Psicodélico: Santo Daime - O cipó dos espíritos (Revista Bons Fluidos)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Santo Daime - O cipó dos espíritos (Revista Bons Fluidos)

Matéria publicada na Revista Bons Fluidos - 08/2008


Link : http://planetasustentavel.abril.ig.com.br/noticia/cultura/conteudo_294435.shtml



Cipó Jagube, ou Mariri, planta amazônica usado para fazer o chá de ayahuasca

O cipó dos espíritos:

Um xamã apresentou a ayahuasca a um maranhense, que levou a experiência para outro e mais outro, que a dividiu com o mundo. Assim, no boca-a-boca, essa possibilidade de falar com deus se estruturou como seita e agora pode até ganhar a chancela de patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Aqui, você conhece um pouco mais o poder desse chá sagrado, batizado de santo-daime.

Por Michaela von Schmaedel

"O cipó do jagube é uma planta do elemento fogo, seca e de natureza masculina, que necessita da umidade para se multiplicar, apenas os homens trabalham com ele. A folha rainha é do elemento água, de natureza fria e úmida, possui efeito luminoso e sedante, é colhida apenas pelas mulheres. O cipó, com sua origem severa, dá a força e corrige como um pai e a folha dá a luz e conforta como a mãe.
É um casamento perfeito, do homem com a mulher, gerando um novo ser, um filho iluminado, simbolizado na bebida sagrada da ayahuasca. A magia vegetal junta o que se encontrava separado pela natureza.” É desse jeito poético que a historiadora Vera Fróes, presidente do Instituto de Estudos da Cultura Ama zônica e pesquisadora do uso de plantas em rituais das comunidades indígenas na Amazônia, descreve a ayahuasca, ou santo-daime, como é conhecido o chá. A bebida, que tem uso religioso, vem ganhando espaço na mídia ultimamente. Isso porque o santo-daime pode se tornar Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. O pedido é uma iniciativa da deputada federal Perpétua Almeida (PCdoB-AC) e dos representantes das principais doutrinas que utilizam a ayahuasca, o “cipó dos espíritos”.

A idéia é pedir ao Instituto do Patrimônio Cultural e Artístico Nacional que reconheça o uso ritual do chá, resultado da fervura do cipó jagube com as folhas da chacrona, como uma manifestação cultural do país. O projeto foi bem recebido pelo ministro da cultura, Gilberto Gil, e aguarda a avaliação de uma comissão. Outra novidade em torno do santo-daime é que ele está atraindo cada vez mais adeptos dentro e for a do Brasil. Por aqui, o número de seguidores das principais doutrinas é estimado em 20 mil.

E em países como Espanha, Holanda, Estados Unidos e Japão, essa quantidade cresce a cada ano. “Há duas décadas, os estrangeiros só podiam conhecer o santo-daime vindo para cá. Hoje existem vários centros que o usam lá fora”, diz a antropóloga Beatriz Caiuby Labate, organizadora de O Uso Ritual da Ayahuasca (ed. Mercado de Letras/Fapesp) e de mais outros três livros sobre o assunto. Só para lembrar: o cantor Sting começa sua autobiografia relatando um momento, em 1987, quando participa, juntamente com a mulher, de um ritual no Rio de Janeiro.

Afinal, por que o santo-daime atrai tanta gente? Como consegue fazer sentido tanto para quem vive no Amazonas, na comunidade espiritual Céu de Mapiá, o mais conhecido reduto dos seguidores do chá, como para quem está em Barcelona? “É difícil definir, mas, em geral, são indivíduos que não se identificam com as religiões tradicionais, buscando um tipo de vivência com me nos intermediação entre o ‘eu’ e o ‘mundo espiritual’. Para uma parte das pessoas, tomar ayahuasca é abrir uma porta na mente e algo muda em sua percepção so bre a vida”, com pleta Beatriz, que estuda esses rituais e afirma tomar o chá há 11 anos.
SONHO ACORDADO
Para a historiadora Vera Fróes, o crescente interesse pelo chá tem relação com a busca de um caminho espiritual. “Se as pessoas buscam curtição, percebem que estão no lugar errado. Esse é um estudo sério para quem quer se conhecer. O santo-daime faz parte de um ‘religare’ do homem com a natureza ou a cura de uma doença”, diz.

A procura por um contato mais profundo consigo foi o que levou o poeta Edson Lodi ao chá. Lodi vive em Brasília, toma ayahuasca há 35 anos e é coordenador de Relações Institucionais do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (UDV), um dos lugares que fazem uso da bebida. Ele conta que estava sem rumo quando foi levado por um amigo a um ritual em Porto Velho. “Senti que precisava mudar de vida e deixar meus hábitos ruins. Até hoje, a cada vez que eu bebo o Vegetal, sinto uma renovação. Ele tem a capacidade de aumentar a percepção. É como se você vivesse um sonho acordado”, afirma. Vale saber: é comum o relato de pessoas que passam mal ao tomar o chá, mas isso é encarado como uma expurgação necessária antes de se clarear a consciência.
DAI-ME LUZ
A doutrina do santo-daime foi criada pelo maranhense Raimundo Irineu Serra, neto de escravos, que se mudou para o Acre nos anos 1930 para trabalhar na exploração de borracha. Lá, ele conheceu a bebida por meio de um xamã peruano – acredita-se que o chá tenha origem inca e é consumido há séculos em rituais xamânicos de tribos da Amazônia e em países vizinhos.

Conta a história que, depois de tomá-lo, Irineu teve uma visão de Nossa Senhora da Conceição, que ele chamou de Rainha da Floresta. Ela lhe pediu que criasse uma religião em torno do chá sagrado. Assim, em Rio Branco, mestre Irineu fundou a doutrina, de cunho cristão e com elementos do espiritualismo, das religiões afro-brasileiras e do xamanismo. O nome santo-daime veio das preces repetidas antes de tomar o chá: “Dai-me luz, dai-me força, dai-me amor”. Nos anos 1970, a igreja do mestre Irineu gerou várias ramificações.
Com rituais e regras diferentes, os grupos têm em comum o chá e o fato de usarem a música nas cerimônias. No santo-daime, acontece o bailado, ao som de hinos e maracás, instrumentos indígenas antigos. Há também outro consenso entre os diferentes grupos: a prática do ritual. “A ayahuasca é consciência natural, um canal que amplia a percepção do ser. Por causa de sua força, ela não deve ser usada sozinha, sem uma filosofia ou religião que dê uma base de apoio, indique o caminho a seguir”, finaliza Ramy Arany, co-fundadora do Instituto KVT, de São Paulo, que estuda rituais xamânicos.
O QUE DIZ A CIÊNCIA
Em função da preocupação das autoridades brasileiras com relatos sobre o uso indiscriminado do chá de ayahuasca, em 2001 a Associação Brasileira de Psiquiatria recebeu uma solicitação governamental para que elaborasse uma revisão científica sobre o tema. Ana Cecilia Roselli Marques, médica psiquiatra e pesquisadora da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Unifesp e coordenadora do Departamento de Dependência da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), explica uma das conclusões desse trabalho: “Os estudos mostram que o chá atua no sistema límbico e faz com que o cérebro libere substâncias que produzem diferentes efeitos: desde o rebaixamento da crítica do usuário diante das mais diversas situações até a produção de alucinações visuais”.