Psicodélico: Junho 2007

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Variedades das Experiências Transpessoais: Observações da Psicoterapia com LSD.

Variedades das Experiências Transpessoais: Observações da Psicoterapia com LSD.
Stanislav Grof, PhD
Maryland Psychiatric Research Center
Journal of Transpersonal Psychology, Vol. 4, N. 1, 1972, p. 45-80.
Extraído do Pequeno Tratado de Psicologia Transpessoal - Experiência Cósmica e Psicose - Volume 5/IV , p. 63-108,
Editora Vozes, 1978
INTRODUÇÃO
Até recentemente as estruturas teóricas da psiquiatria e da psicologia eram baseadas nas observações de um número muito limitado de fenômenos mentais e de experiências humanas. Deu-se muito pouca atenção séria e sistemática a uma variedade de fenômenos descritos através dos séculos dentro das estruturas das grandes religiões mundiais, como também nos mistérios templários, religiões misteriosas, ritos de iniciação e em várias escolas místicas. Existe uma tendência dentro da ciência contemporânea de rotular tais experiências de simplesmente psicóticas e a considerá-las como manifestações de doenças mentais, porque experiências semelhantes ou idênticas podem freqüentemente ser observadas em pacientes esquizofrênicos. No passado, tal classificação quase impediu o estudo científico não tendencioso destes fenômenos e a aceitação de sua possível importância para a compreensão da personalidade humana e da natureza do homem. Quando se tentava um estudo desse tipo, ele freqüentemente focalizava aspectos periféricos e os pesquisadores ofereciam hipóteses inadequadas, muitas vezes superficiais. Pode-se ilustrar isso melhor pelas tentativas de Freud de explicar os fenômenos religiosos: obviamente subestimando o papel preponderante de experiências visionárias diretas para o desenvolvimento das religiões, ele equacionou a religião com rituais simbólicos e tentou explicá-la em termos de conflitos não resolvidos da psique infantil e em termos da sexualidade infantil (Freud, 1952).
Nesta situação, somente alguns poucos investigadores excepcionais tiveram a capacidade de fazer trabalhos pioneiros na exploração de certos territórios da mente humana até agora não mapeados pela psiquiatria e psicologia ocidentais. O livro de William James (1902) sobre as variedades das experiências religiosas, e o de Margharita Laski (1962) sobre o êxtase tornaram-se clássicos neste campo. Roberto Assagioli, fundador da psicossíntese (Assagioli, 1965), reconheceu as experiências acima mencionadas e as integrou num sistema global de teoria da personalidade e de psicoterapia. Abraham Maslow (1969) construiu os alicerces de uma nova concepção da psicologia e da natureza do homem, baseada nas observações de experiências culminantes de ocorrência espontânea. Nesta abordagem, estas experiências são consideradas como supranormais, mais do que fenômenos patológicos, e possuem importantes implicações para a teoria da individução (Maslow, 1964). A tentativa mais famosa e sistemática de uma revisão dos nossos conceitos das dimensões da personalidade humana foi feita por Carl Gustav Jung, o fundador da psicologia analítica (Jung, 1959). Dentro de seu sistema, ampliou-se consideravelmente o limitado conceito de inconsciente humano descrito por Freud, englobando o inconsciente coletivo e racial, e uma variedade de padrões experienciais primordiais e transindividuais, ou seja, os arquétipos.
A última década foi um período de modificações bastante decisivas no campo da psicologia e da psiquiatria, na teoria e na prática. A experimentação com substâncias psicodélicas, tanto quanto o seu abuso amplamente disseminado, faz com que os profissionais se defrontem com uma variedade de observações e de experiências para as quais as estruturas teóricas existentes parecem limitadas e inadequadas. Simultaneamente, desenvolveram-se técnicas terapêuticas revolucionárias, como a psicoterapia gestáltica, a bioenergética, os grupos de encontro e os de maratona e de "nude marathon", etc. Essas novas técnicas têm a capacidade de induzir, num espaço de tempo relativamente curto, uma variedade de experiências que somente eram observadas de modo pouco freqüente e excepcional na psicoterapia convencional orientada psicanaliticamente. Algumas dessas experiências têm uma semelhança impressionante com os fenômenos que ocorrem em sessões psicodélicas ou que são descritos por várias religiões e sistemas místicos. Além disso, desenvolveram-se diversas técnicas de laboratório, através das quais podem-se produzir experiências semelhantes com um grau de coerência razoável. Tais técnicas incluem, por exemplo, a privação ou sobrecarga sensorial, o emprego de feedback de ondas alfa e teta para o controle voluntário de estados internos, novas modificações da hipnose, o uso de vários aparelhos sinestésicos, etc. O quadro desse período de transformação e fermentação na psicologia e na psiquiatria estaria incompleto, se não mencionássemos o aumento de interesse impressionante que existe nos antigos sistemas religiosso e nas disciplinas espirituais orientais, tanto entre os profissionais da "saúde mental" quanto entre os leigos.
Estes esforços isolados começaram a convergir nos últimos cinco anos, e foram lançados os alicerces para uma abordagem interdisciplinar do estudo da consciência. As Conferências sobre o Controle Voluntário dos Estados Internos, realizadas anualmente em Council Grove, Kansas, tornaram possível um encontro para trocas de informações entre os pesquisadores de diversas disciplinas científicas interessados no estudo dos estados alterados da consciência. Além disso, fizeram-se as primeiras tentativas de formulações preliminares neste novo campo científico. Criaram-se duas novas revistas que focalizavam sobretudo publicações nessa área, o Journal for the Study of Consciousness e o Journal of Transpersonal Psychology. Nos últimos anos, vários dos principais encontros profissionais tiveram sessões dedicadas especificamente a conferências e painéis sobre a assim chamada psicologia transpessoal.
Entretanto, a despeito do fato dos termos experiências transpessoais e psicologia transpessoal terem sido usados bastante freqüentemente em diversos artigos e discussões profissionais, que eu saiba, não se fez nenhum esforço sistemático no sentido de definir e descrever as experiências transpessoais. No presente artigo, eu gostaria de fazer uma tentativa neste sentido, usando as observações de minha pesquisa com o LSD.
Por mais de quinze anos, a pesquisa experimental na psicoterapia com o emprego do LSD e de outras substâncias psicodélicas foi a principal área de meu interesse profissional. Durante esses anos, dirigi pessoalmente mais de 2.000 sessões psicodélicas, e além disso, tive o privilégio de acesso a gravações de mais de 1.300 sessões realizadas por meus colegas na Europa e nos Estados Unidos. A maioria dos sujeitos destas sessões foram pacientes portadores de uma grande variedade de problemas emocionais, tais como psiconeuroses sérias, problemas psicossomáticos, psicoses fronteiriças e diversas formas de esquizofrenia, distúrbios sexuais, alcoolismo e vícios em narcóticos. Uma outra ampla categoria destes sujeitos foi a dos voluntários "normais" - psiquiatras, psicólogos, estudantes e enfermeiras que pediram sessões psicodélicas para fins de treinamento; pintores, escultores e músicos buscando inspiração artística; filósofos e cientistas de diversas disciplinas interessados nos insights que as experiências psicodélicas têm para oferecer; e padres e teólogos que queriam explorar as dimensões místicas e religiosas destas experiências. Uma pequena parcela das sessões foi realizada com pacientes que sofriam de uma doença terminal e se defrontando com uma morte iminente, pricipalmente paciente cancerosos (Grof e outros, 1971).
Durante os primeiros anos de minha pesquisa com LSD, quando eu trabalhava na Psychiatric Research Institute em Praga, a maioria dos sujeitos recebia repetidas dosagens médias de LSD (100-250ug), dentro da estrutura da psicoterapia com orientação psicanalítica ( a abordagem psicolítica). No tratamento psicolítico, as sessões de LSD são dadas após duas ou três semanas de psicoterapia preparatória. Uma série psicolítica consiste de 15-80 sessões, geralmente com um intervalo de 1-2 semanas entre elas. Uma ajuda psicoterapêutica intensiva é oferecida ao paciente durante as sessões, como também nos intervalos entre elas. Este método representa uma intensificação e aceleração da psicoterapia dinâmica. De acordo com a natureza do material inconsciente emergente, podem ser usadas as abordagens freudiana, rankiana ou junguiana em vários estágios do tratamento. Desde 1967, quando eu vim para os Estados Unidos, tenho usado principalmente altas dosagens de LSD (300-500ug) num ambiente e numa perspectiva especiais, que visam a facilitação de uma experiência religiosa (a abordagem psicodélica). Nesta última abordagem, o uso de vendas, de fones estereofônicos e de músicas especialmente selecionadas, foi uma parte importante no processo de tratamento.
Gastei muitas horas estudando e analisando o material das sessões de LSD obtido nesta pesquisa. Em diversos artigos (Grof, 1970a, b, c, 1971) e num livro a ser publicado (Grof, em preparo), tentei conceitualizar algumas das observações clínicas que parecem facilitar a compreensão da reação ao LSD e que têm relação com a teoria da psicoterapia e com a teoria da personalidade. Nestes artigos, mencionei e descrevi brevemente uma variedade de experiências transpessoais que são sem dúvida os fenômenos mais interessantes observados em sessões psicodélicas. Devido à natureza destas publicações prévias, não foi incluída nelas uma discussão sistemática e detelhada das experiências transpessoais.
UMA DEFINIÇÃO DE EXPERIÊNCIA TRANSPESSOAL
Parece apropriado introduzirmos uma discussão das experiências transpessoais, tentando defini-las e descrevê-las. Assim, a experiência transpessoal é definida como uma experiência que envolve uma expansão ou extensão da consciências além das limitações usuais do ego e das limitações de tempo e espaço.
No estado de consciência "normal", ou usual, o indivíduo passa pela experiência de existir dentro dos limites de seu corpo físico (imagem corpórea), e sua percepção do meio ambiente é limitada pelo alcance fisicamente determinado de seus exteroceptores; tanto a sua percepção interna quanto a sua percepçao do meio ambiente estão confinadas dentro das limitações de espaço e tempo usuais. Nas experiências psicodélicas transpessoais, uma ou várias dessas limitações parecem ser transcendidas. Em alguns casos, o sujeito experiencia um "afrouxamento" de suas limitações do ego usuais, e sua consciência parece expandir-se de modo a incluir outros indivíduos e objetos do mundo exterior. Em outros casos, ele continua a experienciar a sua própria identidade, mas num tempo diferente, num lugar diferente, num contexto diferente. Ainda em outros casos, o sujeito experiencia uma perda total de sua própria identidade do ego e uma total identificação com a consciência de outra entidade. Finalmente, numa categoria bastante ampla destas experiências psicodélicas transpessoais (experiências arquétipas, encontros com divindades bem-aventuradas ou coléricas, união com Deus, etc.), a consciência do sujeito parece incluir elementos que não possuem nenhuma continuidade com a sua identidade do ego usual e que não podem ser considerados como simples derivativos de suas experiências no mundo tridimensional.
Desde que o conceito da consciência normal ou usual foi introduzido na discussão acima, parece apropriado mencionarmos a relação entre os assim chamados estados alterados da consciência e as assim chamadas experiências transpessoais. Embora haja uma superposição considerável entre estas duas categorias de experiências, elas não parecem ser totalmente idênticas. O termo estados alterados da consciência inclui as experiências transpessoais, mas existem certos tipos de experiências que podem ser classificados de estados alterados da consciência, mas que não atingem o critério para serem transpessoais. Por exemplo, uma revivência vivida e complexa de uma memória infantil ocorre num estado alterado de consciência, mas não é necessariamente uma experiência transpessoal. O mesmo é verdade, por exemplo, para vários jogos de fantasias e experiências simbólicas resultantes do uso de técnicas de fantasias afetivas induzidas. De modo semelhante, uma experiência primariamente estética, envolvendo visões de cores, de padrões ornamentais e de estruturas geométricas, em sessões psicodélicas, deveria ser rotulada como um estado alterado da consciência, mas não alcançaria os critérios necessários para ser considerada uma experiência transpessoal, como ela foi acima definida.
DESCRIÇÃO, DISCUSSÃO E ALGUNS EXEMPLOS CLÍNICOS
No texto que se segue, as experiências transpessoais que ocorrem em sessões psicodélicas com o LSD e outras substâncias serão descritas brevemente, discutidas e algumas delas serao ilustradas com exemplos clínicos. Surge naturalmente a questão em que extensão a definição e a descrição das experiências transpessoais de sessões psicodélicas podem ser aplicadas a experiências transpessoais ocorrendo sob circunstâncias diferentes. Toda a evidência clínica e experimental indica que as drogas psicodélicas são, mais provavelmente, catalisadores ou amplificadores inespecíficos que ativam níveis profundos do inconsciente humano. Neste sentido, eles são verdadeiramente agentes "manifestadores mentais", e podem ser considerados como ferramentas importantes para a investigação da mente humana. Do ponto de vista fenomenológico, não parece possível distinguir as experiências de sessões psicodélicas de experiências semelhantes ocorrendo sob circunstâncias diferentes, tais como casos do assim chamado misticismo espontâneo, experiências induzidas por diversas práticas espirituais e fenômenos induzidos por novas técnicas de laboratório. A natureza multifacetada e a intensidade das experiências psicodélicas tornam possível um exame das inter-relações complexas mútuas entre diversas categorias de experiências transpessoais, e o estudo de vários padrões experienciais naturais. Parece haver uma boa razão para acreditarmos que a descrição e eventual classificação das experiências transpessoais a partir dos dados da pesquisa psicodélica serão relevantes, do mesmo modo que os esforços semelhantes, realizados a partir dos dados da experiência transpessoal obtidos sob uma variedade de condições que não utilizam drogas.
Experiências perinatais
Diversos tipos importantes de experiências transpessoais podem ser denominados como experiências perinatais, devido ao fato de que muitos sujeitos de LSD as associaram ou relacionaram às circunstâncias do nascimento biológico. Do ponto de vista lógico, elas deveriam ainda ser consideradas experiências pessoais, pois refletem a histório biológica inicial do indivíduo. Contudo, existem diversas razões para as rotularmos de experiências transpessoais. Elas são relacionadas a períodos do desenvolvimento iniciais, que tradicionalmente são considerados como estando além da possibilidade do registro na memória ou da recordação. A revivência pictórica complexa e vívida (comparada a uma mera recordação) é, em si mesma, um fato que está além do domínio usual da experiência pssoal. Além disso, a reexperienciação biológica e emocional de várias facetas do trauma do nascimento representa somente um dos aspectos importantes das experiências perinatais. Os sujeitos de LSD que experienciam diversos padrões perinatais descrevem com bastante consistências que eles são acompanhados por outras importantes categorias de experiências transpessoais, tais como a experiência da morte e renascimento espiritual, do encontro com imagens arquetípicas da Mãe Terrível e da Grande Mãe, elementos do inconsciente coletivo e racial, identificação com outras pessoas ou grupos de pessoas, etc. No texto que se segue, as experiências perinatais transpessoais serão descritas numa seqüência correspondente aos estágios do parto, dos quais eles podem ser logicamente derivados. O hipotético significado das experiências perinatais para a teoria da personalidade e para a psicopatologia foi delineado em publicações anteriores, e expresso no conceito das assim chamadas Matrizes Perinatais Básicas (MPB) (Grof, em preparo).
Experiência de unidade cósmica
Esta importante experiência transpessoal parece estar relacionada à união primal com a mãe, com a condição original da existência intra-uterina, durante a qual a criança e sua mãe formam uma unidade simbiótica. Os sujeitos de LSD relacionaram freqüentemente esta experiência ao "ventre agradável" ("good womb"), uma experiência intra-uterina na ausência de estímulos nocivos. Numa tal situação, as condições para a criança são ótimas, envolvendo seguraça, satisfação de todas as necessidade e sentimentos indiferenciados de êxtase. As características básicas desta experiência são a transcendência da dicotomia sujeito-objeto, afeto positivo excepcionalmente forte (paz, tranqüilidade, serenidade, bem-aventuraça), um sentimento especial do sagrado, a transcendência do espaço e do tempo, experiência do ser puro ("eternidade agora e infinito aqui"), e uma riqueza de insights de relevância cósmica. Este tipo de êxtase mesclado a uma libertação de tensões pode ser denominado "êxtase oceânico". De olhos fechados, a unidade cósmica é experienciada como um complexo padrão experiencial complexo. De olhos abertos, ela resulta numa experiência de fusão com o meio ambiente e de unidade com os objetos percebidos. É basicamente esta experiência que Walter Pahnke descreve em suas categorias místicas (Pahnke e Richards, 1966) e à qual Abraham Maslow se refere como "experiência culminante" (Maslow, 1969). Nas sessões psicodélicas, ela parece estar intimamente relacionada às experiências do "ventre agradável", às experiências do "seio agradável" e a felizes memórias infantis. Ela parece ser também a porta para uma variedade de outras experiências transpessoais, tais como memórias ancestrais, elementos do inconsciente coletico e racial, memórias evolutivas, experiências arquétipas, etc.
Experiência de engolfamento cósmico
Este padrão experiencial parece estar relacionado ao ínicio do parto. O equilíbrio e a harmonia prévias da existência intra-uterina são perturbados inicialmente por diversos sinais de alarme de uma natureza bioquímica e fisiológica, e mais tarde por contrações musculares mecânicas. Esta situação é experienciada subjetivamente como uma ameaça iminente de um perigo vital. Há uma alta carga de ansiedade, mas sua fonte não pode ser identificada, e a atmosfera de perigo traiçoeiro pode resultar numa ideação paranóide. O sujeito do nível adulto, não poucas vezes descreve a experiência de más influências provenientes de membros de organizações secretas, de habitantes de outros planetas, de radiações nocivas, gases, etc. A intensificação desta experiência resulta tipicamente na visão de um sorvedouro gigantesco e irresistível, de um Maelstrom cósmico sugando implacavelmente para seu centro o sujeito e seu mundo. Uma variação experiencial freqüente deste engolfamento perigoso é a experiência de estar sendo engolido e incorporado por um monstro terrível (tal como um dragão gigantesco, um pitão, um polvo, uma baleia ou uma aranha, também gigantescos). Uma forma menos dramática da mesma experiência parece ser o tema da descida ao submundo e o encontro com várias divindades monstruosas.
Experiência "sem saída" ou infernais
Esta experiência pode logicamente ser relacionada ao primeiro estágio clínico do parto, quando as contrações uterinas prejudicam o feto e causam a sua constrição total, mas o colo uterino ainda está fechado e o caminho de saída ainda não está aberto. Esta experiência é geralmente caracterizada por um escurecimento admirável do campo visual e por cores bastante sinistras e ominosas. Os sujeitos sentem-se enjaulados e presos numa situação claustrofóbica sem saída e experienciam incríveis torturas psicológicas e físicas. De modo típico, esta situação é totalmente insuportável e ao mesmo tempo parece ser uma situação sem fim e sem esperanças; não pode ser vista nenhuma possibilidade de escapar nem no tempo nem no espaço. Os sujeitos sentem tipicamente que mesmo o suicídio não poderia acabar com ela e trazer alívio.
A experiência de agonia geralmente possui muitos fenômenos biológicos concomitantes (batimento cardíaco, problemas respiratórios, sentimentos de opressão generalizada, suores abundantes) e é usualmente acompanhada pelo medo da morte. Este encontro imediato e profundo com a morte tem duas consequências típicas: a abertura de áreas de experiências religiosas intrínsecas à composição da personalidade humana, que não estão relacionadas à educação e ao background anteriores; e uma crise existencial dolodosa, onde todos os valores da vida humana e o próprio significado da vida são seriamente questionados.
Este padrão experiencial pode ser experienciado em diversos níveis diferentes. Estes níveis podem ser experienciados separada, simultânea ou alternadamente. O nível mais profundo se relaciona a várias concepções de inferno - uma situação de sofrimento intolerável que nunca abará, como tem sido descrito por várias religiões do mundo. Numa versão mais superficial do mesmo padrão experiencial, o sujeito olha para a situação neste mundo e vê nosso planeta como um lugar apocalíptico, cheio de terror, sofrimentos, guerras, epidemias, acidentes e catástrofes naturais. A existências neste mundo parece não possuir nenhum significado, ser sem sentido e absurda, e a busca de qualquer significado para a vida humana parece ser completamente fútil. O mundo e a existência humana são vistos destorcidos como que através de uma folha de estêncil pelo lado negativo: o sujeito parece estar cego diante de quaisquer aspectos positivos da vida. Na forma mais superficial desse padrão experiencial, o indivíduo vê a sua própria situação concreta da vida, conforme padrões circulares e como completamente intolerável e cheia de problemas insolúveis.
Sentimentos de agonia, de solidão metafísica, de alienação, desamparo e desesperança, inferioridade e culpa são uma parte estandardizada dessas experiências. O simbolismo que mais freqüentemente acompanha este padrão experiencial, envolve a crucifixão e o sofrimento de Cristo ("Pai, por que me abandonaste?") e suas viões no Jardim de Getsêmani; a história bíblica da expulsão do Paraíso; imagens dos infernos de várias religiões; o conceito da Noite Negra da Alma; figurar mitológicas gregas pertencentes ao Hades (Sísifo, Tântalo, Íxon, Prometeu, etc.), do mesmo modo que a concepção de Buda do sofrimento, tal como é expressa nas suas Quatro Nobres Verdades.
A característica mais importante que diferencia este padrão do que vem a seguir é a ênfase exclusiva no papel da vítima e o fato de que a situação é insuportável, inescapável e eterna - não há uma saída nem no tempo nem no espaço.
Experiência do conflito morte-renascimento
Muitos aspectos deste padrão experiencial podem ser compreendidos se os relacionarmos ao segundo estágio do parto. Neste estágio, continaum as contrações uterinas, mas o colo uterino está completamente aberto, e ocorre a propulsão gradual e difícil através do canal do nascimento. Além de uma luta enorme pela sobrevivência, há pressões mecânicas esmagadoras e um alto grau de sufocação. Nas fases terminais do parto, o feto pode experienciar o contato imediato com uma variedade de materiais biológicos, tais como sangue, muco, líquido fetal, urina e até mesmo fezes.
Do ponto de vista experiencial, este padrão é bastante complexo: ele comporta uma variedade de fenômenos de níveis diferentes que podem ser colocados numa sequência experiencial típica. A característica mais importante deste padrão é a atmosfera de uma luta titânica. Experiencia-se a condensação e a libertação explosiva de uma energia imensa, e o sujeito descreve sentimentos de poderosas correntes de energia fluindo através de todo o seu corpo. As visões típicas que acompanham estas experiências envolvem várias imagens geométricas dinâmicas em ricas cores, vulcões ou bombas atômicas explodindo, explosões de mísseis, fogos gigantescos, cenas de guerra dramáticas, destruição, usinas de força, estações hidroelétricas, linhas elétricas de alta tensão e descargas luminosas, fogos de artifício cósmicos, etc. Uma forma mais suave deste padrão experiencial incluiria cenas de batalhas selvagens, revoluções e aventuras de exploração (tais como a conquista de novos continentes ou a corrida espacial).
Um outro aspecto importante deste padrão experiencial pe uma excitação sexual excessiva, mesclada freqüentemente com uma agressão intensa. Estas experiências podem ser acompanhadas por fantasias ou figuras abstratas com um sentido sensual e sexual, ou por cenas bastante complexas de orgias selvagens, de festas lascivas, danças rítmicas sensuais, hárens, etc. Bastante freqüentes são as visões de orgias sadomasoquistas, com enormes descargas de energia agressiva, tais como visões de assassinatos sanguinários, torturas e crueldade de todos os tipos, execuções, multidões religiosas fanáticas mutilando-se a si mesmas e a outras pessoas, atmosferas de batalhas violentas e de revoluções sangrentas.
Diversas caracteríscias importantes deste padrão experiencial o distinguem da experiência "sem saída" já mencionada. Aqui a situação não é desesperadora, e o sujeito também não está desesperado; empenha-se ativamente e tem o sentimento de que seu esforço tem uma certa direção e objetivo, e de que o seu sofrimento possui um certo significado. Em termos religiosos, esta situação, portanto, estaria mais próxima do conceito de purgatório do que do de inferno. Além disso, o sujeito não desempenha exclusivamente o papel de vítima desesperada; ele é um observador e pode ao mesmo tempo se identificar simultaneamente ou alternadamente com amnos os lados. Com freqüencia, ele dificilmente pode distinguir se é o agressor ou a vítima. Enquanto a situação sem saída representa um sofrimento absoluto, a experiência do conflito morte-renascimento representa o limiar entre agonia e êxtase e a fusão de ambos. Parece apropriado referirmo-nos a este tipo de experiência como "êxtase vulcânico", em contraste como "êxtase oceânico" da união cósmica.
A este respeito, deveriam ser mencionados dos aspectos adicionais, ambos pertencendo aos estágios finais deste conflito, e que precedem imediatamente a experiência do próprio renascimento. O primeiro deles é freqüentemente descrito como a passagem através de um fogo purificador e rejuvenescedor, que destrói tudo aquilo que está podre e corrompido no indivíduo, preparando-o para fazer a experiência do renascimento. O segundo é de natureza escatológica, e inclui encontros bastante desagradáveis com várias formas de material biológico repulsivo, tal como fezes, urina, suor, sangue menstrual, produtos de putrefação, etc. Aqui entram não só elementos visuais e táteis, como também a percepção olfativa e gustativa: o sujeito experiencia o comer fezes, o beber sangue ou urina, o chupar feridas abertas em putrefação, etc. É interessante mencionarmos a este respeito os paralelos de longo alcance entre estas experiências psicodélicas e elementos de várias religiões misteriosas, mistérios templários e ritos de iniciação. Os testes pelo fogo e por material repulsivo são elementos bastante freqüentes nestes últimos. Por exemplo. a seqüencia de situações nas iniciações da tradição hermética supunha um encontro pertubador com a morte iminente, teste pelo fogo, teste por material oleoso e impuro, e tentação pela sedução sexual (Schure, 1961).
O simbolismo religioso do padrão experiencial do conflito morte-renascimento está relacionado às religiões que glorificam ou empregam o sacrifício sanguinário como parte de suas cerimônias. Visões bastante freqüentes são aquelas de cenas do Antigo e Novo Testamentos (a crucifixão, Moisés e as tábuas dos Dez Mandamentos, Abraão e Isaac), cenas do culto a Moloque, Baal, Astarte, ou Cáli, imagens de cerimônias de várias culturas pré-colombians com sacrifício e auto-sacrifício, tais como nas religiões asteca, maia ou olmeca, etc. Visões de rituais religiosos e de cerimônias envolvendo sexo e/ou danças rítmicas selvagens são também freqüentes ilustrações do conflito renascimento; elas incluem uma ampla gama de cenas relacionadas com o culto de Cibele, a várias seitas fálicas e às religiões tribais dos aborígenes. Um símbolo freqüente associado ao fogo purificador é o do pássaro mitológico Fênix; ocasionalmente, o aspecto escatológico do conflito do renascimento é simbolizado por cenas tais como a de Hércules limpando o estábulo de Augias, a das harpias conraminando a comida de Fineu, etc.
Um conjunto típico de manifestações físicas que acompanham regularmente esta padrão de experiências parece confirmar a sua relação com o trauma biológico do nascimento. Exemplos dessas manifestações físicas são: pressão enorme na cabeça e no corpo, problemas com a respiração, dores torturantes em várias partes do corpo, angústia cardíaca, suores abundantes, arrepios de frio e sensações de calor alternatntes, náusea e vômito, como também uma grande tensão agressiva generalizada, descarregada em tremores, contrações, solavancos e movimentos de contorções complexas.
Experiência de morte-renascimento
Este padrão experiencial parece estar significativamente relacionado ao terceiro estágio clínico do parto. Neste estágio, as experiências dolorosas de várias horas chegam ao fim, é completada a propulsão através do canal do nascimento, e a intensificação extrema de tensão e sofrimento é seguida de uma súbita libertação e relaxamanto. Fisiologicamente, após cortado o cordão umbilical, o sangue deixa de circular através dos vasos envolvidos, e abre-se um novo caminho através da área pulmonar. A separação física da mãe foi consumada e a criança começa a sua existência como um indivíduo anatomicamente independente.
A experiência morte-renascimento representa o término e a resolução do conflito morte-renascimento. O sofrimento e a agonia culminam numa experiência de aniquilamento total em todos os níveis: físico, emocional, intelectual, moral e transcendental. Esta experiência é geralmente chamada de "morte do ego", e parece envolver uma destruição instantânea de todos os pontos de referência prévios do indivíduo. A experiência da morte do ego pode ser acompanhada por imagens de várias deidades, tais como a da deusa Kali, Moloch, Huitzilopochtli, Shiva o Destruidor, ou pode ser experienciada através da identificação com a morte e ressurreição de Cristo, Osíris, Dionísio, etc.
Após o sujeito haver experienciado a profundidade da aniquilação total e "alcançar o fundo cósmico", ele é atingido por visões de uma luz ofuscante, branca ou dourada, e experiencia a descompressão libertadora e a expansão do espaço. O Universo é percebido como indescritivelmente belo e radiante; a atmosfera geral é de libertação, redenção, salvação, amor e perdão. O sujeito se sente purificado e purgado, e declara haver sido despojado de uma quantidade incrível de "lixo", culpa, agressão e ansiedade. Ele sente um amor transbordante por seus semelhantes, aprecia as relações humanas afetivas, a amizade e o amor. Neste estágio, as ambições irracionais e exageradas, como também as ânsias por dinheiro, status, prestígio e poder, parecem absurdas e irrelevantes. A apreciação de belezas naturais é grandemente aumentada, e um modo de vida sem complicações e simples, em íntimo contato com a natureza, parece ser a mais desejável de todas as alternativas. Qualquer coisa de origem natual é experienciada com o máximo prazer, através das vias sensorias amplamente abertas. Sentimentos de irmandade por todos os semelhantes são acompanhados de sentimentos de humildade e de uma tendência de engajamento no serviço e nas atividade de caridade.
A experiência do renascimento é freqüentemente seguida por aquilo que geralmente se descreve como uma experiência de "união cósmica", e parece estar intimamente relacionada às experiências do "ventre agradável" e do "seio agradável" e a felizes memórias infantis. O indivíduo sintonizado nesta área experiencial geralmente descobre dentro de si valores positivos genuínos, tais como um senso de justiça, apreciação da beleza, sentimentos de amor, auto-respeito e respeito pelos outros. Neste nível, estes valores como também a motivação para persegui-los e agir de acordo com eles, parecem ser uma parte intrínseca da personalidade humana. Eles não podem ser explicados de maneira satisfatória, em termos de formações reativas a tendências opostas ou como sublimação de drives instintivos primitivos. O indivíduo os experiencia como partes intrínsecas à ordem universal. A este respeito é interessante apontar os paralelos como os conceitos de metavalores e metamotivalções de Abraham Maslow (Maslow, 1969). O simbolismo típico para este padrão experiencial são as visões de fontes de luz radiantes experienciadas como divinas, de uma cor zaul cerúlea, do espectro do arco-íris, ou das penas de um pavão. Bastante freqüentes são as imagens não figurativas de Deus, tais como a do Sol Cósmico ou Brama, ou as representações personificadas de Deus e de várias divinadades. Os sujeitos podem ver as imagens tradicionais do Deus cristão, na forma de um ancião sentado num trono e rodeado por querubins e serafins de um esplenor radiante. Podem experienciar uma união com a Grande Mãe ou Ísis Divina, ver os Deuses Gregos no Monte Olimpo, bebendo néctar e comendo ambrosia, etc. Outras visões envolvem salões gicantescos, com colunas ricamente decoradas, grandes estátuas de mármore e candelabros de cristal; belos cenários naturais, tais como o céu estrelado, montanhas, o oceano, prados floridos, etc. Do ponto de vista biológico e fisiológico, esta experiência é acompanhada por um sentimento de um funcionamento físico perfeito e harmonioso.
Experiências embrionárias e fetais
Mencionamos anteriormente o fato de os sujeitos de LSD experienciarem os sentimentos oceânicos de unidade cósmica e se referirem à existência intra-uterina. Além disso, não é raro que em sessões psicodélicas haja experiências de episódios concretos, identificados como ocorrências específicas que se deram durante o desenvolvimento intra-uterino. Elas são em grande parte casos de psicotraumatização resultantes de estímulos perturbadores de uma natureza física ou química. Os relatos de tais revivências vão desde tentativas de aborto, passando por consequências de doenças marternas ou transfressões de dietas, até descrições quase anedóticas de relações sexuais dos pais, experienciadas em estágios avançados da gravidez. De modo semelhante ao caso das memórias infantis e de nascimento, a autenticidade destas recordações é problemática. Contudo, ocasionalmente foi possível conseguirmos confirmações surpreendentes, através de perguntas feitas independentemente às pessoas envolvidas. Os dados das sessões de profissionais (tais como psiquiatras, psicólogos e cientistas de outras disciplinas) que experienciaram episódios da existência intra-uterina em suas sessões de treinamento com LSD, mostram que, com bastante regularidade, eles ficavam atônitos com o grau de autenticidade e de quão convincentes estas experiências pareciam ser.
O exemplo clínico que se segue pode ser usado para ilustrar os problemas envolvidos nas tentativas de verificação da autenticidade de experiências intra-uterinas revividas em sessões de LSD:
'Em uma das sessões de LSD de uma série psicolítica, o paciente descreveu uma experiência intra-uterina bastante autêntica. Ele tinha consciência da imagem corporal fetal, com usa cabeça relativamente maior do que a de um adulto. Ele se sentiu imerso em líquido fetal e unido à placenta através do cordão umbilical. Havia dois tipos de sons cardíacos de freqüências diferentes, e sons freqüentes que ele identificou como relacionados aos movimentos peristálticos do intestino. Basenado-se em palpites que não pôde identificar, ele se diagnosticou como um feto bastante maduro, imediatamente antes do parto.Subitamente, ouviu ruídos estranhos provenientes do exterior. Sentiu que eram destorcidos pelas paredes abdominais e pelo líquido fetal, e que possuíam uma estranha qualidade de repercussão. Ele podia escutar risos e vozes humanas estridentes, e sons que relembravam pistons carnavalescos. Começou a pensar a respeito de um mercado de flores realizado anualmente em sua cidade natal, dois dias antes do seu aniversário.Após ter ajuntado os pedaços de informação mencionados, concluiu que sua mãe devia ter ido ao mercado num estágio avançado de gravidez. A mãe confirmou independentemente que, a despeito de fortes advertências de sua mãe e de sua avó, ela tinha deixado sua casa para participar no mercado. Isto havia precipitado o parto do paciente.'
Em geral, as experiências intra-uterinas são acompanhadas por outros tipos de experiências transpessoais. As experiências positivas estão relacionadas a sentimentos de unidade cósmica e a imagens de várias divindades bem-aventuradas. Os episódios de perturbações parecem ser acompanhados por visões de demônios, deuses enraivecidos e aparições do mal arquetípicas. Um fenômeno concomitante bastante freqüente nas experiências embrionárias e fetais são as experiências filogenéticas (evolucionárias). Esta ligação ocorre mesmo em sujeitos sem nenhuma sofisticação, que não sabem nada a respeito da lei biogenética de Haeckel, segundo a qual o feto, em deu desenvolvimento embrionário, repete, de um modo condensado, a história de sua espécie.
Experiências ancestrais
Nas experiências deste tipo, o sujeito sente estar explorando a sua linhagem genética e estar revivendo episódios das vidas de seus ancestrais. Algumas vezes tais experiências se relacionam à história relativamente recente das famílias materna e paterna, mas ocasionalmente remontam a muitos séculos atrás. Assim, um sujeito judeu pode experienciar episódios da vida tribal nos templos bíblicos; uma pessoa de origem escandinava pode reviver cenas das cruzadas aventureiras e das selvagens conquistas dos Vikings, e um negro americano pode testemunhar eventos do início da história da escravidão. As experiências ancestrais são geralmente bastante complexas e representam uma mistura de elementos que vão desde a identificação com ancestrais através do sentimento da atmosfera psicológica das famílias, clãs e tribos, até a insights sobre as atitudes, crenças e preconceitos, tradições e costumes culturais. ALgumas vezes o sujeito pode alcançar insights que iluminam os pontos de atrito entre as linhagens maternas e paternas, e pode compreender como ele introjetou como seus próprios conflitos intrapsíquicos.
Uma característica bastante importante que as distingue da categoria seguinte (experiências coletivas e raciais) é o sentimento convito do sujeito de confronta-se com elementos reais de sua história individual, "lendo seu próprio código genético".
O estudo cuidadoso e imparcial das experiências ancestrais pode ocasionalmente revelar que elas contêm informações específicas que o sujeito não conhecia ou às quais não tinha acesso. Uma das várias coincidências inusitadas observadas durante a minha pesquisa com o LSD pode ser usada como ilustração da complexidade que este problema oferece ao pesquisador:
'Uma paciente tratada pela terapia psicolítica, por causa de sua cancerofobia intensa e de sua sintomatologia de psicose fronteiriça, teve num estágio avançado do tratamento quatro sessões consecutivas de LSD, que consistiram quase que exclusivamente de cenas e seqüências que se deram em Praga, no século XVII. Esta época foi um período bastante crucial na história tcheca; após a perda da Batalha da Montanha Branca, em 1621, que assinalou o início da Guerra dos Trinta Anos na Europa, o país deixou de existir como um reino independente e ficou sob a hegemonia da dinastia dos Habsburgos. Num esforço para destruir os sentimentos de orgulho nacional e para anular as forças de resistência, os Habsburgos enviaram mercenários para capturar os nobres mais proeminentes do país. Vinte e sete membros destacados da nobreza foram então decapitados pelos Habsburgos. Numa seqüência bastante dramática, a paciente finalmente reviveu com fortes emoções e com bastantes detalhes os eventos reais da execução, incluindo a angústia terminal e a experiência da agonia.Gastei um tempo considerável num esforço de verificação da informação histórica, como também numa tentativa de compreender suas experiências em termos psicodinâmicos de uma máscara simbólica para as suas experiências infantis relevantes ou para a sua situação de vida no momento. As seqüências experienciais pareciam não ter nenhum sentido neste ponto de vista, e eu finalmente desisti e esqueci deste incidente após as experiências de LSD terem se orientado para outras áreas. Dois anos mais tarde, quando eu já estava nos Estados Unidos, recebi uma longa carta da paciente, que tinha a seguinte introdução incomum: "Caro Dr. Grof, você provavelmente pensará que eu estou completamente insana, quando lhe comunicar os resultados da minha recente pesquisa particular". No texto que se seguia, a paciente descrevia como aconteceu de ela encontrar seu pai, a quem não via desde a idade de três anos, quando seus pais se divorciaram. Após uma breve discussão, seu pai convidou-a a jantar com ele, com sua segunda esposa e com seus filhos. Após o jantar, disse-lhe que queria mostra-lhe o seu hobby favorito, que ela veria com especial interesse. Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas exigiam que cada família apresentasse às autoridade alemãs a sua árvore genelógica, demonstrando a ausência de pessoas de origem judaica nas últimas cinco gerações. Na preparação de tal árvore genealógica, por causa de sua importância viatal, o pai da paciente tornou-se absolutamente fascinada por esta tarefa. Após ter completado a árvore genealógica de cinco gerações exigida pelas autoridades, ele continuou esta tarefa devido a seu interesse particular, traçando a história de sua família através dos séculos. Isto tornou-se possível por intermédio de um sistema bastante completo de registros de nascimento mantidos nas paróquias dos países europeus.Após o jantar, o pai da paciente mostrou-lhe com um orgulho considerável uma árvore genealógica cuidadosamente desenhada de sua família, que indicava serem eles descendentes de um dos nobres que foram executados após a Batalha da Montanha Branca. Após ter descrito o episódio na carta, a paciente expressou a sua crença de que as memórias com altas cargas emocionais podem ser impressas no código genético e serem transmitidas através dos séculos para as gerações futuras. A informação obtida de seu pai veio somente confirmar as suas suspeitas prévias, que estavam baseadas na natureza convincente das memórias revividas.Após a minha estupefação inicial, com relação a esta coincidência das mais inusuais, pude descobrir uma inconsistência lógica bastante séria na avaliação da paciente. Uma das experiências que ela havia tido em suas sessões "históricas" de LSD foi a revivência da angústia final do nobre durante a sua execução. De fato, a morte física põe um fim à linha hereditária biológica; uma pessoa morta não pode procriar e passar para as gerações futuras a memória de sua angústia final. Antes de descartar completamenta a informação contida na carta da paciente, contudo, um fato merece uma séria consideração - nenhum dos outros paciente tchecos que tinham um total de mais de 1.600 sessões nunca havia mencionado este período histórico. Nesta paciente, quatro sessões consecutivas de LSD continham quase que exclusivamente seqüências históricas daquela época. A coincidência mais extraordinária desta experiências com a empresa genealógica de seu pai fazem desta observação clínica um problema de difícil interpretação dentro da estrutura dos paradigmas tradicionalmente aceitos.'
Experiências coletivas e raciais
Em sessões avançadas de uma série psicolítica ou em sessões psicodélicas que utilizam altas dosagens, os sujeitos freqüentemente experienciam episódios de várias culturas da história da humanidade. Isso pode estar associado a insights bastante totais e complexos referentes à religião, estrutura social, código moral, arte e outros aspectos das culturas envolvidas. Estas experiências podem se referir a qualquer país do mundo e a qualquer período histórico; elas parecem ser independentes do background racial, tradição cultural, e até mesmo do treinamento, educação e interesses do próprio sujeito. Deste modo, um anglo-saxão pode experienciar a história dos afro-americanos; um judeu, elementos das tradições chinesa e japonesa; ou uma pessoa de origem eslava, cenas das culturas pré-colombianas da América Central.
Freqüentemente estas experiências contêm informações detalhadas a respeito de vários aspectos culturais que podem ser verificadas pelo estudo de fontes arqueológicas; ocasionalmente, elas podem se referir a dados bastante extra-ordinários e específicos, que estão definitivamente além do que era anteriormente conhecido pelo sujeito. Tal informação, por exemplo, pode envolver detalhes da mumificação dos faraós egípcios ou do significado das pirâmides, aspectos técnicos das "torres do silêncio" do zoroastrismo, o simbolismo das esculturas e cerimônias religiosas indianas, etc.
O sujeito experiencia estes elementos como insights na história da humanidade, como identificação cultural, ou como ilustrações do drama cósmico; ele não tem o sentimento de exploração da sua própria história individual que é essencial para as experiências ancestrais.
Experiências filogenéticas (evolucionárias)
Neste tipo de experiência, o sujeito se identifica com seus ancestrais animais de diversos níveis de desenvolvimento; isto é acompanhado por um sentimento realista de que o sujeito está explorando a sua própria árvore genealógica evolutiva. A identificação é bastante complexa, completa e autêntica; ela envolve a imagem corpórea, uma variedade de sentimentos físicos e de sensações fisiológicas, emoções específicas e uma nova percepção do meio ambiente.
Ocasionalmente os sujeitos relatam insights em fatos zoológicos ou etológicos que excedem em muito o seu nível de educação nas ciências naturais. Além disso, as experiências envolvidas parecem ser qualitativamente diferentes das experiências humanas e freqüentemente parecem até mesmo transcender os limites da fantasia e da imaginação humanas. O sujeito pode ter, por exemplo, um insight esclarecedeor a respeito do que se parece o sentimento de uma cobra faminta, de uma tartaruga excitada secualmente, ou de um salmão respirando através de suas guelras. A identificação é mais freqüente com outros mamíferos, com pássaros, répteis, anfíbios e várias espécies de peixe. Ocasionalmente, o sujeito relata uma identificação com formas de vida muito menos diferenciadas, tais como celenterados, ou até mesmo organismos unicelulares. As experiências evolucionárias são algumas vezes acompanhadas por modificações nos reflexos neurológicos e por certos fenômenos motores anormais que parecem relacionados à ativação de vias nervosas arcaicas.
Experiência de "encarnações passadas"
Esta é provavelmente a categoria mais fascinante e obscura das experiências transpessoais. Os sujeitos relatam estar experienciando, de um modo vívido, dramático e convincente, cenas ou fragmentos de cenas que se deram em outro tempo e lugar na história. Estas cenas geralmente envolvem uma ou diversas pessoas (ou, com menor freqüência, animais) e são acompanhadas por fortes emoções. Os sentimentos e as emoções que acompanham estas situações são, em sua maior parte, distintamente negativas (dor física, ódio, angústia, agressão, ciúmes, ganância, desespero, etc.) e só excepcionalmente positivas. Elas são acompanhadas por um sentimento de que os episódios são uma revivência de eventos que realmente aconteceram em uma das vidas passadas do sujeito (em uma de suas encarnações prévias). A abertura desta área de experiência é algumas vezes precedida pela emergência de complexas instruções não-verbais a respeito do fenômeno da reencarnação e da lei do karma, como uma lei perene à qual cada indivíduo está submetido. A revivência destas cenas é geralmente experienciada pelo sujeito como "a queima de karma negativo". A revivência com plena consciência de todas as emoções dolorosas envolvidas na cena kármica destrutiva, seguida de um perdão mútuo, resulta num sentimento de uma façanha suprema e de uma bem-aventurança indescritível. Isto é algumas vezes acompanhado por um insteressante fenômeno - uma experiência subjetiva de um furacão kármico gigantesco, do vôo através dos séculos e do corte dos vínculos kármicos. De acordo com os insights dos sujeitos de LSD, as leis da reencarnação parecem ser independentes da linhagem biológica do sujeito e da transferência genética de idioplasma. A atribuição de uma entidade espiritual individual para um corpo físico particular e para uma vida específica parece ultrapassar as linhas biológicas hereditárias e violar as leis genéticas.
Precognição, clarividência e "viagem no tempo"
Esta categoria de experiências de LSD envolve aqueles fenômenos de ESP que são caracterizados por uma extensão temporal da consciência. Os sujeitos relatam ocasionalmente, particularmente em sessões avançadas de uma série lisérgica, uma antecipação convincente de eventos que acontecerão no futuro. Algumas vezes ele vêem cenas complexas e detalhadas de eventos futuros na forma de vívidas visões clarividentes. Algumas dessas experiências mostram vários graus de semelhança com acontecimentos reais que ocorrem mais tarde. A verificação objetiva nesta área parece ser uma tarefa particularmente difícil. A possibilidade do fenômeno "déjà vu" e da disturção do sujeito de eventos posteriores são dois dos maiores perigos existentes.
Um outro fenômeno interessante desta categoria é a experiência da "viagem no tempo". O indivíduo tem um sentimento convincente de poder transcender voluntariamente as limitações de tempo e viajar para qualquer período específico, de um modo não dissemelhante àquele descrito nos romances de ficção científica a respeito das máquinas dos tempo. O sentimento subjetivo de uma decisão livre distingue estas experiências daquelas revivências elementares e incontroláveis de episódios infantis, da história ancestrasl ou de elementos do inconsciente coletivo e racial. Ela é geralmente combinada com uma manipulação voluntária semelhante da localização dos eventos implicados.
Transcendência do ego em relações interpessoais
Este tipo de experiência se caracteriza por vários graus de perda das limitações do ego e pela fusão com outra pessoa, a ponto do sujeito experienciar uma unidade dual. A despeito do sentimento subjetivo de uma fusão total com o parceiro interpessoal, o sujeito sempre retém simultaneamente a noção de sua própria identidade. Em sessões psicodélicas, esta unidade dual pode ser experienciada com o terapeuta, ou com outras pessoas participantes. Ela pode também ocorrer como uma experiência puramente subjetiva, independentemente das pessoas reais presentes durante a sessão. Os exemplos típicos deste caso são a experiência de unidade com um parceiro sexual (com ou sem o elemento da união genital), da união mãe-filho e a experiência de unidade no relacionamento discípulo-guru. Este tipo de experiência é tipicamente acompanhado por profundos sentimentos de amor e de sacralização do relacionamento envolvido.
Identificação com outras pessoas
Diferentemente do tipo de experiência anterior, o sujeito experiencia uma completa identificação com outra pessoa e perde em grande extensão a consciência de sua própria identidade original. Esta identificação é total e complexa: ela envolve a imagem corporal, toda a gama de emoções e de atitudes psicológicas, expressão facial, gestos e maneiras, posturas, movimentos e até mesmo a inflexão de voz. Existem muitos tipos e níveis diferentes desta experiência. A revivência de experiências traumáticas da infância envolvendo mais de uma pessoa é freqüentemente caracterizada por uma idenficação simultânea ou alternatne com todos os participantes; isto pode dar um sabor transpessoal a muitas experiências que de outro modo seriam tipicamente pessoais. Ligado ou não a isso, o sujeito pode experienciar a identificação com parentes íntimos, amigos, conhecidos, professores, figuras políticas, etc. Outras vezes tal identificação pode envolver representantes típicos de vários outros grupo profissionais, étnicos, ou raciais; figuras históricas famosas (tais como Gengis Khan, o Imperador Nero, Hitler ou Stalin); ou pregadores religiosos (tais como Jesus ou Buda).
Identificação com grupos e consciência grupal
Esta categoria de experiências é caracterizada por uma expansão mais ampla da consciência: ao invés de se identificar com indivíduos, o sujeito experiencia a identidade com grupos típicos caracterizados por suas raças, religiões, profissões os destino. Desta maneira, o sujeito pode experienciar o papel dos judeus perseguidos através dos séculos, dos cristãos torturados e sacrificados pelos romanos, das várias vítimas da Inquisição Espanhola, dos membros de várias seitas religiosas, tais como os flageladores ou os skopzy russos, de todos os soldados que jámorreram em todas as batalhas que já se deram desde o início do mundo, de todos os pacientes terminais ou pessoas morrendo em acidentes, dos prisioneiros dos campos de concentração, dos membros de castas indianas ou da população total da Índia, etc.
Identificação animal
Estas experiências de ocorrência freqüente podem ser distinguidas das memórias filogenéticas já descritas pela ausência do sentimento de que o indivíduo explora a história de seu próprio desenvolvimento. Mas mesmo assim ela pode ser tão autêntica e convincente, em todos os aspectos, como no caso das experiências evolucionárias; freqüentemente ela contém informações interessantes a respeito da piscologia, etologia, dos hábitos sexuais e de procriação dos animais, etc.
É necessário diferenciarmos estas experiências também das transformações animais auto-simbólicas, que são muito mais superficiais. Nestas, o sujeito pode simbolizar a sua agressão através da identificação com um predador (tais como um tigre, leão ou pantera negra), os seus drives instintivos polimorfamente pervertidos através da identificação com um macaco, seu intenso drive sexual pela identificação com um garanhão, etc. Estas experiências carecem da autenticidade experiencial das memórias filogenéticas e podem ser facilmente reconhecidas pelo sujeito como uma representação simbólica de suas próprias emoções e complexos.
Os sujeitos que experienciaram numa série de sessões consecutivas as três variedades experienciais - transformação animal auto-simbólica, identificação animal e memórias filogenéticas - podem distingui-las facilmente por seu sabor experiencial específico.
Identificação vegetal
Os casos de experiências da consciência de várias espécias vegetais são em geral muito menos freqüentes do que aqueles referentes à vida animal. O sujeito pode ter um sentimento singular de estar testemunhando e experienciando conscientemente os processos vitais básicos das plantas, tais como a germinação das sementes, o crescimento vegetal, a polinização e a fotossíntese.
Como no caso das experiências mencionadas, os sujeitos relatam repetidamente que o sentimento de autenticidade e o sabor experiencial especial desta experiências não podem ser apreciados por quem não tenha passado por ela. É este caráter experiencial que torna difícil descartarmos estas experiências de identificação como meras fantasias. Neste ponto, parece difícil oferecermos uma explicação plausível deste fenômeno dentro da estrutura dos paradigmas existentes comumente aceitos.
Unidade com a vida e com toda a criação
Nestas experiências, o sujeito se identifica com a totalidade da vida deste planeta. Ele pode então experienciar a complexidade do desenvolvimento filogenético de todas as formas vivas, problemas relacionados à sobrevivência e extinção das espécies ou à viabilidade da vida como um fenômeno cósmico.
Consciência da matéria inorgânica
Não raramente, os sujeitos de LSD experienciam a consciência de material inorgânico. Os fenômenos com os quais eles podem se identificar podem variar desde um único átomo a vários materiais, como o diamante, granito ou ouro. Algumas vezes, a consciência de substâncias particularmente estáveis e duráveis pode ser experienciada como envolvendo um elemento de santidade. Alguns sujeitos descreveram, por exemplo, que deste ponto de vista, as estátuas de granito dos egípcios e as esculturas de ouro pré-colombianas não aparecem como imagens de divindades, mas como as próprias divindades; o que se adorava era a consciência estável, imutável e indiferenciada do material. À luz de tais experiências, os sujeitos vêem a consciência como um fenômeno básico existindo através de todo o universo; a consciência humana usual parece ser somente um de seus muitos frutos.
Consciência planetária
Neste tipo de experiência, a consciência do sujeito parece abranger todos os fenômenos deste planeta, incluindo tanto a matéria orgânica quanto a inorgânica. É um fenômeno relativamente raro, que ocorre usualmente nas sessões mais avançadas de uma série de LSD.
Consciência extraplanetária
Aqui o sujeito experiencia fenômenos relacionados aos outros corpos celestes e não ao nosso planeta, existindo tanto dentro quanto fora de nosso sistema solar. Um tipo especial de experiência que pertence a esta categoria é a consciência do espaço interestelar, que foi relatada independemente por vários de nossos sujeitos. Ela é caracterizada por sentimentos de tranqüilidade, serenidade, pureza, infinitude e eternitude, e de unidade de todos os opostos concebíveis.
Experiências de "fora do corpo", viagem clarividente, "viagem espacial" e telepatia
A experiência de deixar o próprio corpo é uma ocorrência freqüente em sessões psicodélicas. Os sujeitos descrevem que eles se experienciam completamente desligados de seus corpos físicos, pairando sobre eles ou observando-os de uma outra parte da sala. Uma outra experiência típica deste tipo é a de perder o contato com o próprio corpo e entrar em vários domínios experienciais que são independentes do corpo e dos processos físicos.
Com uma freqüencia menor, esta experiência toma a forma de viagem clarividente, na qual o sujeito se experiencia em um outro lugar do mundo físico e pode dar uma descrição detalhada da situação que ele encontrou. As tentativas de verificação desta percepção ESP podem levar, às vezes, a interessantes resultados.
Ocasionalmente, o sujeito tem o sentimento de que ele pode controlar ativamente um tal processo, trancender as limitações usuais de espaço e viajar voluntariamente para qualquer lugar que escolher. O exemplo que se segue mostra as dificuldades específicas que podem ocorrer, se o sujeito tenta experimentar com esta condição incomum e procura submetê-la a um teste rígido:
'As primeiras três horas desta sessão foram experienciadas como uma batalha fantástica travada entre as forças da Luz as das Trevas; foi uma bela ilustração da descrição do antigo Zend Avesta pérsico, referente à luta entre os exércitos de Ahura Mazda e os de Ahriman. A luta foi travada em todos os níveis concebíveis - nas células e tecidos de meu corpo, na superfície de nosso planeta, durante toda a sua história, no espaço cósmico e num nível metafísico, transcendental. Ocasionalmente eu tinha um sentimento bastante convincente de que a batalha que eu estava presenciando e experienciando tinha alguma coisa a ver com a relação entre espírito e matéria, em particular com o enredamento do espírito na matéria. Terminada a batalha, encontrei-me num estado mental bastante incomum; senti um misto de serenidade e bem-aventurança, como a fé ingênua e primitiva dos primeiros cristãos. Era um mundo onde os milagres eram possíveis, aceitáveis e compreensíveis. Eu estava preocupado com o problema do espaço e do tempo e dos paradoxos insolúveis do infinito e da eternidade, que confundem a nossa razão no estado de consciência comum. Eu não podia compreender como poderia ter permitido passar por uma "lavagem cerebral", ao aceitar o conceito simplório do tempo unidimensional e do espaço tridimensional como sendo mandatário e existindo na realidade objetiva. Pareceu-me bastante óbvio que não existem limites no domínio do espírito e que o tempo e o espaço são construtos mentais arbitrários. Qualquer número de espaçoes com diferentes ordens de infinidade poderia ser criado e experienciado deliberadamente. Apenas um segundo, e a eternidade parecia ser livremente intercambiável. Pensei a respeito das altas matemáticas e vi profundos paralelos entre vários conceitos matemáticos e os estados alterados de consciência.Nesta situação, subitamente ocorreu-me que eu não preciso me restringir às limitações de espaço e tempo, mas posso viajar no continuum tempo-espaço de forma totalmente deliberada e sem quaisquer restrições. Este sentimento foi tão convincente e avassalador, que eu quis testá-lo através de um experimento. Decidi tentar viajar para minha cidade natal, que estava a muitos milhares de milhas de distância. Após visualizar a direção e a distância, eu me pus em movimento e tentei voar através do espaço para o lugar de destino. Este esforço resultou numa experiência de vôo através do espaço numa enorme velocidade, mas, para o meu desapontamento, eu não estava indo para lugar nenhum. Parei esta atividade e reconsiderei a situação; eu não podia compreender como o experimento não funcionaria, apesar do meu sentimento convincente de que tal viagem espacial era possível. Imediatamente, constatei que eu estava ainda sob a influência de meus antigos conceitos de tempo e espaço. Eu continuava a pensar em termos de direções e de distâncias e enfrentei a tarefa deste modo. Subitamente pareceu-me que a abordagem adequada seria fazer-me acredita que o lugar da sessão era realmente idêntico ao lugar de destino. Considerando a tarefa deste modo, experienciei sensações peculiares e bizarras. Encontrei-me num lugar estranho, bastante congestionado, cheio de válvulas, fios, resistores e condensadores. Após um breve período de confusão, constatei que eu estava preso num aparelho de televisão localizado no canto da sala do apartamento em minha terra natal, onde passei minha infância. De algum modo, eu estava tentando usar os alto-falantes para ouvir e o cinescópio para ver. Subitamente compreendi que esta experiência era uma expressão simbólica ridiculzrizando o fato de eu ainda estar preso às minhas crenças prévias referentes aso espaço e à matéria. O único modo de transmitir imagens a longas distâncias que era concebível e aceitável para mim estava baseado no uso de ondas eletromagnéticas, tais como no caso da emissão de televisão. De fato, uma tal transmissão é restrita pela velocidade das ondas. No momento em que constatei e acreditei firmemente que eu poderia operar no domínio do livre espírito, e que não teria de me restringir nem mesmo à velocidade da luz e a outros tipos de ondas eletromagnéticas, a experiência se modificou rapidamente. Lancei-me através da tela da telvisão e me encontrei andando no apartamento de meus pais. Naquele ponto eu não sentia nenhum efeito da droga, e a experiência era tão sóbria e real quanto qualquer outra experiência de minha vida. Caminhei para a janela e olhei para o relógio da esquina; ele mostrava uma diferença de quatro horas do tempo da zona de fuso horário onde o experimento se realizava. A despeito do fato de que esta diferença refletia a diferença de tempo real entre as duas zonas, eu não considerei isso uma evidência convincente. Eu sabia intelectualmente a diferença de tempo, e minha mente poderia facilmente ter fabricado esta experiência.Senti que eu precisava de uma prova muito mais convincente para saber se aquilo que eu estava experienciando era "objetivamente real", no sentido usual. Decidi finalmente realizar um teste: pegar um quadro na parede e mais tarde testar com meus pais se algo de incomum tinha ocorrido naquele instante em seu apartamento. Andei em direção ao quadro, mas antes de poder tocar a moldura, fui dominado por um sentimento desagradável crescente de que era uma tarefa extremamente arriscada e perigosa. Senti subitamente a influência fantástica das forças do mal e um toque de algo semelhante à "magia negra"; parecia como se eu estivesse pondo em jogo minha alma. Fiz uma pausa e comecei a analisar o que estava ocorrendo. Imagens dos cassinos famosos do mundo faiscavam diante de meus olhos - Monte Carlo, Lido, Las Vegas, Reno... Vi bolas de roleta girando em velocidade vertiginosas, movimentos mecânicos de máquinas de jogo, dados balançando-se na superfície verde das mesas durante um jogo, cenas de jogadores de bacará e luzes oscilantes nos painéis de víspora. Isto foi seguido por cenas de encontros secretos de homens de estado, políticos, oficiais do exército e cientistas proeminentes. Constatei que eu ainda não havia ultrapassado meu egocentrismo e não podia resistir à tentação do poder. A possibilidade de transcender os limites do tempo e do espaço parecia inebriante e perigosamente sedutora. Se eu pudesse ter o controle do espaço e do tempo, um suprimento ilimitado de dinheiro parecia estar garantido, juntamente com tudo aquilo que o dinheiro pode comprar. Sob tais circustâncias, tudo o que alguém teria de faezr siria ir ao cassino, bolsa de valores ou casa lotérica mais próxima. Não existiria nenhum segredo para alguém que controlasse voluntariamente o tempo e o espaço; ele poderia espreitar os encontros mais importantes de líderes políticos, ler documentos altamente secretos e se apoderar das mais recente descobertas científicas. Isso abriria possibilidades inimagináveis de controle dos eventos do mundo.Comecei a entender os perigos de meu experimento. Lembrei-me de passagens de diferentes livros, alertando contra as brincadeiras com tais poderes, antes que o indivíduo tenha ultrapassado as limitações do ego e alcançado a maturidade espiritual. Contudo, havia algo que parecia muito mais relevante. Descobri que eu estava extremamente ambivalente com relação ao resultado do meu teste. Por um lado, parecia extremamente sedutora a habilidade de libertar-se da escravidão do tempo e do espaço. Por outro lado, entretanto, era óbvio que algo semelhante a isso tinha conseqüncias sérias de um alcance muito grande, e não poderia ser considerado como um experimento isolado de controle voluntário do espaço. Se eu pudesse conseguir a confirmação de que era possível manipular o ambiente físico a uma distância de muitos milhares de milhas, todo o meu universo entraria em colapso como resultado desse experimento, e eu me encontraria num estado de completa confusão metafísica. O mundo como eu o conhecia não mais existiria; eu perderia todos os mapas nos quais confiava e com os quais me sentia tranqüilo. Não saberia quem, onde e quando eu era, e me perderia num universo totalmente novo e ameaçador, sobre cujas leis eu não teria a mais leve noção. Eu não pude realizar o experimento pretendido, e resolvi abandonar como não resolvido o problema da objetividade e da realidade da experiência. Isso me possibilitou brincar com a idéia de que tinha conquistado o tempo e o espaço, ao mesmo tempo permitindo, no caso de tudo se tornar muito ameaçador, que eu visse o episódio inteiro como uma das muitas ilusões devidas à intoxicação de meu cérebro por uma poderosa droga psicodélica. No momento em que eu suspendi o experimento, encontrei-me de volta na sala onde se realizava a sessão de droga.Nunca me perdoei por ter desperdiçado um experimento tão único e fantástico. A memória do horror metafísico neste teste faz com que eu duvide, entretanto, se eu teria mais coragem, caso tivesse uma oportunidade semelhante no futuro.'
Ocasionalmente, podem ser observadas experiências telepáticas em sessões psicodélicas. O firme sentimento que o sujeito de LSD tem de que ele pode ser as mentes das pessoas presentes nas sessão, ou de que ele pode captar pessoas em outras partes do mundo, é mais freqüentemente um auto-engano do que um fato objetivamente verificável. Contudo, além de destorções grosseiras e falsas interpretações, existem situações que indicam intensamente a existência de comunicação ESP genuína. Ocasionalmente o sujeito de LSD pode ter uma consciência inusitadamente exata da ideação e das emoções de um companheiro de sessão sem mesmo olhar para ele. Dois sujeitos que tenham sessões simultâneas podem compartilhar muitas idéias ou ter experiências paralelas sem muita comunicação verbal e intercâmbio. Uma reivindicação de um sujeito de LSD de um contato telepático com uma pessoa distante pode excepcionalmente ser sustentada por evidências objetivas obtidas por um investigador independete.
Consciência celular, de órgão, de tecido
Neste tipo de experiência, o sujeito relata um sentimento de sintonizar autenticamente a consciência de uma certa parte de seu corpo, tal como órgãos isolados ou tecidos (coração, fígado, rim, osso, membrana da mucosa intestinal, epitélio uterino, etc.), ou mesmo de células isoladas (glóbulos brancos e vermelhos, células de vários órgãos, etc.). A experiência freqüentemente relatada de identificação consciente com as células germinais (espermatozóide, óvulo) e do momento da fecundação percentem a esta categoria. Isso pode ser ocasionalmente associado com interessantes insights sobre os processos bioquímicos e fisiológicos que parecem estar além do alcance da educação médica do sujeito.
Experiências espíritas e mediúnicas
Estas raras experiências se assemelham intimamente aos fenômenos conhecidos a partir das sessões espíritas e da literatura do ocultismo. O sujeito pode, por exemplo, exibir sinais de um transe mediúnico: sua expressão facial é transformada supreendentemente, sem semblante e seus gestos parecem estranhos e sua voz é dramaticamente modificada. Ele pode falar numa linguagem estrangeira, escrever textos automaticamente e produzir desenhos hieroglíficos obscuros, ou desenhar quadros estranhos e ininteligíveis.
Uma outra experiência desta categoria é aquela do encontro com corpos astrais ou entidades espirituais de pessoas falecidas, ou então de uma comunicação extra-sentorial com elas. O exemplo que se segue, um episódio de uma sessão avançada de uma série psicolítica realizada no Instituto Psiquiátrico de Praga, pode ser usado como ilustração:
'Uma paciente tratada com LSD, devido a uma complicada psiconeurose de natureza fóbico-obsessiva, estava revivendo em uma de suas sessões um episódio traumático extremamente doloroso de sua infância. Seu pai foi hospitalizado por muitos anos numa instituição mental devido a uma condição psicótica. Quando a paciente tinha dez anos de idade, seu pai sofreu uma hemorragia cerebral e foi mandado do hospital para casa, para morrer numa situação familiar. A paciente teve de assistir à deterioração de seu pai, e esteve até mesmo à sua cabeceira nos instantes de sua agonia final. Nesta sessão ela retornou literalmeten à sua infância e tornou-se uma menininha amendrontada que observava a luta contra a morte do pai. Inicialmente ela observou a sua agonia final, e mais tarde começou a experienciá-la em si mesma; numa total identificação com o pai, ela se aproximou do momento da morte física. Quando cruzaram o limiar entre a vida e a morte, nesta unidade dual peculiar, entrou num estado de pânico quase incontrolável. Não foi possível uma comunicação com a paciente, pelo menos durante duas horas. Após o contato ter sido restabelecido, ela foi capaz de descrever retrospectivamente a sua experiência.Após termos cruzado o limiar entre a vida e a morte, eu me encontrei num mundo misterioso e ameaçador. Todo ele estava cheio de éter fluorescente, de uma natureza estranhamente macabra. Não havia meios de verificar se o espaço era finito ou infinito. Um número infindável de almas de seres humanos falecidos estava suspenso no éter fluorescente; em atmosfera de estranha angústia e de excitamento inquietador eles estavam me enviando mensagens não-verbais, através de alguns canais extra-sensoriais inidentificáveis. Eles pareciam extremamente necessitados, e era como se quisessem algo de mim. Em geral, a atmosfera me fez recordar as descrições do submundo que li na literatura grega. Mas a objetividade e a realidade da situação estavam além da minha imaginação - ela provocou um horror metafísico abrupto e total, que eu nem mesmo posso começar a descrever. Meu pai estava presente neste mundo como um corpo astral; desde que eu entrei nesse mundo em união com ele, seu corpo astral estava como que superposto ao meu. Eu não pude me comunicar com você (o terapeuta), e isso me parecia insípido. Estava certa de que você sabia tão pouco quanto eu a respeito desse mundo macabro, e você não poderia, portanto, me prestar qualquer ajuda. Foi a experiência mais ameçadora de minha vida - em nenhuma das sessões de LSD anteriores eu encontrei algo que se assemelhasse a ela.
Experiências de outros universos e de encontros com seus habitantes
Estas experiências ocorrem com uma raridade extrema em sessões psicodélicas. Os sujeitos se encontram em universos estranhos e diferentes, que não parecem fazer parte de nosso cosmo, mas que existem paralelamente a ele. Relatam encontros com entidade, que habitam estes mundos diferentes, e experienciam diversas aventuras dramáticas que se assemelham àquelas das novelas e estórias de ficção científica.
Experiências arquetípicas
Mesmo os sujeitos que anteriormente não estiveram expostos nos livros e idéias de C. G. Jung experienciarão e descreverão os arquétipos junguianos típicos, especialmente em sessões avançadas de uma série lisérgica. Isto envolve mais freqüentemente experiências de papéis sociais generalizados e universalizados, tais como o do Mártir, o do Fugitivo, o do Proscrito, o do Legislador, o do Tirano, o do Farsante, etc. Outras categorias típicas de experiências arquetípicas são os papéis e imagens sagradas, tais como a da Grande Mãe, a da Mãe Terrível, a do Grande Hermafrodita, etc. Ocasionalmente os sujeitos experienciam complexas situações arquetípicas - do homem cósmico, da idade de ouro, ou da idade negra, etc.
Experiências de encontro com divindades bem-aventuradas e furiosas
Esta categoria de experiências está intimamente relacionada à anterior. Num sentido estritamente junguiano, os encontros e/ou identificaçõe com várias divindades seriam considerado experiências arquetípicas. Profissionais sofisticados acostumados às teorias de Jung, que foram voluntários de sessões de LSD, pareciam, contudo, distinguir claramente os arquétipos como descritos anteriormente das experiências que envolviam divindades concretas relacionadas a culturas específicas. As divindades que aparecem em sessões lisérgicas formam dois grupos completamente distintos: divindades bem-aventuradas ou da luz e divindades furiosas ou das sombras. Os representantes típicos do primeiro grupo são Ísis, Ahura Mazda, Apolo e outros; o segundo grupo compreende divindades tais como Kali, Baal, Moloch, Astartéia, Huitzilopochtli, etc. O encontro com tais divindades é geralmente acompanhado por emoções bastante fortes, que vão desde o horror metafísico ao arrebatamento extático. Contudo, os sujeitos geramente não tem o sentimento de ser confrontados com o Ser Supremo ou com a força última do universo.
Ativação dos chakras e o despertar do poder sepentino (kundalini)
Muitas das experiências de sessões de LSD mostarm uma semelhança surpreendente com as descritas em várias escolas de ioga kundalini, como a ativação e abertura dos chakras do indivíduo. Quando os sujeitos têm familiaridade com este conceito indiano, freqüentemente fazem referências específicas aos chakras e ao poder serpentino (kundalini). Mesmo no caso de sujeitos de LSD que não têm familiaridade com as filosofias e religiões indianas, as descrições são freqüentemente paralelas. O sistema dos chakras parece fornecer um valioso mapa da consciência, de grande ajuda na conceitualização e compreensão de muitas experiências não usuais que ocorrem em sessões psicodélicas.Uma experiência extremamente rara e excepcional, que ocorre geralmente em sessões avançadas, é aquela que se assemelha às descrições do despertar do poder serpentino (kundalini) nas partes sacrais do cordão espinhal e o fluxo de energia espiritual ascendente, que resulta na abertura subseqüente de todos os chakras. Isto culmina numa profunda experiência extática espiritual, relacionada ao chakra mais alto, ao qual os indianos se referem como o lotus das mil pétalas.
É interessante mencionar, a este respeito, que, numa discussão sobre um trabalho que apontava as semelhanças entre as experiências de LSD e as religiões indianas (Grof, 1970a), muitos dos indianos participantes pareceram concordar que de todos os sistemas de ioga a kundalini ioga possui a mais íntima semelhança com a psicoterapia psicodélica. Ambas as técnicas produzem experiências dramáticas e profundas num tempo relativamente curto, mas envolvem os maiores riscos e perigos potenciais.
Consciência da mente universal
Uma das experiências mais totais e profundas que ocorre em sessões psicodélicas é freqüentemente descrita como a "consciência da mente universal". Nela, o sujeito está convencido de que está experienciando a força suprema do universo. Os sujeitos freqüentemente se referem a ela como inefável e se queixam da imperfeição e inadequação da estrutura simbólica da linguagem para descrevê-la. Os atributos básicos da mente universal, tal como é experienciada pelos sujeitos lisérgicos, podem ser melhor expressos pela palavra sânscrita sat-chit-ananda; ela sugere a existência infinita, a sabedoria infinita e a bem-aventurança infinita. Ocasionalmente a experiência da mente universal está associada a interessantes insights sobre o processo da criação do mundo tridimensional e sobre o coinceito budista da roda da morte e do renascimento.A experiência da mente universal está intimamente relacionada, embora não seja idêntica, à experiência da unidade cósmica descrita anteriormente.
O vácuo supracósmico e metacósmico
É a experiência do vazio e do nada primordiais, que são as fontes supremas de toda a existência. Os termos supra e metacósmica referem-se ao fato de este vácuo ser tanto supra-ordenado quanto subjacente ao mundo da criação. Ele está além do tempo e do espaço, além de qualquer modificação e além de polaridades, tais como bem e mal, luz e trevas, estabilidade e movimento, agonia e êxtase. A experiência do vácuo supracósmico em sua profundidade e relevância metafísica totais é uma ocorrência rara em sessões de LSD; provavelmente ele se aproxime muita da concepção budista de nirvana. De modo semelhante à mente universal, o vácuo não pode ser descrito em palavras, mas experienciado sob circunstâncias especiais. É também possível que se alcance um insight experiencial e intuitivo da emergência da mente universal, a partir do vácuo supra-cósmico e da iniciação do processo da criação.
Sendo uma primeira tentativa de descrição das experiências transpessoais que ocorrem em sessões psicodélicas, esta monografia é necessariamente incompleta e representa somente um contorno breve e esquemático de vastos territórios da mente humana até agora desconhecidos e descartados pela ciência ocidental tradicional. As experiências transpessoais são de tal modo multifacetadas e abrangem uma tal variedade de fenômenos, que é extremamente difícil encontramos um 'principium divisionis' e apresentarmos um sistema simples e compreensivo para sua posterior classificação. O emprego de amplas categorias descritivas, tais como mística, religiosa, oculta e parapsicológica parece ser de um valor prático questionável e, além disso, resulta em confusão semântica e na superposição de categorias.
Uma possibilidade seria a introdução do conceito de "profundidade" do inconsciente; várias categorias destas experiências então se refeririam o nível do inconsciente no qual elas se originaram, ou refletiriam o grau de dificuldade de sua elicitação através de técnicas específicas. Uma tal abordagem exigiria uma prova de que esta estratificação realmente existe, tanto quanto um sistema seguro de definição da profundidade de várias experiências.
Seria possível usarmos um dos antigos sistemas existentes que desenvolveram um detalhado mapa da conciência, como é o caso do sistema dos chakras indiano. Contudo, é muito difícil a elucidação destes sistemas e a sua separação de suas ideologias subjacentes, de uma tal maneira a torná-las aceitáves a grandes públicos profissionais do Ocidente.
Uma possibilidade interessante seria a escolha de um sistema de classificação baseado na distinção de se o conteúdo da experiência transpessoal consiste ou não de elementos do mundo dos fenômenos (ou "realidade objetiva"), como o conhecemos no nosso estado de consciência usual. Algumas das experiências transpessoais envolvem fenômenos cuja existência é geralmente aceita com base na validação consensual, na evidência empírica ou na pesquisa científica. Isto é verdade, por exemplo, para as experiência perinatais, intra-uterinas, ancestrais e filogenéticas ou para elementos do inconsciente coletivo. Não é o conteúdo da experiência que é supreendente, mas a existência destes elementos no inconsciente humano e a possibilidade de os experienciarmos de um modo bastante real. A categoria de experiências transpessoais deste tipo pode ser posteriormente dividida com base na extensão de consciências que elas têm: esta extensão pode ser compreendida conforme a alteração da dimensão do tempo ou do espaço.
Existe também um grupo de fenômenos ESP que poderiam ser classificados como experiências transpessoais, o conteúdo dos quais é compreensível dentro da estrutura da "realidade objetiva". No caso da precognição, clarividência, "viagem no tempo", experiências "fora do corpo", viagem clarividente, "viagem espacial" e telepatia, novamente não é o conteúdo das experiências que não é usual, mas o meio de aquisição de certa informação ou de percepção de uma certa situação que, de acordo com os paradigmas científicos geralmente aceitos, está além do alcance dos sentidos.
A segunda grande categoria de experiências transpessoais inclui então fenômenos que não fazem parte da "realidade objetiva", no sentido ocidental. Isto se aplica às experiências de comunicação com espíritos de pessoas falecidas ou com entidades espirituais supra-humanas, como o encontro ou identificação com várias divindades, etc. A tentativa de classificação que se segue se baseia no princícipio acima descrito:
EXPERIÊNCIAS TRANSPESSOAIS
1. EXTENSÃO (OU EXPANSÃO) EXPERIENCIAL DENTRO DA ESTRUTUDA DA "REALIDADE OBJETIVA"
A. Expansão temporal da consciência
-Experiências perinatais
Unidade cósmica
Engolfamento cósmico
"Sem-saída" ou inferno
Conflito morte-renascimento
Experiêcia morte-renascimento
-Experiências embrionárias e fetais-Experiências ancestrais
-Experiências coletivas e raciais
-Experiências filogenéticas (evolucionárias)
-Experiências de "encarnações passadas"
-Precognição, clarividências e "viagens no tempo"
B. Expansão espacial da consciência
-Transcendência do ego em relações interpessoais
-Identificação com outras pessoas
-Identificação grupal ou consciência grupal
-Identificação animal
-Identificação vegetal
-União com a vida e com toda a criação
-Consciência da matéria inorgânica
-Consciência planetária
-Consciência extraplanetária
-Experiências "fora do corpo", viagem clarividente, "viagens espaciais" e telepatia
C. Constrição espacial da consciência
-Consciência de órgão, tecido ou célula
2. EXTENSÃO (OU EXPANSÃO) EXPERIENCIAL ALÉM DA ESTRUTURA DA "REALIDADE OBJETIVA"
-Experiências espíritas e mediúnicas
-Experiências de encontros com entidades espirituais supra-humanas
-Experiências de outros universos e de encontros com seus habitantes
-Experiências arquetípicas
-Experiências de encontros com divindades bem-aventuradas e furiosas
-Ativação dos chakras e despertar do poder serpentino (kundalini)
-Consciência da mente universal
-O vácuo supracósmico e metacósmico
É necessário termos em mente que as experiências transpessoais, em sessões psicodélicas particulares, nem sempre ocorrem numa forma pura. Dissemos que, por exemplo, as experiências perinatais são freqüentemente acompanhadas por outros tipos de experiências transpessoais, tais como a identificação com outras pessoas, identificação grupal, algumas experiências arquetípicas, ou encontros com várias divindades. De modo semelhante, as experiências embrionárias podem ocorrer simultaneamente com memórias filogenéticas e com a experiência de unidade cósmica, etc. Isto parece refletir profundas inter-relações intrínsecas entre vários tipos de fenômenos transpessoais, tanto quanto a natureza multidimensional da experiência psicodélica.
Qualquer que seja a abordagem que se prove mais fecunda para o problema de uma classificação futura, espera-se que a tentativa de definição e descrição das experiências transpessoais feita neste artigo, baseada nas observações de sessões psicodélicas, atraia a atenção de mais profissionais para a área das experiências transpessoais. A pesquisa sistemática destes fenômenos dos mais inusitados poderia modificar bastante as nossas concepções do homem e ser de uma relevância nunca vista para psiquiatria e psicologia do futuro.
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