Psicodélico: Portas da Percepção: Enteógeno?! Que Diabo é Isso?!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Portas da Percepção: Enteógeno?! Que Diabo é Isso?!

Fonte : http://hempadao.blogspot.com/

por Fernando Beserra

“Se as portas da percepção fossem abertas,
tudo pareceria ao homem como realmente é:
infinito”,
William Blake.


Boa noite hempadeiros e hempadeiras e, por que não, enteogênicos e enteogênicas. O “Portas da Percepção” é um novo espaço no Hempadão dedicado aos Enteógenos e a Cultura Enteogênica. Já prevendo eventuais perguntas, é mister dizer “que diabos são enteógenos?”. Ao contrário do diabo, o significado da palavra enteógeno é “volver-se divino interiormente”, e surgiu em 1979 de um grupo de pesquisadores que se contrapunham a palavra “alucinógeno” para classificar um conjunto de substâncias psicoativas.

Esse confronto de palavras se deu porque alucinógeno é um termo típico da psicopatologia*, campo de pesquisa que procura descrever patologias ou doenças psíquicas e, no universo psiquiátrico da psicopatologia, a palavra “alucinógeno” deriva de “alucinação” que é uma experiência padrão em quadros psicóticos onde o sujeito vê (ou ouve, sente...) coisas que não são “determinadas” por um estímulo externo compartilhado.

É como ver alguma coisa sem que os outros possam vê-la. Portanto, na atual Guerra as Drogas, onde nossos políticos vêem, ouvem, sentem ameaças terríveis de drogas onde ninguém mais vê, já começamos mal. Considerando que a Guerra às Drogas não é uma Guerra às substâncias, mas às pessoas, os usuários de enteógenos também fazem parte do rol estigmatizado pela política proibicionista. E, nesta confusão, entram sem dúvida muitos entusiastas canábicos.

Se tivermos mais rigor conceitual, beirando o academicismo – e com cuidado para não cair nele – devemos dizer “substâncias com potencial de indução de experiências enteogênicas”. Ufa! As substâncias têm o potencial, mas quem vai determinar que um uso seja lúdico (nada contra o uso lúdico, por favor), ou vise uma ampliação da consciência, um mergulho no inconsciente, uma abertura das portas da percepção, será mais o mix não matemático dos seguintes fatores: substância “+” set (contexto pessoal do usuário no momento da viagem) “+” setting (ambiente).

Portanto, nesta sessão do blog, vamos explorar a temática dos enteógenos, estas substâncias que há milhares de anos são usadas para entrar em contato com os psicocosmos, com uma realidade não ordinária, que muitos chamaram de sagrada. Tão sagrada foi, que foi perseguida ferozmente pelos cristãos, da Europa (nos sabbats e suas influências celtas) aos introspectivos ritos peioteiros** da América Central e América do Norte. Alguns pesquisadores acreditam que o contato direto com a experiência do divino e do numinoso foi (e é) um importante fator na perseguição aos enteógenos, já que nas típicas religiões monoteístas o contato com o divino deve ser mediado pela instituição religiosa ou por seus representantes.

Outros pesquisadores, dentre os quais alguns que chamam os enteógenos de psiquedélicos ou psicodélicos, pensam que usuários e princípios ativos sintéticos foram, consecutivamente, perseguidos e proibidos na década de 70 como uma forma de perseguição política. Este ponto ainda iremos explorar melhor, daqui a umas duas semanas.

E ninguém melhor para nos lembrar desta história do que o, assim chamado, “Papa da contracultura”, o psicólogo Timothy Leary (a partir dos escritos dele, ainda não estamos apto a psicografia).

Sejam todos bem vindos, portanto, a mais uma coluna do blog. Trilharemos uma estrada de parcerias e bons ventos, certamente... Até semana que vem!

*Campo de pesquisa que procura descrever patologias ou doenças psíquicas. Na psiquiatria um exemplo clássico é o CID (Classificação Internacional das Doenças).

** Onde havia o uso do cacto Lophophora Williamsii, conhecido como Peiote, e que contém como princípio ativo principal a mescalina. Atualmente é usado em ritos reconhecidos por lei nos EUA pela Native American Church.

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