segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Papo de Índio - Reportagem de 2005

Segue a reportagem sobre Plantas Sagradas que foi editada em um Jornal do Acre em 2005.
Para ver só dá um Click na primeira foto, as outras pode salvar como Imagem para ler.
Boa Leitura.






sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Documentário sobre Cannabis


Segue um ótimo documentário sobre a erva, as suas reais propriedades, seus usos medicinais, os maiores ativistas do assunto em questão de âmbito mundial. A National Geopraphic conduziu um documentário sensacional viajando pelo submundo da Opção Erva.

O vídeo foi disponibilizado para assistir pelo Megavideo, só clicar e tap’n’play!


Título Original: National Geographic: Going to Pot - The Story of Modern Marijuana
Titulo no Brasil: National Geographic: Opção Erva
Gênero: Documentário
Ano de Lançamento: 2009
Áudio: Inglês
Legenda: Português
Tamanho: 284mb
Link para Baixar : http://www.megaupload.com/?d=RGXV1T4X

Sinopse:
Um documentário que examina a maconha sob vários aspectos e ângulos, incluindo o seu potencial para uso medicinal, as sanções que existem à sua volta e a maneira como se reflete na cultura popular.

Fonte : http://hempadao.blogspot.com/

Redução de danos - Cannabis

Maconha é uma droga antiqüíssima, e data dos tempos pré-históricos em algumas partes do mundo. É um produto da planta cânhamo, Cannabis Sativa, uma espécie que também provê uma fibra muito útil, uma semente comestível, óleo e remédios. Isso é muito para uma só planta, o que explica por que ela tem sido um produto de cultivo desde que a conhecemos. Cannabis é provavelmente nativa da Ásia central. Ela tende a crescer em terrenos baldios ao redor de campos e habitações e tem sido associada com seres humanos por tanto tempo que não se conhece seu verdadeiro estado natural.

As propriedades tóxicas do cânhamo residem em uma resina grudenta e cheirosa extraída do topo das flores, especialmente das plantas fêmeas. A potência de uma preparação de cânhamo depende do conteúdo da resina. Algumas produzem muito, outras, pouco. Se as plantas forem colhidas inteiras, folhas, galhos e tudo mais, flores ricas em resina vão ser diluídas por muito material inerte. Flores cuidadosamente cultivadas, recolhidas antes que as sementes se formem, são gosmentas ao toque na resina, muito cheirosas e muito potentes. A resina pode também ser recolhida e prensada em “bolos” ou “bolas”; isso é o haxixe. Pode-se também extraí-la com solventes e concentrar em um líquido denso e oleoso, chamado óleo de haxixe.Qualquer uma dessas preparações pode ser comida ou fumada.

A maconha é única entre as drogas psicoativas, em uma classe só para si. Os químicos que ela contém não se assemelham às moléculas de outras drogas. Diferentemente das outras substâncias discutidas nesse livro (From Chocolate to Morphine de Andrew Weil), ela não é dissolvida em água, mas bastante solúvel em óleo; sendo assim, elas são absorvidas “fora de ordem” quando ingeridas, e permanecem no organismo por um longo tempo por que se acumulam na gordura corporal.

Maconha não é estimulante nem depressivo, mas tem características de ambos. Muitas pessoas a reconhecem como um psicodélico fraco, mas seus efeitos são diferentes dos verdadeiros alucinógenos, e não necessariamente fracos. Além disso, o potencial para abuso de maconha é consideravelmente maior do que outros psicodélicos, por que pode ser consumida freqüentemente ou continuamente em combinação com atividades do dia-a-dia.

Como droga psicoativa, a cannabis tem uma história muito mais antiga em outras partes do mundo do que em países do Ocidente. Europeus e americanos cultivaram a planta exclusivamente por sua fibra por muitos anos, e até tintura de cannabis foi amplamente utilizada na medicina ocidental no século XVII. Poucas pessoas a usavam para ficar chapadas ou relataram que ficaram chapadas quando usavam a cannabis nesse sentido. O conhecimento de como fumar cânhamo provavelmente foi trazido ao Brasil por escravos negros que utilizavam a planta na África; a prática viajou para o norte até o México e, finalmente, atingiu os EUA.

O hábito de fumar maconha começou nos EUA depois da 1ª Guerra. Introduzida por operários mexicanos imigrantes, pegou no início entre os negros das cidades do sul. Muitos de seus primeiros usuários eram músicos. Ao longo dos anos, se espalhou por outros subgrupos, mas era raramente associada com a classe média branca até os anos 60, quando se tornou símbolo da juventude nos campus universitários. Desde então, ela cresceu em popularidade e hoje é a droga mais consumida em todo o mundo.

Desde o início, a maconha – que é conhecida por muitas gírias, incluindo erva, bagulho, beque, baseado etc – provocou bastante discussão, principalmente devido as suas associações. Era a droga da subcultura e minorias raciais mesmo antes de se misturar com hippies e revulocionários. Fora o seu status de droga mais usada no mundo atualmente, a cultura dominante ainda a vê como uma droga perigosa, pior que álcool e tabaco, e que pode levar ao uso da heroína.

Nessa atmosfera super pesada, argumentos sobre a maconha tendem a ser mais políticos que factuais. E pelo fato de farmacólogos e médicos se encontrarem tão envoltos em tais políticas como o resto das pessoas, fica difícil obter informações neutras sobre a droga. Muitas das pesquisas sobre maconha se propõem a provar idéias pré-concebidas; a grande maioria nem vale a pena ler.

Tirando a política, os efeitos da maconha são difíceis de descrever, por que são muito variáveis – bem mais que os das outras drogas. Parte dessa variação se deve ao ambiente e a pessoa, mas o resto é inerente à própria droga. Pessoas que fumam maconha pela primeira vez, na maioria das vezes não sentem absolutamente nada, mesmo que fumem grandes quantidades de potentes plantas. Assim como com outras drogas psicoativas, as pessoas têm que aprender a associar as mudanças de consciência com os efeitos físicos da droga. Comparada a outras drogas, no entanto, os efeitos físicos da maconha não são exatamente espetaculares. Faz o coração bater um pouco mais rápido, torna a boca e os olhos secos e torna o branco dos olhos vermelho. Destes, o mais perceptível é a boca seca. Somente pessoas que usam lentes de contato também percebem os olhos ressecados. O aumento nos batimentos cardíacos é facilmente ignorado, apesar de poder se tornar a base para uma reação de pânico em iniciantes ansiosos, que podem interpretar isso como o começo de um ataque cardíaco.

Quando pessoas aprendem a ficar chapadas com maconha, suas primeiras experiências são geralmente bastante vívidas. Tudo lhes parece engraçado, todos os sentidos se tornam novos e interessantes. Escutar música, comer e transar podem se tornar experiências muito mais absorventes. O tempo parece longo e arrastado. Pessoas às vezes têm estranhas ilusões, como ver o quarto se expandindo ou sentimento que as pernas se tornaram absurdamente grandes.

Com o uso repetido, esses efeitos marcantes tendem a sumir. Usuários regulares podem descobrir que a maconha os torna relaxados ou mais sociáveis sem afetar muito sua percepção ou humor. Usuários pesados obtêm pouco da droga, freqüentemente fumando só por hábito.

Reações adversas com maconha geralmente ocorrem quando grandes doses são tomadas em ambientes não muito propícios, especialmente em usuários inexperientes. A maioria são simples reações de pânico, facilmente tratadas bastando dizer que tudo vai melhorar assim que passar o efeito. Os efeitos de fumar maconha geralmente diminuem após uma hora e desaparecem depois de duas ou três horas. Algumas pessoas se tiverem fumado muito, podem se sentir cansadas ou “grogues” no dia seguinte. Alguns usuários consideram que a maconha os estimula e os mantém acordados a noite; outros a usam para ajudar a dormir. Ao mesmo tempo, torna algumas pessoas depressivas e irritadas, outras chapadas por várias horas. Possivelmente, alguns tipos de maconha são mais sedativos que outros. Nos últimos anos, variedades mais e mais fortes de maconha apareceram. Algumas das mais fortes sinsemilla (sem sementes) são tão potentes como haxixe e podem desorientar usuários não acostumados.

Ingerida, ao invés de fumada, a maconha é uma droga mais forte, mais lenta para “bater” com efeitos mais duradouros. Pelo fato da resina não ser dissolvida em água, o chá de maconha não é muito eficiente. Mas a droga crua pode ser adicionada à comida, e os princípios ativos são facilmente extraídos com álcool ou gordura. Apesar de alguns usuários gostarem de comer maconha, a maioria prefere fumar por que dá menos trabalho e os efeitos vêm muito mais rápido. O maior risco com a ingestão é a super dosagem. Já que o estômago absorve a droga desordenadamente, a dose correta é difícil de estimar, e é fácil comer demais. Overdoses de cannabis são desagradáveis, apesar de não serem perigosas medicinalmente falando. Podem fazer as pessoas extremamente desorientadas e delirantes, como se estivessem com febre alta, e freqüentemente são seguidas de letargia e ressaca. Talvez por que o uso oral requeira uma preparação maior e produza efeitos mais fortes, pessoas que comem maconha têm menos chance de se tornarem dependentes do que pessoas que fumam.

Quer fumem ou comam, usuários tendem a misturar maconha com outras drogas, como álcool, depressivos, estimulantes e até alucinógenos. Os efeitos dessas misturas não são previsíveis, dependendo mais no indivíduo do que nas drogas. Já que a maconha não é tão potente ou tóxica como a maioria das outras drogas, não existe nenhum perigo farmacológico em misturar (tal como há em misturar álcool e calmantes). Mesmo assim, usuários devem saber que misturas as quais não estão acostumados podem causar efeitos indesejados.

Fumar maconha regularmente pode, ao longo do tempo, causar sérios danos ao trato respiratório, causando tosses secas crônicas que lembram as tosses de fumantes de tabaco. Além disso, a fumaça da maconha pode conter mais alcatrão que a do cigarro, e pode provavelmente causar doenças nos brônquios e pulmões em indivíduos susceptíveis. O risco depende de quanto se fuma e durante quanto tempo. Além da irritação respiratória, uso pesado de maconha não parece causar nenhum outro problema médico. Claro que avisos sobre os perigos da maconha foram bastante difundidos e publicados, com relatos de dano cerebral até problemas com os sistemas imunológico e reprodutivo, mas estes são baseados em fracas pesquisas normalmente conduzidas por passionais inimigos das drogas. Estudos de populações que fumaram cannabis por muitos anos não revelam nenhuma doença que pode ser relacionada com a maconha.

Muito se fala do fato que o tetrahidrocannabinol, ou THC, elemento químico mais ativo na resina da cannabis, se acumula na gordura corporal, permanecendo por semanas após a última dose de maconha. Apesar de isso ser verdade, e de ser muito diferente do padrão de rápida eliminação das drogas solúveis em água, não é um problema em si. Se o THC fosse uma droga muito tóxica, sua persistência na gordura corporal seria uma preocupação, mas THC e maconha são menos tóxicas* que a maio ria das drogas discutidas neste livro.

* (Maconha pode ser bastante tóxica se estiver contaminada com paraquat, um herbicida químico extremamente venenoso usado para matar plantas indesejadas. Em 1975 as agências antidrogas do governo americano começaram a encorajar oficiais no México a espalhar o veneno em helicópteros nos campos ilegais de maconha do país)

Problemas psicológicos relacionados ao uso contínuo da maconha também são sujeitos a controvérsia. Oponentes da droga a acusam de interferir na memória e funcionamento intelectual e dizem que leva a síndrome amotivacional - na qual pessoas perdem sua iniciativa e vontade de trabalhar. Não há dúvida que jovens que já não possuem muita motivação, normalmente fumam muita maconha e não fazem quase nada mais, mas é duvidoso que foi a maconha que os fez assim. Uso pesado de maconha é mais provável que seja um sintoma da falta de motivação do que a causa, e os mesmos jovens estariam provavelmente jogando o tempo fora de outras maneiras ou com outras drogas se a maconha não estivesse lá.

Em relação aos efeitos na memória e intelecto, usuários regulares geralmente dizem que a maconha torna suas mentes confusas e pode interferir na memória. Esses efeitos parecem desaparecer quando as pessoas diminuem o uso da droga ou param de vez. Dependência de maconha certamente ocorre e vem se tornado mais comum à medida que cresce o consumo da droga. Não se assemelha exatamente à dependência de qualquer outra droga psicoativa; na pior das hipóteses, dependência de maconha consiste em um ciclo de fumo, do momento que se levanta da cama até quando se vai dormir – um padrão muito similar ao dos fumantes de cigarro. Mas, sintomas dramáticos de abstinência não ocorrem quando pessoas de repente param de fumar, e o desejo pela droga não é nem de longe tão intenso como o do tabaco, álcool e narcóticos.

Mesmo o uso mais pesado de maconha não leva à heroína ou a qualquer outra droga. Muitos viciados em heroína fumaram maconha antes de experimentar opiáceos, mas poucos maconheiros usam narcóticos. Muitos viciados também bebiam álcool antes de descobrirem heroína, às vezes até bem jovens, e mesmo assim ninguém fala que álcool leva a heroína. A razão pra isso, logicamente, é que o álcool é aceito na sociedade, enquanto a maconha é uma droga “do mal”, o que atrai falsas atribuições de causalidade. Possivelmente, maconheiros têm mais chance do que caretas de experimentar alucinógenos e cocaína, por que em geral, as distribuições dessas drogas se sobrepõem de certa maneira, mas não há nenhuma qualidade na cannabis que induza usuários a consumir outras substâncias.

A adaptação à maconha torna possível que usuários aprendam a agir normalmente sob sua influência. Diferentemente do álcool, a maconha não deprime invariavelmente os reflexos e tempos de reação. Pessoas que não estão acostumadas aos efeitos não conseguirão dirigir carros ou realizar um grande número de tarefas rotineiras enquanto chapadas. Mesmo usuários experientes precisam de tempo para praticar determinada tarefa sob a influência de maconha até que consigam realizá-la satisfatoriamente. Alguns usuários sentem que a maconha os ajuda a concentrar-se e faz com que trabalhem melhor, mas mesmo estes precisam se adaptar aos efeitos da mesma. A maioria dos testes científicos mostra que a maconha reduz a performance em todos os sentidos. É simples chegar a estes resultados ao dar maconha para pessoas que não estão acostumadas, dar doses muito maiores que o normal, ou fazê-las executar tarefas difíceis, especialmente tarefas que nunca realizaram chapadas.

Muitos maconheiros dirigem carros, pilotam aviões, esquiam, mergulham, e se envolvem em atividades perigosas após fumarem. A maior parte se sai bem, pois são usuários experientes e com prática. Isso não muda o fato de que a maconha pode interferir drasticamente na performance em alguns casos. Erva e direção pode não ser uma combinação tão ruim como cerveja e direção para algumas pessoas, mas com certeza não é boa. Para adolescentes que dirigem mal (descuidadamente) para começo de conversa, pode ser especialmente perigoso.

Devotos da maconha gostam de discutir seus méritos, tentando persuadir outros de que se trata de uma droga realmente benéfica. De fato, a cannabis tem sido usada como remédio no passado e alguns médicos ainda a reconhecem com um medicamento valioso no tratamento de vários males. As leis federais americanas proíbem todos os usos da maconha, mas THC sintético está disponível para pesquisa, e em muitos estados dos EUA ela é legal para usos terapêuticos específicos.

Tanto THC como a maconha são bons tratamentos para náusea e vômito. Médicos têm as usado com sucesso com pacientes de câncer em quimioterapia, que envolve drogas muito tóxicas que freqüentemente causam irritação e embrulho no estômago. Esse efeito foi descoberto pela primeira vez em pacientes com leucemia que por acaso eram maconheiros. Cannabis também pode ajudar pacientes com asma a respirar melhor, mas se for fumada pode causar tosse. Também é um tratamento específico para o glaucoma, uma séria e doença dos olhos na qual a pressão interna dos olhos aumenta, causando cegueira. Finalmente, ela relaxa os músculos em uma condição chamada de paralisia espásmica que resulta de traumas cerebrais e doenças como a esclerose múltipla.

Apesar de muitos pacientes preferirem os efeitos da maconha aos do THC puro, as agências federais não permitem médicos a receitar a planta. Além disso, o THC não é o mesmo que a planta de maconha inteira e pode não ser tão seguro. Recentemente, várias empresas da indústria farmacêutica criaram drogas relacionadas ao THC e tentaram vendê-las como remédios antináusea. Em geral, eles são menos eficazes e mais tóxicos que maconha.

Fora esse usos específicos, muitas pessoas sentem que a maconha alivia vários sintomas de males menores, de dores de cabeça a cólicas menstruais. Provavelmente, eles usam a maconha para ficarem chapados e usam a chapação com uma maneira de tirar suas cabeças do desconforto. Às vezes, desviar a atenção de sintomas de um mal menor faz com que este desapareça. Quanto menos você usar maconha, maior é a probabilidade de ela funcionar como remédio.

Obviamente, o mesmo princípio se aplica a ficar chapado com erva. Quanto menos você usar, maiores e mais intensas vão ser suas experiências com ela. O grande perigo de fumar maconha é simplesmente que ela vai se afastar de você, se tornando mais e mais um hábito repetitivo e menos um jeito eficiente de alterar a consciência. A facilidade de integrar maconha com todas as atividades, de festas a esportes e ver televisão, favorecem o uso habitual. Da mesma maneira, tolerância aos efeitos interessantes da droga freqüentemente encoraja usuários a fumar mais, quando na verdade eles deveriam diminuir o uso para aumentar a sensibilidade. A ausência de efeitos negativos dramáticos, tal como ressacas, encorajam o uso ainda mais. A não ser que você imponha regras para quando e onde vai fumar, você provavelmente se encontrará fumando mais maconha do que deveria – até o ponto em que todos os efeitos interessantes da droga desapareçam e te deixem com um hábito inútil e persistente.

Política de redução de danos
Informações sobre o Uso da Maconha

1. Maconha é ilegal. Ser descoberto como fumante de maconha pode custar seu emprego e te trazer um monte de problemas. Fique ciente dos perigos associados em obter drogas ilegais.

2. Defina quais benefícios você deseja obter da maconha. Não a use apenas por que outras pessoas o fazem ou por que está disponível.

3. Se você obtém efeitos que gosta na maconha, vai ter que tomar precauções se deseja mantê-los.

4. Imponha limites ao uso. Por exemplo, você pode fumar apenas com certos amigos, só em fins-de-semana, ou apenas quando você não tem trabalho a fazer. Tais regras são necessárias se você quer prevenir que o uso se torne hábito e lhe dê pouco prazer.

5. Lembre-se que pode ser perigoso dirigir, operar máquinas ou realizar atividades perigosas sob a influência de maconha. A droga pode causar ilusões de espaço e tempo e sempre requer tempo para se acostumar.

6. Se você perceber que os efeitos da maconha estão se tornando menos intensos ou desaparecendo, pare de usar. Você pode voltar a fumar depois de um tempo. O truque é manter a freqüência abaixo do nível onde você se torna quase insensível aos efeitos interessantes da maconha na consciência. Estranho como possa parecer, menos é mais, e você pode facilmente provar isso a si mesmo.

7. Se você perceber que os efeitos que você gosta estão sumindo, o pior que você pode fazer é fumar mais ou procurar por bagulho mais forte. Essas ações vão só piorar o problema.

8. Considere usar maconha por ingestão de alguma maneira, ao invés de fumá-la. Dá mais trabalho comer e os efeitos são diferentes, mas o risco de dependência é menor.

9. Seja cuidadoso ao misturar maconha com outras drogas psicoativas.

10. Seja cuidadoso com o ambiente, e com seu estado de espírito especialmente se tiver experimentando pela primeira vez.

11. Não use maconha no trabalho ou na escola. A maioria das pessoas não beberia álcool nessas situações, e só por que é mais fácil fumar do que beber não é razão para fazê-lo. Em quanto mais situações você se permitir fumar, maior é a chance de você se tornar dependente.

12. Se você desenvolver uma tosse ou uma respiração ofegante, a maconha pode estar causando danos ao seu trato respiratório. Pare de fumar, diminua o uso ou passe a comer.

13. Se você achar que está usando maconha mais do que devia e não está mais obtendo os efeitos desejados, considere a possibilidade de que ela está controlando você mais do que você a ela. Tente parar por um tempo. Se você não conseguir, pode precisar de ajuda externa para tentar quebrar o hábito.

(Marijuana - do livro From Chocolate to Morphine de Andrew Weil)

GHB: Efeitos do ácido gama-hidroxibutírico (Ecstasy liquido)

O que é GHB e seus análogos?

O GHB é um poderoso depressor do sistema nervoso central, que o corpo humano produz em pequenas quantidades. Uma versão sintética de GHB foi desenvolvida em 1920 1, 2

Em 1960 foi usado como um anestésico e hipnótico em seres humanos na Europa, mas seu uso foi suspenso devido aos efeitos colaterais, especialmente convulsões e vômitos.

Após ser sintetizado como análogo do ácido gama-aminobutírico, objetivando conseguir uma substância similar, capaz de atravessar a barreira hemato-encefálica, em 1961 foi extensamente pesquisado por Henri Laborit, um investigador francês que pesquisava os efeitos do neurotransmissor inibitório GABA (ácido gama-aminobutírico) no cérebro.

O GHB (gamahidroxibutirato ou ácido gama-hidroxibutírico), nas ruas, também é chamado de Liquid Ecstasy (não é o 3-4 methylenedioxymethamphetamine ou MDMA), grievous bodily harm, G ou Gina, Liquid E, Liquid X, Gib, Cherry Meth, Água de Fogo, Zen ou Liquid Death.

Os análogos de GHB, que incluem GBL (gama butil-lactona), BD (1,4 Butanodiol [1,4-BD]), GHV, e GVL, são drogas que possuem estruturas químicas semelhante ao GHB. Estes análogos produzem efeitos similares àqueles associados com o GHB e são usados como substitutos. Os efeitos do GHB e análogos são os mesmos, sendo ainda mais intensos quando associados ao álcool ou aos inibidores da protease, especialmente ritonavir e saquinavir.

Os efeitos do GHB são semelhantes aos efeitos do ecstasy, mas age mais rapidamente e é mais potente.

Inicialmente provoca:

  • Desinibição,
  • Sensação de bem estar,
  • Euforia.
Como é o GHB?

GHB e seus análogos geralmente são comercializados (ilegalmente) na forma de um líquido incolor, com um sabor levemente salgado. Embora seja incomum, também existe o GHB em forma de um pó branco.

Como o GHB é usado/abusado?

GHB e seus análogos geralmente são ingeridos (via oral). Frequentemente são misturados a bebidas doces como licores.

Quem usa GHB e seus análogos?

Embora a informação sobre usuários seja limitada, sabe-se que o GHB é usado principalmente por jovens freqüentadores de raves. Nos estados Unidos os indivíduos de 18 a 25 anos são os que mais abusam do GHB, sendo esta faixa etária responsável por 58 por cento dos casos que exigiram algum tipo de intervenção médica.

Também é usado como estimulador do crescimento muscular, efeito que não foi comprovado cientificamente.

O uso de GHB entre estudantes de nível superior é alarmante. Quase dois por cento dos estudantes do ensino superior usaram a droga pelo menos uma vez no ano passado, de acordo com a universidade de Michigan.

Quais são os riscos?

Com o aumento da concentração sérica, podem ocorrer:

  1. Náuseas,
  2. Vômitos,
  3. Sedação,
  4. Desmaios,
  5. Hipotonia,
  6. Espasmos musculares,
  7. Alucinações,
  8. Perda do controle dos esfíncteres,
  9. Convulsões,
  10. Cefaléia,
  11. Enxaqueca,
  12. Sonolência e inconsciência,
  13. Confusão mental,
  14. Agitação,
  15. Insônia,
  16. Ansiedade,
  17. Tremor,
  18. Fraqueza,
  19. Diminuição do ritmo respiratório,
  20. Diminuição do ritmo cardíaco,
  21. Coma,
  22. Morte súbita causada por parada cárdio-respiratória.
Quando o GHB e seus análogos são usados juntamente com álcool ou com inibidores da protease é particularmente perigoso porque são realçados os efeitos depressores do GHB.

O uso contínuo de GHB ou de seus análogos pode conduzir a adicção, e os usuários crônicos experimentam sintomas de abstinência quando param de usar a droga. Estes sintomas incluem:

Ansiedade,
Insônia,
Tremores,
Taquicardia,
Delírios e
Agitação.

Os usuários podem experimentar estes sintomas dentro de 1 a 6 horas após a última dose, e os sintomas podem persistir por meses.

GHB associado a crimes

Além dos riscos próprios da droga, e devido a efeitos como amnésia e incoordenação motora, os indivíduos que usam GHB ou seus análogos se tornam presas fáceis de assaltantes.

O GHB, assim como o flunitrazepam, não tem odor com sabor imperceptível e, por isso, ambos têm sido usados como drogas facilitadoras de violências sexuais e roubos, graças ao efeito anestésico que paralisa mental e fisicamente a vítima.

São adicionados a bebidas (até mesmo refrigerantes) quando a vítima se distrai. Há dados que mostra que o GHB superou o flunitrazepam como droga facilitadora destes tipos de assaltos. No Brasil, este tipo de assalto, acompanhado ou não de violência sexual, é conhecido como "Boa noite, Cinderela" e, em geral, as vítimas são freqüentadores de bares e boates gays. Assim como em outros países, as denúncias são raras porque as vítimas não querem ser identificadas devido às circunstâncias em que estes fatos costumam ocorrer.

GHB e seus análogos são ilegais?

Sim, GHB e seus análogos são ilegais.

Embora o GHB e seus análogos tenham diversos usos na indústria, o consumo humano não é permitido (exceto em alguns países da Europa, sob supervisão médica). A posse, guarda, venda ou doação de GHB esta sujeita às penalidades previstas no código penal brasileiro, estas variam de contravenção a tráfico.

Dados controversos:
Especula-se que nos EUA a proibição do GHB foi motivada por um desejo de proteger a indústria farmacêutica, pois o GHB seria uma alternativa mais eficaz e com custo ainda menor do que os benzodiazepinicos, sendo ainda estudado seu uso na retirada alcoólica.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A História de um século e meio de pesquisas sobre plantas e substâncias psicoativas

Artigo extraído do livro “O Uso Ritual das Plantas de Poder” (Beatriz Caiuby Labate e Sandra Lucia Goulart [ORGS]

"Grave incerteza, todas as vezes em que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo, quando ele, o explorador, é ao mesmo tempo o país obscuro a explorar e onde todo o seu equipamento de nada lhe servirá". (Marcel Proust, No Caminho de Swann)

O uso de plantas e substâncias psicoativas passou, no último século e meio, a ser objeto de um estudo científico. Ludwig Lewin, o pioneiro farmacologista alemão, dizia sobre as drogas que, “com a única excessão dos alimentos, não existe na Terra substâncias que estejam tão intimamente associadas com a vida dos povos em todos os países e em todos os tempos” (apud Brau 1974, p. 7). Essa ubiquidade da droga em todas as épocas e culturas permite supor que o consumo de substâncias alteradoras da consciência faz parte da condição humana, que buscou sempre meios para interferir quimicamente no psiquismo. Essa é a conclusão do médico Andrew Weil (apud Furst 1980, p. 25), ao afirmar que “o desejo de alterar periodicamente a consciência é um impulso inato, normal, análogo à fome ou ao impulso sexual”. As regras sociais que disciplinam esse impulso, ou seja, o uso do álcool e de outras substâncias psicoativas, são investigadas pela história da normatização das drogas.

Dentre as drogas existe, entretanto, uma categoria especial, que se distingue dos inebriantes (como o álcool), dos excitantes (como o café e a cocaína), ou dos sedativos (como o ópio), que é um conjunto de plantas e de substâncias sintéticas que produzem efeitos psicoativos muito peculiares e característicos. Esses efeitos foram chamados de “fantásticos”, por Ludwig Lewin, e se tornaram conhecidos mais vulgarmente como “alucinógenos” ou “psicodélicos”. Essas drogas são basicamente as seguintes: o LSD, a mescalina, a psilocibina, a DMT e também as anfetaminas psicodélicas como o MDMA, das quais existem ao menos algumas centenas de análogas. Suas características fisio-químicas são a muito baixa toxicidade e a também baixíssima dose mínima necessária. Quase não produzem efeito fisiológico, exceto certa midríase (aumento da pupila) e taquicardia. A natureza fundamental do seu efeito é psíquica, esfera que sofre uma ação impactante dessas drogas.

O poderoso efeito psíquico foi o que tornou plantas como o cogumelo teonanacatl, o cacto peiote, o cipó ayahuasca, a trepadeira ololiuqui etc., substâncias sagradas de diversas religiões americanas. O fascínio do olhar antropológico sobre esses cultos e as utilizações dessas drogas em diversas culturas desencadeou uma crescente e sistemática investigação etnobotânica. O uso seletivo das plantas de poder foi identificado por diversos pesquisadores (Huxley, Escohotado, Szasz, Wasson, Allegro, McKenna, Narby, Ott, entre outros) como característico do fenômeno religioso. Diferentes estudos históricos e antropológicos têm destacado o uso específico de diferentes plantas em culturas distintas, desvendando significações particulares em cada rito e em cada substância, cuja diversidade engloba desde o tabaco em seu uso tradicional americano (Wilbert, 1987), até um conjunto de plantas muito singulares cuja denominação é objeto de controvérsia, sendo chamadas de “alucinógenas”, “enteógenas” ou “psicodélicas”.

No último século e meio, os estudos sobre as substâncias alucinógenas abrangeram tanto os usos sagrados tradicionais em diferentes culturas, como o uso contemporâneo internacional, onde diferentes consumos de tais drogas produziram diversos fenômenos dentro de uma ampla cultura da droga, que inclui o surgimento de novas religiões e de círculos científicos de pesquisa e experimentaçã, além de uma influência estética disseminada e de um uso recreacional popular, que supera a cultura exclusiva do álcool como lubrificante social. (2)

2. Esse uso recreacional intensificou-se com a cultura rave, dos anos 1990, onde se despreza o álcool e se consomem psicodélicos. Ver Saunders (1995)

No início do século XX, desde que a mescalina foi isolada de amostras do cacto peyote, em 1897, por Arthur Heffter, e sintetizada em laboratório, em 1919, por Ernst Späth, difundiram-se diversas experiências de cientistas, psicólogos, escritores e artistas com esta droga. Mais tarde, Aldous Huxley, que identificava nas viagens psicodélicas veículos para o transporte dos antípodas mentais, tornou-se a partir dos anos 1950 um expoente marcante de uma aventura cultural de desbravamento pioneiro de um novo campo epistemológico, quando se difundiu o LSD, descoberto por Albert Hoffman em 1943.

O que caracterizou o final da segunda metade do século XX, entretanto, foi o quase desaparecimento da pesquisa científica oficial de algumas das substâncias mais fascinantes da farmácia contemporânea e de seus promissores e florescentes usos em terapia, arte e psicologia experimental. Ao invés disso, uma política de guerra contra as drogas igualou psicodélicos, opiáceos e cocaína numa lista oficial de substâncias proibidas pela ONU e consideradas como não-possuidoras de qualquer uso médico, provocando o sufocamento da investigação sobre o LSD e outras substâncias análogas.

A política da guerra contra as drogas tem sido criticada como uma “Inquisição” que busca suprimir a dissidência psicofarmacológica e proibir o exercício da liberdade de consciência para produzir uma hipertrofia de lucros e de violência com laboratórios clandestinos, policiamento mental, lavagem de bilhões de dólares, milhões de prisioneiros, fiscalização através de testes compulsórios de urina, devastação aérea de plantações, guerras, cercos e invasões militares. Tal é o sentido do conceito de “inquisição farmacrática”, empregado por Thomas Szasz e Jonathan Ott, entre outros, para definir o fenômeno da campanha do proibicionismo das drogas, iniciada com a Lei Seca contra o álcool nos Estados Unidos, no início do século XX, e intensificada desde os anos 1960, por Nixon, através de uma “guerra” de conteúdo militar, comercial, industrial, financeiro, político e ideológico.

Vivemos simultaneamente, entretanto, a ampliação de um novo camp0o epistemológico em meio a uma guerra que utiliza os instrumentos desse potencial científico e tecnológico como armas. Por um lado, a ciência química amplia os conhecimentos e os domínios sobre as sínteses refinadas de novos arranjos moleculares, e, por outro, produz uma intersecção com os domínios das ciências da subjetividade humana. A analogia molecular entre o LSD e a serotonina (cristalizada e nomeada em 1948 por Rapport) foi o que levou a identificação da segunda como neurotransmissor (Chast 1995, p. 128). A farmácia e a psicologia se unem na psicofarmacologia. A constituição desse campo, definido sistematicamente por François Dagognet, seu primeiro epistemólogo, no texto La raison et les rémèdes (1964), une a filosofia do sujeito com a história das formas de controle e normatização da subjetividade. O estudo desse campo de atividade do pensamento estimulado na fonte neurotransmissora dos impulsos e suas consequências na determinação das formas da consciência e dos modelos de subjetividade culturalmente determinados, constitui-se como um foco de inquietação que busca instrumentos nas mais divrsas ciências – farmácia, psicologia, medicina, história, antropologia – para investigar e experimentar os psicofármacos. Em 1972, Charles Tart propôs num artigo na revista Science, a criação de ciências específicas para os estados alterados de consciência, desenvolvendo uma abordagem que se insere no campo mais amplo das “ciências da consciência” (Tart 1998)

Os estudos sobre as drogas possuem uma extensa e multidisciplinar bibliografia. Este texto não pretende realizar nenhuma descrição panorâmica, mas apenas apontar algumas obras essenciais dos estudos históricos e antropológicos sobre o papel dos alucinógenos na cultura e historiar brevemente alguns usos dessas substâncias no decorrer do século XX.

O estabelecimento e a classificação de uma bibliografia sobre plantas alucinógenas, usos enteogênicos e o psicodelismo é uma tarefa que ainda não foi feita. Diversas gerações se perfilam: desde os primeiros psicofarmacólogos como Arthur Heffter e Ludwig Lewin, no início do século XX; passando pelos trabalhos mais antropológicos sobre o peiote, de Alexandre Rouhier e Weston La Barre, nos anos 1930 (mesma época dos escritos literários de Michaux, Sartre e Artaud), chegando à descoberta (por serendipidade) do LSD por Albert Hoffman, em 1943; até a fermentação dos anos 1950, quando se destacam as obras de Aldous Huxley, Gordon Wasson e de Richard Evans-Schultes; e a explosão dos anos 1960, com o psicodelismo, Timothy Leary e Richard Alpert. Nos anos 1970 e 1980, formularam-se as visões críticas mais maduras em autores como Alexander Shulguin e Jonathan Ott. Autores como Thomas Szasz, em Cerimonial chemistry (1974), e Antonio Escohotado em História de las drogas (1989), apresentam uma visão crítica do papel social, econômico e cultural das drogas e de sua regulamentação na história universal.

O enfoque sistemático de Escohotado sobre os mecanismos de controle e regulamentação do uso das plantas e dos fármacos é uma das análises mais agudas sobre a questão. A interpretação da guerra contemporânea contra as drogas como uma “inquisição farmacrática” e o próprio conceito de “farmacracia”, que Escohotado comparte com o psiquiatra Thomas Szasz, fazem parte da vertente que mais buscou, no terreno das ciências humanas, uma interpretação teórica e histórica dos regimes de consumo e regulamentação de drogas. Outros trabalhos pioneiros buscaram exposições gerais sobre a história das drogas, como é o caso de Jean Louis Brau, mas sem entrarmos nas vertentes psiquiátrica e farmacológica, podemos nos referir à etnobotânica, com Gordon Wasson e Richard Evans Schultes, e à antropologia, especialmente com os estudos do peiote e do xamanismo amazônico(3), como as disciplinas que mais contribuíram para a formação de um campo do conhecimento histórico e antropológico das drogas em geral e, especialmente, dos alucinógenos.

3. Entre os quais estão Aguire Beltrán, Jean-Pierre Chaumeil, Jeremy Narby, Michael Harner, Michael Taussig, Terence McKenna, Weston La Barre e, especialmente no contexto amazônico, Esther Jean Langdon, Haydée Seijas, Homer Pinkler, Luis Eduardo Luna, Melvin Bristol, M. Winkelman, Néstor Uscategui, Plutarco Naranjo e Scot Robinson, muitos dos quais alunos de Evans Schultes.

O tema do xamanismo e das plantas de poder penetrou a cultura de massas do Ocidente, a partir dos anos 1970, com o amplo sucesso dos livros de Carlos Castaneda, cuja consistência antropológica foi, entretanto, questionada, mas que inegavelmente divulgou as plantas sagradas e seus mestres xamãs. Pesquisas antropológicas e trabalhos de campo se realizaram desde então em todos os continentes, mas especialmente nas Américas, onde o número de substâncias vegetais psicoativas conhecidas pelas culturas tradicionais é superior a todo o resto do mundo.

Alguns historiadores da América abordaram as consequências do impacto da regulamentação do consumo das drogas sobre as sociedades coloniais americanas, entre os quais Aguirre Beltrán e Serge Gruzinski. Igualmente importantes também foram os autores que trabalharam sobre a questão da história das práticas de consumo alcoólico, em particular no caso do encontro intercultural entre a Europa e a América, como é o caso de Sonia Corcuera de Mancera e de William Taylor. Entre outros trabalhos que estudaram as práticas de consumo alcoólico e de alucinógenos na América podemos citar Borrachera y Memoria (Saignes 1993) e os estudos levados a cabo no Peru desde os anos 1960 (especialmente os de Marlene Dobkin de Rios), que tratam do curandeirismo psicodélico da sierra e da selva, com grande tradição de uso de San Pedro e ayahuasca. O conceito de psiquiatria folclórica, desenvolvido por Carlos Alberto Seguín, que fundou o Instituto de Psiquiatria Social, na Universidade de San Marcos, em Lima, em 1967, também constitúi uma contribuição pioneira e fundamental para a discussão do uso tradicional de alucinógenos na América do Sul. No Brasil, após algumas passagens pioneiras de Gilberto Freyre e Câmara Cascudo sobre a maconha e a Jurema(4), tem havido desde os anos 1980 um crescente interesse pelo fenômeno da religião do Santo Daime, com o surgimento de diversos livros, artigos e teses acadêmicas.(5)

4. A Jurema (Mimosa hostilis e Mimosa nigra), elevada por José de Alencar, em Iracema, à condição de “licor de Tupã”, e onipresente no context do catimbó, teve o seu principal alcalóide, a DMT, isolado em 1946 por Gonçalves Lima que o chamou de nigerina. Ele foi o primeiro químico no mundo a isolar a DMT, anteriormente sintetizado em laboratório em 1931, de um produto natural.

5. No Brasil, encontramos os trabalhos de Alberto Groisman, Anthony Henman, Ari Sell, Beatriz Labate, Edward MacRae, Sandra Goulart, Wladimyr Araújo, entre outros.

O renascimento psicodélico dos anos 1990 não se restringiu à revalorização da cultura juvenil das raves, da busca dos estados alterados de consciência, mas também se expressou numa intensa atividade editorial e na articulação através da Internet(6) de círculos de investigação e debate sobre tais substâncias. Algumas obras de investigação histórica e jornalística desvendaram a complexa e misteriosa história recente dos psicodélicos (Lee e Shlain, Stafford, Lyttle, Devereux) e centros como a MAPS (Multidisciplinary Association of Psychedelics Studies), a Società Italiana per lo Studio degli Stati di Conscienza, e a Albert Hoffman Foundation têm consituído bancos de dados e bibliografias e estimulando a pesquisa.

6. Tão grande é a gama de publicações e instituições com sites na Internet que foi publicada em 1996 uma compilação por Jon Hanna, intitulada Psychedelic Resource List.

As diversas formas de uso dos psicodélicos têm se constituído como um campo original de conhecimento e de produção cultural, onde a psicologia, a farmácia, a medicina, a história, a literatura e a antropologia uniram-se para buscar compreender o papel das plantas e dos sintéticos produtores de estados de êxtase e que tiveram um papel histórico determinante como produtos de grande valor comercial, religioso e cultural.

Poderíamos descrever as três visões mais importantes do uso dessas drogas a partir da própria opção pelo termo que deve denominá-las. Três são as opções fundamentais: alucinógenos, psicodélicos ou enteógenos. A primeira corresponde ao da pesquisa científica oficial dos anos 1930 a 1950 e, até hoje, é o termo considerado científico para descrever em termos farmacológicos os efeitos de uma gama de substâncias que vão da maconha ao LSD. A segunda é a denominação criada pelo psiquiatra canadense Humphry Osmond, em 1953, e que foi adotada pelo movimento político-cultural dos anos 1960. A terceira foi proposta em 1978 pelo investigador Gordon Wasson e outros (C.A.P Ruck, D. Staples, J.Bigwood e J. Ott) para referir-se às plantas que têm sido usadas como instrumentos sagrados de êxtase (Ott 1995).

Mais recentemente, as pesquisas levadas a cabo por Alexader Shulguin e sua equipe desenvolveram diversas novas substâncias de tipo semelçhante aos psicodélicos, mas com importantes distinções. As meta-anfetaminas, concebidas a partir do anel molecular da mescalina, possibilitaram diferentes tipos de efeitos, alguns dos mais característicos, no caso do MDMA, são os de intensificação das interações interpessoais, o que levou este pesquisador a propor a denominação de entactogen para esse tipo de substância (Shulguin 1991, p. 229), que também são chamadas de empatógenos.

Prefiro, para uma designação mais genérica desse campo específico dos psicoativos, o termo psicodélico, por achá-lo mais estético, mais preciso semanticamente, e imbuído de um conteúdo político e laico. O termo enteógeno, embora seja preciso para denominar usos de tipo religioso, como os identificados nas raízes culturais de inúmeros cultos, é inapropriado para definir o uso laico contemporâneo das mesmas substâncias. O termo alucinógeno, embora seja o mais corrente, é incorreto, refletindo um preconceito que atribui à ocorrência de supostas “alucinações” o principal ou único efeito de drogas que possuem uma natureza muito mais complexa. Como termo mais vasto que abrangeria diferentes vertentes das diversas formas de usos modernos e contemporâneos e os distintos enfoques culturais dos psicodélicos, utilizarei o conceito de psiconáutica que faz parte do movimento atual de renascimento psicodélico dos anos 1990 (segundo J. Ott, o termo psiconauta foi cunhado por Ernst Jünger, em 1970).

As vertentes da psiconáutica

O uso de drogas alteradoras da consciência foi uma das fontes do estudo científico da mente humana, dando origem a diversas vertentes fundadoras do campo da psicologia no século XIX. Desde muito antes dessa época, entretanto, que as especulações sobre a consciência humana estão entrecruzadas com experiências de estados alterados de consciência por uso de substâncias psicoativas. O pharmakón grego se tornou psicofármaco, ou “remédio da alma”, quando Reinhard Lorichius publicou, em 1548, um livro chamado Psychopharmakon, hoc est: medicina animae. Um dos primeiros estudos sistemáticos sobre as drogas foi a tese doutoral de um aluno de Lineu, Olavus Reinh Alander, que escreveu em 1762, Inebriantia, que pode ser considerado o primeiro tratado sobre psicoativos. Claude Bernard (1813 – 1878) é o pioneiro da medicina e da farmacologia experimentais, tendo publicado, em 1857, Lições sobre os efeitos das substâncias tóxicas e medicamentosas e, em 1865, Introdução à medicina experimental, realizando experimentos com o “curare” (substância paralisante) dos indígenas sul-americanos. Em 1817, a morfina foi isolada como o principal alcalóide do ópio e, alguns anos depois, Thomas De Quincey publicou The Confessions of an English Opium Eater (1821) que foi o primeiro best-seller da, desde então, prolífica literatura de experiência com drogas.

O primeiro laboratório de farmacologia experimental teria se estabelecido em 1860 na cidade de Dorpat (atual Tartu), na Estônia (Ribeiro do Valle 1978). O estudo científico das drogas psicoativas tem entre seus principais iniciadores alguns cientistas como Ernst Freiherr von Briba (1806 – 1878), que, em 1855 publicou, na Alemanha, Die narkotichen Genussmittel und der Mensch, onde estudou 17 plantas; e J. J. Moreau de Tour, que, em 1845, publicou na França o primeiro estudo sistemático realizado com o haxixe, Du hachich et de l’alienation mentale, onde compara o estado produzido pela droga com a loucura, Em 1860, Mordecai Cooke (1825 – 1913) publicou The Seven Sisters of Sleep, onde divulgava de forma popular diversas informações sobre plantas narcóticas e, no mesmo ano, também era publicado, na França, Les Paradis artificiels, de Charles Baudelaire, obras que traziam para o público descrições literárias e, quase sempre, exageradas dos efeitos de certas drogas. E. Kraepelin publicou, em 1883, um artigo intitulado “Sobre a ação de algumas substâncias medicamentosas na duração de certos fenômenos psíquicos elementares” e, em 1892, um livro que abordava os efeitos comparados do chá, do álcool, da morfina, do éter et., intitulado Sobre a influência de alguns medicamentos em determinados fenômenos psíquicos elementares, onde teria utilizado pela primeira vez a palavra farmacopsicologia.

Sigmund Freud contribuiu com o campo de estudo das drogas ao teorizá-las como um dos mecanismos culturais destinados a evitar o sofrimento e buscar o prazer – o mais eficaz, enfatizou Freud -, em O Mal-Estar na Civilização, tendo experimentado entretanto apenas a cocaína e o tabaco, dos quais se tornou adepto. Nos Estados Unidos, William james experimentou o óxido nitroso e escreveu, em 1902, The Varieties of Religious Experience, comparando o êxtase religioso com o efeito provocado por drogas.

O isolamento da mecalina, como princípio ativo do peyote, cacto alucinógeno do México, por Arthur Heffter, em 1897, trouxe ao panorama da farmácia o primeiro alucinógeno quimicamente puro. Nessa época, Havelock Ellis empregou mecalina para estudos sobre a criatividade, tendo ministrado essa droga para poetas como Yeats e para pintores. Em 1911, Karl Hartwich escreveu Die menschlichen Genussmittel, onde superou a obra anterior de von Briba, enfocando sob um ângulo interdisciplinar cerca de 30 plantas. Em 1924, surgiu Phantastica, de Ludwig Lewin, a obra mais influente na classificação das substâncias psicoativas, apresentando um estudo detalhado de 28 plantas e de alguns compostos sintéticos (Evans – Schultes e Hoffman 1993, p. 185). Os cinco tipos de psicoativos eram, para Lewin, os fantásticos, os excitantes, os sedativos, os euforizantes e os inebriantes. Esta taxonomia evolui posteriormente para o odelo de três categorias: os psicolépticos, psicoanalépticos e os psicodislépticos, englobando respectivamente os depressores, os estimulantes e os alteradores da consciência(7).

7. Tal classificação, proposta por J.Delay desde 1952, derivou do uso psiquiátrico da cloropromazina, classificada como um psicoléptico timoléptico ou neuroléptico, ou seja, um tranquilizante não-sonífero, assim como os anti-depressivos foram classificados como timoanalépticos, enquanto os soníferos seriam noolépticos e os excitantes, como a anfetamina, nooanalépticos. Tal nomeclatura tornou-se oficial desde o II Congresso Internacional de Psiquiatria, em 1957. Ver Pöldinger (1968).

Nos anos 1930, o estudo dos alucinógenos (ou psicodislépticos) começou a desenvolver-se no período de arrancada da farmacoquímica na Alemanha. A história da consciência alcançou na era dos psicofármacos psicodélicos de síntese inaugurada com as pesquisas sobre a mescalina, sobretudo as de Heinrich Klüver, uma abordagem experimental dos universos mentais, A experimentação permitia um domínio empírico sobre o quadro de alterações de consciência que nenhuma outra verificação científica poderia aferir. Além dos depoimentos, dos testemunhos, da observação clínica ou psicológica dos sujeitos experimentadores, cabia ao pesquisador o conhecimento direto e insubstituível da vivência pessoal da experiência. Também na década de 1930, setores da intelectualidade se interessaram pelos psicodélicos. Jean-Paul Sartre, após tomar mescalina, escreveu Náusea, onde expressou certos aspectos de suas vivências mescalínicas, e Henri Michaux escreveu O conhecimento pelos abismos, Infinito turbulento e O miserável milagre.

A tipologia dos “arquétipos” provocados pela mescalina, sobretudo os efeitos visuais, foram objeto de extensos estudos experimentais. A natureza do alucinógeno permitiria compreender a natureza da alucinação e da percepção da realidade. A definição precisa das “constantes alucinatórias” foi para Klüver uma das chaves para se tentar compreender a natureza dos efeitos da mescalina. A característica principal dos fenômenos alucinatórios tinha sido definida por Havelock Ellis como a sua “indescritibilidade” (indescribableness), mas Klüver irá buscar as formas constantes, tais como: “a) grade, treliça, trama, cordas, filigrana, favos de abelha, exadrezado; b) teia de aranha; c) túnel, funil, viela, cone, ou barco; d) espiral” (Klüver 1971, p. 66). As pioneiras e, em muitos aspectos, interessantes pesquisas desse período sofreram, no entanto, a limitação de buscarem enfoques parcelares e laboratoriais de uma experiência cuja natureza múltipla, polissêmica e subjetiva tornava-se inabordável pelos métodos e testes psicológicos tradicionais destinados a verificar “alucinações visuais”. O que mais se destacava na experiência dessas drogas era sua inefabilidade, sua singularidade e sua intensidade. Mais recentemente, diferentes autores identificaram nas percepções geométricas visuais um elemento recorrente em diversas culturas, desde as pinturas rupestres paleolíticas até os padrões psicodélicos contemporâneos, representando o que R. Rudgley denomina “fenômenos entópticos”, também chamados de fosfenos ou imagens eidéticas. Os efeitos dos alucinógenos produziriam dois tipos básicos de imagens: padrões geométricos entópticos, que derivariam da estrutura universal do sistema nervoso humano, e imagens icônicas alucinatórias, derivadas de elementos psicológicos e culturais (Rudgley 1995, p. 18).

Em 1953, Aldous Huxley tomou mescalina e escreveu As Portas da Percepção, que se tornou a mais famosa apologia intelectual da experiência psicodélica. O psiquiatra canadense que o iniciara na experiência era Humphry Osmond, que foi quem propôs a denominação de psicodélicos. Huxley prosseguiria desde então um estudo insaciável sobre os psicodélicos, correspondendo-se, entre outros, com o círculo de Albert Hoffman, o inventor do LSD, e o de Timothy Leary.

Nos anos 1960, despontaram movimentos culturais (ou “contraculturais”) que reinvidicavam a extensão dos direitos de livre-disposição do corpo e de autonomia sobre si próprio. Como parte desses movimentos, destacavam-se os que discutiam questôes de política sexual, de gênero (o movimento feminista) e de opção sexual (o movimento homossexual). O uso voluntário do corpo para fins de prazer sexual se coligava à reinvidicação da autonomia crítica da consciência, da recusa em se permitir ao Estado uma jurisdição química sobre a mente que busca controlar o que se ingere ou se introduz voluntariamente no interior do corpo. O movimento psicodélico representou uma defesa política oficial do proibicionismo estatal, caracterizado como Inquisição farmacrática contra o direito de escolha na estimulação química do espírito. A humanidade alcançou com os recursos de alteração química deliberada da consciência um novo patamar para o florescimento da auto-consciência do espírito. A consciência deixou de ser a mera auto-referência psicológica, sujeito filosófico do conhecimento ou identidade para tornar-se a matéria plástica, passível de programação química voluntária. Tal perspectiva trouxe a baila uma questão moral e política decisiva: quais os limites para a liberdade de autoprogramar-se quimicamente? A liberdade de consciência, os direitos do homem, a liberdade na busca dos meios de obtenção de prazer incluem o direito ao uso de drogas?

A autonomia crítica da consciência exigiu o acesso ao arsenal do saber herbário e da tecnologia psico-farmacoquímica como um dos direitos do espírito humano na busca do conhecimento de si próprio. A resposta política do Ocidente a essa demanda pelas chaves vegetais e químicas da consciência até hoje, contudo, foi negativa. O proibicionismo reinou sempre, inicialmente sob a égide da Igreja e, mais tarde, da Medicina. A Igreja Católica proibiu os frutos das árvores do conhecimento, como o ópio, os cogumelos amanita ou a cannabis, herança combatida do paganismo euroasiático e, durante a colonização moderna, desencadeou uma campanha para extirpar as “idolatrias” indígenas, e particularmente as suas plantas sagradas. A América proveu o mundo, entretanto, com algumas das mais fantásticas substâncias extraídas de plantas: a mescalina do cacto, a psilocibina do cogumelo, a harmalina do cipó, as triptaminas da leguminosa jurema, e o LSD análogo da trepadeira ipoméia.

O uso militar

O uso de técnicas de alteração de consciência por meios médicos ou químicos sempre foi objeto de pesquisa científica de uso militar. A psiquiatria do śeculo XX desenvolveu uma vasta gama de técnicas reunidas sobre a denominação de “sismoterapia”. O abalo de pacientes esquizofrênicos, antes produzido com água gelada e outros métodos rudimentares, se aperfeiçoou através de febres induzidas (paludoterapia), comas hipoglicêmicos (choque de insulina), epilepsias induzidas (choque de cardiazol) e eltro-choques. Estes últimos foram especialmente empregados quando na Primeira Guerra Mundial para os chamados “neuróticos de guerra”, soldados em trauma que se recusavam a lutar. Freud teve uma posição ambígua diante desse tipo de “tratamento”, inclusive depondo numa comissão de inquérito durante um processo movido por um oficial das forças armadas austríacas, mas a conclusão oficial continuou a legitimar o uso de eletro-choques para “arrancar o doente de suas fixações e permitir-lhe voltar ao fronte” (Rousseau 1998).

O exército alemão interessou-se pela mescalina e na época nazista floresceram os estudos médicos sobre prisioneiros em campos de concentração. No pós-guerra, os Estados Unidos recrutaram mais de seiscentos cientistas alemães de diferentes áreas, entre os quais o principal investigador responsável pelos estudos de mescalina, Dr. Hubertus Strughold, que, segundo os pesquisadores norte-americanos Martin A. Lee e Bruce Shlain, “depois de Werner von Braun, foi o segundo cientista nazista de primeiro plano a ser empregado pelo governo dos Estados Unidos, tendo sido, mais tarde, saudado pela NASA como “o pai da medicina do espaço” (Lee e Shlain 1994, p. 26). A medicina do espaço foi um dos campos onde se investigaram os estados de consciência alterada, especialmente em condições de confinamento, e se experimentaram novas drogas psicoativas potencialmente úteis para a manutenção da saúde psíquica em viagens espaciais.

O código deontológico da pesquisa científica estabelecido pelos juízes dos processos de Nuremberg, que estabelecia que nenhuma experiência poderia ser levada a cabo sem o consentimento total e voluntário, nunca foi seguido nos Estados Unidos. Após a guerra, a CIA dedicou-se a uma vasta pesquisa sobre drogas. Utilizando cientistas nazistas davam continuidade à utopia reacionária da manipulação cerebral total. Constituíram-se os projetos Blue bird e Artichoke, que se dedicavam a desenvolver técnicas de controle mental e de interrogatórios, com o uso de drogas, tortura e hipnose. Em 10 de abril de 1953, Allen Dulles, novo diretor da CIA, proferiu um discurso em Princeton, onde se referiu ao “sinsitro combate dos soviéticos para se apoderarem dos espíritos”, referindo-se a supostas técnicas de “lavagem cerebral”. Três dias depois foi lançado o projeto da CIA chamado MK Ultra, que consistiu no estudo experimental, com voluntários e não-voluntários, de diversas drogas, entre as quais o LSD, que por suas características peculiares de ínfima dosagem e magnitude dos efeitos, tornou-se uma das principais. O LSD é ativo na proporção de milésimos de miligramas, ou seja, em poucas dezenas de milionésimos de grama. Praticamente nenhuma outra substãncia age sobre o metabolismo humano nessa dosagem.

Ironicamente, alguns dos sujeitos recrutados por anúncios em jornais, que foram iniciados no LSD nesses testes de ácido, tornaram-se, depois, os maiores críticos à política oficial de drogas nos Estados Unidos, como o poeta Allen Ginsberg. A questão moral central do uso de drogas em geral, mas particularmente dessas intensas novas drogas mentais, dizia e continua dizendo respeito ao problema da liberdade de opção. Inicialmente se manteve um uso restrito às investigações militares e médicas, nas quais, na maior parte das vezes, os sujeitos que consumiam as drogas não o faziam voluntariamente. O que a CIA buscava era justamente uma droga que vencesse a vontade e as convicções, que tornasse voluntário o involuntário. Desenvolviam pesquisas para técnicas de interrogatório, armas de guerra a se usarem em bombardeios ou infiltração de sistemas de abastecimento de água (o que se verificou impossível, pois o cloro neutraliza o LSD). No uso médico e psicoterapêutico, embora tenha havido trabalhos sérios em profusão nos anos 1950 e 1960, até a proibição legal do LSD em 1966, também houve muito uso experimental psiquiátrico e todo tipo de aberrações numa época que consagrara a lobotomia com um prêmio Nobel (o português Esgas Moniz, em 1949), chegando até mesmo à prática da lobotomia num paciente a quem se havia dado LSD, para que o mesmo descrevesse verbal e conscientemente o que estava sentindo ao mesmo tempo em que lhe extirpavam pedaços do cérebro.

Ao mesmo tempo, o LSD se popularizava entre a elite norte-americana. Os agentes da CIA tomavam ácido como parte obrigatória de sua preparação. Atores famosos, milionários, generais e até mesmo presidentes norte-americanos como John Kennedy contavam entre os que experimentavam LSD. Nas universidades se desenvolviam programas de reabilitação de alcoólatras e de delinquëntes que obtinham grande êxito. O problema para as autoridades surgiu quando esse uso extravasou as comportas da CIA, da elite e das cúpulas universitárias e, a partir de Harvard, os professores de psicologia começaram a fazer proselitismo público. O resultado foi a proibição do LSD em 1966. O uso voluntário passa a ser considerado crime, o território interior da carne e mente torna-se jurisdição química do Estado que decide quais substâncias e em que momentos estamos autorizados a consumir. Ao mesmo tempo em que os serviços secretos do mundo desenvolviam ou subsidiavam pesquisas sobre drogas, especialmente os novos sintéticos, a polícia intensificava a repressão e um movimento cultural começava a desenvolver-se em torno do uso ilegal destas novas substâncias.

Usos psicoterapêuticos

Na psicoterapia, centenas de tratamentos alcançavam resultados surpreendentes; como inspirador de artistas e potencializador de criatividade, repetia-se exaustivamente, em todas as artes, as experiências do final do século XIX, quando Havelock Ellis deu mescalina para poetas e pintores. Retomava-se, com os sintéticos como o LSD, a traddição literária baseada no uso de drogas como via para a poesia.

Diversas vertentes utilizaram psicodélicos como coadjuvantes para tratamentos, com sucesso excepcional na recuperação de alcoólicos, em pacientes terminais, e em tratamentos os mais variados. Em Harvard, após experimentar cogumelos em 1960, o psicólogo Timothy Leary, aos 39 anos, converteu-se a um apostolado dos psicodélicos. Aproximou-se dos beats como Allen Ginsberg, que vinham de uma tradição de uso do peiote, e realizou algumas experiências autorizadas com recuperação de dependentes de álcool e de delinquentes. Quando o uso dos psicodélicos extravasou o controle acadêmico, Richard Alpert e Timothy Leary tornaram-se os primeiros casos de expulsão no quadro de professores de Harvard, em 1963.

Nos anos 1960, Alberto Fontana adotou, na Argentina, psicodélicos em terapia psicanalítica. Na Tcheco-Eslováquia, Stanislav Grof começou um trabalho de pesquisas, que foi desenvolvido posteriormente na Califórnia, como investigação dos estados perinatais, utilizando psicodélicos em experiências de regressão. No Brasil, houve uma utilização científica de LSD no final dos anos 1950 e início dos anos 1960, inclusive com experiências sobre criatividade(8), vertente já explorada desde Havelock Ellis e, mais recentemente, por Stanley Krippner, nos Estados Unidos, mas que foram abortadas pela interdição legal de experimentação científica com psicodélicos.

8. O livro de memórias de Fauzi Arap, Mare Nostrum, Sonhos, viagens e outros caminhos, relata a influência lisérgica sobre o panorama cultural brasileiro dos anos 1960 e sobre diversos artistas em particular como, além dele próprio, a escritora Clarice Linspector, que deveria a uma intensa experiência com LSD a inspiração para o seu livro A Paixão segundo G. H.

A bibliografia médica sobre usos de LSD e outros psicodélicos é de muitos milhares de títulos, que compreendem usos psiquiátricos e psicoterapêuticos os mais diversos, resultado sobretudo das experimentaçoes realizadas antes da proibição legal em 1966. Entre os pesquisadores que relatam essas experiências, podemos citar autores como Masters e Houston, Claudio Naranjo e Andrew Weil, que escreveram livros sobre as virtudes médicas e terapêuticas dos psicodélicos. Durante o começo dos anos 1980, o uso de MDMA generalizou-se em diversos tratamentos psicoterapêuticos e até sua proibição, em 1986, foi apresentado como um eficiente afrodisíaco ou droga pró-sexual.

O uso político dos alucinógenos e o movimento psicodélico

O uso aristocrático por Ernst Jünger, do círculo diretamente ligado a Hoffman, na Suiça, ou por militares norte-americanos, como o capitão Alfres M. Hubbard, são vertentes de uso restrito dos psicodélicos que sempre advogaram por um acesso muito seletivo. Contra tal controle insurgiam-se, nos anos 1960, diversos apostulados do ácido. Talvez, como advertiria André Breton no Segundo Manifesto do Surrealismo, eles quiseram “distribuir o pão maldito aos passarinhos” e pagaram o preço dessa ousadia.

A expulsão, em maio de 1963, de Richard Alpert e Timothy Leary do quadro de professores de Harvard simbolizou o mergulho na clandestinidade das pesquisas científicas com LSD. O livro Politics of Ecstasy, publicado em 1968, resumiu as posições de Leary em defesa da experimentação ampla dos psicodélicos.

Por um lado, os militares e a CIA prosseguiram com suas experiências secretas, enquanto que, por outro, um imenso movimento juvenil iria iniciar-se nos arcanos da farmácia clandestina. Em 23 de novembro de 1963, morre aldous Huxley, no mesmo dia em que Kennedy é assassinado. Huxley, ao morrer, pratica o ensinamento do Bardo Todol, o Livro Tibetano dos Mortos, que ele havia interpretado como um manual para o êxtase, e pede à sua mulher Laura que lhe injete uma dose de LSD.

Em 1965, a fabricação e venda do LSD tornaram-se ilegais. Em 1966, a Sandoz parou a fabricação. No debate que se abre no congresso norte-americano, o senador Robert Kennedy argumenta contra a proibição, alegando que sua esposa usava LSD com êxito num tratamento psicoterapêutico. Em 1968, não obstante, a posse de LSD tornou-se um crime nos Estados Unidos.

Muitos são os “apóstolos do ácido” que começam a fazer a sua distribuição como sagrada hóstia espiritual. Ken Kesey e o grupo de rock Merry Pranksters, saem num ônibus promovendo os Eletric-Cool-Aid-Acid-Test (tema do livro de Tom Wolfe, O teste do ácido do refresco elétrico). O próprio Leary funda a IFIF (International Federation for Internal Freedom) e instala-se em Cuernavaca, no México, onde faz sessões com LSD. Na esteira da radicalização do movimento estudantil, surgem as seitas psicodélicas, como os Diggers, os Yippies e a “Fraternidade do Amor Eterno”. No final de 1968, Nixon é eleito e lança a War on drugs. Em 1969, Leary declara que o LSD é perseguido por “ciúme metamórfico”, porque “as moscas invejam as borboletas”, e lança sua candidatura ao governo da Califórnia, contra Ronald Reagan, recebendo o apoio de John Lennon, que escreve a música Come Together, para a campanha.

Em 1965, Leary havia sido preso junto com a mulher e a filha por porte de pequena quantidade de maconha na fronteira com o México e condenado a trinta anos de prisão e, em 1970, após nova apreensão e recusa de recursos, é encarcerado. Após alguns meses, foge espetacularmente e exila-se na Argélia, onde se reúne com o líder pantera negra, também lá exilado, Eldridge Cleaver, renega o pacifismo e torna-se um revolucionário psicodélico. Em 1973, é preso no Afeganistão e levado para os Estados Unidos, onde colabora com a polícia, denunciando antigos companheiros. Devido ao fato de Leary aceitar capitular, no que se torna conhecido como o “Watergate hippie”, o movimento contracultural convoca uma conferência chamada de “PILL” (People Against Leary Lies). Em 1976, Leary é solto por “bom comportamento”. Nesse mesmo ano, tornam-se públicos os documentos relativos às experiências secretas da CIA com LSD, que resultaram na morte, por suicídio, de um de seus agentes, Frank Olson, em 1953. Após escrever sua autobiografia, Flashbacks, Timothy Leary dedica seus últimos anos à exaltação da Internet, constituindo-se num internauta anunciador da alteração de consciência através da realidade virtual, estado de todas as imponderabilidades.

De Woodstock à chacina de Charles Manson, a divulgação de bad trips e a proibição criaram o clima paranóico que tornou as experiências lisérgicas influenciadas por expectativas negativas, condição que apenas multiplicou o número de casos de más viagens ofuscando a época idílica do flower power.

O uso religioso

O tema do uso de drogas ligado às religiões já fora motivo de debate nos Estados Unidos com a organização da Igreja Nativa do Peyote, no início do século XX, estudada em profundidade pelo antropólogo Weston La Barre, nos anos 1930. Quando surgiu o movimento psicodélico dos anos 1960, capitaneado por Leary, argumentou-se novamente que o uso dos psicodélicos era um direito religioso. Mais ainda: Leary teorizou que um dos efeitos específicos produzido por essas drogas era a devoção. Pesquisas como as realizadas pelo psiquiatra Oscar Janinger e pelo psicólogo William McGlothlim com centenas de pacientes, mostravam que em 75% dos casos ocorriam intensas e transformadoras experiências religiosas, o que levou muitos a acreditarem que o LSD e outras substâncias eram um sacramento e a proporem, como Leary, que cada um formasse a sua própria religião fazendo a experiência da revelação lisérgica.

Richard Gordon Wasson, norte-americano, conheceu sua esposa Valentina, médica russa, em 1921. Em agosto de 1927, casados e residindo nos Estados Unidos, ao passarem a lua de mel nas montanhas Catskills, descobriram uma notável diferença cultural entre eles: ela adorava colher cogumelos e prepará-los em diversos pratos e ele simplesmente não podia conceber que se comessem coisas tão nojentas e perigosas. Essa diferença na valorização dos cogumelos, que eles denominaram de micofobia ou micofilia, levaria-os a uma verdadeira obsessão durante toda a vida: estudar os cogumelos em todo o mundo.

Em 1949, Valentina telefonou para Robert Graves, escritor britânico, autor de uma autobiografia ficcional do imperador Cláudio, para indagar-lhe sobre o último prato de cogumelos de Cláudio, que supostamente teriam sido envenenados por sua mulher, Agripina. De fato, há ao menos três tipos de Amanita bem distintos: Amanita muscaria é o alucinógeno; Amanita caesarea é um tipo comestível muito apreciado pelos imperadores; e, finalmente, o Amanita phalloides é um terrível e poderoso veneno de efeito retardado. O suco deste último teria sido posto num Amanita caesarea para Cláudio.

Três anos depois, Graves enviou aos Wasson uma notícia sobre a descoberta de um culto dos cogumelos no México pelo botânico Richard Evans Schultes, que teria estado já em duas ocasiões na região mazateca, em 1938 e 1939, e obtido amostras de cogumelo. Gordon e Valentina passaram a viajar para o México e, na sua terceira visita, em 1955, conheceram Maria Sabina, e foram os primeiros ocidentais a participarem da cerimônia secreta dos cogumelos. Valentina morreu em 1958, logo depois que publicaram seu primeiro livro: Mushrooms, Russia and History. Gordon Wasson aposentou-se da vicepresidência do banco Morgan e dedicou-se ao estudo dos cogumelos. Foi uma dezena de anos seguidos ao México, levou os cogumelos, por intermédio do micólogo Roger Heim, para Albert Hoffman, o qual, após isolar os princípios ativos, denominou-os psilocibina e psilocina (do grego psilo, “careca”, e cybe, “cabeça”). Em 1962, Hoffman acompanhou Gordon Wasson numa viagem ao México e levaram um frasco de pílulas de psilocibina para Maria Sabina, que as usou numa sessão noturna com a presença de ambos.

Se nos anos 1950 o centro da pesquisa de Wasson concentrou-se em torno do cogumelo psilocybe, nos anos 1960 ele se deslocou para a ìndia e a questão da identificação da planta sagrada dos Vedas, o Soma, que para Wasson teria sido o Amanita Muscaria.

As obras de Gordon Wasson não apenas chocaram os especialistas de diferentes áreas de erudição acadêmica como causaram um enorme impacto, pois, pela primeira vez, se apresentava uma tese global justificada com sérias investigações que afirmava a ligação indissolúvel entre droga e religião. Em 1938, Weston La Barre, ao estudar o culto do peiote, já havia argumentado em prol da idéia de uma “religião-UR”, mas a descoberta do culto dos cogumelos generalizava essa hipótese. A comprovação da permanência do uso dos cogumelos sagrados do México levou Wasson para uma investigação exaustiva de todos os usos de cogumelos e outros enteógenos através do mundo. Os Mistérios de Elêusis, o xamanismo siberiano, os magos persas e os invasores arianos da Índia foram alguns dos utilizadores das bebidas sagradas que foram investigados por Wasson, e uma equipe de pesquisadores que durante muitos anos buscou evidências do uso das plantas alucinógenas nos ritos destes cultos. A partir do uso boreal do cogumelo siberiano Amanita Muscaria, Wasson desenvolveu a tese de uma proto-religião baseada no uso dos cogumelos que teria se propagado com as invasões indo-arianas, nas formas do soma hindu e do haoma persa. O cristianismo, no entanto, elevou o vinho à condição de única droga sagrada e baniu todas as demais, proibindo o ópio, os ritos de Elêusis, os usos de plantas curativas pelos camponeses e as práticas vegetais de todos os paganismos. Tal restrição proscritiva a certas plantas se inscreve até mesmo na mitologia teogônica do Gênesis com as árvores dos frutos proibidos.

A liberdade de religião se tornou, no segundo pós-guerra, a bandeira democrática com a qual diversos movimentos buscaram legitimar o seu uso religioso de diferentes plantas. Um primeiro exemplo foi o da Igreja Nativa do Peiote nos Estados Unidos, mas foi particularmente o movimento psicodélico dos anos 1960, liderado por Timothy Leary, que transformou a defesa do direito de uso de drogas por razões religiosas numa causa popular, inicialmente nos Estados Unidos, mas com repercussões internacionais.

A partir do final dos anos 1970, o interesse renovado pelos saberes vegetalistas indígenas, especialmente na Amazônia, culminou na ampliação do campo de estudos da etnobotânica, e levou muitos autores, como Terence McKenna, por exemplo, a retomarem a tese de Gordon Wasson de uma proto-religião xamânica enteógena como inspiração para um neo-xamanismo como retorno da cultura arcaica.

A expansão no Brasil de religiões usuárias da ayahuasca, como o Santo Daime e a União do Vegetal, também trouxe um renovado interesse no estudo, especialmente antropológico, desse fenômeno, cujos únicos paralelos são a Igreja Nativa do Peiote, nos Estados Unidos, e o culto Buiti, da iboga, no Gabão.

O renascimento neo-psicodélico desde os anos 1980

Nas últimas décadas do século XX, ocorreu uma retomada internacional dos temas do psicodelismo dos anos 1960. O xamanismo, a etnobotânica, as religiões enteógenas e a onda das raves trouxeram um renovado interesse pelas formas de alteração química da consciência.

Nos anos 1980, com o uso do MDMA, conhecido como ecstasy, refleresceram diversas experiências terapêuticas psicodélicas até a decretação da sua proibição legal, adotada a partir de 1986. O mais representativo dos pesquisadores científicos dessa época é o químico e farmacologista Alexander Shulgin. Seus livros PIHKAL (Phenethylamines I Have Know and Loved) A chemical love story (1991) e TIHKAL (Tryptamines I Have Know and Loved) The continuation (1997), escritos em parceria com sua esposa Ann, são uma verdadeira síntese das repercussões da pesquisa científica com drogas psicoquímicas, resumem o que há de mais avançado na pesquisa psicofarmacológica dos psicodélicos e produzem um relato auto-biográfico intimista entretecido com as fantásticas imbricações da guerra contra as drogas nas últimas décadas. Ambos os livros contêm, na sua metade final, uma parte destinada aos farmacoquímicos, onde se reproduzem as fórmulas, receitas e descrições dos efeitos de mais de quatrocentas novas drogas.

A síntese que realiza Alexander Shulgin é, antes de tudo, a do laboratório. Ele é um importante cientista no ramo da psicofarmacologia, tendo trabalhado anos para um grande laboratório, montou um laboratório particular onde se dedicou à pesquisa dos psicodélicos e inventou cerca de duzentas novas drogas por ele testadas junto a um grupo de amigos psiconautas. Constatou que essas drogas de dividem em dois grande grupos: o das fenetilaminas e o das triptaminas. Ao primeiro pertencem a mescalina e as novas moléculas derivadas da manipulação do seu anel molecular para se tornarem diferentes meta-anfetaminas psicodélicas, da qual a mais popular se tornou o chamado ecstasy (MDMA). Ao segundo pertencem o LSD, a DMT e a psilocibina. Cada um dos seus livros é dedicado a um dos grupos: PIHKAL, às fenetilaminas (daí o seu título: “Fenetilaminas que eu conheci e amei”), e TIHKAL, às triptaminas.

Ao fornecer ao grande público as fórmulas das drogas proibidas, Shulgin adotou uma postura política que teve como consequências a perseguição e a cassação de seu laboratório pela DEA (Drug Enforcement Agency). Durante anos, Shulgin havia trabalhado no programa de pesquisas com drogas na NASA, enquanto o governo norte-americano proibia internacionalmente a liberdade de pesquisa acadêmica sobre as substâncias psicodélicas, com a exceção dos laboratórios da CIA e do exército norte-americano. Apesar das legislações que incluíram o LSD, assim como todos os demais psicodélicos, no terreno das drogas proibidas, até mesmo para experimentação acadêmica e científica, criando no final do século XX, uma guerra contra as drogas que assume dimensões inquisitoriais, houve uma continuidade no interesse e nas investigações sobre tais substâncias.

As pesquisas psicoterapêuticas, cognitivas, estéticas, entre outras, que existiam com grande atividade, foram limitadas a uma verdadeira semi-clandestinidade. Alexander Shulgin foi praticante de uma metodologia revolucionária. Ao contrário de outros cientistas estudiosos dos psicodélicos, como o ex-nazista Strughold, ele se filia à tradição libertária norte-americana, ao movimento anti-establishment dos anos 1960. Diferentemente do ativismo psicodélico, não se dedicou, no entanto,a nenhum proselitismo, mas se tornou um pesquisador de vanguarda numa área oficialmente proibida até mesmo para fim de estudos científicos. O livro PIHKAL é o resumo de trinta anos de trabalho de laboratório e apresenta a lista de 179 fenetilaminas, com os procedimentos para a síntese química, as dosagens, a duração, comentário qualitativo e extensão dos comentários. É uma verdadeira “história natural da química da mente”, uma taxonomia das fenetilaminas que correspondem cada uma a um estímulo específico de uma atividade psíquica, de um “caminho cerebral” (brain pathway), que são descritas em seus efeitos subjetivos específicos a partir de uma experimentação dirigida.

A obra de Shulgin contribui para os campos científicos da psicofarmacologia e da neurologia. Além da perspectiva farmacológica, de suas técnicas e receitas de sínteses, e da perspectiva neurobiológica que pode, a partir da localização dos mecanismos de ação destes compostos químicos, localizar e compreender também os processos naturais dos neurotransmissores, há uma contribuição metodológica de Shulgin que é revolucionária do ponto de vista científico e político ao estabelecer uma indagação sobre o direito do Estado em intervir no terreno da jurisdição química da mente acima da pesquisa científica. Seu desafio é epistemológico, exigindo, como Galileu, que todos os instrumentos da ciência sejam utilizados, em particular esses telescópios químicos interiores que quanto mais se aperfeiçoam, mais permanecem inacessíveis como “psicoscópios” indexados como substâncias proibidas, mas seu gesto também é corajosamente político num momento em que a demonização das drogas e o pânico moral construído em torno delas o torna alvo de uma perseguição governamental que invadiu sua casa e o multou em milhares de dólares após a publicação destes livros.

A metodologia de Shulgin, controle experimental voluntário dos efeitos subjetivos de novos fármacos, por ele mesmo sintetizados, produziu um dos mais vastos corpora de dados científicos relativos às fenetilaminas e às triptaminas. Durante um período nos anos 1980, o MDMA foi usado livremente por médicos e psicólogos, nos mais diversos tratamentos, com amplo sucesso, e até mesmo exaltado como “droga do amor”, por sua qualidade de intensificar a empatia humana, ou seja, muito mais do que um suposto “afrodisíaco”, ele intensificaria a dimensão afetiva das interações humanas.

Num mundo em que o sucesso comercial de “Viagras” e “Prozacs” esconde uma proibição injustificável de outras substâncias de uma utilidade e de um campo de aplicações vastíssimo, é preciso um esclarecimento das manipulações políticas e comerciais que impedem um uso mais adequado do imenso e maravilhoso arsenal que a farmacoquímica coloca ao alcance da humanidade. A dieta psicoquímica deveria ser encarada da mesma forma que a dieta alimentar. Tal distinção é puramente cultural, e a busca do bem-estar e de estados mentais atrativos constitui formas diferenciadas do consumo sensorial e de seus rituais. Tanto uma dieta alimentar como psicoquímica inadequada podem ser perniciosas e daninhas à saúde, aliás é exatamente o que ocorre na sociedade contemporânea em níveis alarmantes., As substâncias mais nocivas como o tabaco, o álcool ou os benzodiazepínicos são legais, enquanto que as antigas plantas de poder, veículos sagrados dos povos da terra e herança de um conhecimento botânico milenário, são proibidas. Seus princípios ativos, localizados pela análise química e depois sintetizados sem necessidade de matérias-primas vegetais pelo engenho da farmácia, sofrem proscrições e permanecem clandestinos até mesmo para os usos médicos. Após um século e meio de história da odisséia psiconáutica, o saber e o poder desses fármacos extraordinários ainda são perseguidos e ocultados.

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domingo, 17 de janeiro de 2010

Amanita Muscaria

O que é o Amanita Muscaria ?






O agário das moscas (Amanita muscaria) é uma das espécies de cogumelos que crescem na natureza em quase todo o hemisfério norte. Cresce em simbiose com árvores como o vidoeiro, o pinheiro ou o abeto, tanto na Europa como na América. Estes cogumelos são conhecidos pela sua aparência distinta: são vermelhos ou amarelos com pintas brancas. O agário das moscas está listado como venenoso na maioria das fontes micológicas, e o seu uso psicadélico não é comum devido a relatórios de experiências iniciais, onde os efeitos do cogumelo variavam de pessoa para pessoa e por vezes na mesma pessoa. Os cogumelos variam em potência, sendo por vezes eficazes e outras vezes não. Todavia têm sido usados tradicionalmente por várias culturas. O agário das moscas contém os químicos psicoactivos ácido iboténico e muscimo. Este cogumelo chama-se agário das moscas devido ao seu uso tradicional, quando misturado com leite, para afastar as moscas.

História :

10.000-0 AC: O livro Rig Veda (uma série de histórias sagradas e de encantamentos da Índia), menciona um intoxicante mágico chamado Soma. Em 1968, R. Gordon Wasson publica um livro controverso entitulado “Soma: O Cogumelo Divino da Imortalidade”, onde especula que Soma se refere ao agário das moscas.

4000 AC: Análises linguísticas sugerem que o agário das moscas era conhecido como substância intoxicante.

2000-1000 AC: Petroglífos ao longo do rio Pegtymel, que desagua no oceano Ártico no nordeste da Sibéria, "representam figuras antropomórficas com cogumelos anexados às suas cabeças". A área do rio Pegtymel é hoje em dia habitada pela cultura Chukchi, conhecida por ter usado o agário das moscas como substância inebriante.

100 DC: Uma estatueta em miniatura (7.5 cm) de um agário das moscas, datada de 100 DC e encontrada em Nayarit, no México, sugere que o agário das moscas pode ter sido usado no litoral mexicano. Muitas outras esculturas da América Central e do Sul representam o uso ritual de outras plantas e cogumelos psicoactivos.

0-1800 DC: Alguns historiadores escandinavos acreditam que os guerreios vikings Bezerks ingeriam o agário das moscas antes das batalhas.

1658 DC: Um prisioneiro de guerra polaco escreve sobre uma cultura do oeste siberiano (os Ob-Ugrian Ostyak, da região Irtysh) que "Eles comem certos fungos com a forma de agários das moscas, e por isso ficam mais embriagados que com vodka, e para eles essa é a melhor festa" – em "Diary of Muscovite Captivity", de Kamiensky Dluzyk, publicado em 1874, página 382.

1730: Um coronel sueco, Filip Johann von Strahlenberg, que passou 12 anos na Sibéria como prisioneiro de guerra, escreve um livro entitulado "An Historico-Geographical Description of the North and Eastern Parts of Europe and Asia", que inclui uma descrição detalhada da prática de ingestão da urina daqueles que comeram os cogumelos, de modo a reciclar os ingredientes psicoactivos.

1960-1965: O uso do agário das moscas aparece nas subculturas urbanas dos Estados Unidos, mas permanece raro pois muitos utilizadores reportam que os efeitos são desagradáveis.

Botânica :

"O agário das moscas cresce por toda a Europa e norte da Ásia e no oeste do Alasca. É um dos cogumelos do género Amanita mais facilmente (frequentemente) introduzidos com árvores importadas, por exemplo com plantações de pinheiros e eucaliptos. Parece ser capaz de crescer com muitos géneros de plantas.A espécie associa-se sobretudo ao vidoeiro e a várias coníferas, mas também se encontra em florestas mistas com outras árvores, em puras florestas de tílias (na Noruega), com o salgueiro rastejante (Salix repens) na ilha de Terschelling (na Holanda), e adaptou-se a viver com eucaliptos na Austrália e na Argentina " (R. E. Tulloss).

A sua capa tem 5-30 cm de diâmetro e a sua cor varia do vermelho vivo ao vermelho escuro, com um véu branco universal. Este véu universal cobre totalmente os cogumelos mais novos, forma protuberâncias ou pontos brancos nos cogumelos adultos, e pode eventualmente desaparecer com a idade. Estes pontos normalmente formam círculos concêntricos, embora também possam aparecer ao acaso. A cor pode desbotar drasticamente com a idade, especialmente se estiver directamente esposta à luz solar ou após muita chuva.

Química :

Os constituintes enteógenicos do agário das moscas são o ácido iboténico e possivelmente a muscazona (Ott). O muscimol parece ser o principal intoxicante. Após a ingestão, uma pequena quantidade de ácido iboténico descarboxila em muscimol, o que produz a intoxicação. Tomado oralmente, o ácido iboténico é enteogenicamente activo com 50-100 mg (Ott e Stafford).Tomado oralmente, o muscimol apresenta actividade com 10-15 mg.

Efeitos :

Segundo Johnathan Ott, "Os efeitos do agário das moscas são distintamente diferentes dos da psilocibina, do LSD, ou da mescalina. Caracterizam-se por movimentos ondulantes no campo da visão, uma qualidade “viva” nos objectos inanimados, alucinações auditivas, e uma sensação de grande estabilidade e clareza mentais. Euforia, ataxia, e alterações sensorias são habituais, sobretudo alterações na audição e no sabor. Efeitos visuais também se reportaram, assim como náuseas. O agário das moscas pode também produzir sintomas colinérgicos tais como “salivação profusa e transpiração ligeira”.

Uma das características principais do agário das moscas é ter efeitos inesperados. Uma vez ingerido o cogumelo, o efeito tanto pode levar-te ao céu como ao inferno. Por isso, deves estar absolutamente seguro da tua decisão ao tomares este cogumelo, e de preferência teres alguma experiência com substâncias enteogénicas. Todavia, o processo de secagem é muito importante para teres a certeza de que o cogumelo produz qualquer efeito: este processo transforma o ácido iboténico em muscimol, multiplicando a potência por 5 ou 6, e reduzindo os efeitos secundários prejudiciais".

Especialmente na Califórnia do norte, muitas pessoas afirmam que os cogumelos são fracos ou têm efeitos muito mais físicos do que mentais que os cogumelos “melhores” do norte da Europa e da Sibéria.

Uso Medicinal :

O agário das moscas sagrado têm sido usado tradicionalmente por xamãs para tratamentos espirituais e físicos. Os utilizadores ocidentais relatam uma analgesia significativa como um dos principais efeitos da ingestão do cogumelo. Segundo a sabedoria médica tradicional de Kamchatkan, na Rússia, três pedaços pequenos de “mukhomor” (nome russo do agário das moscas), ao serem comidos, dão um bom remédio para as dores de garganta.

Variedades :

Existem extractos de agário das moscas. Uma dose de extracto 10x é dez vezes mais forte que uma dose normal de cogumelos secos. Devido à sua textura delicada, é mais fácil tomares uma dose específica em vez de tentares descobrir quantas cabeças de cogumelos secos deves tomar.

Uso :

Estes cogumelos são normalmente comidos (e diz-se que o sabor é bastante bom). Secá-los bem é muito importante, mas se já foram secados há alguns meses perdem alguma potência. Fumar agário das moscas tem dado resultados satisfatórios: produz um efeito mais rápido, de duração mais curta. Mas, em geral, os efeitos quando fumados são menos fortes. "Se secaste o teu cogumelo podes simplesmente comê-lo, ou então usar o método de preparação com água quente, deixando a água quase ferver, sem borbulhar, a cerca de 190 graus, e juntar-lhe os cogumelos. Deixa-os cozer na água durante cerca de meia-hora, e depois consome a água e os cogumelos. Para aqueles que não suportam o sabor dos cogumelos secos ou do chá, o método das cápsulas de gelatina pode funcionar melhor. Simplesmente mói os cogumelos secos, e enche as cápsulas de gelatina vazias. Como a maioria dos alcalóides residem logo abaixo da pele das cabeças, pode valer a pena tentares descascar a cabeça dos cogumelos frescos e secá-la, ou então removeres as guelras (parte por baixo da cabeça) dos cogumelos secos, para reduzires a quantidade a consumir" (Michael S. Smith).

Dose: 5 gramas ou menos de cogumelos secos é um bom ponto de partida, que pode ser gradualmente aumentado de acordo com os teus desejos. Considera-se que uma dose normal são 5 - 10 gramas (1 - 3 cabeças médias) e uma dose forte 10 - 30 gramas (2 - 6 cabeças médias). Normalmente os primeiros efeitos podem sentir-se durante a primeira meia-hora e variam de pessoa para pessoa, mas o aumento da dose é aconselhável apenas quando se atinge a totalidade dos efeitos, cerca de 2 horas após a ingestão. A duração da trip é entre 4 a 10 horas.

Avisos :

Devido aos seus efeitos imprevisíveis e à sua potência altamente variável, não se recomenda que tomes o agário das moscas se não tens qualquer experiência com cogumelos psicoactivos.Existem muitas espécies de cogumelos do género Amanita que não são psicoactivos. Alguns são venenosos (e mortais) e outros comestíveis. Têm todos um aspecto semelhante ao agário das moscas, por isso quando decidires consumir estes cogumelos deves ter a certeza absoluta que tens o cogumelo certo.

Assim como com outras substâncias enteogénias, toda a gente reage de maneira diferente à ingestão do agário das moscas. Estes cogumelos podem ser ainda mais variáveis em efeito devido a que cada corpo metaboliza o ácido iboténico em muscimol de maneira diferente. Muitas pessoas não apreciam os efeitos do agário das moscas.

Contra-Indicação :

Os efeitos secundários incluem naúseas, ligeira perda de equilíbrio e de coordenação, e sonolência.

Cultivo :

"O cultivo do agário das moscas em laboratório foi sempre impossível devido à relação simbiótica de micorrizas do cogumelo com a planta que o suporta. Mas se tiveres as plantas necessárias na sua área, e residires na zona temperada ou elevação necessária, podes tentar usar algumas cabeças secas que estejam prontas para soltarem os esporos (completamente direitas ou viradas para cima, com cortes longitudinais ao longo das estrias), mói-as muito bem, e mistura os farelos à parte de cima da terra. Espera que pegue. Se não quiseres desperdiçar as cabeças secas, corta os caules de espécimes prontos para soltarem os esporos, que terão naturalmente recolhido alguns dos esporos que já caíram, e mistura na terra. Segundo o Erowid, o crescimento do micélio dá-se sobretudo durante os meses da primavera e do verão, e depende grandemente da chuva e da humidade do solo que precede o florescimento no outono. Se a época for demasiado seca, rega o teu jardim de cogumelos duas vezes por semana" (Michael S. Smith).

Armazenamento :

Os cogumelos secos podem ser guardados durante muito tempo; apenas após alguns meses a sua potência diminuirá.

Referências :

Experiences no Erowid

Chemistry and Effects of Entheogenic Amanita Species por J. Ott

Mycopharmacological Outline and Personal Experiences por F. Festi & A. Bianchi

Excerpt on Amanita muscaria from "The Hallucinogens" por A. Hoffer & H. Osmond

Erowids Brief History of Amanita muscaria

Amanita Notes por Michael S. Smith

AMANITA MUSCARIA: Mycopharmacological Outline and Personal Experiences

The Genus Amanita Pers. (Agaricales) (incluindo a imagem superior desta página)

Erowids General Info on Amanita muscaria

Erowids More Info on Amanita muscaria

Muscaria.com (imagem do livro Soma)

A internet e a comunidade psicodélica

Como a internet alimenta a comunidade psicodélica global


Neste ano e no próximo, as Nações Unidas irão avaliar a guerra contra as drogas. Desde o seu início em 1998, temos sido bombardeados com estatísticas oficiais sobre o uso das drogas, da dependência, do tráfico, dos preços do mercado negro, dos casos de tribuna, e tantas outras. Mas o que nos diz esta informação? As drogas são más, são caras, são viciantes, as drogas são crime. Estes números obviamente mostram-nos que as drogas, apesar da sua má reputação, fazem inegavelmente parte da sociedade.



Vou falar mais detalhadamente sobre uma categoria de drogas que não é mostrada nas estatísticas fornecidas pelas instituições de controle oficiais, as quais estão mais preocupadas com drogas como a cocaína e a (meta)anfetamina. As drogas da categoria que eu vou descrever têm muito em comum: são 100% naturais, legais na sua maior parte, não criam dependência, permitem uma expansão do consciente que pode descrever-se como uma experiência espiritual, são usadas por um número crescente de jovens, e vendem-se sobretudo na internet. Como posso ter a certeza disto tudo se as estatísticas não fornecem informação sobre o assunto? É simples: a internet demonstra-o.
DROGAS LEGAIS :
Na lista há sementes de plantas com nomes exóticos tais como a trepadeira-elefante e a glória-da-manhã. Podes comprar ingredientes para poções xamãs poderosas tais como a Ayahuasca, e outros sacramentos indígenas das profundezas da Amazónia. Há também ervas relaxantes tais como a erva de são joão, a valeriana, a lótus azul, ervas estimulantes como a kratom, e ervas alucinógenas que ganharam recentemente má reputação entre os preocupadíssimos pais americanos, tais como a Salvia divinorum. Existem inúmeros vendedores na internet que oferecem estes produtos psicodélicos legais na sua forma natural, ou seja, plantas e ervas. Ao trabalhar para um destes fornecedores, testemunhei o aumento contínuo das vendas e dos seus clientes habituais desde 1999. Também testemunhei um aumento contínuo do número de concorrentes, e um igual aumento das suas vendas. Alguns deles mantêm um sortido de centenas de produtos psicodélios naturais: outros focam apenas numa droga em moda que seja fácil de obter e de vender.
A GRANDE REDE GLOBAL :
Parece que a internet tem exatamente as qualidades essenciais para a formação de uma extensa comunidade psicodélica global. Mais que qualquer outro fenómeno social não mediático, o uso de substâncias psicodélicas é alimentado pelos maiores sucessos da internet: o acesso a informação imparcial, a comunicação interactiva, e o comércio virtual. A informação direta dos utilizadores experientes provou-se essencial para quem deseja experimentar drogas pela primeira vez. O Erowid, com 45.000 documentos, em geral considerado a fonte de informação virtual mais extensiva sobre substâncias psicodélicas, foi um dos primeiros websites que percebeu a importância da informação dada pelos utilizadores. Alguns relatórios de trips podem informar-te melhor sobre as armadilhas e os potenciais de cada droga que a maior parte dos textos educativos estáticos e moralistas. Mas há mais sobre a rede psicodélica que popula densamente a internet: numerosos blogues, fascinantes trabalhos artísticos, notícias sobre pesquisas sobre substâncias psicadélicas, podcasts com palestras de “gurus” como Terence McKenna e vídeos de, por exemplo, eventos psicodélicos como o festival Burning Man.
A relação entre as substâncias psicodélicas, o comércio e os computadores é já de si interessante. Os desenhos hippies “tripantes” nunca perderam o impacto no desenho gráfico moderno. A gráfica, a animação e a realidade virtual dos computadores foram sempre marcadas por padrões psicodélicos. E embora o festival Burning Man costumasse ser carimbado como “demasiado hippie para mencionar”, é hoje em dia considerado um extremo de criatividade, liberdade e felicidade pelos numerosos trabalhadores do Vale Silicone e pelos executivos da Wall Street que se juntam ao desfile dos artistas cósmicos.
PROBLEMAS E DESAFIOS DAS VENDAS PELA INTERNET :
A venda de produtos psicodélicos naturais não é tão natural como pode parecer, pelo menos na maioria dos países. Hoje em dia vendem-se e comercializam-se os psicodélicos naturais (e toda a sua parafernália) de acordo com o uso verdadeiro apenas em alguns países. Nos anos 70 costumavam estar disponíveis na obscuridade das lojas de fumos londrinas e no bairro vermelho de Amesterdão. Foi nos princípios dos anos 90 que a Conscious Dreams abriu a primeira “smart shop” em Amesterdão, uma loja com drogas 100% naturais e legais para adultos. Os comprimidos energéticos sem substâncias químicas e os chamados “cogumelos mágicos”, à venda legalmente pela primeira vez em 1994, foram os maiores sucessos. Espanha, Itália e outros países seguiram-se. A Azarius, também holandesa, foi a primeira “smart shop” europeia a vender pela internet. Pessoas do mundo inteiro podem comprar produtos naturais e obter informação sobre o seu uso e história. No entanto, as coisas são um pouco complicadas para estas lojas virtuais que funcionam dentro do sistema legal. São necessárias restrições de envio, mas descobrir o que se pode e não pode enviar para um determinado país ou estado é difícil, devido às leis nacionais pouco claras e frequentemente alteradas. Por exemplo, se é legal vender um extrato de determinada planta, isto aplica-se também às suas sementes, aos seus frutos e à forma sintetizada da sua substância ativa? Para evitar problemas legais, a maioria das lojas não comercializa os seus produtos como bens de consumo. Infelizmente isto não torna as coisas mais seguras para o consumidor, que, consequentemente, não recebe informação sobre a dosagem ou outras instruções sobre os produtos encomendados. Mas a solução para este problema é-nos dada também pela liberdade e neutralidade da internet, onde toda a informação pode ser encontrada com alguns cliques de mouse.
Aplicações sociais tais como fóruns, sites de book marking, comunidades, e redes online mostram-nos que o movimento psicodélico não é uma subcultura separada, mas um movimento perfeitamente integrado na sociedade. Existem os grupos Facebook e MySpace direcionados ao uso de substâncias enteógenas, o Amazon pode ajudar a encontrar bastantes estantes com trabalhos sobre substâncias psicodélicas, e até o teu vizinho pode ter marcado uma sessão de ayahusca durante a sua viagem à América do Sul. Toda a gente pode ser um psiconauta. Embora ainda falemos de um nicho que lida com grande opressão política e religiosa, este está tão vivo e em expansão como a própria internet.
- Jakobien van der Weijden
SITES :