Psicodélico: Março 2010

domingo, 28 de março de 2010

HISTÓRIA DA CANNABIS

A Cannabis Sativa é uma das mais antigas plantas psico-ativas conhecida pelo homem,sua adaptação a quase todos os climas do globo terrestre e diferentes solos, foi a força motriz de sua proliferação na sociedade. Seja como recreação, medicamento ou matéria prima de diversos artigos industriais. A erva já caminha com a humanidade há alguns milênios. Confira os principais eventos históricos da maconha, ou pelo menos do que se tem registro.

• 8000 A.C.

K(a)N(a)B(a), assim chamada pelos antigos sumérios, deu origem a palavra Cannabis.

• 6000 A.C.

Suas sementes forneciam grande parte das necessidades nutricionais na china.

• 4000 A. C

Tecidos feitos com a erva foram usados na China. Foram encontradas fibras de maconha neste período e também no Século I na Turquia.

• 2727 A. C.

Primeiro registro da maconha sendo utilizada pela medicina como fármaco. Em diversas partes do mundo a humanidade tem utilizado a maconha para curar os mais diversos problemas de saúde.

• 1500 A. C.

A maconha é cultivada na China para alimentação e vestuário. Suas fibras eram utilizadas para se tecer os mais finos panos.

• 1200 – 800 A.C.

A planta da maconha é citada no Atharva Veda, livro sobre medicina sagrada para os hindus, como uma das 5 ervas mais sagradas da Índia. Era usada na medicina e em rituais de oferenda para Shiva.

• 700-600 A. C.

O Zend-Avesta, livro sagrado para a religião persa , composto por diversos volumes, se refere à maconha como um bom narcótico.

• 700-300 A. C.

Tribos bárbaras deixam folhas da erva em tumbas como uma oferenda aos mortos.

• 500 A. C.

As tendas dos bárbaros eram decoradas com folhas de Cananabis.

• 500 A. C.

A erva é introduzida no norte da Europa pelos bárbaros. Uma grande quantidade de folhas e sementes da planta datada desta época foi encontrada próximo a Berlim na Alemanha.

• 500 – 100 A. C.

A maconha se espalha pela Europa.

• 430 A. C.

O filósofo grego Heródoto registra o uso da maconha como recreativo e ritualístico .

• 100 – 0 A. C.

As propriedades psicotrópicas da maconha são mencionadas no livro sobre ervas do inperador chinês Pen Ts´ao Ching.

• 70

Dioscorides menciona o uso da maconha como medicamento romano.

• 170

O romano Galeão declara os efeitos psicológicos do uso de semente de maconha.

• 500-600

O Talmud judeu menciona a sensação de euforia ao utilizar maconha.

• 900 – 1000

Estudiosos debatem os prós e contras de se comer maconha. Seu uso é difundido pelas arábias.

• 1090-1256

Na Pérsia, o velho da montanha convocava comitivas de homens para se tornarem assasssinos. Esta lenda se desenvolveu , associando os assassinos ao uso de haxixe. Esta lenda foi descrita em diversos contos que relatavam os inebriantes efeitos da Cannabis e dos usos do haxixe.

• 1200

A Cannabis é introduzia no Egito durante a dinastia de Ayyuib na ocasião em que o país foi influenciado por místicos devotos da erva oriundos da Síria.

• 1155-1221

A lenda persa do mestre sufi, o Shiek Haidar´s ok Khorasan´s declara como descoberta pessoal a Cannabis e sua subseqüente difusão pelo Iraque, Egito e Síra. Muitas narrativas da época declara que o uso da maconha é inebriante.

• 1200

A monografia mais antiga sobre o haxixe foi escrita. Seus escritos, infelizmente, perdidos.

• 1200

Os árabes levam plantas da erva para à costa de Moçambique na África.

• 1231

O haxixe é introdizido no Iraque pelo calife Mustansir.

• 1271-1295

Durante os relatos da viagem de Marco Polo ao oriente ele relata a história dos assassinos do velho da montanha e do uso de haxixe feito pos estes. Foia primeira vez que um relato sobre a Cannabis teve repercussão na Europa.

• 1378

O otomano Emir Soudoun Svheikouuni foi o primeiro soberano a se manifestar contra o uso do haxixe para aliemntação.

• 1526

Babur Nana, o fundador do império Mouro, aprende sobre o uso do haxixe no Afeganistão.

• 1549

Escravos angolanos trazem brotos de Cannabis para as plantações de cana-de-açúcar no nordeste do Brasil. Os senhores permitiam que eles plantassem Canabis entre as canas e que fumassem ela durante a colheita.

• 1550

O poema épico Benk u Bode, escrito por Mohameed Ebn Soleimam Foruli, de Bagdá, desenvolve uma alegoria dialética a respeito da batalha entre o vinho e o haxixe.

• 1600

O uso de haxixe, álcool e ópio se dissemina pela população de Costantinopla.

• 1606-1632

Os franceses e britânicos cultivam a erva de cannavis nas colônias de Port Royal, Virgínia e Plymouth.

• 1690

O haxixe se torna a principal moeda de troca entre a Ásia central e o sul da Ásia.

• 1798

Napoleão dercobre o habitual uso de haxixe pelos egípcios. Ele proíbe seu uso, mas os soldados retornam a França com a tradição de seu uso.

• 1800

A produção de haxixe se expande pela Rússia e China.

• 1809

Antoine Sylvestre, um estudioso árabe , associa a eimológia das palavras haxixe e assassino.

• 1840

Na América, a preparação medicinal da cannabis é permitida. O haxixe se encontra a venda em farmácias persas.

• 1841

É inaugurado o clube do haxixe em Paris, França.

• 1843

O haxixe aparece na Grécia.

• 1870-1880

Primeiro relato do fumo de haxixe na Grécia. O cultivo da erva é difundido pela região.

• 1890

O governo grego poribe o uso e cultivo do haxixe. O haxixe se torna ilegal na Turquia.

• 1893- 1894

É criado, na Índia, um comitê de drogas feitas de maconha.

• 1893-1894

80 toneladas de haxixe são legalmente importandas da Ásia Central para aÍndia.

• 1906

É regularizado, na Ásia, o comércio de produtos que contenhma álcool, ópio, cocaína, Cannabis, entre outros.

• 1910

No Oriente Médio, o fumo de haxixe é extremamente popular.

• 1915-1927

A maconha se torna proibida nos estados americanos de Califórnia, Texas. Louisiania e Nova Iorque.

• 1920

Metaxus, ditador grego, proíbe o uso de haxixe.

• 1920

Haxixe é proibido no Egito, Grécia, Turquia e Ásia Central.

• 1926

A produção libanesa de haxixe é proibida.

• 1928

O uso recreativo da cannabis é proibido na Inglaterra.

• 1920-1930

Uma maconha de alta qualidade é produzida na Turquia na região de fronteira com a Grécia.

• 1930

A China exporta cerca de 90 toneladas de haxixe legalmente para a Índia.

• 1930

Os impostos sobre haxixe continuam sendo cobrados legalmente na índia e Ásia Central.

• 1934-1935

O governo chinês acaba com os cultivos de Cannabis, assim como seu tráfico. O haxixe produzido legalmente e ilegalmente se torna totalmente ilegal em toda a China.

• 1936

Uma porpaganda produzida pelo governo norte-americano tem como objetivo evitar que jovens se utilizem de maconha

• 1937

A maconha se torna ilegal em todos os estados na América do Norte

Samuel R. Caldwell, um pequeno fazendeiro, é a primeira vitima da proibição da maconha. Foi sentenciado a cadeia no dia 2 de outubro de 1937.

• 1938

O estoque de haxixe na China quase se esgota.

• 1940

A tradição grega de fumar haxixe cai por terra.

• 1941

O governo indiano considera cultivar haxixe na região da Kashemira, já que a produção chinesa sessou.

• 1941-1942

A região do Nepal se torna fornecedora de haxixe para a Índia durante a Segunda Guerra Mundial.

• 1945

O consumo de haxixe continua legalizado na Índia.

• 1945-1955

O uso de haxixe floresce na Grécia novamente.

• 1950

O comércio de haxixe entre Índia e China continua proibido.

• 1962

Marrocos produz sua primera leva de haxixe.

• 1963

A polícia turca apreeende 2,5 toneladas de haxixe.

• 1965

Primeiro relato da produção de haxixe no Afeganistão.

• 1965

O Governo marroquino destrói todas as plantações de Cannabis em sua cadeia de montanhas.

• 1967

O primeiro óleo a base de haxixe é produzido na Califórnia.

• 1969

O haxixe afegão se populariza

• 1970-1973

Imensos campos de Cannabis são cultivados pelo Afeganistão. Muitos anos depois, a produção desse cultivo estaria disponível à venda.

• 1972

O governo do presidente norte-americano Richard Nixon estuda que o uso medicinal da maconha seja legalizado, mas o pedido é negado. Pesquisas médicas sobre o assunto dão continuidade.

• 1973

Uma maconha libanesa de alta qualidade é exportada pela Europa.

• 1973

A produção da varoação afegã da maconha é introduzida na América do Norte.

• 1973

O Nepal bane as lojas de canabis, bem como sua exportação.

• 1973

O governo afegão torna a produção e venda de haxixe ilegal

• 1975

As nações unidadas criam um comitê para estudar o uso medicinal da maconha.

• 1978

Algumas plantações de Cannabis ainda são encontradas pelo Nepal, apesar da proibição.

• 1980

O Marrocos é um dos poucos países há ainda produzir e exportar maconha.

• 1980

Haxixe é produzido na fronteira do Paquistão com o Afeganistão durante a guerra entre soviéticos e afegãos.

• 1980

A qualidade do haxixe libanes decai.

• 1983-1984

Algumas levas de haxixe turco de alta qualidade aparecem no mercado.

• 1985

Uma pequena produção de haxixe é feita ilegalmente na China.

• 1986

Os estoques de haxixe afegãos se esgotam completamente na Holanda e América.

• 1987

O governo marroquino novamente destrói cultivos de Cannabis em seu território.

• 1988

O uso medicinal de maconha é legalizado pelas Nações Unidas.

• 1993

A maconha é erradicada totalmente do Marrocos.

• 1994

A produção de haxixe ainda é feita na fronteira do Paquistão.

• 1995

Amsterdam cria os coffe-shops para uso e apreciação de maconha.

• 2001

O secretário de Estado da Inglaterra, David Blunkett, propõe que a maconha não seja mais classificada como droga ilegal mas seu pedido é negado.

• 2003

O Canadá torna-se o primeiro país no mundo a utilizar marijuana de forma medicinal.

• 2004

A Inglaterra libera o uso da maconha.

•2005

Coffee shops holandeses,onde há venda e consumo legal de derivadas da cannabis, são fechados.

•2008

Califórnia aprova a venda de maconha para pacientes que consomem a droga para fins medicinais..A Inglaterra volta atrás e proíbe a maconha, devido ao cenário de descontrole que se instalou no país.

•2009

Dallas abre o primeiro restaurante que serve maconha em seus pratos.

sábado, 27 de março de 2010

Supremo Tribunal Federal é instado a se manifestar sobre legalização da Cannabis

Associação Brasileira de Estudos Sociais do Uso de Psicoativos apresenta considerações na qualidade de Amicus curiae, em processo que tramita no STF sobre Cannabis

Notícia enviada por Mauro Chaiben (mauro@mauriciocorrea.adv.br)

Tramitam no Supremo Tribunal Federal duas ações propostas pela Procuradoria-Geral da República – ADPF 187 e ADI 4274 –, as quais trazem à baila antiga celeuma jurídica no que diz respeito ao crime de apologia versus liberdade de expressão, envolvendo grupos que militam a favor de mudanças nas políticas públicas acerca do uso da maconha.

Em março deste ano, a Associação Brasileira de Estudos Sociais do Uso de Psicoativos – ABESUP protocolou na Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental suas considerações na qualidade de amicus curiae (amigo da corte). Pedido idêntico será protocolado na outra ação, tão-logo o relator admita o ingresso da associação no feito.

Além do cerne da questão propriamente dito, as razões apresentadas pela associação sugerem ao Supremo Tribunal Federal avançar em temas ainda pouco debatidos pela sociedade em geral, como a possibilidade do cultivo caseiro, do uso medicinal, terapêutico e religioso e, ainda a utilização da Cannabis como insumo na produção de bens de consumo.

Espera-se que a Corte Suprema avalie todas as questões suscitadas, interpretando os princípios fundamentais consagrados na Constituição brasileira, sem que isso enseje invasão das competências dos Poderes Legislativo e Executivo.

A proposta mantém incólume a Lei 11343/2006 – sobre o uso e tráfico de drogas – e, ao mesmo tempo, apresenta uma solução ponderada, de modo que o STF poderá, se preferir, tão-somente interpretar os valores constitucionais envolvidos e, após essa definição, eventuais interessados nos temas poderão buscar a devida regulamentação via SENAD/CONAD, seguindo caminho idêntico ao traçado pela ayahuasca.

MTV Debate : Daime: droga ou religião? (23/03 - Na íntegra)

http://mtv.uol.com.br/debate/naintegra/2303-daime-droga-ou-religiao

Vale a pena dá uma olhada, as opiniões do Carlos Maltz são bem sinceras !

[LIVRO] Drogas e Cultura - Novas Perspectivas.


O livro contra com texto de apresentação assinado em parceria com Gilberto Gil. A organização foi feita pelo professor Henrique Carneiro e tem participação, dentre outros, do doutor em antropologia social, Edward MacRae.
Drogas e Cultura: Novas Perspectivas.

Editora: EDUFBA
Apoio: MinC e Fapesp
ISBN: 978-85-232-0504-1
Formato: 17 X 24 cm, ilustrado – 440 p.
Preço: R$ 40,00
ORELHA DO LIVRO :

Luiz Eduardo Soares (Professor da UERJ e da Universidade Cândido Mendes; Secretário de Valorização da Vida e Prevenção da Violência do Município de Nova Iguaçu).

Drogas são um tema paradoxal e enigmático. Importantíssimo, onipresente no dia a dia, capaz de sensibilizar, mobilizar, provocar controvérsias, alterar o rumo de disputas eleitorais, disseminar dissensos, inquietar autoridades, perturbar famílias, desestabilizar a ordem pública; ainda assim, quase ausente da pauta política e da agenda acadêmica –se excetuarmos esforços isolados de pioneiros e desbravadores. Nenhum repertório das grandes questões nacionais e globais estará completo sem a inclusão das drogas; entretanto, por mais extraordinário e surpreendente que seja, permanecem raríssimas as incursões intelectuais e políticas mais ousadas, que as tratem com profundidade e consistência, para além dos preconceitos. Paira esta curiosa e lamentável maldição sobre o tema, envolvendo-o em silêncio, cúmplice da irracionalidade que domina seu tratamento oficial mais freqüente.
Por isso, louve-se a iniciativa de Beatriz Caiuby Labate, Sandra Goulart, Maurício Fiore, Edward MacRae e Henrique Carneiro, pesquisadores do NEIP (www.neip.info), que organizaram este volume, e a participação qualificada de seus autores, graças aos quais um dos debates essenciais de nosso tempo sairá do armário, do ostracismo, da negligência. Trata-se de uma contribuição de muitos méritos, que se tornará referência tanto para os estudos acadêmicos, quanto para a reflexão pública, que mobiliza audiências mais amplas.
Os ensaios aqui reunidos nos ensinam que as drogas, as dinâmicas de sua produção e os circuitos de sua circulação semântica, conceitual-científica, econômica, social, religiosa, política, estética, psicológica, ideológica e simbólica constituem fenômenos complexos, multidimensionais, que exigem abordagens transdisciplinares. Em uma palavra, as drogas não existem; são invenções datadas, cujos significados variam conforme os contextos culturais, seus repertórios específicos, seus vocabulários particulares. Drogas são ministradas por médicos ou xamãs; são objeto de fruição individual ou coletiva; servem para excluir, excomungar, reprimir, prender ou violentar os que as consomem ou os que não as consomem, conforme o caso; são sacralizadas em rituais místicos; são institucionalizadas em celebrações familiares e sociais; são objeto de consumo; têm valor comercial; são alvo de legislações; saberes; terapias. Elas são criadas por dispositivos prático-discursivos, historicamente constituídos, os quais acionam regras morais, categorias de acusação, exercícios de poder, estratégias econômicas, padrões de fruição, linguagens que organizam a consciência e a sensibilidade, orientações valorativas e experiências de sociabilidade.
Abrindo-se a esta quase ilimitada pluralidade de apropriações, as drogas carregam consigo um potencial extraordinariamente rico para quem se disponha a pensar as sociedades. Talvez por essa razão represente risco, perigo, ameaça e incerteza. Fonte de prazer e de morte, as drogas nos interpelam e, pela mediação do presente livro, exigem que as incluamos no centro de nossa agenda política e intelectual.

segunda-feira, 15 de março de 2010

A Ketamina está se tornando a droga favorita das classes altas inglesas

O jornal The Independent declarou esta semana que a "Ketamina tirou o lugar da cocaína como nova droga predileta", após novos dados publicados pela instituição de caridade britânica DrugScope revelarem que os preços estão caindo drasticamente, enquanto o número de usuários aumenta.

"K está se tornando muito popular", declarou Martin Barnes, principal executivo da DrugScope. "É uma droga que muitas pessoas estão falando", acrescentou.

A história apareceu no The Independent duas semanas após o Daily Mail marcar o Special K "a nova droga de escolha entre alta sociedade" num artigo explicando "por que os ricos estão trocando a cocaína pela mortífera droga ketamina".

"Antes reservada apenas aos clubbers mais hardcor, o consumo deste produto químico triplicou ao longo da década passada e este ano se tornou imensamente popular entre as classes altas da Grã-Bretanha," a correspondente disfarçada do Mail Topham Laura revelou.

"Embora doses leves causem euforia e aumentem a energia, maiores quantidades deformam a realidade com alucinações e delírios. Às vezes os usuários se encontram em um 'buraco-K" (K-hole) - um estado semi-consciente em que se encontram completamente a parte do mundo externo, praticamente paralisados e incapazes de falar.

"Mas, inacreditavelmente, estes resultados perturbadores são exatamente o que os usuários querem", ela acrescentou.

O viciado auto confesso David Eggins falou abertamente de suas próprias experiências para o Guardian, em abril do ano passado, descrevendo os terríveis problemas urinários e cãibras abdominais depois de ingerir grandes quantidades.

"Eu já estive em um estado cósmico, me comunicado com forças universais que são os nossos verdadeiros deuses, que me disseram que a morte deve ser encarada como o próximo nível de tudo. Tudo besteira, evidentemente, mas eu nunca tive esse tipo de coisa com a cocaína", confessou ele, descrevendo suas experiências inicialmente eufóricas.

"A maioria das pessoas que experimentam não vão desenvolver quaisquer problemas maiores, mas uma minoria de utilizadores fica muito doente", disse ele, "Um amigo meu perdeu tanto controle sobre a sua bexiga que ele teve que colocar um catéter quando tinha 21 anos, e lá se vão muito mais casos como este. Ele também não sabia que era um viciado", acrescentou.Depois do artigo do mês passado, David admitiu ainda estar utilizando ketamina "a cada quinze dias" e que tem sido "uma constante por mais de um ano", disse ele, em uma triste admissão do impacto que a ketamina continua a ter em sua vida.

"Sei que as pessoas me odeiam por isso, mas é a única hora em que eu vejo algo de bom na minha vida", ele explicou, "Me faz pensar que tudo vai ficar bem, que eu não arruinei minha vida completamente e que eu não estou destinado a ficar sozinho ", disse ele.

Ketamine: The ultimate Psychedelic Journey

A VIAGEM: Ketamina é o mais intenso, bizarro, e agradável psicodélico que eu já tentei, e esta percepção é comum entre as pessoas que eu conheço que já usou isso. A onda da Ketamina chega em cerca de dois minutos após a injeção. Você deve estar deitado ou reclinado, neste momento, porquê, em uma dose psicodélica normal estarão inconscientes do seu corpo pouco depois disto.
Ketamina pode ser tomada em diferentes dosagens. Uma dose menor permitirá manter um certo sentido de identidade, memória e capacidade de perceber e interagir com seu meio físico. Acho que uma dose de 10 a 20 mg coloca-me em um não-psicodélico, estado alterado dissociativo. 50 mg faz pouco para mim psicodélicamente, colocando-me em algumas zonas semi-conscientes. 75 a 125 mg irá produzir a altamente desejável viagem da Ketamina. Para os efeitos de doses muito grande ver os escritos de John Lilly. Tenho tendência para a perda com uma dose muito grande. A experiência que vou descrever aqui é para uma dose psicodélica média de aproximadamente 100 mg tomadas intramuscular. Tenho ouvido relatos de pessoas que cheiram pequenas quantidades de Ketamina enquanto dançam em clubes. No entanto, a experiência produzida por esta não é sequer remotamente parecido com o que tenho descrito abaixo.
Como a onda está vindo aí há uma ruptura na continuidade da consciência. Logo após este ponto encontro-me rodando em um universo psicodélico. Não há nenhuma lembrança que estou atualmente elevado por uma droga e que vou descer. Freqüentemente não há lembrança de alguma vez ter sido eu, ter nascido, ter uma personalidade ou entidade, ou mesmo conhecidos o planeta terra. A experiência é um orgasmo do ser, no todo com o universo. Eu sinto que estou no hiperespaço, ligados simultaneamente a todas as coisas. Bilhões de imagens e percepções fluem simultaneamente através dos meus circuitos. Eu não estou preso em três dimensões. Na quarta dimensão do tempo não estou bloqueado no momento atual. Eu experimento o tempo para trás e para frente, também, o momento atual é o centro de intensidade. Em minha primeira experiência com a Ketamina, houve uma sensação não-verbal de que minha vida inteira até aquele ponto havia sido uma preparação, especialmente minhas outras experiências psicodélicas, e tomar Ketamina era como pressionar o botão “VAI”. Eu sentia como se tivesse havido uma grande e permanente mudança na “estrutura da realidade”, ou seja, o modo em que via o universo. Eu sentia como se os estados de espírito que tinham se quebrado através de picos psicadélicos anterior tinham-se tornado a base da realidade. E nesta nova realidade me senti melhor do que eu jamais poderia ter antecipado.

Minhas experiências psicodélicas passadas ensinou-me a libertação e o fluxo dentro deste tipo de mundo. Em uma experiência com a Ketamina não tenho necessidade de “fazer” qualquer coisa. Quando administrado, a experiência simplesmente acontece. Às vezes sinto-me como um único átomo ou ponto de consciência à deriva em agitação num vórtex de energias, como uma única célula dentro de um ser de proporções galácticas. A experiência é de proporções titanic na concentração de energia, intenção e consciência. Todo o tempo eu me sinto muito relaxado e em casa neste universo. Embora sem qualquer suporte da realidade, a identidade ou a estabilidade vão sendo dissolvidos à velocidade da luz, eu não sinto qualquer medo, como se o que seria uma experiência de temor em perder estas coisas não fosse uma parte de mim. Como as ondas de experiência passam por mim me sinto um pouco como um garoto em um Rollercoaster. Embora ele está prestes a ter uma experiência emocionante, indo na colina mais profunda de sua mente ele está confiante de que o Rollercoaster permanecerá em suas faixas.

Cerca de 30 minutos à uma hora depois a experiência chega à um ápice. Neste momento eu senti que a minha vontade determina ou não que eu existo, e se existe ou não o universo. E eu poderia alternar entre a existência e a não existência muitas vezes dentro de um segundo. Eu mesmo tive a impressão de que eu poderia fazer com que o universo (que é bastante fluido no momento) se cristalize em qualquer formato desejado, embora eu ainda não tive o impulso para realmente tentar isso.

Após isso vem o retorno à consciência regular, pouco me lembro da minha identidade anterior. Eu nunca senti esse momento tão decepcionante, como eu frequentemente me sinto quando vou descer do ecstasy. Quando percebo que estou voltanto me sinto mais novo como “Uau, eu estou indo para trás, me pergunto o que a vida é como vai ser depois desta experiência”. Embora exista um sentimento de que a viagem é quase sobre esta parte da experiência, ela é bastante interessante, parte da minha mente continua correndo círculos ao redor do cosmos, e a outra parte está fazendo a reintegração da minha identidade. Muitas vezes, o regresso da experiência da jornada com Ketamina, sinto como um renascimento alienígena. Após retornar para o corpo, visuais continuarão por um tempo com os olhos abertos. Estes podem ser bastante espectaculares e alucinatórios, e suportará mais semelhança com os visuais do DMT do que outros visuais psicodélicos.

45 minutos a uma hora após a injecção do Ketamina I’m back entanto continua a haver algumas estranhas sensações corporais. Tenho a impressão de luz (anti-gravidade), um pouco tonto, tenho má coordenação motora, náuseas. Por um par de horas depois da experiência eu acho melhor apenas relaxar, deitar na cama, ouvir música, etc, até que o período de recuperação seja aprovado.

Um problema que eu encontrei com a ketamina é que a experiência é difícil de recuperar e reintegrar com rotina da realidade. A memória da experiência é ainda mais difícil. Dentro de horas depois de voltar, 99% da experiência é inacessível para a minha actual mente consciente. A experiência da ketamina é tão bizarra e transcendental que uma mente normal não pode sequer conceber a experimentar desta forma. Ela se sente como se alguma parte da proteção da mente encerra o acesso às dimensões experimentadas na Ketamina. Eu recentemente encontrei um método que tem se revelado eficaz na resolução deste problema. Trata-se de tomar Ketamina já elevado sobre a 2C-B. Este parece proporcionar uma “ponte” entre o ego ou identidade, e um estado que é menos ego e sem limitações…

… O principal truque para bater a marca com uma viagem de Ketamina está em tomar as doses corretas. Uma pequena quantidade não vai destruir sua auto-consciência, e vai deixar de te admitir para o reino da consciência pura. Demasiada trará uma inconsciência, dando a uma vaga impressão de ter viajado em algum lugar. Muitos tiveram viagens de sucesso, iniciando com 75 mg, E aumentando a dose de 15 mg em cada ocasião até a experiência desejada seja atingida.Outro fator importante na qualidade da Ketamina é a experiência do “set” ou personalidade. Dr. Igor Kungurtsev, um psiquiatra russo, estava envolvido em administrar um experimento tratando alcoolistas com Ketamina. Um artigo sobre o seu trabalho foi publicado no Outono 1991 no boletim da Fundação Albert Hofmann. Uma de suas conclusões foi “a correlação entre o tipo de personalidade e do tipo de experiências sob a influência de Ketamina. Pessoas que são muito controlados e têm dificuldades de deixar rolar, ou que tenham problemas com relacionamentos, têm, muitas vezes, experiências negativas com Ketamina. Para eles dissolver a autonomia do indivíduo é horrível. Para os outros doentes que estão mais relaxadas e com capacidade de entrega, que têm uma profunda capacidade de amar, a experiência é geralmente feliz, mesmo extático “.

Kungurtsev também constatou que a Ketamina produz experiências espirituais, bem como alterações a longo prazo na perspectiva espiritual da maioria dos que tentaram. “É interessante que muitas pessoas que nunca pensaram sobre espiritualidade ou o significado da vida relataram ter uma experiência que só podem ler em textos espirituais ou em ensinamentos orientais … Para muitos pacientes, é uma profunda percepção de que podem existir sem os seus corpos como pura consciência ou puro espírito. Muitos deles disseram que, como resultado da sua experiência, eles compreenderam o conceito cristão da separação da alma e do corpo, e que agora acreditam que alguma parte deles continuará a existir após a morte. Houve vários casos em que as pessoas relataram contato com Deus, mas isso geralmente não é uma figura antropomórfica. Descrevem um oceano de luz branca brilhante, que é preenchido com amor, felicidade, e energia. “

Fatores de Segurança: A Ketamina é muito diferente dos outros psicodélicos quando se trata de uma utilização segura. Desde a injeção, passando pelo grau de pureza do material, até uma utilização segura das agulhas é tudo primordial. Igualmente importante é que um corpo não deve realizar qualquer atividade perigosa quando estiver na Ketamina. A dose Psicodélica de Ketamina move rumo à um estado de inconsciência em que um cirurgião poderia operar sobre ele. A habilidade normal de reação que nos impede de acidentes e de morte estão suspensas enquanto na Ketamina. Quando eu tomo Ketamina estou sempre deitado, e não saio até o final da experiência. Mesmo por algumas horas depois eu não vou ao ar livre onde o potencialmente letal tráfego passa.

Um dos métodos mais seguros de usar Ketamina é ter um amigo ou “guia” presente quando você vai toma-la. Mesmo os que freqüentemente tomam Ketamina sozinhos, Devem tomar todas as precauções, tais como velas no meu quarto. Se eu bater acidentalmente durante uma vela e iniciar um incêndio, provavelmente eu não teria a presença de espírito necessária para extinguir o incêndio ou deslocar-me a segurança. (Pois mesmo sabendo disso, ele não tomou as precauçãos nescessárias e por conta disso não teve o estado de espírito necessário para salvar seu corpo do afogamento.)

Uma das grandes preocupações quanto a utilização segura da Ketamina é o seu elevado potencial de dependência psicológica. Uma porcentagem bastante grande de pessoas que tentam Ketamina irá consumir sem parar até que a sua oferta esteja esgotada. Vi isso em amigos conhecidos há muitos anos que são utilizadores regulares psicadélicos e que nunca antes tinham problemas em controlar sua droga.

D.M. Turner: 1962-1997

DM Turner, um Psiconauta que tinha um futuro promissor na exploração da consciência, tendo chegado a níveis profundos de consciência e escrito dois livros que são essenciais para qualquer psiconauta. Fez de sua vida um projeto onde pesquisou e experimentou toda sorte de Psicodélicos e combinações entre eles, resultando em um Guia Psicodélico único. Estudou profundamente enteógenos como a Sálvia Divinorum, sobre qual escreveu seu segundo e último livro. Infelizmente pagou o preço cobrado aos pioneiros quando decidiu flertar com a Ketamina. Um psicodélico sintético que em troca de sua magia, cobra a sua liberdade e por vezes sua vida. DM Turner era uma pessoa esclarecida, mas foi vítima exatamente daquilo que pregava, a cautela com o corpo no uso da Ketamina. Ao ignorar sua própria recomendação injetou Ketamina em si dentro da banheira, foi uma péssima idéia.


A Ketamina no entanto é apenas um mundo sintético, entre todos os outros mundo naturais experimentados e pesquisados por ele. Mundos estes com efeitos benéficos e positivos para o indíviduo. Se DM Turner tivesse ficado apenas na natureza provavelmente ele estaria aqui hoje entre nós.

Não preciso dizer que o consumo e venda de Ketamina é ilegal e o exemplo do DM Turner é mais do que suficiente para desestimular seu consumo.

Os dois livros do DM Turner estão disponíveis on line em inglês, seguem os Links:
The Psychedelic Essence of Salvia Divinorum
The Essential Psychedelic Guide

D.M. Turner foi um explorador psicodélico e escritor, que escreveu dois livros sobre substâncias psicoativas. Seu livro mais proeminente, The Essential Psychedelic Guide foi o primeiro de seu tipo e é considerado uma referência seminal sobre os efeitos subjetivos de várias substâncias psicoativas e alucinógenos alteradores de mente. Embora não seja considerado um cientista “importante”, e ter tido menor fama, seu trabalho fez muito para trazer exposição para os psicodélicos mais obscuros e traze-los para o mainstream. Turner investigou profunda e pesadamente as diversas combinações de psicodélicos e seus Sinérgicos, e, por vezes terríveis efeitos.

Seu outro livro, Salvinorin é endereçado à esta singular substância, e enquanto ela não pode ser considerado um trabalho sério academicamente, continua sendo um dos poucos textos gerais sobre a Salvia divinorum, até à data.

Turner morreu no ano novo de 1996 após injetar uma quantidade desconhecida de ketamina em uma banheira. Acredita-se que ele se afogou enquanto incapacitado pelos efeitos da droga.

D.M. Turner é o pseudônimo de Joe Vivian, uma provável referência ao psicodélico dimethyltryptamine, mais comumente conhecido como DMT. Trata-se de boatos de que sua família não aprovava seus estudos e destruíram muitos dos volumes de Salvinorin após a sua morte.

Em algumas culturas, o xamã é uma figura homenageada e reverenciada. Infelizmente, este não é o caso da “moderna” sociedade ocidental, e os nossos xamãs são muitas vezes perseguidos, processados e, na melhor das hipóteses anônimos. Quando um parte deste mundo para o próximo, muitas vezes nem sequer fazem um blip no nosso radar cultural. Tal foi o caso no início de 1997, quando a comunidade western psicodélica envergonhada perdeu um dos seus mais corajosos, intrépido, e articulado membro, DM Turner. Os dois livros sobre sobre enteógenos de Turner, são hoje elementos essenciais para as bibliotecas dos modernos Psiconautas.

domingo, 14 de março de 2010

Resposta a Isto É : ‘MIRAÇÃO’ NÃO É ALUCINAÇÃO

MIRAÇÃO’ NÃO É ALUCINAÇÃO
Um breve panorama da pesquisa transdisciplinar sobre Ayahuasca



Marcelo Bolshaw Gomes[1]




O Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (CONAD), órgão do Ministério da Justiça, publicou no Diário Oficial da União, dia 25 de janeiro de 2010, resolução regulamentando o uso religioso da Ayahuasca - bebida de propriedades psicoativas utilizadas por diferentes cultos brasileiros (Santo Daime, União do Vegetal, a Barquinha – para citar os principais) do norte do país. A decisão do governo brasileiro cria uma jurisprudência internacional importante, contradizendo os pareceres da Suprema Corte dos EUA e assinalando que o Brasil está rompendo com a política de subserviência ao DEA (Drug Enforcement Adminstration). Por outro lado, a resolução proíbe o uso terapêutico da bebida, bem como seu uso recreativo associado a eventos turísticos. Além disso, a resolução estabeleceu regras para que a bebida seja comercializada ou utilizada fora do contexto religioso.

A decisão desencadeou algumas reportagens jornalísticas sensacionalistas, acusando o governo de ter liberado uma droga perigosa que “causa alucinações” sob a desculpa de uma pretensa finalidade religiosa. Respondendo a essas reportagens, o presente texto tem por objetivo explicar psicologicamente a experiência cognitiva de beber Ayahuasca, como também apresentar de forma resumida a singular pesquisa acadêmica e existencial desenvolvida por diversos pesquisadores a partir dessa experiência cognitiva, comprovando assim seu valor inestimável.

1) O efeito da Ayahuasca

Há uma grande diferença entre as distorções cognitivas provocadas por entorpecentes e o uso ritual de plantas de poder. Diferenças de intenção e ambiente – “set and setting”, na famosa definição estabelecida por Timothy Leary e muito repetida desde então para caracterizar as condições necessárias para o uso de substâncias psicoativas em processos de autoconhecimento. O efeito deste uso ‘com finalidades de desenvolvimento’ é chamado de ‘enteógeno’ em oposição ao termo ‘alucinógeno’ – utilizado para caracterizar o efeito alienante e a distorção perceptiva. Mas, os argumentos de ‘ambiente’ e ‘intenção’ raramente são suficientes para convencer leigos (e cientistas fixados no fator psico-químico) da grande diferença cognitiva entre a experiência enteógena e a viagem alucinógena.

Há duas iniciativas de ponta em âmbito internacional que estudam o ‘efeito ayahuasca’ do ponto de vista psico-químico: Rick Strassman (2001), que estuda a substância psicoativa da DMT (a dimetiltriptamina) e não a bebida propriamente dita ou os sistemas de crenças que configuram seu uso; e Benny Shanon (2003), que, invertendo a equação científica, não investiga mais o ‘efeito ayahuasca’ na mente humana, mas sim pesquisa a consciência através da experiência da Ayahuasca.



Strassman (2001) diz o corpo produz naturalmente DMT na hora da morte para favorecer a lembrança dos momentos marcantes da vida. O xamanismo tolteca chama isto de 'recapitulação' e corresponde a limpeza dos vínculos cármicos adquiridos durante a vida. A DMT permite a utilização consciente da memória visual através do lado direito do cérebro, em oposição à nossa memória discursiva ordinária organizada através da fala. É a fala que transforma a memória em narrativa, se simplesmente contarmos nossa estória, oscilaremos entre os papéis de vítima e de herói. É o hemisfério esquerdo do cérebro que acessa a memória e quer comunicar a lembrança resgatada a alguém.

Com a DMT, ao contrário, feita em estado de silêncio interior, sem interlocutor ou escuta analítica externa, as lembranças emergem objetivas, permitindo a reintegração emocional dos momentos vividos com distanciamento, vistos de fora, como em um filme narrado por outra pessoa.E essa pode ser a principal aplicação terapêutica da DMT em um futuro breve: fechar (reviver e superar) as feridas emocionais que jorram do inconsciente individual. O acesso consciente à memória visual também pode ser colocada sob a forma de ‘sonhos lúcidos’[2], isto é, a ocorrência de estado de funcionamento cerebral de alto desempenho - o sono REM (rapid eye moviment) – que normalmente acontece enquanto o sujeito está dormindo, durante o estado de vigília[3].

Vários místicos tradicionais opõem sonho e consciência. A consciência está sempre presente no aqui e agora. O sonho é memória passada e previsão do futuro. O sonho lúcido (ou o Estado de Consciência Alterada através da DMT) é visto por eles como uma alucinação a ser vencida pela consciência, como uma passagem por reinos intermediários ou como realidades subjetivas que aprisionam a alma. O xamanismo em suas diferentes versões, no entanto, acredita no desenvolvimento através dos sonhos.


Para Strassman, há quatro estágios progressivos do efeito do DMT: o estado eufórico, o ‘caleidoscópio colorido’, o estado de diálogo com as entidades e a transcendência do ego. Para isso, ele teria que trabalhar suas dosagens cada vez maiores de DMT. A experiência, no entanto, comprova que o mero aumento de dosagem química não basta para se alcançar estados de percepção mais profundos e intensos, é preciso também ter a ligação espiritual - que só vem através de treinamento em alguma técnica ou ritual. Aliás, quando maior a capacidade mental de alteração o estado de percepção, menor a dosagem necessária – como pode ser visto na maioria dos adeptos mais antigos dos cultos.

2) Supercognição

“Eu só miro as situações em que estou envolvido” – confessou-me certa vez um experiente ayahuasqueiro. E, certamente, as imagens psíquicas, sejam elas arquétipos universais ou lixo subconsciente, em nada ajudam ou enriquecem a experiência espiritual da DMT. O importante é compreender o quadro de relações (sociais, cósmicas, afetivas, políticas, etc) em que se está inserido.

E mais: “Mirar com firmeza resolve os problemas” – me ensinou o caboclo. A ‘firmeza no mirar’ é permanecer em estado de consciência alterada intenso, profundo e por longos períodos de tempo (e baixas dosagens de DMT) e conseguir reverter as relações de conflito, submissão ou enaltecimento que se apresentem. A idéia de ‘miração’ ou ‘sonho lúcido’ (e de diferentes estágios progressivos do transe quimicamente induzido) não pode ser desvinculada do sistema de crenças do sonhador em seu contexto diurno.




Eu, por exemplo, reconheço quatro paradigmas diferentes sobrepostos e simultâneos no trabalho espiritual com DMT: o paradigma da luta do bem contra o mal; o paradigma de ajuda aos espíritos sofredores vivos e mortos; o paradigma de diálogo/conflito do Eu com o Outro; e, finalmente, o paradigma da Consciência da Divindade (ou da recapitulação da biografia pela consciência/identificação com narrativas míticas e simbólicas).

O modelo de estágios progressivos de estados de consciência de Strassman tem seu valor, mas é preciso perceber que ele também se baseia em um sistema de crenças, mesmo que sejam crenças científicas céticas.

Outra grande contribuição ao estudo do Ayahuasca é o trabalho de Benny Shanon (2003), que faz um levantamento estatísticos das imagens psíquicas geradas a partir da experiência do Ayahuasca. Shanon tornou-se muito conhecido devido sua hipótese de Moises teria acidentalmente consumido DMT (uma vez que a Arca da Aliança seria de Acácia, um tipo de jurema) e entrado em transe no Sinai.
Shanon destaca ainda quatro aspectos relevantes em relação ao efeito do Ayahuasca: a percepção do pensamento como uma cognição coletiva, a indistinção entre o interior e o exterior, as experiências desindentificação pessoal e a percepção de tempo não-linear. Sob o efeito da DMT os pensamentos não são individuais, mas sim ‘recebidos em rede’ (a mente como um rádio); que não existe a distinção entre o sensorial e o sensível; podem se transformar em animais (jaguares e águias são freqüentes) ou em outras pessoas; e finalmente percebem o transcorrer do tempo de forma desigual, em que alguns segundos demoram séculos e horas se sucedem rapidamente e em que alguns momentos se experimentam a simultaneidade (ou a sensação de eternidade) temporal.
Desses quatro aspectos relevantes o mais interessante é o que trata de nossa percepção do tempo. Quando baixamos arquivos no computador percebe-se que alguns segundos demoram mais que outros, em função do peso do arquivo e da aceleração da conexão da internet[4]. O que Shanon suspeita é que o mesmo acontece com a memória humana, mas só é perceptível sob o efeito da DMT. É a pesquisa da mente humana através da experiência do ayahuasca (e não mais do ‘efeito ayahuasca’ na mente).
Tanto Shanon como Strassman enfatizam a idéia de tempo descontínuo. A DMT nos recoloca novamente dentro da simultaneidade. Com base nessas pesquisas e em minha vivência pessoal pode-se dizer que a experiência de ‘mirar’ ou ter ‘sonhos lúcidos’ se aproxima muito mais de uma supercognição (envolvendo os dois hemisférios cerebrais simultaneamente) do que de uma alucinação ou de apenas ilusões visuais. Supercognição que permite à consciência enraizada no presente ativar as memórias do passado com objetividade visual e prever (ou até mesmo influenciar) acontecimentos futuros.
Segundo o professor Oscar Calávia Saez (2008), quando os Yaminawa tentam explicar o que o ayahuasca é para eles, usam comparações como o ‘cinema do índio’, a ‘televisão’ do índio e até ‘o avião do índio’. O ayahuasca é o que permite uma visão ao longe e media o modo de ver o universo em seu conjunto. Todavia, além de ser uma tecnologia de transcendência do tempo/espaço, o Ayahuasca teve (ou tem) outro função menos evidente: criar uma linguagem xamânica comum entre grupos étnicos diferentes.
O que eram praticas xamânicas muito diferenciadas tem se transformado, talvez nos últimos 100 anos, numa espécie de ecumene indígena organizada em volta do uso da ayahuasca e dos cantos que acompanham esse uso. O xamanismo dos Shipibo-Conibo, dos Kokama, dos Kaxinawa, dos Yaminawa, dos Kampa, não são mais o que poderíamos chamar de xamanismos locais, étnicos, pertencentes a um pequeno grupo etnolingüístico. Há muito tempo que esse xamanismo se transformou numa linguagem comum, num mundo extremamente comunicado onde as canções da ayahuasca se transmitem de um grupo a outro. Enfim, a ayahuasca tem contribuído de modo muito importante para dar forma a um xamanismo que, apesar pensarmos que é extremamente antigo, provavelmente adquiriu a sua forma atual com a expansão, através da comunicação, da tradução facilitada pelo uso desse veículo, da ayahuasca.
Hoje, vendo os hinos do Daime cantados em vários idiomas, não se pode deixar de pensar que se trata do mesmo fenômeno. Segundo Saez, os Yaminawa quando bebem Ayahuasca, além das canções em línguas exóticas, entoam as canções em sua própria língua de um modo diferente. “É um modo de tratar a língua de uma qualidade poética minimalista realmente surpreendente e lembra os poemas curtos japoneses, Hai-kai’s; evocando detalhes infinitesimais que existem nas folhas, na pele dos animais.” Experiência estética semelhante a dos hinos do Daime cantados em português mundo a fora. As pessoas cantam e compreendem telepaticamente o conteúdo, mas não sabem o que exatamente significam. “Aprender a tomar ayahuasca significa aprender a entender esse modo de poesia”.
3) Revisando as revisões
Uma boa introdução à pesquisa do Ayahuasca é o livro Religiões ayahuasqueiras: um balanço bibliográfico (2008), de Beatriz Caiuby Labate, Isabel Santana de Rose e Rafael Guimarães dos Santos. O balanço das pesquisas realizadas sobre Santo Daime, Barquinha e UDV, contabilizou 52 livros (13 em inglês), 35 dissertações de mestrado, sete teses de doutorado, nove pesquisas em andamento e um número incalculável de monografias e artigos - em 11 áreas distintas de conhecimento.
Os primeiros artigos são dos anos 50. O marco fundador do campo na academia é a tese O Palácio de Juramidam (1983), de Clodomir Monteiro. Em 1984, Alex Polari, Cefluris, lança seu 1º livro. Em 1986 saiu o primeiro artigo acadêmico sobre a UDV, do Anthony Henman, em uma revista mexicana chamada América Indígena. Em 1993 foi realizado o Hoasca Project. A Barquinha tem seu primeiro livro em 1999. A década de 90 é marcada pela expansão do campo de estudos no Brasil e, a partir do ano 2000, começam a ser produzidos trabalhos no exterior. Outro marco importante é a pesquisa, realizada em 2003, sobre adolescentes da UDV. Os estudos sobre Ayahuasca hoje se multiplicam em progressão geométrica, levando os autores a declarar de que a “lista já nasce desatualizada, porque enquanto estamos falando tem alguém publicando alguma coisa”. E, de fato, de lá para cá várias teses, dissertações e monografias foram defendidas, diversos artigos científicos e ensaios foram escritos em nome da Pesquisa do Ayahuasca. [5]
Gostaria de destacar algumas iniciativas recentes. Ayahuasca: uma experiência estética (2009), de Rafael Barroso Mendonça, dissertação sobre a adequação entre o estado visionário e as práticas de vida do usuário, o modo de subjetivação do indivíduo. Uma etnografia ayahuasqueira nordestina (2009), de Wagner Lins Lira, uma análise etnográfica de duas dissidências nordestinas do Santo Daime e da UDV - a Sociedade Espiritualista União do Vegetal, localizada no município de Riacho das Almas (PE) e o Centro de Harmonização Interior Essência Divina, situado em Riacho Doce (AL) – buscando compreender suas relações empatia e oposição com as antigas matrizes ayahuasqueiras.
O trabalho mais interessante é o de José Eliézer Mikosz, A arte visionária e a Ayahuasca: Representações Visuais de Espirais e Vórtices Inspiradas nos Estados Não Ordinários de Consciência (2009). Mikosz estuda várias formas visuais (espirais, mandalas, labirintos, universos em camadas) e suas possíveis significações. Apesar de usar como referência os Estados Não Ordinários de Consciência (ENOC), em vários momentos aproxima-se bastante da idéia de sonhos lúcidos, de Stephen LaBerge, desenvolvida por Strassman.
A ayahuasca talvez permita entrar no rio mercurial (streaming of consciousness) que corre entre a vigília e o sono, a interseção entre a realidade cotidiana e seu fluido reflexo nos infinitos mundos da imaginação. A ayahuasca, como outras plantas e substâncias psicointegradoras, possui a potencialidade de aproximar o ser humano do lugar, por assim dizer, de onde os mitos procedem. Essa suspeita surgiu pela semelhança da experiência vivida com a ayahuasca e os estados hipnagógicos e mesmo dos sonhos. De onde vêm os pensamentos, são deliberados por volição, são sempre escolhas do “pensador” ou surgem como acontecimentos independentes, interagindo então com o indivíduo? Os devaneios, o estado hipnagógico, este muitas vezes similar às mirações, parecerem se desenvolver em uma corrente de consciência que passa como pano de fundo, independentemente da direção consciente do indivíduo. Essa corrente pode ser comparada a um filme contendo uma mistura de conteúdos pessoais e impressões e experiências vindas do meio ambiente. É possível interagir com esse conteúdo à medida que o estado de vigília vai relaxando seu controle, seja no início do sono, seja pela ação de psicoativos como a ayahuasca. Estudos mais profundos sobre essa característica da consciência certamente trarão conhecimentos maiores sobre os esforços cognitivos da mente. (MIKOSZ, 2009,249 )
Tais pesquisas (entre outras) atestam não apenas a qualidade e a importância do Ayahuasca como objeto de reflexão transdisciplinar, mas, sobretudo, a singularidade e relevância desta produção acadêmica no contexto científico internacional contemporâneo. Ou seja: o Ayahuasca e seu estudo são importantes contribuições brasileiras ao patrimônio da humanidade - algo que escapou ao nosso pobre jornalismo auto-colonizado, que pensou ter encontrado mais uma oportunidade política fácil de criticar o governo federal.
4) Uso terapêutico
No entanto, boa parte da literatura acadêmica mais recente sobre Ayahuasca trata de seu uso terapêutico, principalmente da possibilidade de sua utilização em tratamentos de dependência química, uma vez que já existe um alto de número de ex-usuários recuperados entre os adeptos das religiões ayahuasqueiras.
O texto coletivo Considerações sobre o tratamento da dependência por meio da ayahuasca (LABATE, SANTOS, ANDERSON, MERCANTE, BARBOSA, 2009) faz uma revisão bibliográfica específica desta literatura e sistematiza as principais reflexões sobre o potencial terapêutico do uso ritual da ayahuasca no tratamento ao abuso de substâncias psicoativas. O texto analisa a experiência de dois centros terapêuticos que combinam elementos da medicina e da psicologia ao uso da ayahuasca: o Instituto de Etnopsicologia Amazônica Aplicada (IDEAA), próximo à comunidade do Santo Daime Céu do Mapiá, no município de Pauini (AM) e o Takiwasi, em Tarapoto, no Peru.
São ainda discutidas perspectivas para uma futura agenda de pesquisas científicas interdisciplinares sobre este tema, refletindo sobre as possibilidades de diálogo entre biomedicina, antropologia e psicologia, além dos impasses éticos e dilemas metodológicos envolvidos neste tipo de investigação.
A aparente melhora de muitos casos de abuso e dependência de substâncias psicoativas, segundo o relato de vários grupos terapêuticos e religiosos voltados para o uso ritual da ayahuasca, bem como de antropólogos, psicólogos e psiquiatras que estudam o tema, representa um fenômeno de saúde promissor. Esse pode ser melhor compreendido a partir de estudos interdisciplinares sistemáticos que combinem a abordagem quantitativa com uma sutileza qualitativa e etnográfica. Tal esforço interdisciplinar deve ser acompanhado também de uma tentativa de diálogo com os saberes nativos, colaborando para que o conhecimento adquirido durante décadas pelos diferentes grupos que utilizam a ayahuasca no tratamento da dependência auxilie futuros estudos clínicos de terapias psicodélicas voltadas para abordar o problema.
Em relação ao uso terapêutico, há três assuntos centrais em pauta hoje: a) a emergência de surtos psicóticos; b) como utilizar o Ayahuasca na recuperação de dependentes químicos; e c) quais são os métodos de trabalho e as técnicas mais adequadas para esta integração.
O ayahuasca tem o efeito de agravamento dos sintomas, ele promove e desenvolve mudanças existenciais, levando as situações contraditórias a níveis críticos. Assim, outro tema correlato ao uso terapêutico do ayahuasca, é que ele desencadeia crises psíquicas e emergências espirituais. A experiência atesta que tais casos tanto podem ser vistos como uma superação de tendências psicóticas como podem causar danos irreversíveis, caso o sujeito das crises não encontre o apoio e a compreensão necessários para entender a situação em que se encontra. O papel da família, da comunidade religiosa e do ambiente profissional é preponderante para a recuperação e a superação das crises.
Daí a necessidade de se estabelecer critérios e parâmetros para propiciar a emergência espiritual de conteúdos psíquicos não se torne uma psicose ou uma esquizofrenia irreversível.
Movidos por esta preocupação a resolução do CONAD prescreve - e muitas instituições religiosas acreditam se defender dessas situações através de - uma rigorosa entrevista (chamada incorretamente de anámnese), que realizada de forma burocrática por pessoas despreparadas faz uma triagem preconceituosa e de baixa qualidade. Uma entrevista preliminar com as pessoas que vão tomar ayahuasca pela primeira vez é fundamental para o aproveitamento adequado da experiência, mas não deve tentar enquadrar os entrevistados em categorias de risco, pois essa prática além de moralista e politicamente incorreta é ineficaz no sentido de identificar comportamentos problemáticos ou possíveis emergências espirituais.
A verdade é que nada substitui uma conversa franca e compreensiva. Mas do que perguntar, o entrevistador deve responder as dúvidas e questões postas pelo entrevistado. E mesmo que identificados fatores de risco nos entrevistados, isto não deve ser motivo para exclusão ou para constrangimento, mas sim como uma informação relevante para compreensão do processo de transformação que se iniciará. A responsabilidade é mais importante do que o registro de controle.
Como também não basta informar os possíveis prejuízos da utilização de outras substâncias (como o álcool e a cafeína) e de excessos sexuais em conjunto com a ayahuasca, é preciso explicar, sem fanatismo ou superstições, quais sãos esses danos e quais são as conseqüências do uso indisciplinado da ayahuasca.
Porém, se os próprios adeptos dos cultos não obedecerem às prescrições que professam aos neófitos, as restrições necessárias à experiência soarão como hipocrisia e farisaísmo. E se é incorreto tentar escapar às crises antecipadamente pela triagem e exclusão, também é errado tentar encobri-las depois que emergem. Nesses casos, além de um atendimento terapêutico individualizado, deve-se manter a participação do sujeito em crise nos rituais religiosos ou nas práticas terapêuticas de grupo (caso isto seja possível) sem o consumo da ayahuasca ou com doses simbólicas. A exclusão do sujeito em crise do contexto da emergência espiritual (e seu deslocamento para outros cenários – psico-terapêutico ou médico-psiquiátrico) será prejudicial à conclusão satisfatória do processo.
5) Da distinção e integração dos “usos”
Outro assunto recorrente das pesquisas recentes sobre o Ayahuasca é sobre distinção entre as noções de ‘uso religioso’ e de ‘uso terapêutico’ de substâncias químicas que promovem a expansão da consciência. Alguns pesquisadores argumentam que essa distinção – agora oficialmente adotada pela resolução do CONAD - não faz nenhum sentido e que o ‘uso’ indígena seria mais terapêutico e recreativo do que religioso.
Em minha perspectiva, há diferenças: o uso religioso caracteriza-se principalmente por ser vertical, enfatizando a relação entre o Ego e o Eu Superior (ou a divindade); enquanto o uso terapêutico é horizontal, focado na relação entre o ‘Eu’ e o ‘Outro’. Embora essa seja uma distinção teórica, pois na prática os dois aspectos são indissociáveis, há intenções e ambientes (sets and settings) bem diferentes nas duas propostas.
E essa diferença nos faz levantar várias questões. Por exemplo: será que um dependente químico de drogas não tem maiores chances de recuperação em um paradigma (= ambiente + intenção) religioso, em que sua dependência transmuta-se em autonomia espiritual, do que em um paradigma psicológico onde ela pode ser transferida para o terapeuta ou para outros objetos horizontais? Ou ainda: será que Ayahuasca facilita ou amplifica a catarse emocional? Por que a exposição de sentimentos e emoções negativas (como a raiva e a tristeza) tão apropriadas no processo terapêutico pode gerar obsessões psíquicas e espirituais, quando realizada em estados de consciência alterada? O louvor ao sagrado cura devido sua gratuidade, já dar suporte ao desenvolvimento de resiliências (trabalho terapêutico) é uma atividade profissional remunerada – como conciliar essas questões?
O uso religioso objetiva o desenvolvimento ético e moral dos participantes do culto em geral, enquanto o uso terapêutico pressupõe um problema específico a ser resolvido por alguém em particular. Mas, é preciso definir melhor como se pode (e como não se deve) usar o Ayahuasca em uma resistência específica ao desenvolvimento individual e não estabelecer um ‘novo uso’ para a bebida.
A tradição daimista prescreve rigorosamente a não-intervenção, seja a forma de toque corporal ou tentativa verbal de comunicação, quando um participante do culto faz uma ‘passagem’, isto é, encontra com uma resistência em desenvolvimento e sofre algum tipo de mal-estar. Nesta ótica, é aconselhável que ‘a bebida e a pessoa se entendam’ ou que o processo psíquico desencadeado seja resolvido através de uma auto-adaptação da pessoa à situação emergente sem interferências. Tal prescrição é extremamente válida, principalmente no âmbito das igrejas e templos religiosos em que pessoas sem preparação (sem formação profissional específica) podem querer ajudar outras em um momento crítico.
Por outro lado, o uso consorciado da ayahuasca com algumas experiências com mudanças dos padrões corporais se mostrou bastantes produtivas, devido ao relaxamento muscular propiciado pela ingestão da bebida, como as aplicações sucessivas de massagem da técnica desenvolvida por Ida Roofing. Este processo de alinhamento postural pode ainda ser potencializado através de alongamentos e de exercícios regulares diários (de Pilates, RPG ou de Iso-stretching).
Já o uso do Ayahuasca consorciado diretamente às práticas catárticas da bioenergia e das meditações dançantes do Osho não apresentaram (para mim) nenhum benefício visível e certamente podem reforçar, ao invés de dissolver, as resistências psicológicas, sejam elas ‘couraças energéticas’ ou complexos comportamentais. Ou seja: a tradição espiritual desaconselha a prática da intervenção terapêutica no paradigma religioso, mas a experiência psicológica incentiva o uso da DMT como uma forma de intervenção espiritual no paradigma terapêutico. Portanto, não se trata de utilizar técnicas e práticas de outras paragens para ‘completar’ ou ‘aperfeiçoar’ os rituais associados ao Ayahuasca e às plantas de poder brasileiras, mas sim de aprender a utilizar estes rituais e estas plantas em processos terapêuticos. E, dentro de processos terapêuticos, dentro das experiências que organizei e presenciei, o Ayahuasca tem se mostrado muito mais adequado às técnicas de regressão biográfica através de sugestão hipnótica do que, diretamente, aos exercícios de movimento corporal e as massagens voltados para catarse.
Há também outras possibilidades de integração, como as técnicas de roda. A ciranda de vozes e de dança é um suporte de transmissão de memória e conhecimento anterior ao advento da escrita, quando os contextos de recepção e de transmissão de informação eram comuns. A roda centralizava o acesso ao conhecimento e instituía um tempo circular, simultâneo, sem continuidade. Com a escrita (e a memória social), surgiu a história (e o tempo linear baseado na acumulação de informação), os contextos de recepção passaram a ser múltiplos e distintos do contexto da fala. Hoje (graças à Internet) retornamos parcialmente ao tempo simultâneo e a esse suporte arcaico da cultural oral[6].
Ou seja: mesmo com o foco na DMT, percebe-se que os cantos e a dança em roda fazem parte da experiência espiritual do Ayahuasca. A química prescinde de práticas rituais para se realizar com sentido para seus usuários. E o CONAD foi bastante feliz em observar que, sem os rituais e práticas associadas ao culto da bebida, a DMT descontextualizada é apenas uma droga psicodélica que provoca acessos visuais.
6) Conclusões parciais
Quando escrevi o projeto DMT e Neurociências, imaginava desenvolver uma pesquisa acadêmica e não uma investigação pessoal sobre o papel da substância em minha vida. Porém, o transcorrer do trabalho me mostrou que o essencial era eu me conhecer e me desenvolver. E que a pesquisa do Ayahuasca não é apenas um campo interdisciplinar ou multidisciplinar, mas sim um ‘espelho transdisciplinar’ porque implica em auto-conhecimento: as informações científicas só fazem sentido se enquadradas em um sistema de crenças. Assim, para mim, a pesquisa do Ayahuasca passou a ser uma via de mão dupla: questionando minhas crenças em relação à objetividade científica; e, no sentido inverso, repensando a modernidade a partir da experiência cognitiva da bebida.
A resolução do CONAD é a primeira iniciativa legal para a proibição da comercialização do Ayahuasca no Brasil. Agora, o individuo que for pego portando a bebida e não estiver devidamente autorizado por uma entidade civil religiosa legalmente constituída poderá ser detido para investigação.
Só isso já é um grande ganho institucional para o movimento ayahuasqueiro e um avanço extraordinário em termos de clareza política do governo Lula sobre o papel eco-espiritualizante da cultura brasileira no cenário global – embora (quase) ninguém (nesse jornalismo tacanho de nossos dias) elogie este aspecto.
Mas, há também uma contrapartida negativa igualmente não evidente: a regulamentação poderá levar a uma fossilização institucional do movimento, a uma folclorização cultural dos rituais e/ou a um distanciamento cada maior da verdadeira essência do espírito revolucionário do Ayahuasca. A necessidade de regulamentação do movimento ayahuasqueiro está levando a um progressivo enquadramento social dos grupos e a uma atitude conformista em relação a mudanças na sociedade e nas instituições.O que está em jogo não a sobrevivência cultural do Santo Daime, da Barquinha ou da União do Vegetal, nem mesmo o uso indígena ou psiconáutico do Ayahuasca, mas sim, o papel extraordinário que a DMT desempenhou e desempenha na evolução psíquica e biológica humana, como também, o que pode vir a desempenhar no futuro, seja na recuperação de dependentes químicos e de psicoses depressivas, seja no seu desenvolvimento ético e de novas qualidades cognitivas no âmbito da percepção e da consciência. Ou seja: a discussão tem uma importância bem maior do que enxerga a maioria dos envolvidos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COSTA, Rafael Barroso Mendonça. Ayahuasca: uma experiência estética. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de Psicologia, 2009.
LABATE, Beatriz Caiuby; ROSE, Isabel Santana de; SANTOS, Rafael Guimarães dos. Religiões ayahuasqueiras: um balanço bibliográfico. Campinas: Editora Mercado de Letras/Fapesp, 2008.
LABATE, B.C., SANTOS, R.G., ANDERSON, B., MERCANTEe, M., BARBOSA, P.C.R. Considerações sobre o tratamento da dependência por meio da ayahuasca. Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP), 2009. Disponível em: www.neip.info.
LIRA, Wagner Lins. Os trajetos do êxtase dissidente no fluxo cognitivo entre homens, folhas, encantos e cipós: uma etnografia ayahuasqueira nordestina/ Wagner Lins Lira. – Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Pernambuco. CFCH. Antropologia, 2009.
GOMES, Marcelo Bolshaw. O Hermeneuta - Uma introdução ao estudo de Si. Dissertação de mestrado em Ciências Sociais. Natal: UFRN, 1997.
LIEVEGOED, Bernard. Fases da Vida – crise e desenvolvimento da individualidade. São Paulo: Editora Antroposófica, 1994.
MCKENNA, T. 'Caos, Criatividade e o retorno do Sagrado - triálogos nas fronteiras do Ocidente' (em conjunto com Ralph Abraham e Rupert Sheldrake) São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1994.
METZNER, Ralph. Ayahuasca - Human Consciousness and the Spirit of Nature. Thunder's Mouth Press, New York, 1999. Tradução Márcia Frazão, Rio de Janeiro: Gryphus, 2002.
MIKISZ, José Eliézer. A arte visionária e a Ayahuasca: Representações Visuais de Espirais e Vórtices Inspiradas nos Estados Não Ordinários de Consciência (ENOC). UFSC, 2009.
SHANON, Benny. A ayahuasca e o estudo da mente in: LABATE B. & SENA ARAÚJO W. (diretto da), O uso ritual da ayahuasca, 2002a pp. 631-659.
_______ O conteúdo das visões da Ayahuasca. Revista Mana, Out 2003, vol.9, n.2, p.109-152.
STRASSMAN, Richard. DMT: the spirit molecule: a doctor's revolutionary research into the biology. Rochester: Park Street Press, InnerTraditions, 2001.
Notas :
[1] Marcelo Bolshaw Gomes é jornalista, professor de Comunicação da UFRN, doutor em Ciências Sociais e moderador da lista
[2] + sobre os sonhos lúcidos: <>
[3] Em 1952, Leitman e Aserinsky (2003) estabeleceram, através de eletroencefalogramas, o ciclo fisiológico do sono, composto por pelo menos três estágios com diferentes propriedades neurofisiológicas: o estágio hipnagógico (início do sono em que os pensamentos consistem em imagens fragmentadas e pequenas cenas), o estágio do sono de ondas lentas (em que as ondas cerebrais do neo-cortex apresenta freqüências baixas e grande amplitude) e o estágio do sono REM. Durante o sono REM, o cérebro apresenta um funcionamento das sinapses cerebrais superior ao estado da vigília em momentos da maior atividade (confronto com perigo, luta pela sobrevivência, contato sexual iminente).
[4] A propósito, todos trabalhos citados podem ser baixados da Biblioteca Virtual dos Pesquisadores do Ayahuasca. <>
[5] A maioria das teses, dissertações e monografias escritas podem ser baixadas da Biblioteca Virtual dos Pesquisadores do Ayahuasca.
[6] O próprio ritual do Daime, o hinário bailado e cantado, é um excelente exemplo de uso da roda de vozes e danças como estrutura trifásica (de movimento, canto e pensamento), como forma de propiciar um aprendizado existencial significativo e de transmitir conteúdos simbólicos, integrado ao paradigma histórico da escrita e do pensamento objetivo.

sábado, 13 de março de 2010

Entrevistas com parceiros de Carlos Castaneda: Edgar Delgado

- Fale-nos sobre seu primeiro encontro com Carlos Castaneda.

_ Foi através de seus livros, quando eu tinha 14 anos. O primeiro que li foi “Os Ensinamentos de Dom Juan”. Lembro-me que, ao vê-lo, pensei que se tratassem dos ensinamentos de Dom Juan Tenorio, e que me ensinaria como arranjar uma namorada, por isso o peguei com avidez. Mas o conteúdo me saiu ainda mais interessante do que tudo que eu poderia esperar. Li de uma vez só, em um só dia, e me impressionou tanto, que a partir de então busquei todos os livros de Castaneda e os estudei. Nunca mais pude deixá-los. Com eles aprendi o que significa ser um guerreiro, e tomei esse ensinamento como um objetivo em minha vida.

_ O que pode nos dizer sobre as reuniões com ele das quais você participou?

_ Nunca tomei notas, por isso tudo o que posso dizer é a partir das minhas lembranças. Tenho a vantagem de ser meio surdo, de modo que meus amigos, depois de uma reunião, conferência ou encontro, tinham a gentileza de resumir para mim tudo o que havia dito o nagual; isso me permitia escutar tudo duas vezes.

Meus primeiros encontros com ele foram em conferências públicas no México, que tiveram lugar no Centro Cultural Universitário, no Palácio de Minería e na livraria do Fundo de Cultura Econômica.

A conferência da universidade se deu na época em que acabava de sair em castelhano seu livro “O Presente da Águia”. O auditório estava completamente cheio. Um dos organizadores apareceu para desculpar-se e disse que o senhor Castaneda não ia se apresentar, o que levou grande parte do público a abandonar o recinto. Também pensei em me retirar, mas meu amigo Victor Sanchez, que estava ao meu lado, deteve-me e disse: “Esperemos para ver o que acontece”.
Sentei-me novamente e me armei de paciência. Esperamos durante longo tempo. De repente apareceu Castaneda no palco, pediu aos presentes que se aproximassem, dizendo que não gostava de usar microfones, e começou sua conferência.

Disse muitas coisas. O que mais me chamou a atenção foi sua afirmação de que havia entrado na terceira atenção brevemente, mas não havia podido ver nada que pudesse estruturar como uma idéia. Tudo o que se lembrava daquele mundo se resumia a coisas que giravam numa velocidade “centrífuga”. Por fim, terminou preso em uma espécie de rodamoinho, do qual se acercaram seres inorgânicos, que se ofereceram para salvá-lo, se e quando ele aceitasse ficar com eles. Mas ele se negou e conseguiu sair por sua própria força. Afirmou que a velocidade “centrífuga” lhe causou um descolamento de retina.

Fazia pouco tempo que eu tinha provado o peyote com uma xamana chamada Georgina, que também andava nos grupos do nagual no México. Por isso, a primeira pergunta que lhe fiz naquela noite foi sobre esse tema.

“Nagual, você afirma em seus livros que as plantas de poder servem como proteção, nos dão força. Agora que a leitura me levou a fazer essa experiência, tenho que continuar a consumi-las?”
Lembro-me bem de sua resposta: “Use as plantas de poder uma, duas ou três vezes, no máximo. Elas farão com que o seu ponto de encaixe se mova e abra um túnel em sua luminosidade. Então, à base de disciplina e economia de energia, você sozinho, sem o apoio das plantas, deve chegar ao mesmo lugar e ter as mesmas visões. Afinal, seu ponto de encaixe já conhece o caminho. O que fará com que sua percepção se desloque será sua economia de energia, sua impecabilidade.”
Afirmou que as plantas de poder não devem ser usadas muitas vezes, pois podem criar fendas irreparáveis na luminosidade de uma pessoa.

Na conferência do Palácio de Minería fui testemunha de como Victor Sanchez chegou junto dele, o saudou e o abraçou com carinho. Por essa época, Victor tinha aproximadamente 22 anos. Isso foi três anos antes de escrever seu livro “Os Ensinamentos de Dom Carlos”, e pouco antes de Florinda Donner convidá-lo a ir a Los Angeles, convite que ele nunca aceitou.

Nessa oportunidade, referiu-se aos ovos luminosos verdes e azuis. Disse que os verdes eram mais parecidos com o dos bruxos da antigüidade, e que os azuis eram muito raros de se encontrar, pois não eram desse mundo.

Também me lembro de um encontro muito impactante na Casa Amatlán, um centro onde se davam aulas e terapias, dirigido por dois amigos próximos do nagual. Castaneda chegou quando estávamos praticando nossas aulas de Tensegridade; já tinha o cabelo grisalho e seu corpo era muito delgado; aparentava uma fragilidade extrema, a ponto de um amigo, Juanito, se oferecer para ajudá-lo a descer a escadaria da sala.

O que surpreendeu a todos nós foi que o nagual tirou o paletó e começou a nos ensinar os movimentos de Tensegridade com um dinamismo fora do comum. A transformação foi maravilhosa, como essas histórias dos mestres de Kung Fu, puro nervo em seu corpo. Uma de nossas companheiras, Aída, perguntou surpresa a Mariví:

“Mas... quem é esse senhor?”

E ela respondeu:

“É o nagual, idiota!”

Apesar de não dar uma de milagreiro, Castaneda era um homem poderoso. Em certa ocasião levou um grupo de amigos à cidade de Tula, capital do império tolteca, e percorreu com eles as ruínas, o museu e a igreja em que ele havia conhecido anos antes o Desafiante da Morte.
Um ano depois, alguns dos participantes quiseram reviver sua experiência e viajaram de novo para Tula. Mas ao chegar, oh! surpresa, descobriram que a igreja que tanto lhes havia impressionado pelo seu esplendor barroco, se havia modificado. Onde antes havia um altar talhado em madeira, agora se alçava um moderno púlpito, a decoração era outra. Ficaram transtornados, sua mente não podia aceitar que essa fosse a mesma igreja que visitaram com Castaneda.

Perguntei a Mariví o que havia acontecido a essas pessoas. Ela me explicou que o nagual os havia levado, em um ensonho, a um povoado quase idêntico, mas que não era a mesma Tula de nossos dias.

Tempos depois, Mariví me levou a Tula e me mostrou alguns segredos que lhe havia revelado o nagual. Por exemplo, conduziu-me a um lugar onde estava a estátua de um Chac-mool e me ordenou que pusesse um dedo debaixo do seu nariz. Assim o fiz, e de repente percebi que a escultura respirava! Ela me disse que o nagual Carlos havia feito o mesmo com ela e lhe havia explicado que essa escultura era de um antigo guerreiro que havia transferido sua consciência para a pedra.

Também lhe contou que, do Cerro de la Campana – um lugar próximo às ruínas arqueológicas que constitui o centro de referências de toda a cidade –, os voadores se lançavam, planando até as ruínas, e que os videntes os viam como gigantescas pipas negras. E que, em certos momentos do entardecer, as pirâmides deixavam de ser montes de pedra e se tornavam chamas brilhantes de cor esmeralda.

_ Quais os ensinamentos de Castaneda que mais o impressionaram?

_ Sua exigência de sermos impecáveis. Percebi o que isso significa dez anos depois de meu primeiro encontro com ele. Mariví me havia convidado a um centro chamado Casa Tibet, que estava sob o mando de Toni Karam, outro dos principais organizadores dos grupos do México. Quando Castaneda estava dando sua palestra, perguntei a ele:

“Nagual, quanto mais humilde quero ser, mais me vanglorio de meus atos de humildade, e termino sendo o mais chingón dos humildes. Que posso fazer?”

Olhou-me com assombro. Seu corpo se moveu com agilidade, parecia que ia saltar da tribuna para me dar uns cascudos por perguntar essas tolices.

“Olhe para mim!”, disse, “Olhe-me bem! Eu não sou humilde, mas tampouco me sinto importante. Não me sinto melhor do que nenhum dos que aqui estão. Só sou o melhor de mim mesmo: um guerreiro impecável.”

Com essa frase terminou minha busca de humildade e começou meu caminho para a impecabilidade. Compreendi que o caminho dos bruxos não tem a ver com posições de falsa moral, e sim com abandonar a importância e economizar a energia.

Recordo que, a princípio, o nagual zombava das pessoas novas que chegavam aos grupos de práticas. Dizia, rindo:

“Chegam com a importância pessoal pela frente, desejosos de serem notados. Têm esperança de que eu os descubra, e aí estão, olhando-me, como que dizendo: ‘aqui estou, já cheguei, descubra-me, por favor!’ É como se quisessem se tornar meus herdeiros, ou pelo menos, membros do meu grupo.”

Nós dávamos muitas risadas, porque sabíamos que era verdade.

Contou-nos que, em certa ocasião, um homem parou na frente dele e começou a repetir uma estranha palavra, como uma espécie de mantra. Ele se surpreendeu e perguntou o que ele estava fazendo, ao que o homem respondeu: “É que estive sonhando com você, e no meu sonho você me disse que, se eu me lembrasse dessa palavra e a pronunciasse aqui, frente a frente, então se abririam para mim todas as portas.”

Naturalmente, Carlos não lhe fez caso, deu meia volta e se foi. O homem, com cara de surpresa, ficou lá repetindo sua palavra, olhando enquanto o nagual se afastava.

Como pude comprovar, era fácil apaixonar-se por sua pessoa. Vi que as pessoas chegavam a suas conferências para escravizar-se, mas o que ele menos queria era ter escravos. Quando tratava de afastar os mais bajuladores, estes se decepcionavam e até se zangavam. Sempre havia alguém com alguma história de desilusão para contar.

Segundo Castaneda, um guerreiro tem que ser independente, sem um pingo de auto-compaixão, capaz de valer-se por si mesmo e sumamente respeitoso da integridade dos demais. Em uma ocasião, referindo-se à não-compaixão como requisito para encontrar a liberdade, disse-nos algo muito forte:

“Se vier a Madre Teresa de Calcutá e quiser ajudar você, cuspa-lhe na cara! Vai lhe fazer um favor, porque ela vem impor seu amor e seu desejo de ajudar, sem lhe pedir permissão.”

Outra das importantes lições que me deu teve a ver com o manejo da energia sexual.

Eu havia viajado para um seminário em Los Angeles. Caminhava sozinho, rumo ao restaurante no qual costumava comer, mas uma sensação estranha no estômago me fez pensar em outro restaurante cubano, que ficava a uma hora de caminhada. Como eu não tinha maiores compromissos nesse dia, dei meia volta e me dirigi ao local.

No restaurante encontrei um companheiro argentino que também assistia ao seminário de Tensegridade. Estava sentado junto à porta do lugar. Cumprimentei-o muito contente e fiquei conversando com ele, mas, passado um tempo, notei que ele estava ficando mais e mais nervoso. Finalmente, vendo que eu não ia embora, me disse que esperava alguém. Repliquei que, quando a visita chegasse, eu os deixaria a sós e iria comer lá dentro. Mas ele ficou ainda mais nervoso, e me confessou que tinha um encontro com o nagual, e que este não devia me ver ali, pois poderia pensar que ele me havia avisado.

Sabendo que o segredo e a discrição eram requisitos indispensáveis para mover-se nesse meio, despedi-me dele e entrei até o fundo do restaurante, colocando-me, porém, em um lugar de onde pudesse ver. Assim, dispus-me a esperar, e comi lenta e saborosamente.

Finalmente, vi como meu amigo se despedia e ia embora, cabisbaixo. Senti um pouco de culpa, pois pensei que talvez o nagual o tivesse visto comigo do seu automóvel, o que seria suficiente para cancelar o encontro. Cinco minutos depois da partida do meu amigo, pedi a sobremesa para retirar-me. Mas nesse momento, vejo na porta o nagual e Kylie, a instrutora de Tensegridade. Caminharam diretamente para minha mesa; ele ia na frente. Levantei-me, encarei-o e disse, sorrindo:

“Boa tarde, nagual. O homem que você chamou para almoçar ficou pelo menos uma hora esperando lá fora e acaba de ir faz uns minutos.”

Kylie se aproximou, colocando-se entre nós. Ele, muito amavelmente e com uma cara de surpresa na qual se vislumbrava certo mal-estar, replicou que não esperava ninguém para almoçar, que havia ido ali apenas para almoçar com Kylie.

Senti-me tão idiota! Pedi desculpas e me sentei. Eles se sentaram três mesas atrás de mim. Com pesar, comecei a comer a sobremesa, mas, poucos minutos depois, Castaneda levantou-se de sua mesa e foi conversar comigo. Foi essa a única ocasião em que tivemos uma conversa realmente em particular. Pôs a mão sobre meu estômago e disse: “Você tem estofo, mas, o que faz de noite quando está sozinho?”

Eu soube a que se referia. Pouco antes nos havia contado uma história sobre uma mulher guru muito famosa da Índia. Disse-nos que havia recebido uma indicação do nagual Dom Juan para ir conhecer pessoas importantes e líderes do mundo. Tinha que compreender o que era que tinham em sua energia que os destacava do resto das pessoas. Ele dizia que os gurus não são como os xamãs, que podem mover o ponto de encaixe para entrar em outros estados de percepção, e sim, que são pessoas que têm o ponto de encaixe maior que o normal. Por conseguinte, têm acesso a mais bandas luminosas de consciência.

Numa dessas viagens, encontrou-se com uma mulher guru. Entrou em um recinto, e a mulher estava sentada em uma espécie de trono, com dois homens, um de cada lado. Era muito bonita e contou-lhe histórias sexuais, tentando induzir idéias desse tipo, tanto em Castaneda quanto na mulher que o acompanhava.

Não obtendo resposta, a guru começou a tocar nos testículos de um homem que estava junto dela. O homem devia estar mais que acostumado, porque, apesar de essa senhora mexer em sua intimidade, ele não tinha nenhuma ereção.

Castaneda a questionou: “Como você se sente à noite, quando está sozinha e se olha no espelho, e vê que não há congruência entre o que diz e o que faz? Como pode se olhar e não sentir vergonha de si?”

Ela respondeu-lhe, com um olhar de malícia: “O segredo é nunca estar só.”

Naquele restaurante cubano, a pergunta de Castaneda me tocou bem fundo. Tomei-a como indicação direta sobre a minha conduta.

A conversa foi longa. Ao final, Kylie, muito amavelmente, nos interrompeu, indicando que a comida dele estava servida e esfriando. Carlos se despediu de mim, mostrando muita amabilidade. Já quando se ia, deu-me outra indicação:

“Mude de trilha.”

Naquele momento não entendi, mas, depois, Rosa me explicou o que isso significava:

“Você é muito xamã. Mude de trilha, torne-se alguma outra coisa, um comerciante, por exemplo. Essa é uma trilha completamente diferente da sua percepção e da posição habitual do seu ponto de encaixe.”

Obedeci imediatamente a sua sugestão, e em um ano havia aberto uma loja de móveis.
Carlos estava cheio de ensinamentos. Toda vez que me encontrei com ele obtive algo de valor para minha evolução pessoal. O mais interessante é que tinha o dom de exemplificar vividamente suas descrições, fazendo com que fosse mais fácil entender as proposições abstratas dos bruxos. Este é um caso: na Casa Amatlán havia uns ovinhos de pedra à venda; um dia o nagual os adquiriu e deu um de presente para cada um de nós, para nos recordar que, no caminho do conhecimento, é preciso ter ovos de aço.

Outro de seus métodos didáticos era repetir uma e outra vez certas histórias, a fim de que ficassem profundamente impressas em nosso interior. Afirmava que há tópicos na bruxaria que, se não se repetem, não são captados pelo consciente. Também era muito dado a levar seus aprendizes para lugares de poder, como montanhas, grutas ou ruínas. Esse era seu estilo.

_ E que faziam nesses lugares?

_ Praticávamos exercícios, mas também havia outras atividades.

Em uma ocasião soube que ele havia levado um grupo bastante numeroso de companheiros às grutas de Cacahuamilpa. Não pude assistir, pois fui passear em Taxco. Depois tive um encontro fortuito com Marcela (uma das mais próximas aprendizes do nagual) e perguntei a ela o que haviam feito lá.

Ela me disse que, na linhagem de Dom Juan, os aprendizes iam para essas grutas, porque ali existia um guerreiro de antes de nossa humanidade. Esse bruxo era uma grande abóboda natural no fim da gruta, um olho imenso de pedra, que é consciente das intenções dos que ali vão com um ânimo impecável. Durante gerações, os membros dos grupos iam até esse lugar para fazer a promessa de seguir o caminho do guerreiro. Essa consciência serve de porta. Marcela ordenou-me que fosse ali fazer meu voto.

Essas expedições foram no princípio; depois, tudo mudou.

O trabalho de Castaneda se fez mais teórico. Os encontros se canalizaram para a prática da Tensegridade e deixaram de ficar restritos a grupos pequenos. Ao massificar o ensinamento, o nagual teve de afastar-se do trato pessoal. A mudança se nota inclusive em seus livros, que adquiriram outro caráter.

E não foi somente uma mudança de estratégia, também houve alterações profundas na energia. Dei-me conta disso um dia, enquanto estava na sala da casa de Mariví. Ela comentava sobre suas experiências com o nagual, afirmando que com ele havia vivido alguns dos momentos mais felizes de sua vida. No meio da conversa tocou o telefone. Ela atendeu e, pelo tom de sua voz, percebi que era Castaneda.

Conversaram durante cerca de uma hora. Finalmente, ela desligou o telefone e me olhou. Havia lágrimas em seus olhos. Disse-me que o nagual havia ligado para despedir-se dela, porque estava prestes a deixar esse mundo. Pareceu-me que estava falando de sua morte. No entanto, Carlos permaneceu ainda por quatro anos entre nós.

Por aqueles dias acabava de sair seu nono livro, “A Arte do Sonhar”. A partir daí, tenho a sensação de que uma parte dele se foi; seu corpo ficou nesse mundo, porém já não era o mesmo nagual; estava ocupado, talvez, pelo Desafiante da Morte ou por alguma outra energia. Pode ser que tenha mudado sua configuração energética.

A nova etapa se consolidou quando Castaneda começou a dar seminários de Tensegridade, muitos seminários em pouco tempo. Neles, negava-se a falar do que havia escrito em seus livros, e afirmava:

“Aquilo é velho, aqui tenho o novo.”

No primeiro intensivo que houve em Los Angeles, chegaram umas 180 pessoas, porque não se sabia se ali estaria Carlos Castaneda em pessoa. Mas quando se soube que ia vir mesmo, começou a chegar gente de todos os lados, até que nos reunimos cerca de 600. Se bem me lembro, os primeiros que chegamos recebemos um diploma; que eu saiba foi a única vez que deram diplomas.

Às vezes, nos convidava para as aulas de Tensegridade em Santa Mônica. Assistir a cada três meses a esses cursos me permitiu ir conhecendo o grupo de pessoas que havia buscado durante anos o nagual. Eu procurava não perder nenhum evento, tanto no México quanto em Los Angeles ou na Espanha.

Durante os encontros em Los Angeles, Carlos sempre separava o grupo de pessoas que falavam espanhol, e nos dava pelo menos uma palestra em particular: as aulas latinas. Dizia que não é a mesma coisa transmitir o conhecimento dos bruxos em inglês e em espanhol, porque foi nesta última língua que ele o aprendeu, e no México é que foram elaborados os conceitos fundamentais.
Lembro-me da primeira vez em que me sentei a uma mesa para comer com ele. Éramos quatorze convidados, todos latinos; faltavam chegar quatro pessoas, entre elas, uma jornalista de Nova York. Rosa Coll estava encarregada de nos atender. Pamela Fields, minha companheira naquela época, esperava em outra mesa do restaurante, já que era norte-americana. Pedi a Rosa que desse a ela a oportunidade de ficar próxima ao nagual, e ela amavelmente concordou que Pamela ocupasse um dos lugares dos convidados que não haviam chegado. Assim, fiz um sinal a Pamela, que se aproximou da mesa.

Ao vê-la, Castaneda confundiu-a com a jornalista que estava esperando, saudou-a efusivamente e abraçou-a com muito carinho. A surpresa de todos os presentes foi imensa. Quando se esclareceu a confusão, ele tomou o encontro como um augúrio e, como exceção, permitiu que Pamela se sentasse com o grupo de latinos. Foi a única norte-americana a quem ele concedeu esse direito.

Lembro-me de outra vez, nos primeiros cursos, em que as instrutoras que eram chamadas de as Chac-mool tiveram uma pequena divergência em público sobre a maneira de fazer determinado movimento.

A conferência estava sendo dada em um grande auditório, e contava com a assistência de umas 600 pessoas. O nagual, de forma pública e fulminante, as repreendeu e destituiu. A Tensegridade continua mas as Chac-mool terminam, disse. Nos seminários seguintes reapareceram com um grupo de aprendizes denominados os Elementos. Sabia bem que nesse grupo não se podia cometer erros.

Lembro-me de uma dessas reuniões dirigidas aos latinos, na qual ele começou a falar mal de Rosa Coll, dizendo que, já que ela em seu crescimento estava superando a importância pessoal, já se podia falar mal dela em público sem que isso lhe causasse uma perda de energia; descrevia-o como uma realização e uma forma de posicionar o aprendiz no ponto de crescimento em que estava.

Também me recordo de quando falava sobre a necessidade da massa energética gerada pelos grupos. Contou-nos uma história: havia um cientista que pôs uma formiguinha em observação, o bicho caminhava de um lado para o outro, pôs duas, três, assim até 41; as formiguinhas, desconcertadas, pareciam não saber o que fazer... De acordo com essa história, cada vez que se juntavam 42 formigas estas tinham a massa energética suficiente para criar uma consciência coletiva e saber o que fazer: um formigueiro; quando são 42 formigas no mínimo, cada uma sabe qual é o seu papel para criar um formigueiro.

Lembro-me também – mas não localizo exatamente onde foi o comentário – que a energia gerada pela Tensegridade se canalizava para resgatar Dom Juan e seu grupo que haviam ficado presos na segunda atenção; que era um pagamento mínimo de nós para com ele pelo legado que nos havia deixado.

A última vez que o vi foi em Santa Mônica; como sempre, havia no mínimo uma reunião com os latinos dentro dos seminários. Corria o rumor de que ele estava enfermo e era possível que não se apresentasse, mas ali estava, radiante e belo, cheio de vida, nervoso e ágil, transmitindo como sempre o melhor de si, respondendo às perguntas e fazendo as pessoas rirem; era um prazer vê-lo, um momento sublime para a eternidade. Uma mulher fez a pergunta: “E você, como está?”
O rosto do nagual Carlos Castaneda mudou por completo, seu olhar se entristeceu.

“Os inorgânicos querem me levar, moveram uma só fibra energética, o açúcar (diabetes). Preciso de uma razão para ficar; já cumpri minha tarefa; movi o ponto de encaixe da terra, resgatei Dom Juan que ficou preso com seu grupo na segunda atenção e entrei com o corpo na terceira atenção. Preciso de uma nova razão para ficar, oxalá essa razão fossem vocês com a Tensegridade.”

Realmente era fácil admirá-lo e apaixonar-se por ele. Desde a primeira vez que o vi até a última, sempre admirei a congruência entre suas palavras e seus atos. Escutei muitas histórias, e vi muitas pessoas que queriam ser seus escravos e como não foram aceitas se desiludiram e se aborreceram, vi também fanáticos que acreditavam que o único xamanismo que existia no México era o tolteca. Até um amigo meu que trabalhava na CIA comentou que Carlos era uma das pessoas mais observadas pelo serviço de inteligência. Eu pessoalmente fico com o que vi: um Guerreiro Impecável que admirei acima de tudo. Hoje me sinto orgulhoso do que sou e sei que o devo a ele. Esteja onde estiver, meu amor incondicional e meu agradecimento eterno.

Entrevistas com parceiros de Carlos Castaneda: Francisco Plata

_ Quando você conheceu Carlos Castaneda?

_ Meu primeiro contato físico não foi com Carlos, e sim com Dom Juan. Tudo começou no ano de 73, graças a uma amiga minha chamada Zuleica. Em certa ocasião, estivemos conversando sobre a técnica de T’ai Chi Chuan, pois eu dava aulas dessa arte. Ela gostou muito do que eu lhe disse, e, em reciprocidade, me falou do primeiro livro de Carlos – a quem afetuosamente chamava Carlitos – que acabava de sair em inglês. O tema me interessou, ela me emprestou o livro, eu o li de uma vez só e assim conheci as idéias do nagual.

Naquela época, eu havia percorrido sociedades, grupos esotéricos e escolas de todo tipo; havia lido um bom número de livros sobre ocultismo e magia, mas em nenhum deles encontrava um paralelo com o que eu estava vivendo. Então conheci o livro de Carlos, e este sim se ajustava a minhas experiências pessoais! Fascinou-me de imediato.

Zuleica era amiga de uma curandeira, a mestra Magdalena, que era uma vidente extraordinária; assim que o via, sabia tudo sobre você e suas curas eram quase milagrosas. Por exemplo, cada vez que morria sua mãe, que já era muito idosa, ela ia para o outro lado e a trazia de volta. Assim fez umas cinco ou seis vezes, até que um dia a mãe lhe pediu:

“Deixe-me ir, minha filha, porque quero seguir meu caminho.”

Só então a deixou partir.

Segundo soube, a mestra Magdalena era muito amiga de Dom Juan Matus; já ouvi dizer até que era sua comadre.

Três anos mais tarde, em 73 ou 74, Carlos deu uma série de conferências na casa de Milosh. Este homem, de sobrenome Trnka, era um acupunturista de origem checa que se interessava muito pela cultura pré-hispânica e o mundo mágico. Como já era seu amigo, ele me ligou e me disse, com seu sotaque checo:

“Mestrrrre, venha parrra cá, porrrque Carrrlitos vai virrr.”

Assim o conheci. No total, foram seis reuniões de três ou quatro horas cada uma.
_ O que você se lembra desses encontros?

_ O primeiro que salta à memória é a facilidade com que Carlitos prendia sua atenção em uma conversa muito interessante, ao mesmo tempo amena e divertida. Por outro lado, transparecia a enorme profundidade do ensinamento do qual ele era herdeiro.

Na realidade, os ensinamentos de Dom Juan não podem se separar da tradição atualmente representada pelos concheros do México. Os concheros são a sobrevivência da religião asteca; chamam-se assim porque tocam a concha, um alaúde cuja caixa de ressonância é feita de uma concha de tatu. Em seus cantos, eles falam de como nasceu sua tradição; afirmam que a “pedra fundamental” foi levantada na cidade de Tlaxcala. Isso se refere à adaptação que fizeram no início do século XVI das tradições pré-hispânicas. Não significa que trocaram uma religião por outra, e sim que se adaptaram estrategicamente à realidade da colônia.

Os sábios e sacerdotes indígenas foram tão inteligentes que desde o primeiro momento encontraram na religião cristã os elementos que eram comuns à sua própria tradição, e mudaram os símbolos. Em grande parte, o que Carlos fez foi tomar esses símbolos e decodificar o conhecimento que protegiam, dando-lhe uma forma abstrata, de acordo com a nossa época. Entretanto, você deve levar em consideração que o que ele maneja não é o saber cultural pré-hispânico, mas o conhecimento dos bruxos de sua linhagem. A cultura é uma coisa, a sabedoria dos naguais, outra. É o mesmo que acontece entre nós. Imagine se todo mundo conhecesse a obra de Einstein! Não, em todas as culturas, só uns poucos são capazes de compreender o saber esotérico. Os naguais sempre foram uma elite, e, além de tudo, escondida.

Com este assunto ocorre o mesmo que com os aprendizes: a técnica dos naguais é transmitir a informação em dois níveis de consciência, dos quais um permanece oculto e o outro se faz público. Depende do aprendiz recuperar a totalidade do ensinamento mediante exercícios de introspecção e alinhamento.

Carlos assegurou que, depois daquele famoso salto no abismo, ele não se lembrava de grandes porções do que lhe havia ensinado Dom Juan; as partes mais importantes se apagaram de sua memória. Nem sequer tinha certeza de que o que havia acontecido com ele era verdade ou somente imaginação. Acrescentou que ele vinha ao México precisamente para recuperar o ensinamento.

Um exemplo de sua relação com a tradição é a regra. A regra é o aspecto central do nagualismo; pode-se definir como o mapa das ações dos grupos de bruxos.

Em uma das reuniões, Carlos nos confessou como havia conseguido recordar esse tema. Aconteceu que ele teve que vir para tramitar a publicação de seu primeiro livro em espanhol. Aproveitou para dar uma entrevista coletiva, na qual grudou nele um repórter que queria aprender tudo, e ia para todo lado com ele. Este o levou para conhecer os dançarinos concheros, que estavam ensaiando. Nesse momento, o Espírito se manifestou:

Um dos louvores dizia: “Que viva, que viva o senhor Santiago, porque ele é o mensageiro dos quatro ventos!” Carlos conta que, quando ouviu isso, teve um choque, sua memória profunda se abriu e começou a recordar: veio-lhe o ditado completo da regra.

Sentindo-se muito emocionado e sumamente agradecido, decidiu dar várias palestras, e assim o propôs a Andrés Segura.

_ Pode nos explicar um pouco mais sobre a regra?

_ Os bruxos afirmam que tudo o que ocorre no Universo tem regras; é assim que as coisas funcionam. Aplicadas às atividades que eles fazem, essas regras formam a teoria do grupo do nagual – um grupo de práticas xamânicas – cujo propósito é dar um salto coletivo para a liberdade.

Mas há muitas outras aplicações da regra, milhares. Por exemplo, na medicina tradicional vemos que as pessoas se afetam mais facilmente segundo a direção de sua energia: os homens de ação ficam doentes do coração e do intestino delgado; os eruditos, do estômago e do baço, e por aí vai. A regra é a base de todas as artes tradicionais, a acupuntura, o Feng Shui, as artes marciais... Podemos encontrá-la em todos os livros oraculares do mundo, tais como o Tarot, o I Ching, as runas, o Tonalámatl (calendário pré-hispânico)... De modo que a regra não é algo exclusivo dos naguais nem do México: é um assunto universal.

A regra do nagual afirma que os bruxos se organizam em grupos, em múltiplos de quatro, orientados para as quatro direções. É a organização mais natural para que a energia flua. Eu tive conhecimento dessa ordem muito antes de saber de Carlos. Através de uma investigação “histórica” (digo histórica entre aspas, porque melhor dizendo é mítica), percebi que os mestres orientais trabalhavam em grupos estruturados. Por exemplo, você tem aí os dezesseis Arhan do budismo, as quatro bestas de quádruplo rosto na visão de Ezequiel, os quatro grupos de quatro cavalos com as cores das quatro direções que viu o xamã norte-americano Alce Negro quando foi iniciado. A lei do quatro aparece uma e outra vez em todas as tradições.

Naquela época, eu aplicava a regra de forma intuitiva. Agora que tenho os livros de Carlos, então digo, ah, pois é o grupo (partida)! O ensinamento do nagual, ainda que não tenha modificado essencialmente o curso de minha vida, me serviu de modelo. Seus livros vieram colocar a nota final em uma série de investigações que eu havia empreendido de forma muito pessoal.
Mas é um erro conversar sobre este assunto. A regra é algo que tem que se experimentar. E não estou certo de que alguém que não seja um nagual possa entendê-la totalmente. Isto não minimiza a importância dos guerreiros dentro de um grupo. Tal como indica o texto de Armando Torres, cada um dos participantes é tão valioso como qualquer outro para conseguir o objetivo final, que é o passo para a liberdade. O valor de cada guerreiro consiste em reconhecer-se e aceitar-se tal como é, segundo sua forma energética, e ao mesmo tempo reconhecer e aceitar os demais. Só assim podemos funcionar como indivíduos e como conjunto.

A importância da regra está em vivê-la, não em como é recebida. Há muitas tradições no mundo. Carlos a recebeu em forma oral, segundo a tradição de sua linhagem. Outros a recebem através de um sonho, experimentando com os aliados das plantas ou lendo-a em um livro. Qualquer um que estude a fundo e seriamente as artes tradicionais da terra (chamadas “o caminho com coração”) cedo ou tarde encontrará as diretrizes da energia e começará a viver de acordo com elas.

O objetivo da regra, a longo prazo, é formar um supergrupo (superpartida) e disseminar novas linhagens, para impedir que o conhecimento se extinga. Isto significa que esse desenho não só descreve um diagrama da energia, como também um processo, ou seja, um caminho de evolução. Não basta saber como se organizam os dezesseis modelos luminosos do grupo e que relações têm entre si; também é preciso entender como se sucedem os grupos, porque este é o único modo de enlaçar o tonal dos guerreiros com o tonal dos tempos.

Para isso existem os naguais de três pontas, como foi o caso de Carlos. No livro de Armando é muito clara a função destes naguais; eles não vêm para trabalhar com guerreiros diretamente, e sim para ser sementeiros de novos naguais, semeadores de grupos.

Quando Carlos afirmou: “Eu não sou um nagual tradicional de quatro pontas, só tenho três pontas”, o que significa isso? Para qualquer um que tenha uma formação em simbolismo numérico, a implicação é óbvia. Um nagual de quatro pontas está submetido à sua própria estrutura, pois o quatro é um número muito estável. Temos as quatro paredes de uma casa, os quatro lados de um terreno, as quatro pernas de uma mesa... O quatro delimita e define, e por isso mesmo, põe fim. Então, não é um número dinâmico, não se presta à transmissão a longo prazo.

Um nagual de quatro pontas pode trabalhar com guerreiros em múltiplos de quatro, porque os galhos de sua energia se orientam para as quatro direções. Mas um nagual de três pontas se complica, já que o três é um número muito dinâmico, de mudança. Os chineses o chamam san cai, “os três poderes”, e afirmam que está presente quando vai acontecer algum fenômeno. As coisas precisam de três passos para dar resultados; então, o três é um número de resultados, não tem estabilidade.

Eu me inteirei há anos da regra para os naguais de três pontas, tanto do que foi publicado quanto de outras partes. Em 1994 fui convidado a participar de uma reunião na qual se tocou nesses assuntos. Propunha-se que Carlos trabalhasse exclusivamente com líderes de grupos, naguais, e estes por sua vez com seus guerreiros. Entretanto, depois não se falou mais nesse assunto.
_ Como se formam os grupos de guerreiros?

_ Ser Guerreiro é sempre uma escolha pessoal. O primeiro é acumular energia. A viagem para o infinito exige inteireza, em sentido literal e metafórico. Inteireza do corpo físico, da energia e do caráter. Para poder funcionar no mundo mágico, devemos ter completo e forte o ovo luminoso, e isto só se consegue recompondo a energia que foi dissipada durante anos de trato com o mundo.

_ Como remendar os buracos da nossa luminosidade?

_ Fazendo-nos conscientes dessa necessidade. Se você não percebe que tem um problema, não o supera.

O passo seguinte é recapitular. A recapitulação é um instrumento maravilhoso, que lhe ensina a recuperar parte do que perdeu e a não permitir que continue perdendo.

A primeira vez que ouvi falar desta técnica foi no âmbito das artes marciais. Nessa ocasião, ensinaram-me a fazê-la respirando em forma vertical, quer dizer, movendo a cabeça lenta e suavemente para cima ao inalar, tendo o propósito interior de recuperar a energia investida nos eventos passados. Ao exalar, ao contrário, a cabeça desce, enquanto você solta o que não é seu.
A princípio, é bom recapitular com disciplina; eu o fiz à moda antiga, dentro de uma cova. Mas uma vez que você pega o jeito, pode fazer até quando está ocupado em outra atividade. Começa com lembranças imperfeitas, mas com o tempo se tornam mais claras e precisas.

_ Como se sabe que o exercício está funcionando?

_ Bem, você se recorda do evento como uma vivência, sente alegria, tristeza, rancor, vergonha, chora, ri, fica vermelho, conforme a situação. Finalmente, nada; a situação se torna totalmente alheia, como se tivesse acontecido com outra pessoa e não com você. Desvanecem-se culpas, ódios e apegos. Resta somente você.

Isso é o começo do que Carlos chama “perder a forma humana”. Há aprendizes que pensam que, ao chegar a esse ponto, se tornarão uns monstros insensíveis, mas não é assim. Pelo contrário, ficamos terrivelmente sensíveis; a diferença é que agora não nos envolvemos.

Uma coisa que descobri enquanto recapitulava é que esta técnica nos ajuda a recuperar a vida no ensonho. Sim, há uma vida paralela da qual nos esquecemos por completo quando despertamos. Uma das tarefas do bruxo é recuperar essa outra vida. A recapitulação se faz perfeita quando aprendemos a recordar dentro do ensonho, porque, desse modo, a outra vida se faz contínua e manipulável.

O exercício da recapitulação tem que ser complementado com outros, que têm o propósito de dar flexibilidade e movimento à energia. Para isso existem os exercícios de T’ai Chi Chuan ou Chi Kung. Por exemplo, veja Milosh; ele tomou como apostolado curar utilizando a acupuntura: costumava sair aos sábados para ir a povoados próximos e colocar suas agulhas nas pessoas. Depois voltava para casa, ia dormir à noite, e acordava na terça-feira! É que estava tendo um desgaste energético enorme. Então, o doutor Kim, mestre em acupuntura, recomendou a ele e a seus companheiros, discípulos da mestra Magdalena, a prática do T’ai Chi Chuan. Eles se dedicaram a buscar alguém que lhes pudesse ensinar esta arte e foi assim que se depararam comigo.

Quando conheci Carlos, fui apresentado como mestre de T’ai Chi. Passaram-se os anos e apareceu seu sétimo livro, “O Fogo Interior”. Ao abri-lo, vejo que começa com um agradecimento – algo que não era de seu costume – a um mestre que lhe deu um caminho alternativo de exercícios para recuperar sua energia. Recordo que, ao ler isso, comentei com meus alunos:
“Que acham? Carlitos está fazendo T’ai Chi.”

Eles zombaram de mim. Mas em pouco tempo – coisa de três semanas ou um mês depois – Carlos deu uma palestra no Palácio de Minería. Chegou, sentou-se e anunciou que responderia perguntas. Sabendo que esse era seu costume, já tinha a mão levantada e lhe fiz a primeira:
“Ouça, Carlos, por que tem essa dedicatória no seu último livro?”

Respondeu-me: “Boa pergunta!”

Disse que Dom Juan deixou-lhe uma série de tarefas que exigem uma enorme quantidade de energia e, para cumpri-las, ele consumiu toda a energia de que dispunha. O pior é que não encontrava maneiras para repô-la, porque Dom Juan só lhe havia ensinado a economizar, não a ganhar. Então, dedicou-se a buscar um método que o ajudasse a resolver seu problema; praticou yoga, meditação, lamaísmo, quarto caminho, buscou por todos os lados até que encontrou um mestre que lhe ensinou uns velhos exercícios orientais, com os quais se recuperou.

E mais não disse, mas no decorrer da palestra, cada vez que se virava e me via, fazia um sutil movimento de T’ai Chi. Isso foi tão evidente para meus alunos, que todos perceberam e admitiram: “É verdade, ele está fazendo T’ai Chi!”

Nesse encontro aconteceu um fato que gostaria de contar. A maioria dos presentes era fanática por Carlos. Depois de duas horas de estar contando suas aventuras com Dom Juan, levanta-se uma senhora na primeira fila e pergunta, com sotaque espanhol:

“Diga, Carlos, quem é esse Dom Juan de que você tanto fala?”

_ E a dança conchera, tem os mesmos efeitos que o T’ai Chi?

_ Não. A dança foi delineada com uma função específica. Dá uma grande energia, mas não do mesmo tipo. A dança é um complicado ritual que lhe abre as portas do mundo mágico e o leva à segunda atenção, ao ensonho. Nós ríamos muito porque Andrés, capitão de concheros, passava o tempo todo dormindo pelos cantos. Quando havia uma reunião ou conferência, ele adotava “a pose” – uma posição de poder – e fechava os olhos; quem não o conhecia achava que ele estava dormindo. Havia inclusive os que se aborreciam com ele; Milosh sempre lhe dizia: “Andrrrés, não vou lhe convidarrr mais, porrrque você fica dorrrmindo pelos cantos!”

Mas não era assim. Ele era um grande mestre dessa arte e conseguia mover seu ponto de encaixe para o ensonho, participando das reuniões nesse outro estado de consciência. A prova disso é que, quando diziam algo com o qual não concordava, pulava e se punha a defender seu ponto de vista, como se o tempo todo houvesse estado muito consciente da conversa.

_ E a Tensegridade, tem o mesmo efeito que o T’ai Chi?

_ Veja, o ensinamento de Carlos é muito especializado. Supõe-se que, quando você chega a ele, é porque já percorreu boa parte do caminho, incluindo ter aprendido técnicas paralelas para compactar sua vitalidade. Recordo que, certa vez, na Casa Chata do antigo Colégio de Medicina, uma moça lhe perguntou:

“Carlos, como podemos recuperar a energia?”

Ele confirmou o que já nos havia dito em outras ocasiões:

“Dom Juan não me ensinou a recuperá-la. De modo que vocês devem economizá-la.”

Entretanto, depois ele mesmo apareceu com uma série de movimentos que, afirmou, eram a herança da linhagem, e que têm uma função parecida com a do T’ai Chi e outras artes orientais. A princípio lhes chamou simplesmente de passes mágicos, mas, quando a coisa se popularizou, deu-lhes um nome elegante: Tensegridade.

Minha visão pessoal é que a Tensegridade se compõe de movimentos de artes marciais adaptados. Muitos dos passes praticados pelos seguidores de Carlos atualmente são derivações. Mas os primeiros exercícios, aqueles que ele nos ensinou diretamente, são movimentos básicos de Chi Kung.

Não me atrevo a julgar Carlos, não sei se seu objetivo era que a Tensegridade se transformasse nesse exagero de movimentos que estamos vendo nos seminários. Mas me lembro que, em uma de suas últimas intervenções públicas, afirmou que as práticas massivas são somente um passo inicial, antes de enfrentar o verdadeiro desafio dos bruxos.

“A Tensegridade”, disse, “foi delineada para nos dar energia, a fim de enfrentarmos as coisas realmente pesadas. É algo suave, mas é um começo.”

_ O que você opina sobre as plantas de poder?

_ O ser humano é algo muito especial porque, por um lado, tem umas possibilidades assombrosas, mas, por outro, estamos muito mal equipados por natureza. Essa falta de equipamento nos obriga a buscar coisas que nos ajudem. É tão simples como o seguinte: tenho frio e tenho que usar roupas, mas os animais não têm necessidade disso. Nós aprendemos a usar o que nos rodeia, e principalmente as plantas.

Os antigos videntes descobriram que havia três tipos principais de plantas; um deles são as plantas de poder, chamadas assim porque movem o ponto de encaixe, permitindo que se focalize outros mundos de energia. À medida que faziam experimentos, descobriram que as plantas nos põem em contato com o mundo mágico, mas que em nenhum caso podemos controlá-las cem por cento, só o que podemos é fazer uma aliança com elas.

É por isso que os xamãs tradicionais têm uma forma muito peculiar de agir com as plantas de poder, que aparece claramente referida nos livros de Carlos: eles se guiam por augúrios; usam-nas quando há sinais claros, e se não há sinais, não as usam.

O problema gerado ao redor das plantas tem a ver com o movimento da Nova Era, que incentivou o aparecimento de todo tipo de tendências místicas. Uma delas foi o uso de psicotrópicos, o que motivou que o uso xamânico das plantas terminasse sendo uma moda. As modas passam rapidamente, mas a tradição não passa.

Neste momento e lugar, diria a você que as plantas só devem ser usadas com um guia, com um mestre adequado e com um augúrio. Se você chega a elas com o mesmo espírito com que lê um livro, para saber se lhe serve ou não, é provável que não vá longe. A única opção que tem, quando lhe falta um guia, é que você mesmo seja um xamã, mas esses casos são raros.

Creio que a opinião de Carlos, baseada em sua extraordinária experiência, é suficientemente clara nesse assunto. As plantas têm poder, e esse poder tem que ser respeitado. O uso ligeiro pode nos conduzir muito longe de nossa meta, e até pode nos deixar em um âmbito do qual já não tornamos a sair, porque o trabalho com as plantas, ou melhor dizendo, com os aliados das plantas, tem uma conseqüência cara: consome a nossa energia.

_ De qual aspecto da obra de Castaneda você gostou mais?

_ O que sempre me causou impacto e continua causando é a impecabilidade de Dom Juan. Definitivamente, ele é o modelo a seguir. Onde vamos encontrar alguém assim? É muito difícil.
Da última vez que escutei Carlos, ele contou algo a respeito: disse que Dom Juan era um cíclico. Explicou que no mundo há seres que reproduzem a mesma estrutura de outros que existiram anteriormente, porque têm a mesma configuração luminosa, a mesma aparência, como se a história se repetisse. Esclareceu que “eram iguaizinhos, não reencarnações”.

Também nos disse que os cíclicos têm a possibilidade de obter consciência de seus predecessores. Por isso Dom Juan acumulava uma sabedoria imensa, era um clone de sábios da antigüidade. Isso foi a última coisa que o escutei dizer.

_ O que Castaneda queria dizer quando se referia a “antigos” e “novos” videntes?

_ Creio que essa é uma classificação pertinente à linhagem de Carlos e Dom Juan. Nessa linhagem há uma diferença enorme entre o modo como os antigos viam o mundo, e o modo como o vêem na atualidade. Não só mudou a linguagem como também a forma mesma de trabalhar com a energia. Mas não se confunda com os termos. Os antigos videntes ainda existem; eu fui aluno de pessoas assim, pessoas que faziam práticas antigas. Mesmo em plena Cidade do México sobrevive esta casta de bruxos; não é uma questão de época, mas de atitude.

Os velhos videntes, como dizia Dom Juan, estão obcecados com assuntos como extrair poder, viajar para outros mundos, manipular um monte de aliados... São os bruxos dos contos, transformam-se em animais para atacar suas vítimas. Os bruxos modernos percebem que isso é um desperdício de esforço, cálculo e tempo. Eles se perguntam: O que eu busco realmente? Qual é meu objetivo na vida, onde quero chegar? Eles se propõem a ousadia de passar para o infinito, e para isso, não posso estar fazendo bonequinhos de cera ou costurando olhos de lagartixas!
Em contraste com os velhos videntes está o enfoque abstrato de Carlos. E também há xamãs que, como eu, tiraram das diversas tradições – a européia, a oriental, a tolteca – e sintetizaram diversos modos da bruxaria. Eu não posso dar um nome ao que estou fazendo, não posso lhe dizer se pertenço aos antigos ou aos novos videntes. O que realmente percebo é que a humanidade está dando um passo adiante. O fato de que haja existido um Carlos Castaneda, independentemente do modo como tomemos seus ensinamentos, nos indica que é um momento de mudança na história, algo que afeta a humanidade em geral e, obviamente, os bruxos.

_ Esta etapa é comparável com a de Buda, Jesus ou Quetzalcóatl?

_ Eu não me meteria em comparações, cada momento da história é único e irrepetível. Contudo, posso afirmar que houve um momento parecido há mil e poucos anos, na cultura de Teotihuacan; e não somente ali, mas em toda a área mesoamericana. Em torno do ano 900 de nossa era aconteceu uma mudança gigantesca e brutal no ponto de encaixe da sociedade. Teotihuacan foi uma cidade construída com um objetivo muito claro: alcançar a realização total dos seres humanos. O objetivo era que os homens se transformassem em deuses. Por isso se chama Teotihuacan, “a cidade dos que se fazem deuses”. Para chegar a essa meta, foi requerido um longo processo, que frutificou finalmente quando grandes massas da população alcançaram de uma vez a auto-realização, ou a liberdade total, como chamava Dom Juan, e dispararam para outra atenção em um só dia.

Há um signo em Teotihuacan que é muito óbvio: o coração sangrando, emblema da concentração da energia e da passagem entre as dimensões. Mas este símbolo tem um detalhe interessantíssimo: em lugar de estar dividido em quatro lóbulos, tem somente três. A meu ver, é o símbolo do nagual de três pontas, da mudança radical. De algum modo, nossa época reflete as condições daquela. Este é um momento precioso, semelhante ao dos velhos toltecas. É um momento que temos que aproveitar, porque acontece raramente. Estão sendo criadas as condições para que uma enorme quantidade de pessoas possa alcançar a liberdade de uma vez só, de modo que vão preparando as malas!

_ É possível chegar à liberdade como parte de uma massa?

_ A liberdade é um assunto individual. Mas podemos integrar nossos esforços para chegar ao outro mundo como equipe de bruxos. O que verdadeiramente causa impacto aos guerreiros desta época é o evento em si, a ousadia, o arrojo, a maravilha. É como quando você vê um amanhecer ou um eclipse; não importa se outros vêem contigo ou se você está sozinho. O fenômeno é maravilhoso por si, porque é algo que raramente vemos. O mesmo ocorre com as épocas de mudança. São fantásticas, somente por existir. De alguma maneira foi isso que sentiu Carlos como nagual de três pontas, o assombro de ser testemunha de um evento não visto durante muitas gerações.

_ Como vê o futuro do castanedismo?

_ O boom produzido por Carlos trouxe como conseqüência o “nagualismo” da Nova Era. Muitos se aproveitarão deste rio revolto, especialmente do ponto de vista econômico, para engrandecer seu ego. Como tantas outras correntes ideológicas na história da humanidade, isso terá um auge e irá desaparecendo com o tempo. Mas a tradição dos xamãs continuará exatamente como há milhares de anos.

Paralelamente, ocorrerá outro fenômeno, que já começou e que, este sim, é provável que tenha efeitos a longo prazo: o aparecimento de uma igreja nagualista. Isso não será um evento da bruxaria, mas da história da religião.

Como você sabe, no mundo houve grandes xamãs: Buda, Maomé, Jesus. Nenhum deles pretendeu fundar uma religião, só deram uma série de ensinamentos práticos para a elevação da humanidade, segundo a modalidade da época em que viveram. Porém, com o passar do tempo, seus ensinamentos se converteram em dogmas que deveriam ser aceitos para ser parte de um sistema. Com o sistema de Castaneda está acontecendo o mesmo; tem todos os elementos para formar um culto: o mito, a doutrina, as práticas, e até o lado místico. Tem também um aparelho censor: a sociedade Cleargreen, que se auto-qualifica como a única depositária da verdade castanedista. É inevitável que esta tendência siga o curso normal das crenças; de fato, já se começam a perceber os primeiros elementos.

Temos, por exemplo, o decesso do nagual. Eu não recebi a notícia em primeira mão; Eddy me deu-a, a qual lhe chegou por outro amigo. Ele imediatamente ligou para a Califórnia, e lhe avisaram que ele havia morrido de câncer do fígado, sendo depois cremado e suas cinzas lançadas no deserto. Mas, posteriormente, Cleargreen informou que Carlos não morreu, e sim “passou para o lado ativo do infinito”. Como você pode perceber, este é o dogma nuclear de um fenômeno messiânico. Observe este outro detalhe: quando Eddy ligou para averiguar sobre o decesso, Heiko atendeu o telefone (Heiko sempre se havia destacado por ser um buscador sincero). Quando Eddy o chamou pelo nome, aquele respondeu:

“Já não me chamo Heiko, agora me chamo Gavin, e me proibiram de falar com você.”
Isso é um mau sinal. É questão de tempo – quiçá uns duzentos anos, talvez menos –, mas acontecerá. É um fenômeno natural que temos visto ao longo da história. Os grandes mestres nos trouxeram a opção da liberdade, mas os discípulos a converteram em crenças. Carlos advertiu que todos os “ismos” conduzem à coação ideológica, à questão de fé, e que o nagualismo não é uma exceção.

No entanto, também é inevitável que haja pessoas e grupos que mantenham desperto o sentido da busca, à margem de que os tachem de heterodoxos.

Assim como eu peguei um fio do ensinamento e o estou trabalhando à minha maneira, não sou o único; neste momento deve haver milhares de pessoas fazendo o mesmo em toda a Terra.
Tal como diz Armando, o trabalho conjunto de Dom Juan e de Carlos assinala um momento de expansão do conhecimento que pode nos levar a uma revolução da consciência. A difusão do nagualismo através de livros está permitindo o nascimento de novas linhagens. Não sei o quanto precisam estar unidas essas linhagens ou o quanto podem atuar de forma independente; isso é algo que a prática dirá.

O importante de Carlos não é que tenha feito milagres ou que tenha partido para o infinito envolto em um halo de luz, e sim que nos deixou uma opção. Como Moisés, que nunca pisou na terra prometida, mas levou todo o seu povo até seus limites, ele nos apontou o caminho para a liberdade. O que acontecerá agora depende de cada um de nós, de nosso esforço e abertura, da decisão que assumirmos.