
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Novo psicadélico descoberto

As drogas através dos séculos
O livro da Bíblia relata um episódio de bebedeira de Noé
10.000 a.C.
Existem evidências de que no início da agricultura já se cultivavam plantas como tabaco, café e maconha
7.000 a.C.
Folhas de um tipo de pimenta mascada por seus efeitos estimulantes são encontradas em sítios arqueológicos na Ásia
6.000 a.C.
Nativos da América do Sul iniciam o cultivo e uso de tabaco
5.400 - 5.000 a.C.
Um jarro de barro descoberto no norte do Irã, com resíduos de vinho, é considerada a mais antiga evidência da produção de bebida alcoólica
4.000 a.C.
Fibras de cânhamo encontradas na China datam dessa época. Foi nesse período também que o vinho e a cerveja começaram a ser produzidos no Egito
3.500 a.C.
Os sumérios são considerados o primeiro povo a usar ópio
3.000 a.C.
A folha de coca é mastigada na América do Sul e é tida como um presente dos deuses
3.000 a.C.
Evidências do consumo de cânabis na Europa Oriental
2.100 a.C.
Inscrições em tabuletas de argila mostram que médicos sumérios receitam a cerveja para a cura de diversos males
2.000 a.C.
Resíduos de coca são encontrados nos cabelos de múmias andinas
1.000 a.C.
Nativos da América Central erguem templos para deuses cogumelos
800 a.C.
Inicia-se a destilação de bebida alcoólica na Índia
100 a.C.
O cânhamo cai em desuso na China e passa a ser usado apenas como matéria-prima para produção de papel
1450
O uso de folhas de coca pelos incas se dissemina
1492
O navegador Cristóvão Colombo descobre o uso de tabaco pelos índios durante viagens ao Caribe
Século 16
Durante a expansão marítima para o Oriente, os portugueses passam a fumar ópio
Século 16
Américo Vespúcio faz os primeiros relatos sobre o uso da coca. Os espanhóis passam a taxar as plantações na América
1519
Espanhóis levam plantas de tabaco para a Europa
Século 17
O gim é inventado na Holanda
Século 18
O cânhamo é usado no Ocidente como planta medicinal
1792
O médico francês Pierre Ordinaire receita absinto e torna-se o primeiro a promover as virtudes da bebida
Século 19
Já se especulava que fumar causa câncer, sobretudo na boca
Século 19
Surgem os charutos e cigarros. Até então, o tabaco era fumado principalmente em cachimbos e aspirado na forma de rapé
1805
O químico alemão Friedrich Sertürner separa a morfina do ópio
Década de 1840
Soldados franceses que combatiam na Algéria bebiam absinto para prevenir-se contra a malária e outras doenças. Foi o que desencadeou a popularização da bebida na França
1845
O pesquisador francês Moreau de Tours publica o primeiro estudo descrevendo os efeitos das drogas alucinógenas sob a percepção humana
1850-55
A coca passa a ser usada como uma forma de anestesia em operações de garganta
1852
O botânico Richard Spruce identifica o cipó Banisteriopsis caapi como a matéria-prima de onde é extraída a ayahuasca
1859
O químico alemão Albert Niemann aperfeiçoa o isolamento da cocaína das folhas de coca
1859
O pintor impressionista Manet pinta "O Bebedor de Absinto"
1868
A primeira legislação antidrogas é elaborada na Inglaterra e torna ilegal a venda de ópio e outras drogas sem licença
1874
A heroína é inventada na Inglaterra. Nesse mesmo ano, a prática de fumar ópio é proibida em São Francisco, nos EUA, e é fundada a Sociedade para a Supressão do Comércio de Ópio na Inglaterra
1884
Freud usa cocaína pela primeira vez. No mesmo ano ele começa a tratar um amigo viciado em morfina com a droga e escreve seu primeiro artigo científico sobre a cocaína
1886
A receita patenteada pela Coca-Cola inclui folhas de coca
1887
A anfetamina é sintetizada na Alemanha
1896
A mescalina, princípio ativo do cacto peiote, é isolada em laboratório
1898
O laboratório farmacêutico Bayer inicia a produção comercial de heroína, usada contra a tosse
Final do século 19
Surge na Jamaica o movimento Rastafári, cujos adeptos fumam maconha como um ritual religioso que os aproxima do deus Jah
Início do século 20
Pesquisadores descobrem que a ergotamina (substância ativa do ácido lisérgico), por contrair os vasos sanguíneos, poderia ser usada para fins medicinais
1901
Picasso pinta "O Bebedor de Absinto" e "Mulher Bebendo Absinto"
1906
A cocaína é retirada da receita da Coca-Cola
1909
Fumar ópio torna-se crime nos Estados Unidos
1910
São relatados os primeiros casos de danos nasais por uso de cocaína
1912
O MDMA é sintetizado pelo laboratório farmacêutico Merck
1914
Cocaína e opiáceos são banidos nos EUA
1918
A Igreja Nativa Americana, fundada por comunidades indígenas dos EUA e Canadá para proteger o culto ao peiote, é oficialmente reconhecida como grupo religioso
1920
A cocaína é banida na Inglaterra
1920
O médico inglês Humphey Rolleston sugere a prescrição medicinal de ópio para diminuir o sofrimento de viciados, iniciando a idéia de redução de danos
1920
A "Lei Seca" é promulgada nos Estados Unidos, proibindo a fabricação, transporte, venda ou porte de qualquer bebida alcoólica. A clandestinidade fez proliferar os gângsters e a corrupção policial
1930
É fundada a religião "Santo Daime", por Raimundo Irineu Serra (Mestre Irineu). A base da religião é o consumo ritual de ayahuasca
1930
A proibição da maconha começa nos Estados Unidos e alcança praticamente todos os países do Ocidente
1938
O químico suíço Albert Hofmann sintetiza o LSD e acidentalmente descobre seus efeitos alucinógenos
1939-1945
A Segunda Guerra Mundial deu impulso ao hábito de fumar. Cigarros aliviavam a tensão de combatentes e civis
Década de 1940
Os primeiros pesquisadores que procuraram entender os efeitos do LSD sugeriram que a droga simulava, em pessoas saudáveis, os mesmos efeitos de um surto psicótico
1940
O governo japonês distribui anfetaminas para soldados e pilotos para deixá-los mais alertas durante a guerra
1947
A CIA inicia estudos com LSD como uma potencial arma pela inteligência americana. Cobaias humanas (civis e militares) são usadas sem ter conhecimento
Décadas de 1950-1960
Cientistas fazem as primeiras descobertas da relação entre fumo e câncer de pulmão
1954
O escritor inglês Aldous Huxley descreve os efeitos da mescalina no livro "As Portas da Percepção"
1956
Os Estados Unidos banem qualquer uso de heroína
Década de 1960
O LSD torna-se um dos símbolos da contracultura norte-americana
Década de 1960
Nos Estados Unidos, o uso de drogas como a cocaína, heroína, ópio e LSD se propaga entre os soldados que participaram da Guerra do Vietnã
1961
A Organização das Nações Unidas encoraja seus membros a tomar medidas contra os opiáceos e a cocaína
1962
O cientista Timothy Leary é apresentado ao LSD e torna-se o maior incentivador de seu uso indiscriminado
1962
A atriz Marilyn Monroe morre por overdose de tranqüilizantes
1965
O cantor de jazz Ray Charles é preso por porte de heroína e abandona a música por um ano
1965
O MDMA é redescoberto pelo bioquímico norte-americano Alexander Shulgin, que se dedicava ao estudo de drogas psicodélicas
1967
Mick Jagger e Keith Richards, dos Rolling Stones, são detidos por fumarem maconha
1967
O LSD é proibido nos Estados Unidos
1967
Os Beatles lançam o disco "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", que inclui a música "Lucy in The Sky With Diamond, cujas iniciais formam a sigla LSD
1967
A música "Heroin", de Lou Reed, é gravada pela banda Velvet Underground em 1967
Década de 1970
O uso da cocaína torna-se popular
Década de 1970
Psicólogos passam a usar o MDMA em seus pacientes
Década de 1970
As anfetaminas tornam-se as drogas mais consumidas pelos jovens adeptos do movimento punk
1970
Morre por overdose de heroína a cantora Janis Joplin
1971
Morre Jim Morrison, integrante do "The Doors", por overdose de heroína
1975
A Holanda libera a venda de maconha em estabelecimentos específicos, os coffee-shops
1978
O MDMA começa a ser usado amplamente como droga recreacional, e passa a ser conhecido como ecstasy
Década de 1980
Surge o crack, tipo de cocaína em pedra com alto poder de dependência, acessível às camadas mais pobres da população
1980
A Holanda dá início ao primeiro programa de distribuição de seringas e agulhas a viciados em heroína, para diminuir a incidência de hepatite no país
1980
Paul McCartney fica 10 dias preso no Japão por porte de maconha
1985
O ecstasy é proibido nos Estados Unidos e inserido na categoria dos psicotrópicos mais perigosos
1987
O ecstasy se torna parte integrante da cultura rave britânica após ser popularizado por clubbers em festas promovidas em Ibiza, na Espanha
1988
A cultura rave se alastra pela Europa
1989
O Brasil copia o programa de distribuição de agulhas da Holanda
1992
O então presidente norte-americano Bill Clinton admite ter fumado maconha em juventude, mas disse que nunca tragou
Século 21
Aumenta o que os especialistas chamam de "mania ocidental por pílulas", que é o consumo exagerado de medicamentos
2001
Os Estados Unidos financiam o combate ao tráfico e à produção de cocaína na Colômbia
2001
Portugal descriminaliza o consumo de qualquer droga
2001
O Canadá é o primeiro país a regulamentar o uso medicinal da maconha
2003
O governo do Canadá anuncia que vai vender maconha para doentes terminais. Pela primeira vez um país admite o plantio e comercialização da maconha
2005
O jornal britânico "Daily Mirror" publica imagens da modelo Kate Moss consumindo cocaína
Canadá aprova novo estudo com MDMA

Dois terapeutas canadenses conseguiram autorização para darem Ecstasy aos seus pacientes, numa pesquisa científica com o objetivo de descobrir novas maneiras de ajudar pessoas com distúrbio de stresse pós-traumático.
O psicólogo Andrew Feldmar e a psiquiatra Ingrid Pacey, com a ajuda da associação multidisciplinar de estudos psicadélicos (MAPS), estão a recutrar 12 pessoas para a experiência, as quais esperam possam incluir soldados canadianos e agentes da polícia.
A experiência de Vancouver faz parte de um movimento internacional ainda pequeno mas em desenvolvimento, para usar drogas como o LSD, o MDMA (ecstasy) e a psilocibina como parte do tratamento terapêutico, e tem recebido um apoio significante da MAPS. A organização, fundada em 1986, é não lucrativa e focada na utilização das drogas psicadélicas e da marijuana para tratamento.
“Existe um novo interesse,” afirmou Feldmar, que trabalhou no hospital Hollywood, em Vancouver, nos anos 60, quando aí se usou LSD como tratamento para o alcoolismo. “Estas substâncias são extremamente eficazes. Foi apenas quando foram usadas irresponsavelmente que criaram um pânico sem sentido”.
Para continua a ler (em inglês) aqui: Landmark B.C. study lets trauma sufferers find relief with ecstasy
Estudos sobre psicodélicos fazem notícia !

The Guardian, Scientific American e muitos outros websites de notícias, publicaram recentemente artigos sobre novas investigações sobre os efeitos terapêuticos das substâncias psicodélicas como a psilocibina e o MSMA.
Antes dos anos 70, já haviam sido feitas muitas pesquisas e muitos pacientes haviam sido tratados, sobretudo com mescalina (o componente activo dos cactos peiote e san pedro) e LSD. Os resultados das terapias estratégicas com estas substâncias eram muito prometedores. Infelizmente, após os atribulados anos 60, estas substâncias foram proibidas e os estudos científicos pararam.
Albert Hofmann, que descobriu o LSD e a psilocibina, intencionava explorar os seus usos terapêuticos. Mas, para seu desapontamento, nos anos 70 estas foram listadas numa categoria restrita pelo controlo de drogas norte-americano.
No ano passado, Albert Hofmann celebrou finalmente a primeira pesquisa científica desde há décadas - um mês antes da sua morte aos 102 anos de idade. O uso de drogas psicodélicas para aplicações médicas tais como o tratamento de alcoolismo e o alívio de ansiedade intensa nos pacientes com doenças terminais, está novamente a ser investigado.
Num estudo de Harvard sobre os efeitos das substâncias psicodélicas no tratamento de enxaquecas, por exemplo, o Dr. John Halpern testou 53 pacientes que tomaram LSD ou psilocibina (o químico ativo dos “cogumelos mágicos”) e descobriu que quase todos eles experimentaram uma moderação dos sintomas que durou vários meses.
Noutro estudo dirigido pelo psiquiatra Michael Mithoefer, da Carolina do Sul (Estados Unidos), o uso do MDMA aumentou a percentagem de sucesso das sessões de terapia com pacientes de stresse pós-traumático.
A fundação inglesa Beckley Foundation está financiando e colaborarando num estudo equivalente na Universidade da Califórnia Berkeley. Trata-se de uma avaliação destas drogas no estímulo da criatividade e na investigação das alterações da atividade neurológica que se dá nas experiências de consciência alterada, usando a psilocibina de Hofmann (o componente ativo dos cogumelos e das trufas) em vez do LSD.
“Escolhemos a psilocibina em vez do LSD porque é mais suave e menos intensa em geral” disse o Dr. Charles S. Grob, professor de psiquiatria da Universidade da Califórnia em Los Angeles, que testou os efeitos da droga na ansiedade em pacientes de cancro.
“Está associada a menos reações de pânico e menos paranóia e, sobretudo, nos últimos cinquenta anos a psilocibina tem atraído muito menos publicidade negativa e carregado muito menos bagagem cultural que o LSD”.
Para ler mais sobre estes novos e interessantes desenvolvimentos, clica aqui e aqui.
sábado, 31 de outubro de 2009
A VERDADE SOBRE A SÁLVIA DIVINORUM

NOVOS HORIZONTES

Judson Memorial Church
Arrepios. Sequer entrei e já recebi, logo de cara, um monte de despertares da consciência. As páginas do plantandoconsciência flutuavam em minha mente, psicodélicos, ciência, terrorismo, religião, xamanismo… tudo se conectando e fazendo sentido, união, yoga. Durante todo o dia e durante a tarde do domingo seguinte fiquei surpreso, maravilhado e muito feliz com tudo o que vi e aprendi. O renascer da pesquisa científica com psicodélicos, feita de maneira madura, responsável e ética cerca de 50 anos após o início de sua radical e injustificada proibição.

Pesquisas financiadas por governos, como da Suíça e mesmo o dos EUA. Outras empreitadas de grande sucesso mostraram com clareza que mesmo na falta dessas fontes de financiamento, muito pode ser feito com doações e espírito de coletividade. Durante o fim de semana aprendemos um pouco mais sobre a fascinante história das substâncias psicodélicas com William Richards, PhD, sua relação com estados alterados de consciência, misticismo e religião. Entramos em contato com o estado-da-arte da neurociência moderna com psicodélicos na magistral palestra do suíço Franz Vollenweider, MD, PhD, que realiza diversos estudos de neuroimagem durante a ação da psilocibina, o princípio ativo dos cogumelos mágicos, no cérebro de voluntários sadios. Vollenweider mostrou, entre muitas outras coisas, que a psilocibina pode causar no cérebro e em nossa percepção de estímulos visuais efeitos semelhantes à meditação. Em seguida, o ponto mais emocionante ficou por conta da palestra da psicóloga Alicia Danforth, que trabalhou nos últimos anos junto com Charles Grob, MD, PhD, na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). O trabalho utilizou doses medianas de psilocibina como tratamento à ansiedade e depressão extrema que vivenciam pacientes de câncer terminal. Mais do que um resultado maravilhoso e fantástico, no qual uma única experiência com psilocibina foi capaz de aliviar o estresse e angústia por vezes insuportáveis que acompanham o tratamento de câncer, a experiência suscitou nos pacientes um olhar mais amoroso para com a vida, permitindo que vivessem seus ultimos dias com muito mais satisfação (sim, alguns dos voluntários faleceram antes mesmo de o estudo terminar), em alguns casos podendo realmente viver, pois o que lhes restava era apenas um medo tremendo da morte que os impedia de apreciar tudo e todos ao seu redor. Alicia dividiu seus pacientes em três grupos: Os que nunca haviam experimentado estados alterados de consciência, os transformadores, que saíram da experiência radicalmente diferentes de como entraram; e os ativistas, que decidiram romper com o anonimato e deram depoimentos sobre suas experiências. Declaração voluntária da paciente Annie, que pudemos assistir em primeira mão em um vídeo de tirar o chapéu: “Recomendo a psilocibina para qualquer paciente nessa situação, é muito melhor e mais eficiente que qualquer tratamento que já experimentei”. Em outro relato, Alicia contou de uma paciente com câncer de garganta que não podia engolir nada além de líquidos. Nem mesmo iogurte ou mingau, coisas pastosas, ela era capaz de engolir. Apenas água, suco e sopas bem ralas. Imagine-se o estado, além do câncer, de inanição e extrema fraqueza. Após a experiência com psilocibina, no dia seguinte, ao café da manhã, a paciente resolveu tentar tomar um iogurte, e subitamente sua garganta abriu, permitindo que um alimento passasse por ali pela primeira vez em meses. Completamente surpreendida e maravilhada, ela então resolveu, aos poucos, comer mais algumas coisas pastosas, e relatou como um dos momentos mais incríveis de sua vida aquele simples ato de se nutrir. Alguns dias depois a garganta voltou a ocluir, e a paciente faleceu pouco depois. Fica no ar a pergunta de se tratamentos crônicos poderiam restaurar a capacidade de alimentação em pacientes em condições similares. De maneira mais abrangente, o estudo não só permite uma nova abordagem ao tratamento de pacientes em situação tão delicada como o câncer terminal, como questiona as bases da medicina moderna, na qual todos os esforços são realizados no sentido de alongar a vida, e não de trazer qualidade, serenidade e paz ao paciente.
Stephen Ross, MD, PhD da Universidade de NY mostrou como os resultados pioneiros de Alicia e Grob permitiram e estimularam a criação de um grupo multidisciplinar na NYU para aumentar e expandir estes resultados iniciais com a psilocibina em pacientes terminais, estudo que já foi aprovado por toda a extensa burocracia e está em fase inicial, com novas doses e novos pacientes.
Valerie Mojeiko, da MAPS (Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies) contou sua história pessoal desde sua primeira epifania com MDMA (o ecstasy) aos 16 até sua primeira bad-trip com subsequente surto psicótico e internação hospitalar após uso de ibogaína.
A bad-trip de Valerie
Valerie viveu na pele a inadequada assistência dada por hospitais aos usuários de psicotrópicos, remanescente de tempos de internação, camisa de força e eletrochoque, que me fizeram lembrar do “Canto dos malditos”, livro de Austregésilo Carrano Bueno, que virou o filme “Bicho de sete cabeças”. Após sua vivência pessoal, somada a sua prática profissional, Valerie juntou-se ao MAPS para criar um serviço de redução de danos aos usuários de psicotrópicos em geral. A proposta é de transformar uma potencial viagem errada e traumatizante em oportunidade para crescimento e amadurecimento. Nas palavras dela: “Turning an emergency into an opportunity for growth, healing and understanding”. A abordagem vai ao cerne da experiência psicodélica, que é muito mais do que uma experiência recreativa, como sempre bem souberam xamãs e curandeiros de diversas regiões do planeta. Os pensamentos e sentimentos trazidos a tona pelos psicodélicos nem sempre são agradáveis, mas se encarados de uma perspectiva madura e de aceitação podem servir, em uma única experiência, como anos de psicoterapia.
Para encerrar o sábado, Earth e Fire Erowid, os criadores do magistral site de informações imparciais sobre psicotrópicos, hoje com mais de 1.200 usuários associados (sendo eu um dos mais recentes associados e um dos poucos brasileiros na lista), mostraram de forma dinâmica como o proibicionismo aos psicotrópicos causa o surgimento de aberrações como o Spice, suposto conjunto de ervas vendidos legalmente na Europa e pela internet, mas que sob um olhar mais cauteloso revelou conter agonistas sintéticos da velha cannabis, utilizada por nossa espécie a cerca de 2700 anos. O casal Erowid deixou claro como o proibicionismo acaba sendo burlado, muitas vezes criando misturas e coquetéis desconhecidos e de qualidade duvidosa, aumentando os potenciais riscos do consumo destas substâncias. Neste caso específico, o Spice esconde as substâncias responsáveis por seu efeito, que não aparecem no rótulo, enaganando agências governamentais e potenciais concorrentes no mercado. Foi necessário que comprassem o produto, o que foi difícil pois o produtor especificava aos distribuidores para não vender nos EUA, o que chegou a ser impresso nas embalagens em determinado momento. Ainda assim, Erowid fez o necessário e testou o produto, confirmando que seus efeitos eram incrivelmente similares ao de fumar maconha. Após consumirem, enviaram para a Drug Detection Agency para análise química, mas o resultado deu negativo para todos os compostos canabinóides e de substâncias psicoativas proibidas. Entretanto, o Spice continha na análise química alguns picos referentes a substâncias que não foi possível identificar. Posteriormente, um laboratório na Alemanha fez análise mais detalhada e encontrou o composto JWH-018, um agonista canabinóide sintético. Nos EUA, agentes de segurança internacional relataram que Spice continha HU-210, achado que ainda não foi confirmado por nenhum outro laboratório. Em 2009, trabalho publicado por Auwarter et al no Journal of Mass Spectrometry finalmente identificou o composto encontrado por Erowid 20 meses antes como sendo o CP 47,497. No meio da sopa de letras do composto químico responsável pelos efeitos do Spice, vale resaltar que CP é a sigla de compostos sintetizados pela gigante Pfizer, e dados os mais de 520.000 resultados do google na busca por spice e o crescimento do fabricante, o Psyche Deli, em mais de um milhão de dólares entre 2006 e 2007, levantou-se a questão de qual o possível envolvimento das gigantes farmacêuticas no mercado negro de psicoativos.
No domingo, o ecologista e teológo Andy Letcher procurou argumentar como a simbologia mística, específica no que diz respeito aos cogumelos, causa por vezes o “wishful thinking” criando idéias que podem ser divertidas mas inadequadas. Andy mencionou especificamente a idéia de o papai noel ter surgido das práticas xamânicas na sibéria, como aparece por exemplo no filme “a inquisição farmacrática” (que andy não chegou a mencionar). A meu ver, faltou a ele justificar suas afirmações, uma vez que apenas mostrou outras imagens antigas e pinturas em cavernas nas quais fica duvidoso se imagens de formas pontiagudas e meio trianglares representavam ou não cogumelos de fato. No caso do papai noel, Andy argumentou que não é nada de xamanismo na sibéria, mas apenas o brilhantismo imaginativo de Thomas Nast. Não argumentou porque esta explicação é mais ou menos mirabolante que a dos xamãs e seus amanitas e também não tocou na questão de se a imaginação de Thomas Nast poderia ter sido ou não influenciada por experiências com o Amanita. Resta ler seu livro “Shroom: A cultural history of the magic mushroom and mad thoughts on mushrooms: Discourse and power on psychedelic consciousness” para ver se têm argumentos mais convincentes que possam comprovar se essas idéias são plausíveis ou de fato apenas histórias mirabolantes criadas por amantes dos cogumelos e suas trips (vale ler os comentários sobre o livro no link acima, da amazon, incluindo o de Jan Irvin, de “a inquisição farmacrática”).

Bob Jesse depois apresentou o trabalho realizado pelo Conselho de Práticas Espirituais (CSP), uma abordagem complementar ao uso de psicodélicos. Segundo Bob, o misticismo evocado por experiências psicodélicas deve ser estilmulado respeitando-se a cultura, religião e crenças de cada um. O trabalho do CSP foca na continuidade das práticas espirituais após o despertar induzido por psicodélicos. Sua palestra levantou questionamentos calorosos por parte da platéia, que questionou que experiências místicas e religiosas são pessoais e que não cabe a uma organização, especialmente uma ocidental dirigida por “homens brancos” orientar as pessoas nesta área. Entretanto, me parece crucial a continuidade das experiências de expansão da consciência (ou místicas ou religiosas etc etc) por outros métodos que não o abuso das substâncias psicodélicas. Como magistralmente argumentado por R.C. Zaehner em seu debate com Aldous Huxley, e também de forma brilhante por Ram Dass, substâncias psicodélicas tem a capacidade de nos teletransportar para o cume do Everest, onde podemos experimentar uma visão mais ampla e abrangente do universo, tanto externo quanto em nosso interior. Mas esta experiência é radicalmente diferente de escalar a montanha. Segundo Zaehner, este é o caminho religioso. Segundo Ram Dass, este é o caminho espiritual da meditação e compaixão. Muitos outros existem, como yoga, o quarto caminho etc…
Por fim, Bob Wold apresentou sua história com “clusterheadaches”, uma condição de dor de cabeça extrema, que segundo ele não deveria ser chamada de dor de cabeça porque absolutamente não descreve o que se passa. Os pacientes com clusterheadaches mais parecem pacientes em convulsão. A dor é tão insuportável que muitos pensam em suicídio e alguns de fato o cometem. Atualmente não existe tratamento eficaz. Bob começou a sofrer de clusters 20 anos atrás enquanto brincava com seu filho no quintal. Repentinamente começou a se sentir tonto, e em menos de dez minutos encontrava-se convulsionando e batendo a cabeça no chão, gritando em dor profunda. As dores vêm em ciclos, com vários episódios por ciclo, cada um chegando a durar 30 minutos! Bob teve cerca de dois ciclos por ano, durante 20 anos. Estima-se que teve mais de 18.000 episódios, ficando praticamente incapacitado para viver de maneira digna. Tomou mais de 75 medicamentos prescritos, em mais de 100 combinações diferentes. A lista vai de aspirina até acupuntura, com muito pouco resultado. Sem encontrar saída, Bob estava indeciso entre quatro opções cirúrgicas, algumas de alto risco, e todas sem promessa de resultado definitivo. Foi aí então que Bob encontrou dois médicos que lembraram que Albert Hofmann, o pai do LSD, quando sintetizou o que talvez seja a molécula mais famosa do mundo, procurava tratamentos para hemorragias durante o parto e para dores de cabeça. Devido à ilegalidade do LSD em todo o mundo e sua difícil síntese, os médicos e Bob decidiram tentar a psilocibina, molécula prima do LSD, disponível gratuitamente na natureza em diversas espécies de cogumelos, como o Psilocibe cubensis. O resultado foi tão expressivo e marcante que Bob se viu, pela primeira vez em duas décadas, livre de suas dores. Bob fundou então o Clusterbusters, associação para ajudar pacientes com a mesma condição e estudar os efeitos da psilocibina como tratamento, quais as melhores doses etc. Bob destaca que as alucinações não são um problema, já que a dose necessária pra terminar as dores são abaixo das doses alucinogênicas. Ele hoje cultiva os cogumelos em sua casa e dirige com paixão o Clusterbusters. A associação cresceu e hoje conta com apoio de pesquisadores em instituições formais de pesquisa. O caminho foi árduo, e apesar dos inúmeros comentários preconceituosos de que ninguém levaria isto a sério e nem financiaria pesquisas de laboratório com “cogumelos alucinógenos”, Bob conseguiu doação privada de 50.000 dólares para seguir e expandir seu trabalho, que hoje ajuda dezenas de pacientes na mesma condição.
Ao final do domingo, a sensação era de uma comunidade forte, séria e unida para continuar expandindo este setor de pesquisa médica e científica ignorado por tantos anos. As promessas são inúmeras, desde tratamentos clínicos até questões centrais para a neurociência moderna, como quais os substratos neurais dos estados de consciência, tanto normais quanto alterados.
Link Original : http://plantandoconsciencia.wordpress.com/2009/09/30/novos-horizontes/
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Livro : PSYCODELIA TEM OBJETIVOS - Chaves do Universo

Link para downolad :
http://www.4shared.com/u/psgzmprm/850fa1f5/CLR
Maiores Informações :
http://psycodeliatemobjetivos.blogspot.com/
Contato :
contato_psycodelia@yahoo.com.br
Autor :
R.J. Clóvis - CLR
