Psicodélico: Fevereiro 2013

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Animação sobre Hofmann a sua famosa volta para casa de bicicleta.





Leia abaixo as anotações e reflexões de Hofmann sobre sua experiência.
                                             A Auto-experiência de Hofmann
                                                                              19 de abril de1943
16:20:
0,5 cc de 1/2 solução aquosa de promil tartarato de diethylamide oralmente =
0,25 mg. de tartarato.
Tomado diluído com aproximadamente 10 cc. de água. Insípido.
17:00:
Começando uma vertigem, sentimento de ansiedade, de distorções visuais, sintomas de
paralisia, desejo de rir.
Fui para Casa através de bicicleta.
Das 18:00 às 20:00 crise mais severa.
Aqui cessam as notas do meu diário de laboratório. Eu só pude escrever as últimas palavras com um
grande esforço. Agora já estava claro para mim que o LSD tinha sido a causa da notável experiência da
sexta-feira prévia, pelas percepções alteradas que eram do mesmo tipo de antes só que com uma
intensidade muito maior. Eu tive que lutar para falar de forma inteligível. Eu pedi para meu assistente
de laboratório, que estava ciente da minha auto-experiência, que me acompanhasse até minha casa.
Nós fomos de bicicleta, nenhum automóvel estava disponível por causa das restrições de seu uso
durante a guerra. Uma vez em casa, minha condição começou a assumir formas ameaçadoras. Tudo
em meu campo de visão oscilava e estava distorcido como se visto num espelho torto. Eu também tive
a sensação de estar impossibilitado de sair do lugar. Não obstante, meu assistente me falou depois que
nós tínhamos viajado muito rapidamente. Felizmente nós chegamos em casa são e salvos e eu fui
capaz de pedir para meu companheiro chamar nosso médico de família e mesmo pedir leite aos
vizinhos.
Apesar da minha condição delirante, confusa, eu tive breves períodos de pensamento claro e efetivo e
escolhi leite como um antídoto não específico para o envenenamento.
A vertigem e sensação de desmaio às vezes ficavam tão fortes que eu já não podia ficar em pé e tive
que me deitar num sofá. Meus ambientes tinham se transformado agora de modo terrificante.
Tudo no quarto estava girado ao meu redor e os objetos mais familiares, as peças de mobília assumiam formas
grotescas, ameaçadoras. Elas estavam em contínuo movimento, animadas, como se dirigidas por uma
inquietude interna. A vizinha, que eu reconheci parcamente, trouxe-me leite e, durante a noite, bebi
mais de dois litros. Ela não era mais nenhuma Senhora R., mas sim uma bruxa malévola, insidiosa
com uma máscara colorida.
Até pior que estas transformações endiabradas do mundo exterior, eram as alterações que eu percebia
em mim, em meu próprio ser interno. Todo esforço na minha tentativa para pôr um fim na
desintegração do mundo exterior e na dissolução de meu ego, parecia ser um esforço desperdiçado.
Um demônio tinha me invadido, tinha tomado posse do meu corpo, mente, e alma. Saltei, gritei e
tentei me livrar dele, entretanto afundei novamente e me deitei impotente no sofá. A substância, que eu
tinha querido experimentar, tinha me derrotado. Era o demônio que desdenhosamente triunfava sobre
minha vontade. Fui tomado pelo terrível medo de ter ficado louco. Eu fui levado para um outro
mundo, um outro lugar, um outro tempo. Meu corpo parecia estar sem sensações, inanimado, estranho.
Estaria eu morrendo? Esta era a transição?Às vezes eu acreditava que estava fora do meu corpo e então percebia claramente, como um observador externo, a completa tragédia da minha situação. Eu nem mesmo tinha tido a oportunidade de me despedir da minha família (minha esposa, com nossas três crianças, tinha viajado naquele dia para visitar seus pais, em Lucerne). Entenderiam eles que eu não tinha experimentado irrefletidamente, irresponsavelmente, mas com uma precaução bastante extrema e isto era um resultado totalmente imprevisível? Meu medo e desespero se intensificaram, não só porque uma família jovem poderia perder seu pai, mas também porque eu temia ter que deixar meu trabalho de pesquisa química inacabado no meio de um desenvolvimento frutífero, promissor.
Outra reflexão que tomou forma foi uma idéia cheia de ironia amarga: se eu fosse forçado a deixar este mundo prematuramente, seria por causa deste ácido lisérgico diethylamide que eu mesmo tinha trazido ao mundo.  Antes que o doutor chegasse, o clímax da minha desesperada condição já tinha passado. Meu assistente de laboratório o informou sobre minha auto-experiência porque eu não era ainda capaz de formular uma frase coerente. Ele, perplexo, balançou sua cabeça depois de minhas tentativas para descrever o perigo mortal que ameaçava meu corpo. Ele não pôde descobrir nenhum sintoma anormal diferente das pupilas extremamente dilatadas. Pulso, pressão sanguínea e a respiração estavam totalmente normais. Ele não via nenhuma razão para prescrever qualquer medicamento. Ao invés disso ele me levou para minha cama e ficou me vigiando. Lentamente eu voltei de um mundo misterioso, pouco conhecido e reassumindo a realidade cotidiana. O horror suavizou-se e deu lugar a um sentimento de muita felicidade e gratidão, quanto mais normais as percepções e os pensamentos devolvidos, fiquei mais confiante de que o perigo da loucura tinha definitivamente passado. 
Agora, pouco a pouco, eu poderia começar a desfrutar as cores sem precedentes e os jogos de forma
que persistiram por trás de meus olhos fechados. Imagens caleidoscópicas, fantásticas surgiram em
mim, variando, alternando, abrindo e então se fechando em círculos e espirais, explodindo em fontes
coloridas, reorganizando e se cruzando em fluxos constantes. Era particularmente notável como cada
percepção acústica, como o som de uma maçaneta de porta ou de um automóvel passando, foi
transformada em percepção óptica. Todo som gerava uma vívida imagem variável, com sua própria
forma, consistência e cor.
Mais tarde, à noite, minha esposa voltou de Lucerne. Alguém a tinha informado, através de um
telefonema, que eu estava sofrendo um desarranjo misterioso. Ela tinha voltado para casa
imediatamente e tinha deixado para trás as crianças com os pais dela. Até então eu já tinha me
recuperado suficientemente para lhe contar o que tinha me acontecido.
Exausto, então eu dormi para despertar na próxima e fresca manhã com uma mente clara, embora
ainda um pouco cansado fisicamente. Uma sensação de bem-estar e vida renovada fluía por mim. O
café da manhã teve um gosto delicioso e me deu um extraordinário prazer. Quando depois eu fui ao
jardim, no qual o sol brilhava depois de uma chuva da primavera, tudo brilhou e centelhou numa luz
fresca. O mundo era como se tivesse sido recentemente criado. Todos meus juízos vibravam em uma
condição mais alta de sensibilidade que persistiu durante o dia inteiro.

Esta auto-experiência mostrou que o LSD-25 se comportara como uma substância de propriedades
psicoativas extraordinárias e com muita potência. Não havia no meu conhecimento, nenhuma outra
substância que provocasse tais efeitos psíquicos profundos em tais doses extremamente baixas e que
causassem tais mudanças dramáticas na consciência humana e na nossa experiência do mundo interior
e exterior.
O que parecia mais significante era que eu podia até mesmo lembrar-me da experiência de inebriação
do LSD em todos os detalhes. Isto só poderia significar que a função gravadora da consciência não foi
interrompida, até mesmo no clímax da experiência do LSD, apesar do desarranjo profundo da visão
normal do mundo. Durante toda a experiência, eu tinha estado ciente, até mesmo atento, da
participação em uma experiência, mas apesar deste reconhecimento da minha condição, não pude eu,
com todo o esforço do meu querer, sacudir o mundo do LSD. Tudo foi experimentado como
completamente real, como uma realidade alarmante; alarmante porque o quadro da outra, a familiar
realidade cotidiana, ainda tinha sido completamente preservada na memória para comparação.
Outro aspecto surpreendente do LSD foi sua habilidade de produzir um estado de longo alcance,
poderoso de inebriação, sem deixar uma ressaca. Totalmente ao contrário, no dia seguinte ao
experimento do LSD eu mesmo me senti, como já descrevi, em excelente condição física e mental.
Eu estava seguro que o LSD, uma combinação ativa nova com tais propriedades, teria que ter uso na
farmacologia, na neurologia e especialmente na psiquiatria, e que atrairia o interesse dos especialistas
envolvidos.
Mas naquele momento eu não tive nenhuma percepção de que a nova substância também
viria a ser usada, além da ciência médica, como um inebriante no cenário das drogas. Considerando
que minha auto-experiência tinha revelado o LSD em seu terrificante e endiabrado aspecto, a última
coisa que eu poderia ter esperado era que esta substância pudesse mesmo achar aplicação como
qualquer coisa se aproximando de uma droga de prazer. Eu, além disso, não reconheci a conexão
significante entre a inebriação do LSD e as experiências visionárias espontâneas, até muito mais
recente, depois de experiências adicionais que foram levadas a cabo com doses muito mais baixas e
debaixo de condições diferentes.
No próximo dia eu escrevi ao Professor Stoll o relato acima mencionado, informando sobre minha
experiência extraordinária com o LSD-25 e enviei uma cópia ao diretor do departamento
farmacológico, Professor Rothlin.
Como esperado, a primeira reação foi de uma incrédula surpresa. Imediatamente uma chamada
telefônica veio da administração; o Professor Stoll perguntou: “Você está certo que não cometeu
nenhum engano de julgamento? A dose declarada está realmente correta?” Professor Rothlin também
me chamou e fez a mesma pergunta. Eu estava certo deste ponto, porque tinha executado o peso e a
dosagem com minhas próprias mãos. Ainda que suas dúvidas fossem até certo ponto justificadas, até
então nenhuma substância conhecida tinha exibido o efeito psíquico mais leve até mesmo em doses de
fração de um miligrama. Uma combinação ativa de tal potência parecia quase incrível.
O Professor Rothlin e dois de seus colegas foram os primeiros a repetir minha experiência, com só um terço da dose que eu tinha utilizado. Mas até mesmo naquele nível, os efeitos ainda foram extremamente impressionantes e bastante fantásticos. Todas as dúvidas sobre as declarações do meu relatório foram

[DOWNLOAD - LIVRO] Ayahuasca – Alucinógenos, Consciência e o Espírito da Natureza


 Ayahuasca é uma beberagem de plantas amazônicas que vem sendo usada com propósitos de cura e de oráculo através dos séculos, ou quem sabe até dos milênios, tanto pelos índios xamãs como pelos mestiços do Brasil, do Peru, da Colômbia e do Equador. Ela é conhecida pelas diversas tribos por vários nomes, tais como caapi, natéma, mihi, e yagé. O termo Ayahuasca é originário da língua sul-americana Quéchua, língua que veio do dialeto Inca na conquista de Cusco: huasca significa “cipó” e aya significa “almas” ou “gente morta”, ou até mesmo “espíritos”.
Em Ayahuasca – alucinógeno, consciência e o espírito da natureza, Ralph Metzner busca desmistificar a associação que a sociedade ocidental faz entre Ayahuasca e fatores negativos à saúde humana. Muitos médicos e psicólogos do Ocidente descobriram que estas substâncias podem levar o ser humano para uma dimensão espiritual de consciência, com experiências místicas, diferentes do misticismo religioso clássico.
Ralph Metzner está à frente de estudos no campo da consciência humana há mais de 35 anos, começou seus trabalhos na Universidade de Harvard com Timothy Leary e Richard Alpert sobre possíveis aplicações terapêuticas de drogas psicodélicas. Neste livro, o autor reuniu um grupo heterogêneo de colaboradores que proporciona ao leitor a exploração das dimensões química, biológica, psicológica e experimental da Ayahuasca – um aspecto da volta do interesse no xamanismo e nas plantas sagradas como parte da busca mundial pela renovação das relações espirituais com o mundo natural.
Organizador Ralph Metzner com contribuições de:
  • Jace C. Callaway, Ph.D.
  • Charles S. Grob, M.D.
  • Dennis J. McKenna, Ph.D.   e outros.
  •  Download do Livro

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Zé Ramalho fala sobre Paêbirú (Entrevista da Revista Rolling Stone)



POR CRISTIANO BASTOS
Camuflado numa alameda do bairro do Flamengo, o ex-cadete do exército José Ramalho Neto encravou em solo fluminense um QG de raízes paraibanas: a produtora Jerimum. As simbologias agrestes são marcas constantes e profundas na obra de Zé Ramalho.
Sob a umidade tropical do Rio de Janeiro, a aridez do sertão ainda é metáfora-chave para ingressar nos numerosos códigos – místicos, psicodélicos, ufológicos e de velhos ícones do rock'n'roll – cifrados em suas composições.
Ele conta que "desceu ao mundo" em março de 1949, em Brejo do Cruz, nos confins da Paraíba. Depois da morte do pai, poeta, afogado num açude do sertão, foi criado pelo avô para ser médico.O avô-pai, após uma viagem lisérgica do neto envolvendo cogumelos, extraterrestres e mensagens telepáticas, virou a canção-hino "Avôhai".
Numa conversa animada que levou a tarde inteira de uma segunda-feira, Zé Ramalho falou sobre o disco novo, Canta Bob Dylan – Tá Tudo Mudando e a facilidade que encontrou para liberar canções do velho Zimmermann – o exato oposto ocorreu com as canções assinadas pela dupla Raul Seixas e Paulo Coelho no projeto Zé Ramalho Canta Raul Seixas.
O paraibano abriu suas vivências químicas, sem pudores e em dois capítulos: primeiro, com os cogumelos alucinógenos; depois, com a cocaína. E explicou sua negação para se manifestar sobre o álbum que fez com o Lula Côrtes, Paêbirú: "Por que tantos anos depois? Deviam ter falado sobre isso há 30 anos!"

Onde sua história começa?

Zé Ramalho - Apesar de eu ter nascido em Brejo do Cruz, e não "da" Cruz, como muita gente confunde, por causa da música do Chico Buarque, depois de dois meses meu avô conduziu a família pra Campina Grande, onde ficamos até 1960. É lá que, pela primeira vez, eu escuto rádio, com 5 anos de idade. As rádios AM eram a única novidade, as novelas do rádio e os programas de auditório ao vivo. Na Rádio Borborema vi show de Marinês e sua Gente, Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga. Lembro que tivemos que ir pra João Pessoa, porque meu avô sofria de pressão alta e Campina Grande fica em cima da Serra da Borborema. Aos 13 anos, quando o intelecto foi se abrindo, a música ganhou mais força. A Jovem Guarda começou a aparecer para mim. Especialmente, Roberto Carlos e Renato & Seus Blue Caps. Eu estudava no colégio Pio X, dos Irmãos Maristas, em João Pessoa. E, nesse colégio, de educação extremamente fina, nos jograis que a gente tinha que fazer uma vez por mês, um dos trabalhos era organizar um grupo musical em cada classe. Depois fazer uma espécie de concurso entre os alunos. Eu já sabia dar três acordes no violão. Juntaram outros dois colegas. Fizemos uma apresentação que fez muito sucesso. Aquilo criou uma chispa. Acendeu em mim a chama dos grupos de baile, pode-se dizer. Dali, logo depois passei a procurar os músicos que tocavam nos bailes pela cidade de João Pessoa. Eram muitos.

Como era esse grupo de baile?

Zé Ramalho - Fundamos uma banda chamada Elis & os Demônios, com mais três colegas da escola. Começamos a ser contratados para tocar em bailes, para as pessoas dançarem. Bailes de quatro horas. Eu tocava guitarra e, aos poucos, fui me incumbindo dos solos. Eu copiava. Isso me trouxe uma riqueza muito grande. Porque você toca de tudo. A formação mais famosa que integrei tinha um vocal fenomenal: Os Quatro Loucos, que, antes, se chamava Four Crazy's, numa tradução errada – o certo seria Crazy Four. A gente tocava músicas em inglês, então eu levava as letras pro professor traduzir, pra entendermos o que estávamos cantando. Foram experiências importantes pra me dar noção sobre comportamento de palco, remuneração e profissionalismo. Comecei a pensar nessas coisas.

Você era muito jovem?

Zé Ramalho - Muito. Eu tinha 16, 17 anos. Agora, encostei nos 60. Estou em "cinco ponto nove", companheiro. São 42 anos de carreira. Mas as coisas ainda estão muito frescas na minha cabeça. Os grupos de baile tocavam, basicamente, Jovem Guarda, e quase nada de forró, quase nada de samba. A gente tocava guitarra pra conquistar as meninas e ter uma chance de colar nelas. Até que, com 18 anos, chegou a hora de servir o quartel. Pior que eu tinha fama de cabeludo por causa dos grupos.

Fama de cabeludo?
Zé Ramalho - Eu era muito cabeludo! [risos] E era xingado: "Cabeludo! Viado! Vá tomar banho! Vá cortar o cabelo!" Eu ouvia isso o tempo todo. Como me propus a tudo isso, no entanto, aguentei no osso. Hoje em dia quem liga pra isso? Quando o barbeiro do exército me viu, disse: "Vou logo cravar esse cara". Ele me pegou mesmo. Não consegui me livrar. Meus estudos passaram pra parte da noite e, nos fins de semana, eu botava uma peruca pra tocar. Foi nessa fase "militar" que comecei a fazer música.

O que se passava em sua cabeça na época?

Zé Ramalho - Final dos anos 60, contracultura explodindo no mundo: eu estava atento a tudo isso. Woodstock! Quando saí do cinema, depois de ter visto esse filme, minha vida mudou. Vi in loco no Brasil. O cinema lançando pela primeira vez, em 1970, Rio de Janeiro. Depois, vi em Recife, na Paraíba. Em diversos lugares. Woodstock foi importante pra eu ver aquela atitude, o comportamento, a cultura hippie: sexo, drogas, nego fumando sem haver nenhum tipo de confusão. Eu achava aquilo uma espécie de "utopia mágica" – música que dava uma sensação de você estar vivendo num "planeta amor". Em Recife encontrei novo horizonte. Comecei a frequentar shows e, num desses, conheci o grande guitarrista Paulo Rafael, que ainda hoje toca com Alceu Valença. Na época tocava na banda Phetus.

Como você conheceu Alceu?

Zé Ramalho - Ele estava fazendo o filme A Noite do Espantalho. Eu namorava uma menina que morava em Recife, na praia de Boa Viagem. Glauce, o nome dela. Ela me disse: "Se você quiser conhecer um cara legal, Alceu Valença é o nome dele. Ele namora minha irmã. Alceu tem umas músicas ótimas". Uma tarde, fui à casa dela e Alceu estava lá. Nos demos bem de cara. A empatia foi imediata. Foi daí que também conheci Geraldo Azevedo, que tocava com ele. Isso era 1974. Em 1975, chega a história do Festival Abertura da Rede Globo, em São Paulo, produção do Augusto César Vanucci. O Alceu reuniu os melhores músicos que tocavam em Recife, na época, caras da banda Ave Sangria. Um bandão.

Era a abertura política?

Zé Ramalho - 
O Festival Abertura já era uma sugestão do General Figueiredo pra abertura política que se prenunciava. Os artistas do festival estavam sendo lançados pela Som Livre. Quase todo o cast do festival, na verdade, era da gravadora: Alceu, Luiz Melodia, Jorge Mautner, Hermeto Pascoal. Um festival de luxo. Iniciante, me encantei vendo aquele povo todo e comecei a ficar por aqui, no Rio, depois que passou a coisa toda com o Alceu. Como eu ainda não tinha as músicas que estreei no meu primeiro disco, fiz algumas tentativas pelo Sul que não deram em nada. O repertório era basicamente de músicas de rock, mas não chamava público. Sem ter disco gravado, uma carreira, na vida artística você é considerado aspirante. Contudo, tive de voltar ao Nordeste e preparar-me mais. Nessa volta, fiz um trabalho com a cineasta Tânia Quaresma, importantíssimo para encorpar de vez meus conhecimentos. Ela filmou Nordeste, Cordel, Repente e Canção e me convidou pra participar do projeto. Eu conhecia o universo dos cantadores e violeiros, mas ainda não tinha me aprofundado. Tânia me contratou para servir como espécie de rastreador de violeiros, nas locações das filmagens.

Você atuaria no filme?

Zé Ramalho - Caso necessário, eu completaria algumas passagens tocando viola. Eu já era muito elogiado pela minha técnica. Nos shows do Alceu eu tocava viola de 12 e de dez [cordas]. A experiência do filme foi importante demais, pois veio uma camada de cultura popular, legítima, invadindo meu corpo e cérebro inteiros. Foram 17 dias de viagem a bordo de uma Kombi: Ceará, Pernambuco, Paraíba e uma parte de Sergipe. Fomos às varandas das casas dos violeiros, onde tinha as pelejas, nas oficinas dos cordelistas. Eu estava absorvendo essa cultura de uma maneira que nunca eu tinha pensado ser possível.

O que aprendeu?

Zé Ramalho - Entendi algo muito preciso: as leis da cantoria, principalmente, a fórmula de se fazer os versos. Uma forma que você tem que entender. Não adianta decorar. Quando volto para a Paraíba, também faço minhas primeiras experiências com outra turma: a dos cogumelos alucinógenos. Preciso contar essa história pra explicar o link que, depois, acontece na minha vida. Pra começar: acho que nem deveria chamar cogumelo de droga. Não há o contato da mão humana. É tudo direto. Quando descobriram que tinha isso nos pastos do Nordeste houve uma espécie de busca por parte de minha geração. Tem um tipo de cogumelo específico que não vai intoxicá-lo. Nós, porém, éramos loco ma non troppo – antes, realizamos estudos com fotografias dos cogumelos para saber quais eram comestíveis e quais eram venenosos. No meu caso, foi uma coisa que me deu uma iluminação muito grande. Foi quando recebi a mensagem do "Avôhai".

Como foi isso?

Zé Ramalho - Eu descrevo na música uma parte dessa experiência: "Amanita matutina / E que transparente cortina ao meu redor" [canta]. Amanita é nome científico dos cogumelos. Quando senti isso, eu estava numa fazenda linda, pasto maravilhoso. Sensação de liberdade – "Transparente cortina ao meu redor" [recita]. Era como se fosse a aurora boreal. Seu olho fica muito preciso. Todas essas coisas estão muito presentes na música: o encantamento, a espiritualidade que as pessoas sentem de imediato. "Avôhai" é minha única música que posso dizer que teve uma espécie de mediunidade envolvida. Porque eu não pensei nela, ela me foi soprada: "Avôhai... Avôhai..." [sussurra]. E a forma como a letra veio, veloz. Depois, voltando pra casa, nessas ondas de psicodelia, num retrato da parede tinha a imagem de uma pedra de turmalina. Saiu a letra todinha: "O Velho cruza a soleira" – "Avôhai, avô e pai". Escrevendo os acordes sem parar, eu sabia pra onde ir, cara. Foi de uma rapidez impressionante e nunca mais aconteceu algo parecido em minha vida. O que é "Avôhai"? Por toda a minha vida, eu tenho que responder essa pergunta quase semanalmente. Tenho o maior prazer em falar sobre isso. Nunca me cansarei.

Você acha que a lisergia desabrochou tudo isso?

Zé Ramalho - Essas experiências eu chamo de "A Semana da Iluminação", os dias que sucederam "Avôhai". Eu morava em João Pessoa numa casa chamada Vila do Sossego, tinha uma plaquinha na porta. Nos dias que se seguiram a essa viagem aconteceram todas essas músicas: "Chão de Giz", "Vila do Sossego", "Jardins das Acácias". Meu primeiro disco é muito espiritualista. E muito lisérgico. Não há conotação política nas músicas. Separei as que tinham e deixei de lado pra preservar esse lado viajante e, principalmente, meio regional. É um disco sem bateria. Tem a participação do [tecladista] inglês Patrick Moraz, do Yes. Só "Avôhai" pra conseguir uma coisa dessas.

Como foram as gravações de "Avôhai"?

Zé Ramalho - Foram de uma precisão incrível. Moraz estava no Brasil gravando o disco The Story of Eye com o Carlos Alberto Sion. Calhou que o destino configurou Sion pra ser produtor do meu primeiro álbum. Chegou na hora de gravar algumas partes instrumentais e perguntei quem iria fazer. E ele: "Patrick Moraz. Vamos mandar uma fitinha sua pra ele". Enviamos uma fita cassete pra ele ouvir. Na época, ele estava substituindo Rick Wakeman no Yes. Quando escutou a música, bateu algo nele. E eu fiquei bobo na hora em que entramos no estúdio. Ele me pediu pra passar alguns acordes a fim de completar o arranjo. Eu, ingênuo, ao lado daquele cara, side by side: "Rapaz, como é que pode?!" Patrick observando os movimentos de minha mão. Sacando os acordes. Chegou o Ivinho e fez aquela viola ultrarrápida. Até o final de 1977, quando eu registrei meu primeiro álbum, foi uma sobrevivência séria que passei no Rio. Eu não tinha dinheiro. Não tinha onde ficar.

E você foi se virar como michê?

Zé Ramalho - Não cheguei a ser michê, mas tinha umas meninas que dormiam comigo. A canção "Garoto de Aluguel" é autobiográfica por causa disso. Essas meninas eram estudantes que eu conhecia do tempo em que tocava com o Alceu. Eu era rato de show aqui no Rio de Janeiro. Elas gostavam dos cantores nordestinos, do jeitão da gente, meio desengonçados. Era mais a inspiração da música. Elas viam a situação em que a gente estava. Eu passei fome. Várias vezes dormi em frente ao Copacabana Palace. Mas teve uma camarada lá no Bar da Glória que, durante uns quatro meses, me deixou dormir num quarto de empregada, aquele cubículo miudinho. Era o tempo dos militares, em que assassinos, estupradores e bandidos não existiam. Existiam hippies e malucos, mas eles diziam: "Esse pessoal deixa em paz porque não é subversivo". "Nordestino sofredor" – chamavam a gente assim. Depois de servir o quartel, cheguei ao Rio preparado. As coisas que eu passei no quartel não foram moles. Antes de partir fui pra frente do espelho e disse: "Olha, cara, se você acha que é tão espertinho, vá pro Rio de Janeiro, sozinho, sem depender de ninguém". Fui com isso na cabeça. Sabia, no entanto, que com o pacote de canções alguma coisa iria acontecer. Disso eu tinha plena certeza, senão não viria.

Você já tinha essas músicas no bolso?
Zé Ramalho - O Augusto Cesar Vanucci fez muito esforço pra me colocar na Som Livre, só que não houve como. Percorri um longo caminho. O Durval Ferreira, após ouvir a letra de "Avôhai", fez uma cara de quem não gostou e a atirou no chão. Ele dizia que uma letra daquelas nunca iria funcionar. Talvez, apenas, se eu a mudasse. "Se você mudar para uma coisa mais comercial..." Sempre eles faziam uma proposta. Eu nunca aceitei. Passei pela Odeon, Fonogram, depois Polygram. Até que cheguei na CBS. Era final de 1977. Raimundo Fagner tinha um disco que havia saído pela gravadora e começava a fazer sucesso para um artista nordestino. Na CBS só existia o Roberto Carlos que vendia. Notaram que havia uma coisa expressiva: os nordestinos vendiam discos. Foi o que aconteceu. Alceu já estava despontando.

Vanusa gravou "Avôhai" antes de você, não é? 

Zé Ramalho - 
Gravou. Não chegou a estourar, mas eu participo da gravação, por conta do Vanucci. Ele chegou pra mim: "Tem uma pessoa que eu gostaria que gravasse uma canção sua. Você autoriza? Quer participar?" Eu: "Claro que quero". Os arranjos de viola sou eu que faço. O fato é que a minha gravação teve uma magia pessoal que a Vanusa não tinha como passar, afinal era uma experiência muito pessoal. Mais a participação de músicos como Dominguinhos passando pelo estúdio, com sua sanfona, foi um feitiço. Altamiro Carrilho, sumidade de flauta da época de ouro do choro. E também Paulo Moura. Havia uma configuração de músicos. Tudo acontecia de maneira muito espontânea. Pela primeira vez, tive a chance de ficar no Rio de Janeiro, confortavelmente, sem precisar dormir ao relento. Me colocaram num hotel. Ô, como adorei! Foi maravilhoso poder comer e dormir.

Sua geração revelou um Nordeste musical moderno ao Brasil.
Zé Ramalho - Certamente, sem aquela coisa tradicionalista-purista do Nordeste. Essa reciclagem da música nordestina aconteceu por aquela geração – ou seja, o forró elétrico, como chamavam, os "violétricos", mistura dos violeiros com o rock de guitarras. As pessoas estavam acostumadas com a música nordestina por causa da dimensão muito forte que Gonzaga, Jackson, Martinez e Genival Lacerda cravaram. Historicamente, algo bem pouco referendado. Verdade. Nunca tive vergonha de dizer minhas influências, meus mestres. Quem são meus mestres? Começando pela primeira camada que veio: aqueles astros de Woodstock, Jovem Guarda, Renato & Seus Blue Caps, Roberto e Erasmo. Aí entra a descoberta do Nordeste: Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, os violeiros Otacílio Batista e Oliveira de Panelas, que foram mestres profundos que tiveram paciência e uma generosidade muito grande pra me passar as leis e obrigações da cantoria. Isto é, onde a rima entra. Doze modalidades da cantoria de viola que me foram ministradas por esses dois mestres, um já falecido. O Oliveira de Panelas ainda está vivo. O Otacílio me permitiu musicar: [recita] "Mulher Nova, bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor". Depois Beatles, Stones, Dylan, Santana. Tudo isso absorvi profundamente. Não só de botar um disco e ficar ouvindo. Eu procurava tirar a harmonia das canções, queria entender a arquitetura musical. E olhe só: estou falando do privilégio da minha geração que era o de comprar esses discos quando eles estavam saindo. No tempo real desses discos. Este é o caldeirão que estou mexendo até hoje. Quando lanço, vira Zé Ramalho. Não faço cópia de nada.

E a canção "Mistérios da Meia-Noite"?
Zé Ramalho - Novela Roque Santeiro, 1985. Eu tinha me separado do segundo casamento. Morava em Fortaleza, na época, e voltei pro Rio de Janeiro. Me instalo num apartamento no Leblon e recebo um telefonema do Mariozinho Rocha falando dessa novela, que precisava de uma música pra um personagem do Professor Astromar. À meia-noite ele virava lobisomem. Essas crenças populares. Desliguei o telefone, fui pro quarto e fiz a música em meia hora. Liguei de volta: "Tá pronto”. E ele: "Ficou maluco?" E eu: "Escuta aí pra você ver". Daí ele: "Tá ducaralho!" Tem barbado que, até hoje, vem me dizer que quando era menino ouvia a introdução e saía da sala correndo porque ficava com medo. O videoclipe foi ao ar pelo Fantástico. Eu apareço tocando. E tem Luiza Brunet também, esperando. Era um luxo, extremamente sofisticado pra época, o cenário feito no Teatro Fênix. Adorei fazer aquilo.

Você cursou dois anos de medicina em João Pessoa. Se alguém tiver um troço na sua frente, ainda sabe o que tem de fazer?

Zé Ramalho - Até um determinado limite. Dr. Ramalho! [risos]. No 2º ano de medicina minha cabeça latejava de música. Eu tinha que tomar uma atitude. Não suportava mais viver daquele jeito. Fui pra casa e comuniquei: "Vou abandonar a faculdade". Tem que ter muita coragem. Foi a decisão de minha vida."Estou abandonando a faculdade, vou me dedicar só à minha carreira de músico e compositor." Foi um escândalo, mas foi a decisão certa. Eu iria passar mais três anos da faculdade aprendendo cada vez menos e me frustrando cada vez mais. No fim, minha família me deu a passagem pro Rio. Só de ida. "É só o que preciso", disse a eles. Meu avô quase morreu, o velho Avôhai. Quase teve um ataque quando viu que eu estava decidido. Algumas horas na vida você tem que decidir o que quer fazer.

Você enfrentou problemas com a liberação das músicas de Raul Seixas e Paulo Coelho para o disco Zé Ramalho Canta Raul. Como foi com o Dylan?

Zé Ramalho - No disco sobre o Raul houve aquela polêmica toda: o escritor não autorizou que eu gravasse as músicas que ele também assinava. Não sei se foi algum tipo de inveja – inveja de magos, de entidades... Seja como for, a atitude antipática, com certeza, não foi a minha. De qualquer maneira, tive que recomeçar outro álbum. O disco já estava gravado quando houve essa decisão final, irrevogável, dele. Mas eu jamais recuaria. A gravadora quis cancelar o projeto. Eu disse: "Que nada! Vamos fazer o seguinte: 'Vou fazer um disco só de músicas assinadas pelo Raul'". Peguei a discografia inteira dele e escolhi.

É irônico que você não tenha conseguido a autorização do Paulo Coelho, mas tenha conseguido a do Bob Dylan.

Zé Ramalho - Pois é. Foi uma surpresa. O Aluizio Reis, da minha equipe, levou esse pacote de versões, pessoalmente, pra explicar à equipe do Dylan quem era Jackson do Pandeiro, o que é candomblé, o que são "balas perdidas". Tem várias situações brasileiras encaixadas nas versões. Levaram pra Dylan, que lê tudinho e dá uma aprovada geral – sem tirar nada. Pelo contrário, aprovado com louvor.

Como escolher as canções de Dylan, entre as milhares que ele gravou?

Zé Ramalho - Você olha pra cima, fecha os olhos e a lembrança do que gosta de Dylan vem à cabeça. É preciso se apoderar de um canal de sentimento pra colocar num trabalho desses que, certamente, vai bater em vários lugares. Pelo mundo todo, porque os fãs de Dylan vão querer ouvir. Eles ouvem tudo.

Você conheceu a Joan Baez. Como foi?

Zé Ramalho - 
Com ela, tive um encontro polêmico em 1980, em São Paulo, quando ela estava visitando o Brasil. Eu estava lançando meu disco, A Terceira Lâmina, e a gravadora propôs: "A Baez está em São Paulo. Está fazendo um documentário sobre direitos humanos na América Latina. Você quer fazer uma apresentação do seu show com ela?" Fui pessoalmente ao hotel onde ela estava. Muito simples, ela me recebeu em seu apartamento. Ensaiei eu e essa mulher, sozinho, com um violão. A gente ensaiou a música de Geraldo Vandré, "Vou Caminhando", em português. Mas a censura não liberou. Veio um documento da Polícia Federal impedindo a apresentação dela nesse show: "Proibida de cantar". Isso eu tenho guardado no meu arquivo. Ela estava aqui pra se encontrar com Lula, sindicalista. O Senador Eduardo Suplicy, ainda vereador, foi quem a levou. Com Baez tive a sensação de estar muito próximo ao universo de Dylan. Tenho no meu arquivo uma gravação, eu cantando com ela essa música do Vandré e "Imagine", no quarto do Hotel. Ela foi impedida de cantar, mas subiu ao palco e disse apenas: "Não posso cantar...". A platéia delirando. Ela entrou sem me avisar. Entrou em "Admirável Gado Novo", dançando, e disse: "Não posso cantar. Estoy proibida". Depois que acabou o show filmamos, em seu camarim, essas duas canções. Depois mandamos uma cópia do VHS pra ela. Já faz quase 30 anos. Se eu botar esse vídeo no YouTube pega fogo. Está guardado. Isso não morreu.

Como foi sua experiência com a cocaína?

Zé Ramalho - Como experiência, durou 12 anos de minha vida, até esgotar. Houve um período, no início, que a cocaína me despertou muita criatividade. Por exemplo: "Frevo Mulher", hit há 30 anos. No carnaval de Salvador, não existe uma banda que não toque. Essa música foi feita numa madrugada, num quarto de hotel. De repente dá aquela chispa. Eu estava tão agoniado, a cabeça latejando de tanto pó que tinha entrado, e fui tomar um banho para relaxar. Quando saí do banho, a música saiu junto. E fiz rapidamente. Foi feita para a Amelinha gravar. Eu estava tão excitado, a energia era tanta que eu poderia fazer muito mais músicas nessa madrugada. Mas tem o velho problema: você bebe e fuma muito. No meu caso, sempre teve mais música envolvida. Adorava ficar cantando, tinha essas viradas violentas, ficava a noite inteira e emendava no dia seguinte. Agora, quando você começa a ficar embotado, lhe tira o brilho. Celso Blues Boy, que é a sublimação blues no Brasil, tem uma música que diz: "Cantarei na escuridão / Nessa treva sem fim / As coisas são assim / Pra que se lamentar / Se dentro de nós sempre brilhará". Eu escutava isso e achava uma coisa tão bem-feita. Me identificava. Nessa época, o Rio vivia um inferno de cocaína no ar. A Colômbia colocando pó de grande qualidade a preço de banana, o Cartel de Medellín investindo pesado pra todo mundo gostar e querer mais.

Você se sentia viciado?


Zé Ramalho - Não, me sentia preso. As últimas sensações que eu tive com cocaína foram muito ruins, organicamente falando. O day after era uma coisa cada vez pior. Ao ponto de, na última vez que tentei pegar num canudo, veio um pensamento: "Olhe, cara, você vai começar de novo. Você sabe bem o que sentirá amanhã!" Quando lembrei disso, joguei o canudo fora e nem comecei. Era tão ruim a sensação que deu medo. Depois tive que "desempoeirar" minha carreira. Não havia ninguém sentado no meu lugar. Ele permanecia ali. Empoeirado, mas ainda ali.

Por que você não quer mais falar sobre o álbum Paêbirú?

Zé Ramalho - As coisas são muito simples. Não vou citar aqui razões pessoais, particulares. A minha recusa em falar é assim: quando Paêbirú foi lançado, há mais de 30 anos, na época em que saiu, apesar da cheia que aconteceu, ninguém falou nada sobre ele. Alguns álbuns foram mandados aqui pro Rio de Janeiro. Por que tantos anos depois? Deviam ter falado sobre isso naquela época! Eu acho apenas incrível que se vislumbre tudo isso em torno de um trabalho que já foi feito há muito tempo.

Qual sua relação hoje com a Pedra do Ingá?

Zé Ramalho - De vez em quando faço visitas à Pedra do Ingá. É uma relação curiosa porque ela me dá projeções de como imagino certas coisas: a criação do mundo, os primeiros habitantes da terra, as criaturas do espaço que vieram aqui. Eu sou agnóstico, como John Lennon: imagino o mundo sem religiões. Aceito a explicação, que cada vez é mais permanente, que foram criaturas do espaço que vêm nos visitar. Faço parte dessa legião de ufólogos que têm grande esperança numa revelação. A experiência de "Avôhai", que contei sobre a viagem de cogumelos, "as cortinas", tem uma presença alienígena. A visão que tive das cortinas, na verdade, foi uma nave gigantesca que estava em cima de mim, enorme. Por entre as nuvens dava pra ver a sombra da nave – imensa, gigantesca. Havia uma presença alienígena, com certeza, naquele momento. E, quando olhei pro chão, estava repleto de olhos de gente a me observar. Isso aconteceu perto de Recife, num pasto chamado Rio Botafogo, uma fazenda enorme onde os malucos descobriram as amanitas que nasciam por lá. Essa experiência lisérgicafoi definitiva pra toda minha vida.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

LSD - Louvado Seja Deus - Matéria sobre Grateful Dead

 Há 45 anos uma multicolorida multidão viaja pelos EUA atrás de uma banda - o Grateful Dead

Fonte : Revista TRIP

Henry Diltz/Corbis/LatinStock
Shows do Grateful Dead

Há 45 anos uma dispersa e multicolorida multidão viaja pelos EUA atrás de uma banda - o Grateful Dead. Largam família, escola, empregos para acumular centenas de shows no currículo. Em nome de música, transcendência e êxtase, os Deadheads transformam meros shows de rock em um grande evento espiritual. Trip foi - e viu a luz

Lynn GoldSmith/Corbis/LatinStock
Preciso de um milagre: nome de música e frase recorrente nas entradas dos shows do Grateful Dead. Para um Deadhead de verdade, conseguir um ingresso grátis, o miracle ticket, é sinal de que está no caminho certo. Por décadas a própria banda traficava ingressos para fora dos estádios para garantir a alegria de muitos devotos
Preciso de um milagre: nome de música e frase recorrente nas entradas dos shows do Grateful Dead. Para um Deadhead de verdade, conseguir um ingresso grátis, o miracle ticket, é sinal de que está no caminho certo. Por décadas a própria banda traficava ingressos para fora dos estádios para garantir a alegria de muitos devotos
De braços erguidos e olhar vidrado, cabelos longos e barba caótica, um rapaz coloca-se como um profeta. “Eu preciso de um milagre!”, ele suplica. “Faça um milagre por mim e eu te levo para a igreja!”, propõe. “Eu GARANTO. Hoje mesmo eu te mostro Deus!”, promete. Centenas de almas em tie-dye fluem vagarosas na entrada do anfiteatro Shoreline, em Mountain View. Todas, o repórter incluso, sabiam qual era a jogada do sujeito. Ele queria um ingresso grátis (eis o milagre) para o show que começaria em 15 min. Em troca, oferecia uma dose (eis a igreja, eis Deus) de um decente LSD californiano. Talvez a única moeda que não falte no bolso de um autêntico Deadhead como ele. O problema é que quase todos por ali também eram Deadheads. E, de tão sedentos por um dia de culto como aquele, muito provavelmente tinham seus sacramentos lisérgicos reservados. Afinal, há cinco anos o Grateful Dead não fazia um show. Era dia de culto para todos ali. E dos grandes.

Epiphany Rocks

Cincos anos pode parecer pouco para fãs convencionais de grandes bandas de rock. Mas o Grateful Dead não é uma banda convencional. E menos ainda são seus fãs mais xiitas, os já citados Deadheads. Os amadores já viram 20, 30 shows. Os mais radicais perderam a conta há tempos, mas arriscam 300, 400, 500 shows no currículo. Pois para eles a música do Dead transcende o folk-rock-psicodélico do rótulo. É a trilha de uma vida espiritual nada ascética, contraditória, e carregada pelas palavras de ordem que fundaram o movimento hippie e jogaram milhões de jovens americanos em uma estrada de paz, amor, hedonismo – e drogas. E, independente de como levam suas vidas mundanas, é ao vivo, com a banda no palco, que se dá o arrebatamento. Onde gentileza, pensamentos positivos, respeito ao próximo e ao planeta se misturam com altas quantidades de ácido, ecstasy, cogumelos, maconha, óxido nitroso e danças estapafúrdias. Um passaporte para o inferno, diriam padres e pastores. O expresso para o paraíso, rezam milhares naquela fila.

Para mim o dia era solene. Estava aproveitando meu último mês como correspondente da Trip na Califórnia. E a música do Grateful Dead embalava meu espírito desde minha primeira experiência psicoativa aos 19 anos de idade. E uma de suas músicas, “Ripple”, havia sido o maior gatilho de epifanias durante a mais importante experiência psicodélica que tive. Sem rodeios: mudou minha vida. E mesmo sem o tie-dye e sem um mísero show do Dead no carma, me considerava um Deadhead no coração – para mim a banda era mais do que rock.

Era uma... religião? Nem tanto, confesso. Mas eu sentia, sim, a transcendência no som e na mensagem da banda. Quando cruzei a roleta, arrepiei. Estava feliz. E decidido a ir para a igreja como tantos por ali. Antes do culto, a hóstia. Seja o que Deus quiser...

Faça-se o Dead!

Nenhuma religião se mantém de pé sem um belo mito fundador. E, no caso do Grateful Dead, a mitologia é bem mais do que mera lenda. Grande parte do imaginário que ronda a banda é fato verificável, amplamente registrado em fotos, livros e relatos de muita gente viva até hoje. Muito mais do que Beatles, Stones ou Hendrix, o Grateful Dead tem a biografia musical mais messiânica e sincronística do rock.

Eles eram apenas uma banda folk de San Francisco no começo dos anos 60. Mas tiveram a sorte, ou a marca do destino, de terem sido a primeiríssima leva de músicos pop a experimentar LSD. Na época, 1964, quase ninguém sabia o que ácido era. E apenas a Sandoz, o laboratório que tinha a patente do ácido, o vendia sob o nome de Delysid. Mas não foi a viagem precoce de Jerry Garcia e seus comparsas que lançou a banda ao púlpito. Foram os meses e anos que se seguiram após suas primeiras trips.
© San Francisco Chronicle/Corbis/Latinstock
A fase de ouro do Grateful Dead, em 1970: Bill Keutzmann, Pigpen, Bob Weir, Mickey Hart, Phil Lesh e, na frente, Jerry Garcia
A fase de ouro do Grateful Dead, em 1970: Bill Keutzmann, Pigpen, Bob Weir, Mickey Hart, Phil Lesh e, na frente, Jerry Garcia
O Grateful Dead não é uma banda convencional. E menos ainda são seus fãs mais xiitas, os Deadheads. Os amadores já viram 20, 30 shows. Os mais radicais já perderam a conta, mas arriscam 300, 400, 500 shows
Não havia hippies nos EUA. Nem o termo existia. Apenas uma turma muito pequena de pessoas sob a anárquica liderança de Ken Kesey que carregava o nome de Merry Pranksters. Eles se vestiam com roupas bizarras e carregavam apelidos à altura. Faziam amor entre eles sem muita culpa ou ciúme. Rodavam o país em um ônibus escolar todo pintado à mão, com mensagens surrealistas e incompreensíveis para o povo em preto e branco daqueles tempos na América. Seu motorista era Neal Cassidy, o lendário muso dos beatniks nos anos 50. Na bagagem do ônibus, o Furthur, eles tinham muito, mas muito LSD. E, quando decidiram, na costa oeste, começar uma revolução cultural através do ácido, escolheram o Grateful Dead como a banda da casa.
Foram os famosos testes do ácido. A substância ainda não era ilegal, então não havia legislação nenhuma que proibisse os Pranksters de distribuírem milhares de doses indiscriminadamente. Na praia, por exemplo, ao som ao vivo do Grateful Dead. Dois problemas aqui. Como conseguir tanto ácido e plugar a banda em um sistema de som grande o suficiente para dar conta de entreter milhares de pessoas, ao ar livre, transtornadas pela primeira experiência de LSD? A solução foi a mesma: Owsley Stanley.

O peculiar rapaz de 30 anos tinha duas habilidades raras: criava equipamentos de som e sabia fabricar LSD. Foram dele o setup do Grateful Dead e o ácido que abasteceu San Francisco e boa parte dos EUA até 1967. Milhões de pessoas tiveram revelações psicodélicas, bad trips, deixaram o cabelo crescer, abandonaram suas casas, se engajaram contra a guerra no Vietnã, trocaram todo o guarda-roupa e refizeram suas ideias de Deus. E a trilha sonora era da banda que agora entra no palco do anfiteatro de Shoreline.

Jerry é meu pastor

Desde que Jerry Garcia, fundador, guitarrista e principal vocalista da banda, morreu em 1995, o Grateful Dead se recusa a usar o nome completo. Já foram The Other Ones. Agora são simplesmente The Dead. A falta que Garcia faz, ao som e aos fãs, mantém no discurso da velha guarda Deadhead a saudade – e certa soberba: “Você não viu Jerry ao vivo? Não é a mesma coisa...”, é o que escuto toda vez que confesso minha virgindade em cultos gratefuldeadianos. Até os shows que os fiéis testemunharam eles contam sob esse parâmetro. Quantas performances com e quantas sem Garcia.
”Em muitos shows a gente nem entra.Fica no estacionamento, nos corredores, conhecendo gente e escutando de longe. Você sabe, estamos aqui por outro motivo”. Qual? “Hmmm, amor. Eu acho...”
Dan Lamont/Corbis/LatinStock
Jovens Deadheads inconsoláveis no dia da morte de Jerry Garcia, em 1995
Jovens Deadheads inconsoláveis no dia da morte de Jerry Garcia, em 1995
Jerry foi vítima de um ataque cardíaco dias após se internar em uma clínica de reabilitação. Segredo nenhum... O culto a que a banda foi submetida só é comparável a outra reputação do Grateful Dead: a do ostensivo e intensivo uso de drogas. A revelação psicodélica do LSD e similares deu lugar, logo no começo dos anos 70, a quase qualquer substância disponível. Não demorou para Jerry preterir o ácido em favor de drogas mais sedutoras – e viciantes – como ópio e heroína. Os camarins do Grateful Dead eram lendários festins. Assim como a pista de seus shows. Essa combinação, bem sabida de ambas as partes, criou também outra característica crucial dos shows do Dead. Longos, muito longos, para dar conta das muitas horas de psicoatividade de banda e público. Quando sobem ao palco eles sabem que grande parte do público está sob o efeito de substâncias que vão levar horas até trazer o fã de volta à Terra. E, como verdadeiros ph.D.s em trips, o Dead sabe como ninguém ajudar na navegação de sua audiência. Quem conta é Bob Weir...

O tempo do Bob

Bob é o vocalista e guitarrista remanescente. Sempre dividiu com Jerry as canções e, desde 95, assumiu a voz em quase todas. Cresceu uma bela e densa barba grisalha e, pelos últimos 15 anos, vem ganhando a imagem de profeta que sempre foi de Jerry. Quatro meses antes do show de Shoreline tive a sorte de conhecê-lo. E, depois de muita resistência de Weir, consegui uma entrevista.
O papo que era para durar uma hora acabou se esticando pela tarde inteira. “É interessante conversar com um brasileiro”, ele admite, “você não me faz as mesmas perguntas de sempre”. Normalmente jornalistas querem saber dos velhos tempos, das drogas, dos causos com Timothy Leary e turnês chapadas pelo mundo. Quando comecei a entrevista falando de Obama, ele se animou. Mas se esqueceu do relógio quando perguntei sobre Deus e o caráter religioso dos shows.

Você tem a consciência de que boa parte de sua plateia está buscando uma experiência espiritual? “Não penso nisso diretamente”, ele começa, “mas o caso é que eu também estou na mesma busca. O que estamos tentando no palco, e nem sempre conseguimos, é criar um acontecimento maior do que nós mesmos. E o que faço é não pensar no público nem em mim. Eu tento esquecer que estou ali, que sou o Bob, e ser o veículo de outras forças. Meu corpo é só um ator, um veículo”. Essas palavras me voltam à mente quando Bob começa a cantar em Shoreline a faixa um do primeiro disco do Grateful Dead. The Golden Road (To Unlimited Devotion).

Por amor

A pista abriga umas 10 mil pessoas. É justo que se diga, nem todos são devotados Deadheads. Há famílias, casais convencionais e fãs, simplesmente, das canções do Dead. Apesar de ser necessariamente atrelada às drogas psicodélicas, a música em si é simples, melódica, sutil. Nada das estranhezas sonoras, das letras intermináveis da psicodelia do Pink Floyd e afins. Visto de longe, o Grateful Dead soa como um country rock, e dos leves. Muitas baladas, timbres simples e solos curtos. Mas quem se dispõe a entrar mais fundo nos temas da banda entende por que é a mais psicodélica delas.

As letras (quase todas do poeta Robert Hunter) costumam evocar histórias nada comuns no rock. Resumos de pensamentos de Lao Tzu, descrições de lugares selvagens vistos em perspectivas cósmicas, o amor visto como uma manifestação espiritual, nunca romântica, pensamentos perdidos em uma trip de ácido, dívidas com traficantes como questões morais, o diabo como um personagem banal em uma mesa de jogo, a saudade de um pai falecido em metáforas vagas... Tudo isso provocando, ali no Shoreline, crises de choro, risos em êxtase, gente cantando ajoelhada de mãos postas. Gente em completo estado de graça, prestando atenção em tudo... menos na banda!
“Era poderoso! Vi um festival de Dionísio. Era mais do que música, acendia algo estranho no coração, a própria energia da vida. Eu vi coisas assim, mas nunca com gente tão jovem, nunca nos EUA”, disse Joseph Campbell

O poder de Campbell

Outra peculiaridade que faz do Dead um grupo único. Os mais fiéis fãs, que rodam o país e abandonam tudo em nome dos shows, não olham para o palco, não se espremem jamais para um lugar mais perto da ribalta. “A gente não tem uma relação de ídolo e fã”, explica Matthew Pop, um dedicado Deadhead de 36 anos de idade que, desde os 13, segue a banda. Depois de mais de cem shows na manga, postula: “Em muitos dos shows a gente nem entra. Fica no estacionamento, nos corredores, conhecendo gente e escutando a música de longe. Você sabe... estamos aqui por outro motivo”. Qual, então? “Hummm. Amor, eu acho.”

Antes de acreditar no suspeito repórter, preste atenção no que disse o professor Joseph Campbell. Famoso pelo seu livro e série de TV O poder do mito, Joseph é considerado o mais importante intérprete de mitologia e religiões do século 20. Nunca deu bola para rock nem para as revoluções culturais dos anos 60. Mas, em 1985, conheceu Jerry Garcia e Mickey Hart (o baterista) e foi a um show deles em Berkley. Teve, ele também, uma revelação:

“Uma experiência maravilhosa. Fui a um auditório ver a banda Grateful Dead. Sempre achei rock simples e sem graça demais para o meu gosto. Mas quando vi 8 mil jovens flutuando no ar sob o comando daqueles músicos... Era poderoso! Vi um festival de Dionísio. Era mais do que música, acendia algo estranho no coração, a própria energia da vida! Eu vi coisas assim antes, mas nunca com uma plateia tão jovem, nem com americanos. E nunca vi gente em arrebatamento por cinco horas seguidas! Era como o México no dia da Virgem de Guadalupe, como no templo de Jagannath na Índia. Não interessa se é um pastor ou um grupo de rock. Eles acharam aquele acorde da unidade, do Deus que está em todos.”, resume Campbell.
Jay Blakesberg
O renomado professor de mitologia Joseph Campbell palestra ao lado de Jerry e Mickey, após sua revelação em um show da banda
O renomado professor de mitologia Joseph Campbell palestra ao lado de Jerry e Mickey, após sua revelação em um show da banda

Dionísio na pista

Bem... a banda já tocou por 40 min e acaba de fazer seu primeiro intervalo. Mais três horas, pelo menos, me esperam. Já achei meu canto, joguei a toalha no chão e deitei a olhar o céu enquanto o sacramento mais típico dos Deadheads começou a fazer efeito. Uma decolagem turbulenta, que logo estabiliza em um voo alto. Bem alto. O sol se põe e o céu derrama cores que vão ao chão. Procissões de hippies não dão a menor pelota para meu semblante torto e olhos arregalados. Do meu lado uma moça faz ioga. Do outro três garotos dançam loucamente sem que música alguma saia das caixas. A luz apaga. O Dead está de volta. Nesse ponto, eles sabem, a plateia já decolou como eu. É noite. Hora de chamar Dionísio para a pista.
Arquivo pessoal
Bruno com Bob Weir, do Grateful Dead
Bruno Torturra, repórter da Trip, e Bob Weir, na casa do guitarrista e vocalista da banda. O dia em que nosso enviado à Califórnia ganhou seu milagre gretefuldeadiano
Nenhuma palavra é dita antes de um acorde explodir em volume mais alto do que no primeiro ato. As luzes... Oh, meu Deus... AS LUZES! Feixes de rosa estroboscópicos e ondas radiantes de verde tomam toda a vista, e pensamentos desconexos em perfeita harmonia navegam por cima de mim. Por cima de mim? E que luzes e cores são essas já que meus olhos estão fechados e nem me levantei da toalha na grama? Sim, são luzes e estão todas aqui, comigo. Alucinações só existem para quem não as teve... São rosa e verdes e roxos e amarelos que nascem como... como... qualquer pensamento. Como a grama que está abaixo de mim. Se bem que, agora, não sinto mais a grama. Bob Weir se cala e emenda um solo... Estou longe, no vazio. Não tenho corpo, não há cores nesse lugar. Nem preto. Só o nada que de alguma forma se curva sobre mim. Sinto uma presença. Meu terceiro olho olha pra cima e vê uma gigantesca abelha. Uma abelha do tamanho de um planeta. Entendi tudo! Estou dentro de uma flor. No espaço vazio dentro de uma magnólia do tamanho do universo. Abro os olhos.
Sem teto no universo

No palco aqueles homens quase parados, dedilhando instrumentos. Sobre mim, as estrelas. Não era céu... era o espaço sideral. Ficou claro, profundamente óbvio, que a Terra não tem teto. E que aquela música, sendo tocada naquele instante, era, literalmente, um acontecimento absurdamente raro no cosmo. Que as vibrações das ondas sonoras, das luzes, dos pensamentos daqueles milhares de pessoas celebrando o amor tinham necessariamente um parentesco com o Big Bang. O universo todo é feito de música e isso não era metáfora. A harmonia perfeita entre o espaço, o tempo e a matéria que produziu aquele momento não era nada mais do que música. Olhei minhas mãos e eram música. Respirei fundo e senti reais o ar, meu pulmão. Eram música. Caí de joelhos e desatei a chorar. Quando uma mão toca o meu ombro. Era um senhor descabelado, vestido na mais surrada das camisetas psicodélicas. “Aqui”, estende a mão que segura um gomo de tangerina. “Sorria, irmão! Seja grato.” Eu sou. Eu SOU.