Psicodélico

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Prefácio de Albert Hofmann para o Livro MOKSHA do Aldous Huxley

Em meados da década de 50, quando surgiram As portas da percepção e Céu e inferno, de Aldous Huxley, neles encontrei descrições de experiências e a articulação de idéias que, desde a descoberta do LSD doze anos antes, vinham ocupando constante-mente o meu pensamento.

Nessa época, pesquisas científicas a respeito do LSD já tinham sido efetuadas nos campos da medicina, biologia, farmacologia e psiquiatria, e mais ou menos mil estudos já tinham sido publicados. Mas me parecia que uma potencialidade fundamental desse agente químico ainda não tinha sido suficientemente estudada ou reconhecida: sua capacidade de produzir experiências visionárias. Fiquei portanto muito contente ao saber que uma pessoa de tão alto nível literário e espiritual como Aldous Huxley, usando mescalina, que produz efeitos qualitativamente semelhantes aos do LSD, voltara-se para um estudo profundo desse fenômeno. Desde o início do século haviam-se feito pesquisas sobre a mescalina, mas depois o interesse por essa droga decaiu bastante.

Mais ou menos na mesma época em que Huxley levou a cabo suas experiências com mescalina, fiz algumas sessões de LSD com o famoso autor alemão Ernst Jiinger, com o objetivo de obter um conhecimento mais profundo sobre as experiências visionárias produzidas na mente humana por essa droga. Ernst Jiinger registrou suas experiências num ensaio intitulado Besuch auf Godenholm (Em busca de Godenhohn) (Vittorio Kloster-mann, Frankfurt a.M., 1952), que nos dá, em forma literária, a essência de suas interpretações. Por outro lado, Aldous Huxley, nos livros acima mencionados, não apenas fornece uma excelente descrição de seu, encontro com.a mescalina, mas também uma avaliação desse, tipo de droga a partir de um ponto de vista de elevado nível espiritual e mental, levando em conta aspectos sociológicos, estéticos e filosóficos.

Aldous Huxley realmente defendeu o uso de certas drogas, o que levou certas pessoas que estudaram suas obras superficial-mente, ou de todo não o fizeram, a acusá-lo de ser, até certo ponto, responsável pela crescente onda de abuso de drogas, ou até mesmo de ser ele próprio um viciado. Essa acusação não tem, é claro, uma base justificável, pois Huxley só lidou com substâncias para as quais Humphry Osmond criou o termo “psicodélicos”. Trata-se de agentes psicotrópicos que até então eram denominados, em literatura científica,' “alucinógenos” ou “psicotomiméticos”. Não são substâncias narcóticas que causam dependência, como a heroína, ou como a cocaína, com suas danosas conseqüências para o corpo e a mente, contra as quais Huxley nós preveniu enfaticamente.

Substâncias psicotrópicas de origem vegetal já vinham sendo usadas há milhares de anos no México como drogas sacramentais em cerimônias religiosas e como poções mágicas com efeitos curativos. Os mais importantes desses psicodélicos são: a mescalina, encontrada no cacto do peiote; a psilocibina, que isolei dos cogumelos sagrados mexicanos chamados teonanacatl; e, naturalmente, o LSD. Apesar de ser o LSD (Lysergsãurèkiithylamid, ácido lisérgicietilamido) uma substância semi-sintética que preparei em laboratório a partir do ácido lisérgico contido na cravagem um fungo que cresce no centeio, ele pertence, do ponto de vista de sua constituição química e seu modo psicotrópico de ação, ao grupo de drogas sacramentais mexicanas. Essa classificação ainda mais se justifica porque encontramos em outra droga sacramental mexicana, o ololiuqui, as substâncias ativas ácido lisérgico-amido e ácido lisérgico-hidroxietilamido, que são, como exprimem os termos químicos, bem próximas do ácido lisérgico-dietilamido.

Ololiuqui é a denominação asteca para as sementes de certas espécies de ipoméia. O LSD de ser cosiderado uma droga ololiuqui elevada a uma potência mais alta, porque enquanto a dose ativa do ácido lisérgico-amido que constitui o ololiuqui.‘ chega a 2 mg (0,002 g), um efeito semelhante pode ser produzido com apenas 0,05 a 0,1 mg de LSD.
No peiote, no teorranacutl e no ololiuqui existem efeitos psíquicos que alteram profundamente a consciência, e que fizeram com que os índios dos países da América Latina respeitassem e temessem essas drogas, e as colocassem sob tabu. Apenas uma pessoa ritualmente limpa, preparada por meio de jejum e orações, tinha a qualificação e o direito de ingerir essas drogas, e mesmo assim apenas num corpo tão purificado quanto a sua natureza divina pudesse desenvolver, ao passo que os impuros sentiam-se enlouquecer, ou mortalmente atingidos.

Aldous Huxley dispôs-se a demonstrar como o poder interior dessas drogas sacramentais poderia ser usado para o bem-estar de pessoas que vivem numa sociedade tecnológica hostil a revelações místicas. Os ensaios e conferências reunidos neste volume vão permitir uma melhor compreensão dessas idéias. Na opinião de Huxley, o uso de psicodélicos devia ser parte de uma técnica de “misticismo aplicado” que ele descreveu para mim numa carta de 29 de fevereiro de 1962 como “Uma técnica para ajudar as pessoas a aproveitar o máximo de sua experiência transcendental e a usar suas percepções do ‘outro mundo’ ao lidar com ‘este mundo’. Meister Eckhart escreveu que ‘o que é recebido em contemplação tem que ser distribuído em amor’. Essencialmente é isto que deve ser desenvolvido – a arte de distribuir em amor e inteligência o que é recebido em visões e na experiência de autotranscendência e solidariedade com o universo.”

Em seu último e mais comovente livro, o romance utópico A ilha, Aldous Huxley descreve o tipo de estrutura cultural na qual os psicodélicos – chamados, em sua narrativa, medicina-moksha – poderiam ser aplicados de maneira benéfica. Moksha é, portanto, um título bem apropriado para este livro, pelo qual devemos agradecer aos seus organizadores.

Albert Hofmann Burg i.L. Suíça