de agosto de 2006 e no decreto 5.912 de 27 de setembro do mesmo ano (veja na pág. ao lado). Para ser implementada, a proposta precisa do aval do Conad (Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas), órgão responsável por estabelecer as orientações da política sobre drogas, com representantes do governo e da sociedade civil. No Conad, a iniciativa não foi colocada em discussão.

Pela proposta do Cebrid, o Ministério da Saúde – por meio da nova agência – seria o responsável pelo controle do plantio, coleta, preparação e distribuição dos medicamentos à base de maconha. Carlini, no entanto, reconhece que há forte resistência para que isso aconteça. "Quando o assunto é maconha, os debates são acalorados. Há muito conservadorismo. Muitos ainda veem a maconha como a 'erva do diabo'. Acham que liberar a maconha medicinal é o primeiro passo para o 'liberou geral'. Por isso, querem manter proibido o uso terapêutico também, o que é um erro", diz o doutor. Um dos especialistas contrários à iniciativa é Ronaldo Laranjeira, professor titular do departamento de psiquiatria da Unifesp e coordenador da Uniad (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas). "Sou contra. A maconha não é uma droga diferente das outras. Faltam evidências de que seria um bom investimento científico e médico criar um órgão como esse. Além disso, já existem agências como CNPq e Fapesp que podem estimular pesquisas sobre maconha", argumenta.

Os defensores da nova agência, no entanto, reclamam que existe hoje uma enorme burocracia para fazer esses estudos no país. "Você tem que elaborar um projeto que precisa ser aprovado pelo conselho de ética da instituição que vai fazer a pesquisa. Esse projeto deve ser enviado a Brasília para ser aprovado no Ministério da Saúde para então ser possível importar a maconha. Depois há toda uma burocracia para a importação. Tudo isso leva anos e acaba inviabilizando os estudos", diz Carlini. Além das pesquisas sobre a planta, o professor defende que a população possa ter acesso a ela por meio do uso médico controlado. "Mas sou a favor apenas do uso medicinal. Sou contra o uso recreativo", faz questão de frisar o professor.

Carlini aponta uma série de indicações terapêuticas da maconha, como aliviar os enjoos provocados pela quimioterapia em pacientes com câncer ou aumentar o apetite em pessoas com Aids. Medicamentos à base da Cannabis sativa já são comercializados em países como Canadá, Reino Unido e Holanda e em regiões dos EUA. A Califórnia foi o primeiro Estado americano a legalizar o uso da maconha para fins medicinais após plebiscito em 1996. Desde então outros 15 Estados seguiram o exemplo. Em solo californiano, qualquer residente acima de 18 anos com prescrição médica pode comprar remédios à base da planta em farmácias especializadas.

Reprodução

A rainha Vitória, cujo médico prescrevia a planta em fins do século 19

A rainha Vitória, cujo médico prescrevia a planta em fins do século 19

ATÉ A RAINHA VITÓRIA
Mas, se hoje o uso médico da maconha provoca um debate acalorado, há um século ele era permitido em diversos países, inclusive no Brasil. No início do século 20, a planta era encontrada nas farmácias do país como um medicamento sob a forma de cigarros. Uma propaganda de 1905 indicava as cigarrilhas Grimault para "asma, catarros e insônia". Na Inglaterra, em fins do século 19, ninguém menos do que o médico da rainha Vitória recomendava o uso. "A maconha indiana, quando pura e administrada cuidadosamente, é um dos mais valiosos medicamentos que possuímos", afirmava o doutor J. R. Reynolds. A planta é conhecida há milênios pela humanidade. Ela faz parte da farmacopeia Pen Ts’ao Ching, escrita pelo imperador chinês Shen Nung em 2700 a.C Há registros de seu uso em diversas outras civilizações da Ásia, do Oriente Médio e da África.

A recente "demonização" da erva começou na década de 20, na 2ª Conferência Internacional do Ópio, em 1924, em Genebra, da qual participaram 44 países, inclusive o Brasil. O delegado brasileiro Pernambuco Filho, aliás, teve papel fundamental para transformar a maconha em "droga maldita". O encontro da Liga das Nações (antecessora da ONU) era para discutir o controle do ópio e da cocaína, mas o Egito pediu para introduzir a maconha na agenda de discussão. Foi a deixa para o representante brasileiro entrar em cena e dizer que "a maconha é mais perigosa do que o ópio" . No fim, a planta entrou na lista das drogas que deveriam ser proibidas e, como resultado, a repressão contra o uso no Brasil e em outros países apertou.

O passo seguinte – e cujos efeitos nós sentimos até hoje – foi a Convenção Única de Entorpecentes da ONU, assinada em 1961 por mais de 200 países, dentre eles o Brasil. Na ocasião, a maconha entrou em duas listas: na primeira, como sendo sem utilidade médica e, na quarta, das drogas que são dotadas de propriedades particularmente perigosas, ao lado da heroína. "Isso é um disparate, um despropósito, não tem fundamento científico nenhum. Mas está lá até hoje!", reclama o doutor Carlini, firmemente engajado em sua luta pela regulamentação da maconha medicinal no Brasil.

Cannabis

Indicações

• Combate náusea e vômitos provocados pela quimioterapia em pacientes com câncer

• Desperta o apetite em vítimas de Aids ou câncer, proporcionando ganho de peso e melhora do estado nutricional

• Reduz as dores e os espasmos musculares em pessoas que sofrem de esclerose muscular múltipla (doença degenerativa do sistema nervoso)

Fonte: Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas), da Unifesp

Domenico Pugliese

Professor Carlini, um dos pioneiros nos estudos sobre a planta no Brasil

Professor Carlini, um dos pioneiros nos estudos sobre a planta no Brasil

O LADO B – VÍCIO E DEPENDÊNCIA

Apesar das propriedades terapêuticas da maconha, seu uso abusivo também pode provocar dependência como ocorre com outras substâncias como o álcool. De 2006 a 2010, Hercilio Pereira de Oliveira, do Grea (Programa Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas) do Instituto de Psiquiatria da USP, desenvolveu um projeto de pesquisa com dependentes de maconha que procuravam tratamento no Hospital das Clínicas, em São Paulo. Veja a seguir as respostas do psiquiatra às principais dúvidas que envolvem a questão da maconha e os danos à saúde.

Qual é a porcentagem de usuários que experimentam maconha e se tornam dependentes? Como é essa proporção para o álcool e o cigarro?
Para a maconha, esse número é de 1 para cada 10 a 11 usuários. Para o álcool é um pouco menor, de 1 para 9. Já para o tabaco essa relação é 1 para cada 3, ou seja, a porcentagem de usuários que se tornam dependentes de tabaco é muito maior do que no caso da maconha.

Qual é o perfil dos dependentes de maconha que procuram o Grea?
São homens de classe média com idade entre 20 e 35 anos com padrão de uso da maconha desde o início da adolescência, dos 12 aos 15 anos. Eles adotaram o uso progressivo da maconha, chegando a fumar em média cinco baseados por dia. Esses pacientes geralmente começam a usar maconha na adolescência como uma droga de vínculo social, com os amigos da escola. Na idade adulta, têm tendência a priorizar o uso de modo isolado. Passam a usar sozinhos geralmente em casa.

O que configura o vício?
Ele ocorre quando há um padrão contínuo e persistente no uso da substância, com o consumo de doses progressivamente maiores. Se a pessoa tenta interromper, tem manifestações físicas e psíquicas, que configuram a síndrome de abstinência. E, a despeito de prejuízos sociais e familiares enormes provocados pelo consumo da droga, esse indivíduo tenta interromper o uso mas não consegue.

Como são as crises de abstinência de maconha? Quais são os sintomas?

Quando falamos de abstinência de uma substância, geralmente falamos de sintomas contrários àqueles que ocorrem quando a pessoa se intoxica com ela. O quadro de abstinência da maconha é caracterizado por irritabilidade, ansiedade, perda de apetite, insônia e reações de agressividade verbal ou física. Esse quadro pode durar de 10 a 15 dias.

Como é feito o tratamento?

É um trabalho multidisciplinar, com atendimento médico, de psicoterapia e de serviço social. Existe uma enfermaria para internação em casos específicos. O atendimento médico é individual e o de terapia é feito em grupo, com enfoque na prevenção da recaída. Também são usados medicamentos em alguns casos.

Existem medicamentos que ajudam a combater o vício?
Não existem medicações aprovadas para tratar a dependência da maconha, mas nós tratamos os transtornos associados que esses pacientes têm, como de humor e de ansiedade. Até cerca de 70% das pessoas que são dependentes de maconha têm algum transtorno associado.

Quais são os danos de saúde provocados pela maconha?
O problema mais grave é que a maconha pode desencadear transtornos psiquiátricos, como a esquizofrenia. Também existe boa documentação científica a respeito do prejuízo cognitivo, com dificuldade de memória, atenção, funções executivas e organização. A pessoa pode desenvolver esse tipo de alteração, mas estudos apontam que isso é reversível. Em três meses a pessoa pode restituir o poder cognitivo. Existem ainda os problemas pulmonares provocados pela ingestão da fumaça.

Maconha é porta de entrada para outras drogas?
Todo mundo que tentou provar isso não conseguiu. O que é mais considerado hoje é que a pessoa vai utilizar uma droga que pertence ao meio social no qual ela está inserida, à qual ela pode ter uma maior vulnerabilidade por ter a ideia de que aquela droga não está associada ao risco. Depende do meio e da percepção dela e das pessoas que estão a sua volta sobre os prejuízos causados por aquela substância. Muita gente começa com a maconha porque é uma droga disponível. Mas poderia ser outra. Muitos adolescentes compartilham da ideia: “Meu amigo da escola usa e o cara continua sendo legal. Nem por isso ele virou bandido ou começou a usar cocaína”. Tem mais a ver com o meio social.

ONDE PROCURAR AJUDA PARA TRATAR A DEPENDÊNCIA
UNIADwww.uniad.org.br
GREAwww.grea.org.br

Foto: Reprodução
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Plantações no Estado americano do Kentucky, que viveu a era de ouro das plantações de maconha no século 19


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Propaganda das cigarrilhas Grimault, à base de Cannabis, vendidas nas farmácias brasileiras no começo do século passado


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Dispensário na Califórnia que oferece maconha para uso medicinal


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Foto: Trip
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