Psicodélico

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Comentários sobre o parecer da ABP e da ABEAD sobre a ayahuasca

COMENTÁRIOS SOBRE O PARECER DA ABP E DA ABEAD SOBRE A AYAHUASCA

Rafael Guimarães dos Santos

Resumo
Este texto é uma crítica a um documento elaborado por duas associações envolvidas
em pesquisas sobre substâncias psicoativas, a ABP e a ABEAD, entitulado “Ayahuasca”. São
apontados erros e inconsistências neste parecer sobre a ayahuasca, uma preparação psicoativa
utilizada por vários grupos indígenas e não-indígenas com finalidades terapêuticas, mágicas e
religiosas.


Introdução
Em 2001, na reunião do Departamento de Dependência Química da Associação
Brasileira de Psiquiatria, durante o XIX Congresso Brasileiro de Psiquiatria, foi solicitado, em
função de um pedido da Secretaria Nacional Antidrogas, um parecer técnico-científico sobre a
ayahuasca, uma preparação psicoativa utilizada por grupos indígenas da Amazônia Ocidental
e também por instituições religiosas, sobretudo no Brasil. Este documento foi apresentado em
reunião do Conselho Nacional Antidrogas, em 2002 (1). O texto traz dados históricos,
antropológicos, jurídico-legais, psicológicos, farmacológicos e psiquiátricos sobre a
ayahuasca. Entretanto, uma leitura cuidadosa evidencia inconsistências e incorreções,
principalmente relacionadas à farmacologia e aos aspectos biomédicos da ayahuasca.
Nesta perspectiva, foi elaborado por médicos da União do Vegetal, uma das principais
religiões ayahuasqueiras, um texto contendo considerações a respeito do parecer (2). A partir
deste documento, desenvolvemos nossas observações, expostas, resumidamente, no presente
texto (ver Link Abaixo).

Material e Métodos
O presente texto foi elaborado através do estudo do parecer feito pela Associação
Brasileira de Psiquiatria – ABP e pela Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras
Drogas – ABEAD sobre a ayahuasca (1), da crítica não publicada a este parecer feita pelo
Departamento Médico-Científico do Centro Espírita Beneficente da União do Vegetal (2) e da
realização de uma revisão de literatura sobre a ayahuasca.

Resultados
Dentre as incorreções que chamam a atenção do ponto de vista das ciências humanas,
encontra-se no tópico “Ayahuasca e religião” a afirmação de que a União do Vegetal, umas das principais religiões ayahuasqueiras, não permite o uso de ayahuasca por pessoas que não
sejam membros já efetivos do grupo. Embora recebidos em número limitado, a União do
Vegetal permite sim o uso da preparação por não-membros (novatos) (3). No mesmo tópico,
ainda em relação à União do Vegetal, os autores afirmam que a instituição é contrária a uso
de drogas. Como, farmacologicamente, a ayahuasca também pode ser considerada uma droga,
seria conveniente detalhar quais drogas os autores estão se referindo ou modificar o conteúdo
da frase (por exemplo: contrária ao uso de drogas recreativas).

Ainda no mesmo tópico, se lê a afirmação de que o uso regular da Ayahuasca ocorre
raramente entre os indígenas, o que, além de ser falso, transmite a idéia de que os
consumidores não-indígenas “abusam” da sustância. Esta afirmação, embora possa ser
verdadeira para alguns grupos indígenas, não pode ser generalizada. Os Kaxinawá, por
exemplo, tomam a ayahuasca constantemente:

“Todos los varones cashinahua iniciados pueden beber ayahuasca. Su uso varía mucho;
algunos hombres no la beben nunca, otros la toman cada vez que se prepara una infusión.
Las ocasiones en que se toma ayahuasca no se dan normalmente más que una vez cada
varias semanas (...)”
(4).

O mesmo ocorrendo entre os xamãs Ashaninka:

“Los chamanes campa toman frecuentemente ayahuasca, y a menudo tienen a mano un
suministro de la droga”
(5).

Em relação aos “Aspectos Legais”, a parecer informa que em 1984, o governo
brasileiro acrescentou a Ayahuasca à sua lista de substâncias controladas. Entretanto, tal
acontecimento se deu em 1985 (Portaria 02/85 da Divisão de Medicamentos – DIMED) (6). Na
área farmacológica, as informações oferecidas sobre os mecanismos de ação da ayahuasca estão muitas vezes incorretas e desatualizadas, mesmo em relação às publicações disponíveis
na época da elaboração do parecer (7).

Em “Ayahuasca e farmacologia”, quando se referindo às substâncias presentes nas
espécies vegetais comumente utilizadas para produzir a ayahuasca, Banisteriopsis caapi e
Psychotria viridis, os autores defendem a opinião de que a primeira contém potentes
inibidores da MAO (monoamino-oxidase), as beta-carbolinas (harmalina, harmina e
tetrahidroharmina, THH) e que a segunda contém grandes quantidades de um único agente
psicodisléptico, o N, N dimetiltriptamina (DMT). Estas afirmações estão incompletas, pois
ignoram outras substâncias presentes tanto em Banisteriopsis caapi como em Psychotria
viridis.(7,8)

No mesmo tópico, afirma-se que a harmalina e a harmina são inibidores da MAO-A e
que a THH inibe a recaptação da serotonina, desencadeando um aumento da sua atividade
central e periférica, facilitando a psicoatividade da DMT. Aqui existem dois erros. Em
primeiro lugar, as beta-carbolinas têm uma preferência pela MAO-A ao invés da MAO-B, o
que é bem diferente de dizer simplesmente que elas são inibidores da MAO-A. Além disso,
existem dados que admitem a possibilidade de que, em altas concentrações, estas betacarbolinas
também poderiam inibir a MAO-B.(7)

Em segundo lugar, ao afirmar que a THH inibe a recaptação da serotonina,
desencadeando um aumento da sua atividade central e periférica, facilitando a
psicoatividade da DMT, encontramos um erro, pois ao se admitir o aumento dos níveis de
serotonina, a psicoatividade da DMT fica dificultada e não facilitada, pois a serotonina vai
competir com a DMT pelos sítios de ligação.(9) Erro semelhante ocorre quando se afirma que a
inibição da MAO é responsável pela potencialização dos efeitos do DMT, que compete com a
5-HT pelos receptores serotonérgicos como um agonista parcial. A presença de altas concentrações de serotonina na fenda sináptica poderia, em tese, impedir a ação do DMT.
Existe uma contradição e um erro nesta afirmação. Erra ao utilizar a palavra
“potencialização”, pois, na verdade, o aumento da função serotoninérgica irá dificultar os
efeitos da DMT. Depois é contraditória, pois afirma, corretamente, “que compete com a 5-HT
pelos receptores serotonérgicos como um agonista parcial”.(7,9)

Segundo o parecer, o mecanismo de ação da Ayahuasca começa com a inibição da
MAO pela harmina e, em menor grau, pela harmalina. A frase está errada e incompleta: a)
dos quatro principais alcalóides encontrados na ayahuasca, todas as três beta-carbolinas
(harmina, tetrahidroharmina [ou THH] e harmalina) possuem atividade inibidora da MAO (ou
IMAO); b) a harmina – provavelmente o principal responsável pala atividade IMAO da
ayahuasca – é a beta-carbolina mais abundante, com atividade IMAO equivalente ou
ligeiramente menor que a da harmalina que, embora possua uma atividade IMAO equivalente
ou ligeiramente maior que a da harmina, é encontrada apenas em traços na ayahuasca,
provavelmente não colaborando significativamente em sua farmacologia; c) a THH é, dentre
as três beta-carbolinas, a que possui a menor atividade IMAO, entretanto, é a segunda betacarbolina mais abundante; d) portanto, a combinação harmina/THH poderia ser suficiente
para produzir a atividade IMAO da ayahuasca.(10) Além disso, existem evidências de que a
THH seja, além de um IMAO, um fraco inibidor da recaptação de serotonina, o que poderia
prolongar a meia-vida da dimetiltriptamina (ou DMT).(7)

Quanto á farmacocinética da DMT, o parecer estabelece que a DMT fumada produz
um efeito mais potente e rápido que a via injetável. Encontram-se algumas imprecisões nesta
frase. Em primeiro lugar, parece que os autores estão se referindo à forma injetável
intramuscular, pois nos estudos investigados os sujeitos relataram que certas doses de DMT
administrada por via injetável intravenosa eram tão potentes e rápidas quanto as doses de
DMT fumada, e às vezes mais potentes.(11,12) Segundo os dados pesquisados, a administração
intramuscular de DMT costuma demorar pouco mais de 1 minuto para começar a produzir
efeitos, enquanto a forma fumada demora cerca de 15 a 30 segundos e doses altas de DMT
intravenosa demoram cerca de 30 segundos.(13)

Já em relação à farmacodinâmica, os autores defendem que a DMT tem afinidade
pelos sítios serotonérgicos 5-HT1A e 5-HT-2. Segundo dados recentes, os receptores seriam o
5-HT1A, 5-HT2A e o 5-HT2C.(14,15)

A respeito das contra-indicações, o parecer apresenta dados que confundem o leitor,
podendo desencadear prejuízos.

“Dado o perfil de efeitos inibitórios sobre a ação da MAO A, é contraindicado o uso da
bebida, concomitantemente ao uso de antidepressivos, especialmente os IMAO e ISRS.
Dentro do contexto religioso este efeito é controlado pelos xamãs com a prescrição de
dieta prévia ao uso da Ayahuasca, talvez em função de um conhecimentos empírico sobre
os alimentos ricos em tiramina. Caso contrário, o indivíduo pode apresentar uma
síndrome serotoninérgica, um quadro grave, que pode ser letal”.

Aqui existe uma confusão nos dados. O uso de certos medicamentos antidepressivos
juntamente com a ayahuasca pode resultar em uma crise serotoninérgica devido à inibição da
MAO juntamente com a inibição da recaptação de serotonina, logo, inibição dos dois
sistemas.(16) Isto é totalmente diferente das possíveis reações adversas causadas pelo excesso
de tiramina, que desencadearia um aumento da liberação de noradrenalina, o que pode resultar
em crises de hipertensão, por exemplo.(6) Embora as duas situações dependam da inibição da
MAO, no parecer elas aparecem como se fossem a mesma coisa, e não são.(2)

Outras imprecisões estão relacionadas com os efeitos agudos e crônicos da ayahuasca,
no tópico “Ayahuasca: estudos mais recentes”. Ao caracterizar o estado de consciência proporcionado pela bebida como um rebaixamento de consciência, o parecer menospreza as
publicações sobre o tema, pois o texto original de onde tal afirmação foi retirada fala de
“ampliação da consciência” e de “clareza sensorial” proporcionada pelo psicoativo.(2,17)

Os autores afirmam que foi encontrado um nível persistentemente elevado de receptores serotonérgicos no sangue periférico de indivíduos que tomavam a ayahuasca por pelo menos 10 anos. No estudo citado pelos autores para embasar suas conclusões, o resultado encontrado foi o aumento dos transporters, que são os sítios pré-sinápticos de captação de serotonina – uptake sites, e não simplesmente o aumento de “receptores”, o que pode confundir o leitor.(18)

O parecer, em suas “Considerações Finais”, ainda estabelece relações diretas entre este
dado e a existência de tolerância. Em primeiro lugar, não existe qualquer evidência, seja ela
científica ou não, do desenvolvimento de tolerância em relação à ayahuasca. Pelo contrário.
Embora, ao melhor de meu conhecimento, não existam estudos científicos sistemáticos sobre
esta questão, durante aproximadamente cinco anos realizei pesquisas de campo que seguiram
a metodologia de observação participante, onde ingeri a ayahuasca em praticamente todos os
rituais em que estive presente. Neste período, participei de rituais em diversos grupos
ayahuasqueiros, em vários estados do país, e observei que as doses servidas durante os rituais
não costumam variar muito e possuem um padrão, que se repete de maneira constante.
Também notei que vários consumidores diminuem a quantidade de ayahuasca com o passar
do tempo.

Além disso, não é correto interpretar os dados referentes ao aumento de sítios de
ligação como sendo evidências de tolerância. Conforme o artigo original, os autores afirmam
que estes achados não indicam a existência de um estado neurológico ou psiquiátrico
indesejável, nem devem ser mal interpretados como sendo indícios do desenvolvimento de
patologia neurológica e/ou psiquiátrica, pois os sujeitos da pesquisa apresentaram status
fisiológico e psiquiátrico normais.(18)

O parecer ainda faz afirmações não embasadas cientificamente sobre a inexistência de
uso seguro da ayahuasca. Não existem dados, científicos ou não, que corroborem esta
afirmação. Tanto as observações feitas por pesquisadores do governo brasileiro em
comunidades ayahuasqueiras, que resultaram nos pareceres favoráveis à legalização
(Conselho Federal de Entorpecentes – CONFEN: Resolução nº 6, 04/02/1986 e 5ª Reunião
Extraordinária, 02/06/1992; Conselho Nacional Antidrogas – CONAD: Resolução nº 4,
04/11/2004), como as pesquisas biomédicas, psicológicas e psiquiátricas existentes relatam
uma relativa segurança do uso ritualizado/ religioso da ayahuasca, pois não apresentaram
evidências de quaisquer danos entre os indivíduos pesquisados.(2,15,17,18,19)

Neste sentido, também é encontrada no parecer a opinião de que não existe uso seguro
de substâncias psicoativas e psicotrópicas. Esta frase está um tanto determinista e fatalista.
Além de menosprezar os controles e sanções sociais presentes em vários grupos humanos que
utilizam psicoativos há tempos (por vezes, há milhares ou centenas de anos) com relativa
segurança e com o mínimo de danos bio-psico-sociais, ignora o uso controlado de certas
substâncias psicoativas em nossa própria sociedade (como a cafeína, a nicotina e o álcool)
que, embora possuam o potencial para causar danos, podem ser utilizadas de forma
integradora e não-abusiva, reduzindo ao máximo estes possíveis danos.(2,,20,21,22)

Do ponto de vista terapêutico, o documento declara que não há nenhum relato
científico demonstrando a possibilidade do uso terapêutico da ayahuasca. Entretanto, embora
não existam estudos clínicos, realizados com a devida metodologia e rigor experimental,
demonstrando propriedades terapêuticas da ayahuasca, já existiam na época de elaboração do
parecer evidências, baseadas em pesquisas bioquímicas, psicológicas e psiquiátricas, de
potenciais terapêuticos da bebida. As seguintes referências possuem dados sobre possíveis
efeitos terapêuticos deste psicoativo:
• Significante ação anti-Trypanosoma lewisii, agente profilático contra a malária e
parasitas internos; (7)
• Efeitos anti-Trypanosoma cruzii (Doença de Chagas); (23)
• Aumento nos transportadores de serotonina nas plaquetas observado após longo uso da
ayahuasca. Há especulações de que esta observação possa reverter quadros de (a) alcoolismo
associado a comportamento violento e (b) comportamento suicida; (24)
• Terapia para adicção (abuso de álcool, tabaco, cocaína, anfetaminas); (19,24,25)
• Recuperação de quadros de depressão maior e ansiedade fóbica; (19)
• Relatos de cura ou melhora em alguns casos de câncer. Exploração dos possíveis
efeitos imunomodulatórios da ayahuasca, como remissões de cânceres e outras doenças,
longevidade e vigor físico ; (24,26)
• Possibilidade de desenvolvimento de tratamentos baseados em algumas substâncias
presentes na ayahuasca capazes de modular a expressão dos genes das proteínas
transportadoras (transporters) de serotonina. Por exemplo, no tratamento do alcoolismo,
depressão, autismo, esquizofrenia, desordem de déficit de atenção por hiperatividade e
demência senil. (24,27)

Discussão e Considerações finais
Dada a relevância das opiniões de instituições como a Associação Brasileira de
Psiquiatria e a Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas nos meios
acadêmicos, na saúde pública e na sociedade em geral no que se refere a informações,
atuações e políticas envolvendo substâncias psicoativas, o parecer merece uma revisão e
atualização, pois pode influenciar erroneamente a opinião pública e profissional sobre o
consumo da ayahuasca no Brasil e no mundo. Além disso, pode prejudicar os indivíduos e
instituições que fazem uso deste psicoativo.
Cor do texto
Considerando a importância e a representatividade destas instituições acima citadas e a
polêmica que envolve o assunto, faz-se necessário corrigir os erros e incoerências presentes
no parecer. Tal assunto deve ser atualizado cientificamente, levando-se em consideração a
realidade bio-psico-social do consumo de psicoativos e, especificamente, da ayahuasca.

Referências bibliográficas
1 Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP, Associação Brasileira de Estudos do Álcool e
outras Drogas – ABEAD. Ayahuasca. Boletim eletrônico da ABEAD. [serial on the Internet].
2001 [cited 2006 Aug 08]; 21:[about 20 p.]. Available from:
http://www.viverbem.fmb.unesp.br/docs/Consenso%20AYAHUASCA%204.doc

2 Brito GS, Pereira, OCC. Considerações a respeito do Parecer Ayahuasca, da Associação
Brasileira de Psiquiatria/ Associação Brasileira de Estudos em Álcool e Drogas
(ABP/ABEAD). Departamento Médico-Científico do Centro Espírita Beneficente da União
do Vegetal. Documento inédito não publicado. 2002.

3 Labate, BC. Dimensões legais, éticas e políticas da expansão do consumo da ayahuasca. In:
Labate, BC, Goulart, SL, organizadores. O uso ritual das plantas de poder. Campinas:
Mercado de Letras; 2005. p. 397-457.

4 Kesinger, KM. El uso del Banisteriopsis entre los cashinahua del Perú. In: Harner, M.
Alucinógenos y chamanismo. Madrid: Punto Omega; 1976. p. 20-25.

5 Weiss, G. Chamanismo y sacerdocio a la luz de la ceremonia del ayahuasca entre los campa.
In: Harner, M. Alucinógenos y chamanismo. Madrid: Punto Omega; 1976. p. 51-58.

6 MacRae, E. Guiado pela Lua: Xamanismo e uso ritual da ayahuasca no culto do Santo
Daime. São Paulo: Ed. Brasiliense; 1992.

7 McKenna, DJ, Callaway, JC, Grob, CS. The scientific investigation of Ayahuasca: a review
of past and current research. The Heffter Review of Psychedelic Research [serial on the
Internet]. 1998 [cited 2006 Aug 08]; 1:[about 12 p.]. Available from:
http://www.heffter.org/review/chapter10.pdf

8 Spinella, M. The psychopharmacology of herbal medicine: plant drugs that alter mind, brain
and behavior. Londres, Inglaterra: The MIT Press; 2001.

9 Ott, J. Pharmahuasca: on Phenethylamines and Potentiation. MAPS Newsletter [serial on the
Internet]. 1996 [cited 2006 Aug 08]; 6(3):[about 4 p.]. Available from:
http://www.maps.org/news-letters/v06n3/06332ott.html

10 McKenna, DJ, Towers, GHN, Abbott, F. Monoamine oxidase inhibitors in South American
hallucinogenic plants: tryptamine and -carboline constituents of Ayahuasca. J
Ethnopharmacol. 1984; 10: 195-223.

11 Strassman, RJ, Qualls CR. Dose-response study of N,N dimethyltryptamine in humans: I.
Neuroendoctrine, autonomic, and cardiovascular effects. Arch Gen Psychiatry. 1994; 51(2):
85-97.

12 Strassman, RJ, Qualls, CR, Uhlenhuth, EH, Kellner, R. Dose-response study of N,Ndimethyltryptamine in humans: II. Subjective Effects and Preliminary Results of a New
Rating Scale. Arch Gen Psychiatry. 1994; 51(2): 85-97.

13 Strassman, RJ. DMT: the spirit molecule. Rochester, Vermont: Park Street Press; 2001.

14 Smith, RL, Canton, H, Barret, RJ, Sanders-Bush, E. Agonist properties of N, Ndimethyltryptamine at 5HT2A and 5HT2C serotonin receptors. Pharmacol Biochem Behav.
1998; 61(3): 323-30.

15 Riba, J, Rodrigues-Fornells, A, Urbano, G, Morte, A, Antonijoan, R, Monteiro, M et al.
Subjective effects and tolerability of the South American psychoactive beverage Ayahuasca in
healthy volunteers. Psychopharmacol (Berl). 2001; 154: 85-95.

16 Callaway, JC. Another warning about harmala alkaloids and other MAO inhibitors. MAPS
Newsletter [serial on the Internet]. 1994 [cited 2006 Aug 08]; 4(4):[about 1 p.]. Available
from: http://www.maps.org/news-letters/v04n4/04458mao.html

17 Callaway, JC, McKenna, DJ, Grob, CS, Brito, GS, Raymon, LP, Poland, RE et al.
Pharmacokinetics of Hoasca alkaloids in healthy humans. J Ethnopharmacol. 1999; 65: 243-
56.

18 Callaway, JC, Airaksinen, MM, McKenna, DJ, Brito, G, Grob, CS. Platelet serotonin
uptake sites increased in drinkers of ayahuasca. Psychopharmacol. 1994; 116: 385-7.

19 Grob, CS, McKenna, DJ, Callaway, JC, Brito, GS, Andrade, EO, Oberlaender, G et al.
Farmacologia humana da hoasca: efeitos psicológicos. In: Labate, BC, Araújo, WS,
organizadores. O uso ritual da ayahuasca. Campinas: Mercado de Letras; 2004. p. 653-69.

20 MacRae, E. The ritual and religious use of Ayahuasca in contemporary Brazil. In: Taylor,
W, Stewart, R, Hopkins, K, Ehlers, S, organizadores. DPF XII Policy Manual. Washington:
The Drug Policy Foundation Press; 1999. p. 47-50.

21 MacRae, E, Simões, JA. Rodas de Fumo: O uso da maconha entre camadas médias urbanas.
Salvador: EDUFBA; 2000.

22 Labate, BC, Goulart, SL, organizadores. O uso ritual das plantas de poder. Campinas:
Mercado de Letras; 2005.

23 Pomilio, AB, Vitale, AA, Ciprian-Ollivier, J, Cetkovich-Bakmas, M, Gómez, R, Vásquez,
G. Ayahoasca: an experimental psychosis that mirrors the transmethylation hypothesis of
schizophrenia. J Ethnopharmacol. 1999; 65: 29-51.

24 McKenna, DJ. Clinical investigations of the therapeutic potential of ayahuasca: rationale
and regulatory challenges. Pharmacol Ther. 2004; 102: 111-29.

25 Labigalini, E. O uso de ayahuasca em um contexto religioso por ex-dependentes de álcool -
um estudo qualitativo [dissertation]. São Paulo (SP): Universidade Federal de São Paulo;
1998.

26 Topping, DM. Ayahuasca and cancer: one man’s experience. MAPS Newsletter [serial on
the Internet]. 1998 [cited 2006 Aug 08]; 8(3):[about 5 p.]. Available from:
http://www.maps.org/news-letters/v08n3/08322top.html

27 Jace Callaway, Ph.D. Departamento de Farmacologia e Toxicologia, Universidade de
Kuopio, Finlândia. Comunicação pessoal por e-mail. 2004.

Este texto deve ser citado como: SANTOS, R.G. Comentários sobre o parecer da ABP e da ABEAD sobre a ayahuasca. Núcleo de Estudo Interdisciplinares sobre Psicoativos – NEIP, 2006. Disponível em www.neip.info.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Sálvia: droga milagrosa?


Muitos familiares e legisladores vêem a popular planta psicodélica Salvia divinorum como um perigo para a saúde pública. Mas a droga tem um grupo de fãs fora do comum: cientistas. Muitos investigadores consideram a planta uma potencial maravilha médica. Acreditam que estudos científicos rigorosos da sálvia podem levar a descobertas médicas importantes e a novos tratamentos para toxicodependência, depressão, câncro, e mesmo VIH (vírus da imunodeficiência humana).

Se os legisladores criminalizarem a sálvia a nível estatal ou federal (nos Estados Unidos), a proibição pode dificultar o estudo da sálvia antes do seu desenvolvimento, afirma o Dr. John Mendelson, um farmacologista. Com financiamento federal, Mendelson está a investigar o impacto da sálvia nos seres humanos, no centro de investigação médica do instituto California Pacific.

"A Salvinorina A é um composto único, diferente dos opiáceos e de outras substâncias alucinógenas”, afirma Mendelson. "Nunca vimos nada assim".

Mesmo há dez anos, os cientistas prestavam pouca atenção à sálvia. Isso mudou quando os investigadores isolaram o composto ativo da planta e descobriram que era um alucinógeno de curta duração extremamente poderoso, sem efeitos secundários conhecidos ou propriedades aditivas, afirma Mendelson.

Para além disso, a sálvia difere das outras substâncias psicoativas ao interagir com receptores específicos do cérebro que as outras drogas não afetam. Esta reação psicológica única torna a sálvia interessante para os investigadores.

Mendelson afirma que a pesquisa da sálvia poderá ajudar a desenvolver medicamentos que ativem receptores cerebrais específicos e bloqueiem a dor sem risco de dependência.

Outras propostas de investigadores médicos que procuram financiamento do instituto nacional de saúde americano (NIH) incluem o estudo da sálvia em relação à toxicodependência, ao VIH, às hepatites B e C, e à depressão.

Lê o artigo integral em Salvia.net.

sábado, 11 de abril de 2009

Tese sobre ayahuasca e arte disponível on line

Tese sobre ayahuasca e arte disponível on line

Extraído do site : http://www.bialabate.net/

”A Arte Visionária e a Ayahuasca: Representações das Espirais e Vórtices nos Estados Não Ordinários de Consciência (ENOC)”. Tese de Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas (DICH-UFSC), por José Eliezer Mikoz.

Veja no link: http://www.4shared.com/file/97235534/9c2fd908/versao_final.html

Resumo
Os Estados Não Ordinários de Consciência, ENOC, induzidos especialmente por alguns tipos específicos de agentes psicoativos, como a ayahuasca, propiciam visões, tratadas neste trabalho também como mirações. Nos estágios iniciais da experiência, essas mirações geralmente são formadas por padrões luminosos geométricos simétricos, ziguezagues, treliças, teias e espirais, entre outros. Em estágios mais avançados, essas imagens podem se transformar em objetos e cenários diversos, onde a influência cultural exercerá importante papel. Padrões visuais análogos encontram-se em obras artísticas, desde as pinturas rupestres pré-históricas, o que possibilita inferir que sua produção esteja, de algum modo, associada aos ENOC. Com efeito, esses mesmos padrões visuais são encontrados em obras indígenas e de artistas da atualidade que usam essa categoria de psicoativo.
As mirações dos ENOC são muitas vezes consideradas experiências de natureza espiritual ou mística, já que são sentidas como vivências genuínas de um “outro mundo”, vivências essas que só podem ser traduzidas para “este mundo” - o mundo objetivo, material, do dia-a-dia - de forma descritiva e simbólica. Dentre as diversas imagens que podem aparecer nas mirações, o presente trabalho visa investigar as espirais e os vórtices. Estuda alguns dos significados que costumam ser atribuídos a esses elementos, assim como algumas transformações e adaptações que eles podem passar, dependendo da cultura local. O presente trabalho busca, ainda, coligir alguns exemplos da presença das espirais e vórtices na natureza, na ciência e na história da arte, com o intuito de evidenciar a forte influência que essas imagens podem ter sobre a imaginação, o conhecimento e a produção artística.
Palavras-chave: Artes Visuais; Arte Visionária; Ayahuasca; Espirais; Vórtices; Estados Não Ordinários de Consciência (ENOC).

segunda-feira, 30 de março de 2009

Filme - A Inquisição Farmacrática

A Inquisição Farmacrática


Click no link para direcionar o site onde está hospedado o vídeo. Legendas em Português.

Relato sobre o vídeo realizado por Martin W. ball, Ph.D., autor e proprietário do Podcast Evolução Enteogênica

A Inquisição Farmacrática é um filme provocativo de Gnostic Media que argumenta que virtualmente toda a mitologia, simbolismo e a história de Jesus e das tradições Cristãs estão relacionadas a dois assuntos básicos: astrologia e xamanismo. Para aqueles não familiares com as evidências que apóiam esta declaração, este filme pode ser verdadeiramente revolucionário e abrir a mente.

Muito do material do filme está apoiado no trabalho de John Allegro. Allegro foi um dos acadêmicos originalmente escolhidos para traduzir os Pergaminhos do Mar Morto, escritos Católicos antigos, descobertos em Qumran próximo ao Mar Morto no meio do século 20. Diferentemente de seus colegas, Allegro não era comprometido com a Igreja Católica e portanto foi capaz de desenvolver suas próprias teorias e interpretações, livre do dogma Católico. O resultado foi a sugestão radical de que Jesus era um cogumelo psicoativo. Em particular, Allegro argumentou que a mitologia e o simbolismo que rodeiam Jesus Cristo apontam para o cogumelo Amanita muscaria, o icônico cogumelo vermelho e branco tão comum no simbolismo e imagens Cristãs.

O cogumelo Amanita tem papel central no filme e é apresentado como base dos elementos xamânicos no Cristianismo. Existe uma história longa de uso do Amanita entre xamãs do norte europeu e da Sibéria, as próprias culturas de onde se origina a palavra "xamã". Nestas culturas, xamanismo era sinônimo do uso do Amanita e o conhecimento de suas propriedades psicoativas eram bem conhecidos em toda esta região do mundo. Portanto a influência do uso xamânico do Amanita no Cristianismo não deveria necessariamente surpreender, mas o argumento de que Jesus é o Amanita, e não um personagem histórico, é provavelmente surpresa para muitos.

O filme faz uma argumentação convincente para esta conexão entre Jesus e o Amanita, e mesmo com os cogumelos psilocibe, através da apresentação do simbolismo Católico, iconografia e imagens. Quando se olha cuidadosamente para a Igreja Católica, o simbolismo do Amanita parece abundante, das roupas dos Papas e cardinais até afrescos, arcos de passagem e arquitetura de igrejas. Mesmo os mitos, como do Santo Graal, parecem cair na categoria de simbolismo do amanita. Realmente, quando as imagens são apresentadas desta maneira, a comparação com o amanita se torna imediatamente óbvia e difícil de desbancar.

Mesmo Papai Noel recebe o tratamento amanita neste filme. Aqui o elfo bom velhinho é apresentado no contexto do xamanismo do norte europeu, onde, de acordo com a tradição, o xamã secava seus amanitas em um pinheiro e depois visitava os yurts de sua comunidade, entrando pelo buraco para fumaça trazendo de presente para as pessoas cogumelos sagrados. Não é muito estender esta visão para perceber que estes xamãs que passeavam com renas foram o modelo icônico para o velho gordo Noel vestido de vermelho e branco, ele mesmo parecendo muito com o amanita.

O filme apresenta, adicionalmente à influência do xamanismo e de cogumelos psicoativos no Cristianismo, a relação entre astrologia e astronomia com o mito Cristão. Aqui os produtores fornecem argumentos convincentes para a correlação entre o mito Cristão e o céu no Solstício de inverno, incluindo as Eras Zodiacais, demonstrando graficamente como estes contos da estrela brilhante, os três reis, a morte e ressurreição de Jesus todos se encaixam com fatos previamente conhecidos do céu noturno e a mudança das estações.

Por fim, a Inquisição Farmacrática desafia muitos dos pressupostos e crenças que podemos ter sobre o Cristianismo e suas figuras centrais, mostrando evidências provocativas de que as coisas não são como parecem nesta tradição. Se for verdade, a pergunta que vem é: Será que a Igreja Católica ainda usa o amanita secretamente nos confins do Vaticano? Estariam eles realmente escondendo esta verdade fundamental por dois milênios, ou eles mesmos passaram a acreditar nos mitos que foram criados para comunicar e esconder a verdadeira identidade de Jesus Cristo? Assista este filme e tome sua decisão.

Farmaco- uma combinação significando droga, medicina, ou veneno usada na formação das seguintes palavras: farmacologia, farmacia, etc

-crat, significando regra, membro de um corpo de governo, ou defesa de uma regra particular, usado nas palvras compostas: autocrata, tecnocrata.Cf.-cracia

n. 1 uma investigação oficial, especialmente de natureza política ou religiosa, caracterizada por falta de respeito a direitos individuais, preconceito por parte dos examinadores e punições cruéis e imprudentes. 2. qualquer questionamento duro, difícil ou prolongado. 3. ato de inquirir, pesquisar. 4. uma investigação, ou processo de inquirir. 5. uma forma oficial ou jurídica de inquirir. 6. os resultados de inquirir. 7. o documento contendo os resultados de tal questionamento. 8. (cap) Igreja Católica Romana A. tribunal especial do passado, envolvido principalmente em combater e punir a heresia. Cf. Escritório Sagrado. B. ver inquisição espanhola.

Inquisição Farmacrática verb.

- A perseguição Cristã das religiões arcaicas baseadas na ingestão cerimonial de plantas enteogênicas e do consequente acesso pessoal a estados de êxtase; cuja primeira grande vitória foi a destruição dos mistérios Eleusinos no fim do quarto século; que então alcançou um clima grotesco na perseguição às bruxas na Idade Média; e que continua hoje em dia na forma do Estado Farmacrático disfarçado de saúde pública com a "Guerra as Drogas".

1994 Ott Ayahuasca Analogues, 12. Que a reforma enteogênica prevaleça sobre a Inquisição Farmacrática, levando ao renscimento espiritual da humanidade nos seios da Mãe Gaia, do qual poderá fluir para sempre a amrita, a ambrosia, a ayahuasca da vida eterna!

Fonte: The Age of Entheogens & The The Angel's Dictionary by Jonathan Ott (A Era dos Enteógenos & O Dicionário do Anjo, por Jonathan Ott)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Timothy Leary's - Last Trip - 1997


Timothy Leary's - Last Trip


Autor, educador e filósofo Dr. Timothy Leary foi muito polêmico ao longo de sua vida, por isso não foi nenhuma surpresa da forma que escolheu morrer. Last Trip é um documentário de sua vida e carreira, de seus dias em West Point através de seus anos como um guru do LSD.
Formato: Rmvb
Áudio: Inglês
Legenda: S/Legenda
Tamanho: 264 Mb
Duração: 56 Minutos

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Entrevista com Govert Derix, holandês autor de livro sobre a UDV




Alto das Estrelas - Onde você fez a sua pesquisa para o seu livro “Ayahuasca, uma crítica da razão psicodélica“?


Govert - Estive no Brasil em 2001 e em 2003, onde bebi vegetal no Centro Espíríta Beneficente da Ordem do Templo Universal de Salomão (OTUS), no Núcleo Cajueiro em Cascavel (Ceará), no Núcleo Estrela do Norte em Porto Velho (Rondônia), e em um pré-núcleo em Rio Branco (Acre).


Alto das Estrelas - O que é a OTUS?


Govert - Na época a OTUS era um grupo de mais ou menos 600 hoasqueiros ligado ao Mestre Gabriel mas independente da UDV [Centro Espírita Beneficente União do Vegetal - CEBUDV]. A OTUS se intregrou a UDV no ano 2004. Acho que o Núcleo Estrela do Norte virou o Pre-núcleo Templo de Salomão. Em 2001, também fiz entrevistas com mestres da UDV em Fortaleza (Ceará), do Núcleo Tucunacá. No mesmo ano frequentei também vários rituais do Santo Daime (Cefluris) no Céu da Flor da Canoa, em Canoa Quebrada (Ceará). E dois anos depois, pesquisei o grupo daimista Céu da Terra da Luz, em Cascavel (Ceará). Nesta época, também fiz entrevistas com Hans Bogers, o fundador de Santo Daime na Holanda, em La Haya, e com Arno Adelaars, que organizou rituais indígenas em vários lugares na Europa. Participei de sessões organizadas por Arno com xamãs da América do Sul na Holanda, como Hilario Chiriap do Equador (Shuar) e Kajuali Tsamani da Colômbia (Kofan).


Alto das Estrelas - Você chegou a se filiar em algum destes grupos?


Govert - Não. Tenho muita afinidade com a UDV mas também sinto que como filósofo e escritor tenho que manter uma certa distância. Mas quem sabe que um dia vou me filiar… Aliás, pessoalmente acho uma pena que a OTUS não exista mais na maneira que conheci, pois com eles me senti muito ‘em casa’.


Alto das Estrelas - Porquê?


Govert - Porque tinha a imagem que era uma coisa simples, bem próximo à União dos dias do fundador José Gabriel da Costa nos anos ‘60. Por outro lado, sei que é impossível retornar para o passado.


Alto das Estrelas - Quais as principais diferenças que você vê entre estes diversos contextos de uso da ayahuasca (UDV, daime, sessões com xamãs na Europa)?


Govert - Vejo os contextos da UDV e do Santo Daime como complementares. Na UDV há uma ênfase no auto-conhecimento e na auto-pesquisa. No Santo Daime a ênfase parecer ser o grupo, a ‘corrente’, o movimento do grupo na dança etc. Mas isso não quer dizer que a irmandade na UDV não é importante. Ao contrário: de certa maneira, a irmandade é o ponto mais crucial na União. Vejo a complementariedade da UDV e do Santo Daime como dois triângulos. Na UDV o ponto de partida é o indivíduo, e dali para a doutrina, a prática fiel, a irmandade, o plano superior, etc. No Santo Daime, o ponto de partida é o coletivo (base do triângulo) é dali para o indivíduo como ‘aparelho’ do divino.


Alto das Estrelas - E o xamanismo na Europa?


Govert - Contém muita coisa. É super interessante, mas tambem é impossível dizer o que é autêntico. O único critério que faz sentido é o da sinceridade. A gente pode sentir se um xamã (ou um mestre, um padrinho) tem uma relação verdadeira com a ayahuasca, ‘o professor dos professores’. Ao mesmo tempo, é uma ilusão pensar que existe um xamanismo ‘original’. Uma “volta para a natureza ou para o xamanismo” não faz sentido, mas o que pode ter um grande valor é o movimento pra frente, para uma nova relação com a ‘natureza’ e uma re-invenção de um xamanismo vital. Apesar dessa noção dinâmica, gosto de crer que existe por trás de tudo uma estrutura ou matriz eterna. Por um lado, às vezes sinto - ou até percebo - que nas camadas mais profundas da realidade tem um complexo de significações universais. Por outro lado, mesmo uma volta para estas camadas (seja na luz da ayahuasca ou como uma filosofia que se entende com “arqueologia”) sempre tem o ‘aqui e agora’ da minha mente como ponto de partida. Ver e perceber isso significa entrar em contato com a essência do fenômeno do tempo.


Alto das Estrelas - Qual é a principal importância da ayahuasca para a filosofia?


Govert - A ‘experiência’ é um dos conceitos mais problemáticos da filosofia ocidental, criando o abismo entre ciência e espiritualidade. Vejo a ayahuasca como veículo para re-ligar ciência, espiritualidade e filosofia. Era a antiga ambição do Rei Salomão. Para entender o sentido da vida tenho que me conhecer (ciência), entender (filosofia) e amar (religão).


Alto das Estrelas - Como você explica no seu país, a Holanda, o que é a ayahuasca?


Govert - Digo que é um espelho que mostra a você quem você é e pode ser. Ela dá a luz do conhecimento e a força de transformar o auto-conhecimento em ação e crescimento. A palavra chave de do filósofo Nietzsche (”Ser quem você é”) para mim tambem é a palavra chave da hoasca.


Alto das Estrelas - O que são as ‘pharmahuascas’ e qual é a sua disponibilidade nas smart shops de Amesterdã? É verdade que vendem também ayahausca aí?


Govert – Pharmahuascas são substâncias quimicamente parecidas com a ayahuasca, ou ao menos com o seu principal mecanismo químico: o transporte da DMT para o cérebro pela harmina e harmalina. Não sou especialista nessa área, mas através das palestras do pesquisador Jace Callaway entendo que esse mecanismo não é o único que determina o efeito do chá; o efeito é produto de uma complexa rede de relações que a ciência só agora está começando a vislumbrar. Segundo relatos que ouvi, o efeito das pharmahuascas — que nunca experimentei – parece ser radicalmente diferente da ‘burracheira’. No mundo atual, quase toda farmacopéia (natural é sintética) pode ser comprada pela internet or nos smart shops, não só em Amesterdã. Basta consultar o ‘google’ e você pode receber as plantas em casa. O que eu acho disso? Para mim, a ayahuasca está sempre conectada a um ritual e com pessoas de confiança. Sou a favor da acessibilidade para todos, mas também sou do tipo o ‘último romântico’ que não confia muito no espírito comercial no campo do espiritualidade.


Alto das Estrelas - Você afirma que a ayahuasca pode ser um poderoso agente de autoconhecimento e trazer mudanças significativas na vida das pessoas. Como você junta o reconhecimento destes benefícios com o dado de realidade das constantes ivalidades e disputas existentes no campo ayahuasqueiro?


Govert – O impulso principal para gerar uma eventual mudança é a descoberta da paisagem psicodélica: a mágica e o impacto da primeira vez, do primeiro momento no qual a pessoa vê que existe este território “maravilhoso”, que é em grande parte uma terra incógnita (para a pessoa, para a ciência, para a sociedade). Depois tudo depende de como você vai se orientar nessa paisagem, o que você vai fazer com os ‘insights’, como você vai transportar as descobertas do mundo interior para o seu comportamento no mundo exterior. O mundo da ayahuasca é tão rico, diverso e talvez contraditório como o panorama do ser humano. Aliás, muitas pessoas esperam (principalmente sob influência do impacto do primeiro contato) que a ayahuasca seja um agente com poder de melhorar o mundo. Muitos novatos sentem essa grande esperança, esse sentido de uma missão tremenda, mas muitos ayahuasqueiros descobrem ao longo da sua jornada que melhorar o mundo é uma coisa bem mais suti, que tem muito mais a ver com a tentativa de ser um ser humano sincero e integral no dia-a-dia. Para mim, o chá não é um ‘panacéia’ para transformação, mas si um aliado que mostra a você o que você poderia transformar. Então de onde surgem as rivalidades e as diferenças de interpretação? É um assunto difícil e delicado. Porque tem tantas derivações dentro do cristianismo? Talvez porque quando o homem tenta trazer o divino para o plano humano, o resultado muitas vezes é… humano.


Alto das Estrelas - Segundo seu livro, o ‘nothingness’ (o vazio, o ‘nada’) seria o centro dos mistérios religiosos, o ponto em que a realidade desaparece e surge a sabedoria. O que você quer dizer com isto?


Govert – Como acontece na meditação, na burracheira você pode descobrir e ver que a sua mente é principalmente um campo de manifestações mentais de diversas origens (pessoal, coletivo, animal, até vegetal e mineral). Existe a possibilidade de que o ‘ego’ temporariamente morra. Penso que este vazio, que é a fonte de todas as manifestações mentais e também de toda a criatividade, é no final das contas o eixo (abertamente ou escondido) de todas as religiões e de toda atividade que re-conecta o ego do dia-dia com esse centro. O ego é como um planeta que circula um sol e recebe sua vida da estrela central. Com a ayahuasca, e outras ‘tecnologias’ xamânicas ou religiosas você ganha um insight nesta constelação e pode ter a luz e a força de ‘calibrar’ a relação entre o ego e o ‘self’. O que é o ‘self’? É como o sol que eu não posso enxergar diretamente, mas que é necessário existir para que eu possa enxergar.


Alto das Estrelas - Como vê a expansão da UDV para o exterior, considerando que o grupo considera o português como uma espécie de idioma sagrado?


Govert - O português é crucial para aprofundar o entendimento da UDV, como o alemão é crucial para entender Kant ou Heidegger ou o holandês para penetrar na poesia de Slauerhoff. Acho fascinante a ‘etimologia’ como praticada na UDV e vejo as chamadas como verdadeiras catedrais sinestésicas. Ao mesmo tempo penso que o significado da palavra “palavra” como é visto na UDV (qual seja: “pai”-“lavra”: a palavra como instrumento e manifestação do “pai divino”) também vale para outros idiomas. Na luz de ayahuasca, e na espiritualidade em geral, cada idioma pode e deve ser vivido como algo divino.


Alto das Estrelas - Porque a sua obra permanece desconhecida no Brasil?


Govert - Porque não tem uma tradução em Português - ainda não. A única coisa que publiquei em portugues é uma reportagem na Revista Planeta, algums anos atrás (clique aqui para ler). Parece que publicar no Brasil não é fácil; ouvi até dizer que é uma espécie de “ato heróico”… Mas, quem sabe, um dia conseguirei uma editora brasileira interessada em publicar meu livro no ‘idioma dos anjos’? Para facilitar, eventualmente poderia investir na tradução.


Alto das Estrelas - Espero que consiga. Seria muito bom.


Para entrar em contato com o autor: govert@derixhamerslag.nl

Livro em alemão e holandês sobre a ayahuasca



Divulgo aqui a obra de Govert Derix, que permance desconhecida no Brasil, “Ayahuasca. Uma critica da razão psicodélica. Aventura filosófica na região amazônica”. O livro aborda, entre outros, o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (UDV).

Versão em alemão: Derix, Govert. Ayahuasca. Eine Kritik der psychedelischen Vernunft. Philosophisches Abenteuer am Amazonas. Solothurn, Nachtschatten Verlag, 2004.
Versão em holandês: Derix, Govert. Ayahuasca. Een kritiek van de psychedelische rede. Avontuur in het Amazonegebied. Amsterdam/Antwerpia, De Arbeiderspers, 2004.
Resumo:

Desde tempos imemorais os índios da Amazônia bebem o chá ayahuasca. Na nossa era o chá esta ficando mais e mais conhecido também fora da América Latina, não somente como a substância psicodélica ‘par excellence’, mas também como medicamento para tratar vícios e como ‘aliado’ no processo da procura de si. O filosófo Govert Derix bebeu a ayahuasca pela primeira vez em 1990, numa sessão da União do Vegetal, no Núcleo Tucunacá, em Icaraí, Fortaleza. As suas experiências com ayahuasca formam a inspiração da elaboração de uma crítica da filosofia racionalista.

Ayahuasca, uma crítica da razão psicodélica é o relato do seu processo de aprendizagem onde as grandes questões filosóficas sobre a posição do ser humano no universo (”O que posso saber?” “O que deve fazer?”, “O que posso esperar?”) - mais que 200 anos após a Crítica da razão pura de Immanuel Kant - ganham uma nova perspectiva à luz do ‘chá misterioso’. Tentando entender o universo de ayahuasca, o autor recorre também a outras pessoas (dentro e fora do Brasil) para quem a experiência com ayahuasca levou a uma signifiticativa mudança de vida.
Ayahuasca, uma crítica da razão psicodélica, é uma mistura de filosofia, jornalismo, autobiografia e crítica cultural.

Sobre o autor:
Govert Derix nasceu em 1962 nos Países Baixos. Em 1987 obteve o título de Mestre em Filosofia na Universidade Real de Utrecht. É filósofo, escritor, consultor de communicação e diretor de uma empresa de publicidade, a Derix*Hamerslag. Publicou diversos livros sobre as implicações filosóficas da economia de rede, e é especialista em ‘novos tipos de organização de empresas’, em parte inspirado pelas idéias do brasileiro Ricardo Semler. Também trabalha para o projeto ‘Hospital do Futuro’, na cidade Sittard, na Holanda, para qual escreveu três livros, construindo uma base filosófica para este projeto exemplar. Em 1980 visitou pela primeira vez o Brasil e desde 1989 é casado com a artista plástica brasileira Jacqueline Machado de Souza [veja sua exposição atual na Antwerpia, Holanda, aqui], com quem tem dois filhos. Em 1990 conheceu a ayahuasca através do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (UDV), em Fortaleza (CE). Desde então, começou a estudar a ayahuasca e principalmente as implicações filosóficas do estado da ‘burracheira’ [termo usado dentro da UDV para denominar o efeito da ‘hoasca’], sobre a qual escreveu artigos e deu palestras. Em 2004 foi lançado simultaneamente na Holanda e na Alemanha o seu livro Ayahuasca - uma crítica da razão psicodélica, para o qual entrevistou ayahuasqueiros no Brasil e na Holanda. A tese da obra é que a experiência com a ayahuasca pode dar uma nova base para entender e viver as grandes questões da filosofia como a identidade da pessoa, a base da moral (existência de um código universal), o fenômeno do tempo, a relação com o outro, a relação entre ciência, espiritualidade e filosofia, e o impacto de um ‘aliado’ (Mestre de Si) no processo da vida.
Para entrar em contato com o autor: govert@derixhamerslag.nl