Psicodélico

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Holanda lança licores de maconha

Holanda lança licores de maconha

Duas empresas de Amsterdã (Holanda) lançam dois licores - o Squeeze Hennep e o Kierewiet - feitos com extrato de maconha. As novidades foram reveladas durante a feira internacional de bebidas Horecava.

Os licores serão vendidos normalmente em supermercados e lojas especializadas.

O porte de até 5 gramas de maconha por pessoa, a venda em estabelecimentos autorizados e o consumo são permitidos no país desde a década de 70.

Uma pena é que a importação não está autorizada.


Entrevista com Patrick Druot - Isto É.

Matéria: Isto é - Luz no horizonte
O físico Patrick Druot, que já vendeu um milhão de livros sobre xamanismo, saber de culturas ancestrais, diz que vêm aí boas mudanças
Patrick Druot, 53 anos, pós-graduado na Universidade de Columbia, consegue enxergar a virada do milênio com um otimismo contagiante, apesar do quadro de guerras, desemprego e desigualdade social. Ele arrisca dizer que nos espera um tempo de mais tolerância, compreensão e amor. Esse otimismo é resultado de 20 anos de experiências com expansão da consciência e contatos com culturas antigas. Nesse período, conviveu com tribos indígenas e aborígenes na América do Norte e na Oceania, onde estudou o trabalho dos xamãs, líderes espirituais conectados com a natureza. Segundo Druot, em breve ocorrerá uma mudança porque as pessoas buscam cada vez mais respostas espirituais para dar sentido à existência. "Acho que o Brasil terá um papel importante neste despertar", ele anuncia. Até os 35 anos, ele mesmo acharia graça no que acredita hoje. De família católica, deixou de ir à missa aos 15 anos para tornar-se um cético convicto. Foi depois de se pós-graduar em Física que começou a ter contato com o fenômeno da expansão da consciência e especializou-se em Terapia de Vidas Passadas (TVP), que pesquisa e pratica no Instituto de Pesquisas Físicas e da Consciência, em Paris. "Essas experiências me reconectaram a Deus." Quanto a frequentar uma igreja, ele diz: "Sim. Uma floresta, uma praia, o mundo todo é uma catedral." Em sua sétima visita ao Brasil, para dar workshops sobre vidas passadas e lançar seu quinto livro, O físico, o xamã e o místico (Editora Nova Era), ele deu esta entrevista.
ISTOÉ – O que é um xamã?
Patrick Druot – É uma pessoa investida de dons de profecia, dons de cura, de percepção a distância. Os xamãs dizem que os primeiros professores nos tempos antigos eram as plantas e os animais. Eles foram os primeiros líderes religiosos, os artistas, os médicos. Sua herança enorme influenciou, milênios mais tarde, as primeiras religiões organizadas. Cristianismo, budismo, taoísmo, tudo isso tem origem xamânica.
ISTOÉ – O que levou um físico como o sr. se interessar pelo tema?
Druot – Há 20 anos, comecei a me interessar pelo que se costuma chamar de estados alterados de consciência. Conhecia-se a atividade da superfície do cérebro, mas nunca explicaram como ele funcionava e o que o fazia funcionar. Durante muitos anos, me interessei pelo fenômeno da vida antes do nascimento e tentei entender onde essa memória estava gravada. A ciência não respondia a essas indagações, então comecei a estudar diversas tradições orientais: as escolas de ioga, o budismo e, como morei dez anos nos Estados Unidos, trabalhei e vivi com índios americanos. Conheci suas cerimônias e seus rituais de cura e me interessei pela origem desses estados de consciência. E aí foi preciso voltar mais de 20 mil anos, ao tempo dos primeiros xamãs. Foram eles, no período paleolítico superior, os primeiros a passarem para o outro lado e a explicar como era estruturado o mundo xamânico.
ISTOÉ – O xamanismo faz parte da história de todos os povos?
Druot – Sim. O termo xamã foi adotado pelos antropólogos para definir todos os representantes religiosos e seres particulares de todas as raças. O termo tem origem siberiana. Saman, quer dizer aquele que sabe, aquele que é. Na tradição xamânica mundial, os xamãs são aqueles que vêem o mundo como um composto de três mundos. Um físico, povoado pelos espíritos da natureza, um mundo subterrâneo e um terceiro, sublimado. Em todos os grupos, seja na Sibéria ou na Nova Zelândia, as tradições sempre batem: são três mundos ligados por um eixo central. A imagem varia. Pode ser uma corda, uma escada, uma montanha. O dom do xamã é viajar pelo intermundo, ao longo dessa corda que atravessa os três mundos.
ISTOÉ – Em seu livro, o sr. afirma que a ciência moderna ainda não distingue psicose de despertar xamânico. Por quê?
Druot – Há um psiquiatra inglês que diz que o sábio e o psicótico estão no mesmo oceano. Mas enquanto o sábio nada, o psicótico se afoga. Eles têm percepções idênticas, mas o psicótico não sabe ordenar o saber. Até o fim dos anos 50, a ciência pensava que o xamã era um esquizofrênico. Foi preciso que o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss afirmasse que eles sabiam exatamente o que os xamãs faziam e que havia uma lógica em seus rituais. Não eram selvagens porque moravam na floresta, era o mundo deles.
ISTOÉ – O que é a física xamânica?
Druot – Eu queria saber como o xamã viajava pelos três mundos, onde estão esses mundos. Em física, sabemos que o universo é feito de vibrações. Supus que o xamã era capaz não apenas de se projetar num mundo de vibração, mas de mudar essa vibração. Na física quântica, diz-se que tudo está ligado ao chamado tecido subjacente do universo. No mundo do xamanismo dizem que estamos todos ligados. Os celtas e os druidas viam o mundo como uma teia de aranha tridimensional. Se puxarmos um pedacinho aqui, toda a teia vibra. Em física quântica diz-se que o universo está ligado por cordas supersensíveis. Para mim, havia uma ligação entre o xamanismo e a física quântica porque ambos trabalham com vibrações, oscilações, sons. E os xamãs sabem disso. Foram os primeiros físicos da história.
ISTOÉ – Por que as tradições xamânicas são apenas orais?
Druot – Nossa cultura ocidental privilegia o lado esquerdo do cérebro, lógico, racional, ligado ao tempo linear. E também é ligado à palavra escrita. Esse tipo de tradição xamânica funciona principalmente no lado direito do cérebro, ligado à tradição oral. No Taiti, encontramos os sacerdotes maoris que conservam a tradição do povo. Eles são capazes de contar a história de 20 gerações de sua família. Levam-se de 30 ou 40 anos para aprender a tradição oral, mas nada é deformado. É o mesmo motivo pelo qual a maioria dos povos tradicionais não acredita em reencarnação. Eles não têm a mesma concepção de tempo, que não é linear para eles. Esses povos vivem o agora.
ISTOÉ – E o que o sr. acha?
Druot – Buda tem uma boa resposta. Ele disse que não se pode dizer que existe, mas também não se pode dizer que não existe. Conheço um número enorme de pessoas que tiveram experiências de vida anterior. Não podemos provar cientificamente, mas há muitas evidências. E o potencial terapêutico da regressão é impressionante. Muita gente passa por diversos médicos sem conseguir se curar e, com duas ou três sessões de regressão, descobrem-se os motivos da doença e ela passa. Funciona em cerca de 80% dos casos.
ISTOÉ – Ainda há muitos xamãs hoje?
Druot – Com o expansionismo branco, a partir do século XVI, essas culturas tradicionais foram proibidas e seus territórios foram tomados. Nos Estados Unidos, o xamanismo desapareceu quase totalmente. Nos anos 60, no entanto, os índios americanos começaram a resgatar antigos ensinamentos. Só em 1978 o presidente Jimmy Carter assinou o American Indian Religious Freedom Act (lei da liberdade religiosa indígena). Atualmente, muitos americanos com problemas psicológicos vão se tratar com os índios. Esses xamãs são inacessíveis, não falam facilmente. Encontrei um xamã maori na Polinésia que disse: "Vocês tiraram nossa língua e nossa cultura e nossos filhos não falam mais taitiano. Não vamos ensinar nossas tradições." É um trabalho muito lento. Levamos muitos anos. Só se você começa a pensar com o lado direito do cérebro, consegue se comunicar com eles.
ISTOÉ – É possível desenvolver o lado direito do cérebro?
Druot – Sim. Mas leva algum tempo. Porque o mundo ocidental faz parte de uma cultura do lado esquerdo, enquanto os povos tradicionais têm uma cultura do lado direito. O ideal não é usar apenas um dos lados, mas conseguir sincronizar os dois. Viver no mundo material, mas com uma percepção diferente. Dessa maneira, o mundo torna-se um teatro mágico. Quando o lado esquerdo pára de bloquear, pode-se ir ao mundo dos sonhos. O escritor mexicano Carlos Castañeda já contava em seus livros como aprendeu com um xamã mexicano a ir ao mundo dos sonhos e disse que é tão real quanto este aqui.
ISTOÉ – Como foi a sua experiência com o Santo Daime?
Druot – Não era o Santo Daime que me interessava, mas a ayahuasca (planta que produz um chá alucinógeno utilizado pela seita amazônica). Mas eu não tinha contatos diretos. Não se pode ir à floresta buscar a planta sozinho. Em 1994, meu antigo editor brasileiro fez um contato com Alex Polari, um dos líderes da seita em Céu do Mapiá. Tenho respeito pelos rituais, pela igreja, mas não participei. Disse desde o início que me interessava pela planta que, no princípio, era uma planta xamânica. Em abril de 1995, eu e minha mulher, Liliane, passamos duas semanas na floresta e fizemos muitas experiências sob o efeito da ayahuasca. O cérebro funciona de forma totalmente diferente. Tudo se abre. Você pode ver espíritos, as auras. Fizemos até contato telepático. Por três ou quatro minutos, soubemos exatamente o que o outro pensava. Sentia e via a Terra respirar, num movimento claro. Tudo se organizava em fractais.
ISTOÉ – De que serviu a experiência?
Druot – A ayahuasca é usada para propósitos religiosos, alguns usam para curar, tirar pessoas da dependência de drogas, álcool. Mas em minha opinião, é muito mais do que isso. Acho que ainda não se sabe usá-la para conhecer o outro e a si. Com ela, se poderia descobrir muito sobre as causas de doenças físicas e emocionais. Essa experiência provou o que estudei por 15 anos: só utilizamos uma parte mínima do cérebro. Não tomamos mais a planta, mas ainda temos algumas vibrações e percepções que vêm dela. Não vemos mais uma floresta como antes. Nosso contato com a terra foi modificado. Há uma percepção mais aguçada. Traz sentimentos de tolerância, de respeito e de amor.
ISTOÉ – É possível passar por este tipo de experiência sem a ayahuasca?
Druot – Talvez. Eu já tinha percepções desde 1985, estimulando uma visão vibracional. Há um campo magnético ou vibracional que circunda todas as coisas vivas, até nós mesmos. E tudo o que acontece com você está escrito neste campo. É uma técnica. Tem de ser feito com sons, sobretudo com tambores, que são os batimentos cardíacos do criador. Quando se está em sincronia com uma batida de tambores, é possível fazer a viagem. Passei por essas experiências com os índios do Canadá, nas ilhas do Pacífico, nos EUA. O uso de plantas é específico da América do Sul e Central, onde se usa o peiote.
ISTOÉ – A experiência é similar?
Druot – A ayahuasca é mais imediata ao abrir as portas psíquicas, as portas da percepção. É como se o cérebro se abrisse. Tecnicamente falando: normalmente, vemos o mundo através de nossos olhos. Mas não vemos como o cérebro vê. O olho é um instrumento de análise de frequência, como o ouvido. Isso só foi descoberto nos anos 60. Isso significa que vemos e escutamos através dos olhos, mas não é como o cérebro vê e escuta. Com a ayahuasca, você vê e escuta como o cérebro. É uma percepção holográfica do mundo. Porque o cérebro é um holograma. Ele se abre para você. Mas acho que não se pode tomá-la de qualquer jeito, é preciso uma boa orientação, alguém que te ajude a passar pelos vários estágios da ayahuasca. E também é preciso estar junto à natureza. Não acho cabível tomá-la num lugar fechado, por exemplo. O que acontece é que a planta abre todos os canais, as pessoas vêem cores, caleidoscópios e ficam felizes. Mas é muito mais do que isso.
ISTOÉ – Como o sr. se preparou para a experiência?
Druot – Antes de tomar a ayahuasca, estudei o trabalho de um etnofarmacobiologista da Finlândia, desenvolvido durante seis anos. Eu sabia que não havia efeitos colaterais nem risco de dependência.
ISTOÉ – O sr. sentiu medo?
Druot – Sim, porque nunca tinha tomado nada parecido na vida, nenhuma outra substância alucinógena. Não sabia exatamente o que esperar. Quando comecei a sentir os efeitos, me senti mais confortável, entendi o que a planta me ensinava.
ISTOÉ – O sr. acha que há hoje uma maior abertura do mundo ocidental para estes ensinamentos?
Druot – Sim. Em 15 anos, vendi um milhão dos meus cinco livros, e recebi cerca de 60 mil cartas. Acho que estes números podem ser tomados como uma prova de um interesse crescente. As pessoas querem saber quem são, qual o seu lugar no mundo. Não somos robôs, somos seres humanos. Entre muitos povos índios, o próprio nome do povo significa seres humanos, como os cheyenes americanos. No Havaí, os locais chamam os brancos de haoles, que significa os que são mortos por dentro. Eles dizem que não estamos vivos, porque não estamos conectados com os espíritos e a natureza.
ISTOÉ – A que o sr. atribui esse interesse?
Druot – No século XVII, houve dois gênios que criaram os fundamentos da ciência moderna: René Descartes e Isaac Newton. Eles começaram a explicar muitos fenômenos que não se explicavam antes, mas o problema de suas visões foi ver o ser humano como uma máquina, um relógio. Desprezaram a consciência e o espírito. A ciência se pulverizou. Olha-se apenas o corpo, não o espírito. Acho que o terceiro milênio trará a reunião de tudo. Os xamãs dizem que as doenças entram quando a pessoa está separada dela mesma e do mundo. Os índios navajos americanos têm um sistema médico que reconecta a pessoa a ela mesma e ao universo. Agora, há na Universidade de Medicina de Phoenix, no Arizona, um departamento intercultural com xamãs navajos e médicos americanos, que tentam entender como eles curam pessoas desenganadas de câncer, por exemplo.

Cerimônias do chá


Cerimônias do chá
por Roberto de Oliveira

Freqüentadora da escola espiritual Caminho do Coração, em Nazaré Paulista, diante de altar que mescla imagens hinduístas ao lado de garrafões do Santo Daime

O altar é de Ganesh, deus hindu do sucesso e da superação de obstáculos. Mas não só dele. Ladeando a imagem, garrafões de plástico guardam um líquido marrom e espesso. Um cheiro de incenso se mistura ao de rosas e lírios. Descalço, um senhor de barba e cabelos grisalhos, roupa branca, serve a bebida. Cerca de 200 fiéis se aproximam em fila indiana. O som oriental das cítaras é substituído por chocalhos indígenas. Mantras em sânscrito são sucedidos por hinos em português, que exaltam Jesus, a Virgem e a floresta amazônica. A cerimônia é hindu; o transe, do Santo Daime.

A bebida é um dos ingredientes do ritual que acontece ao menos uma vez por mês na escola espiritual Caminho do Coração, em Nazaré Paulista (56 km de SP). Psicólogo de formação, Sri Prem Baba, 42, é o mestre da cerimônia. Dois mentores guiam seus passos: o guru Sri Sri Hans Raj Maharajji, que vive na Índia, e o seringueiro brasileiro, neto de escravos, Raimundo Irineu Serra (1892-1971), o mestre Irineu, fundador da doutrina do Santo Daime.

Na zona sul de São Paulo, no Centro Espírita Sete Pedreiras, a miscigenação de crenças se repete, com orixás da umbanda, santos católicos e retratos de daimistas posicionados em lugares estratégicos do terreiro. A fusão resulta na umbandaime, que promove a mistura entre a doutrina do daime com elementos da religião afro-brasileira.

Três vezes por mês, mulheres de um lado, homens do outro, fazem orações e entram na fila para tomar o daime. Ao som do atabaque, fiéis organizam uma roda de "gira". Começam a dançar e a cantar pontos de umbanda e hinários do Santo Daime.

O sincretismo que permeia as duas cenas pode ser encarado como um terceiro fenômeno de expansão do Santo Daime, diz Henrique Carneiro, professor no departamento de história da USP . Depois de ser "exportado" da floresta amazônica para os grandes centros urbanos brasileiros e, na seqüência, para o exterior, a bebida se transformou numa espécie de "cálice sagrado", entornado por outras religiões de cunho afro, cristão e oriental.

Prem Baba é um exemplo clássico do ecletismo religioso brasileiro. Passou pela umbanda, pelo candomblé e pelo budismo para, aos 19 anos, descobrir o daime. Em 1992, incorporou o chá em rituais religiosos orientais. "É uma coisa só. Pétalas de uma mesma flor", diz ele, que costuma repetir um preceito difundido entre os daimistas: "O daime é para todos. Mas nem todos são do daime".

Para fazer parte do grupo, não importam orientação espiritual, raça ou posição social, diz Prem Baba. Profissionais liberais, empresários, estudantes e donas-de-casa paulistanos se reúnem periodicamente para os rituais com chá no ashram (lugar de práticas) da escola espiritual Caminho do Coração. "Ele [o daime] é um instrumento de purificação do eu inferior e conexão com o superior. Permite relembrá-lo de sua natureza divina e abre as portas do ABC da espiritualidade."

Caboclos do chá
Para o antropólogo Edward MacRae, 61, da Universidade Federal da Bahia, assim como outras religiões, o Santo Daime também tem a propriedade de aglutinar elementos de outras crenças, como umbanda, traços indígenas, cristãos, afro e esotéricos, ocidentais ou orientais.

"A ayahuasca facilita a experiência mística. E é justamente essa experiência, sem a intermediação da figura de um sacerdote, que está colaborando para a sua expansão", diz ele, autor de "Guiado pela Lua - Xamanismo e Uso Ritual da Ayahuasca no Culto do Santo Daime" (ed. Brasiliense).

Cerca de 30 minutos depois da ingestão do chá, praticantes da umbandaime, vestidos de branco, começam a "abrir a banca", no momento das incorporações. É quando as entidades da umbanda começam a se manifestar, segundo a mãe-de-santo Maria Natalina, 57, a Madrinha.

A ayahuasca proporciona sensibilidade maior. É um instrumento de contato superior com os orixás", diz ela. No centro Sete Pedreiras, o culto dura oito horas -das 14h às 22h. Geralmente, aos domingos. Os freqüentadores chegam a participar de quatro "despachos de daime", servidos em copo plástico.

Coordenador do Conub (Conselho Nacional da Umbanda do Brasil) no Estado de São Paulo, Pai Medeiros, 39, não condena a mistura. Ele diz que a umbanda é inclusiva, abrange muitas vertentes e que a umbandaime é uma delas. "Qualquer forma de manifestação do sagrado é respeitada."

Freqüentadora da umbanda há seis anos, a produtora de eventos Bia de Souza, 24, passou a participar das sessões de umbandaime neste ano. "O chá propicia uma maior integração com a religião. Abriu meus canais de percepção e chakras", diz. Segundo ela, no começo, por conta de reações como vômitos e diarréia -as chamadas "peias"-, a experiência foi dolorosa. "Uma dor na alma que faz parte da limpeza", acha.

Outra etapa da conversão é pagar por ela. Afro, oriental ou cristão, onde o daime é servido cobra-se uma taxa de "contribuição" para custear a bebida, que pode variar de R$ 15 a R$ 100 (com alimentação e hospedagem).

"Os orixás do candomblé e da umbanda têm origem na natureza. O princípio do daime também vem dela", diz Madrinha, que realizou o primeiro ritual de umbandaime em seu centro há dois anos.

Preocupações ecológicas entre daimistas e fiéis de outras religiões que fazem uso da ayahuasca ganham, aqui, conotação religiosa. "É da floresta amazônica que vêm o cipó e as folhas, considerados sagrados, a ponte com Deus. Em tempos de aquecimento global, se o daimista não tem consciência ecológica, como vai atingir a sustentabilidade espiritual?", questiona Wladimyr Sena Araújo, 39, antropólogo e historiador, autor de ''Navegando sobre as Ondas do Daime - História, Cosmologia e Ritual da Barquinha'' (editora Unicamp).

Hare daimistas
Apesar de a ayahuasca ser classificada como substância psicoativa alucinógena, seu cultivo, preparo e uso religioso são garantidos pela Constituição Federal, que defende a liberdade de culto.

Monja tibetana, Ani Sherab, 42, budista desde os 18, acha que o daime é "algo sagrado do qual muitos fazem uso profano". "As pessoas devem ter um preparo antes, durante e depois de tomar o chá", diz ela, que é usuária da bebida.

Ani coordena a escola de budismo tibetano Dag Shangpa Kagyu, em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo. Diz que não buscou o daime. "Conheci por intermédio de um daimista que fazia um trabalho de prática de budismo comigo."

Ela conta que viu na doutrina algo autêntico e decidiu investigá-la. "O Santo Daime se utiliza de uma linguagem teísta, enquanto o budismo é o contrário. Mas não enfrentei resistência", diz a monja. Ani descreve a experiência como uma "visão do passado, do futuro e dos sonhos".

Questionada sobre qual a colaboração do daime em sua busca espiritual, a monja diz que, para ela, o chá "oferece mais clareza para expressar e reconhecer a verdade". "Com o daime, recebo muitas bênçãos e ensinamentos dos budas."

Mas Ani está em dúvida se continuará a usá-lo. Por isso, diz que irá consultar o rinpoche (título que significa precioso e, geralmente, é dado aos grandes mestres do budismo tibetano) Nanka Norbu, que deve vir ao Brasil neste mês. O mestre decidirá por ela.

Lama Tsering, 53, do budismo vajrayana, coordenadora do templo Odsal Ling, em São Paulo, diz que "não há regras fixas no budismo, mas é fortemente sugerido que se evite qualquer substância que altere a percepção".

Apesar de ser comum entre as religiões orientais a reverência aos mestres, nem todas funcionam assim. Líderes das comunidade hare krishna, por exemplo, desaprovam o daime, mas não negam que alguns membros consumam o chá.

Chandramukha Swami, 50, autoridade espiritual dos hares em São Paulo e no Rio, diz que a crença exige padrão elevado de conduta e comportamento. Mas, no meio do percurso, alguns podem ter dificuldade e buscam alternativas, como uma "bengala".

Nem todos os fiéis concordam. Pariksit Dasa, 45, vendedor; Pandita, 51, professor de português; e o motorista Rama Parsua, 40, já participaram de rituais de daime fora dos templos hare krishna e fazem uso esporádico da bebida.

"O daime leva a um outro estágio de consciência. É uma comunhão com a natureza", diz Pariksit. "Ele reforçou a minha fé e compreensão."

Para o professor Pandita, Krishna se revela de formas diferentes, dependendo de cada povo e de cada cultura. "O daime pode ser uma delas." Pariksit diz que faz uso esporádico do chá em casa. "Busco a ayahuasca para cura física e emocional."

Rama Putra, 42, ex-administrador da fazenda Nova Gokula, a maior comunidade hare krishna do Brasil, explica que a prática de mantras e ioga entre os hares não requer nenhum elemento externo para complementá-la. Mas, se algum hare krishna, fora dos templos, resolver tomar o daime, ele não será excomungado nem excluído, afirma Rama.

Na cultura da Índia antiga, continua ele, métodos de elevação espiritual, tais como os shivaistas, seguidores do tantra, faziam uso da maconha. "O problema é que muitos se aproximam desses processos para uso pervertido. Não para elevação espiritual, mas para o gozo egoísta dos sentidos."

Uma das características das crenças que proliferam pelos grandes centros é a valorização da experiência individual como forma de negar as instituições. "É uma mudança até na percepção de Deus, que cada um pode buscar dentro de si", diz o antropólogo Silas Guerriero, 49, do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da PUC-SP. "Se a verdade está dentro dele, o uso de elementos simbólicos e importados é apenas um meio." O sociólogo Antônio Flávio Pierucci, professor da USP que pesquisa religião, avalia que, hoje, há uma tendência à imitação entre as religiões. Na tentativa de competirem umas com as outras, elas acabam se anulando, copiando fórmulas e formatos e, com isso, perdem sua verdadeira identidade. "É como ocorre no comércio alimentício. Tem o McDonald's e o Bob's", diz. "Isso ocorre porque é muito fácil mudar de religião hoje em dia, sob o marketing intenso na TV e, principalmente, na web."

Segundo o professor, por curiosidade, muitos fiéis acabam procurando essas novas religiões sem motivo e desconhecendo as distinções entre uma e outra. "No fundo, todas alegam que Deus é um só. Mas, na verdade, o que existe é uma guerra entre deuses."

Santo Daime

a origem
O movimento religioso do Santo Daime começou no interior da floresta amazônica na década de 30, com o maranhense neto de escravos Raimundo Irineu Serra (1892-1971). Ele teria passado por uma epifania e recebido a revelação de uma doutrina depois de tomar o chá de ayahuasca, chamado pelos índios de "vinho das almas" ou "vinho dos mortos", na língua quéchua .

O seringueiro, que ficaria conhecido como mestre Irineu, recebeu a revelação de uma senhora que ele identificou como a Rainha da Floresta, entendida mais tarde como a Virgem da Conceição ou Nossa Senhora da Conceição .

Ninguém sabe ao certo quem foi o primeiro povo a preparar e a beber o daime de forma ritualística. Há registro de seu uso por cerca de 80 tribos amazônicas. Ele também é usado no Peru, na Bolívia, no Equador, na Colômbia, na Venezuela, bem como por povos do México pré-colombiano .

No início dos anos 40, mestre Irineu fundou no Acre o Centro de Iluminação Cristã Luz Universal Alto Santo, pioneiro da doutrina do Santo Daime
O nome Santo Daime surgiu das invocações feitas antes de tomar o chá: "dai-me luz, dai-me força, dai-me amor" .

o preparo do chá
De origem indígena, a ayahuasca é preparada de forma ritualística. O chamado "feitio" é obtido a partir da mistura de duas plantas.

As mulheres colhem e limpam, uma a uma, as folhas de chacrona (Psychotria viridis), também conhecida como rainha, apresentada como a "energia feminina" do chá, que traz a luz para o daimista .

Os homens cortam, limpam e maceram o cipó jagube (Banisteriopsis caapi), a "energia masculina", para depois misturá-lo às folhas de chacrona. Durante todo o processo, todos entoam hinos .

Depois de misturados, cipó e folhas são fervidos por cerca de 12 horas em grandes panelas, numa fornalha, antes de serem acondicionados em garrafas, muitas vezes, expostas diante de fotos do fundador da comunidade .

O preparo pode durar semanas ou mais de um mês. É ininterrupto porque há turnos de fiéis trabalhando.

O Brasil permite o consumo da ayahuasca apenas em cerimônias religiosas. Apesar de ter seu cultivo, preparo e uso garantidos pela Constituição Federal, o daime é considerado uma substância psicoativa (ou alucinógena)

a doutrina
O Santo Daime é uma doutrina apoiada no catolicismo popular, mas também tem entre suas matrizes a pajelança indígena e cabocla, a presença espírita kardecista e elementos afro-brasileiros .

Os hinos do mestre Irineu têm forte ênfase nos ensinamentos cristãos e numa nova leitura dos Evangelhos à luz do Santo Daime, para afirmar, nos tempos de hoje, os mesmos princípios de amor, caridade e fraternidade. Antes e depois do ritual são rezados o pai-nosso, a ave-maria e a salve-rainha, além de orações de origem esotérica e espírita, entre outras rezas .

as propriedades
Os adeptos da doutrina afirmam que o chá tem propriedades que promovem a expansão da consciência. Atualmente, emprega-se o neologismo "enteógeno" ("aquilo que gera a experiência interna do Divino") para classificá-lo .

A idéia é que a maioria das pessoas está ''entupida'' demais com as preocupações cotidianas e materiais para ter uma experiência direta com o espírito .

O daime abriria essa porta, mas, muitas vezes, é necessário fazer antes uma "limpeza". Por isso, acreditam, é possível que, em algumas ocasiões, mesmo os adeptos mais experientes, vomitem ou tenham fortes diarréias durante os rituais, que podem se estender por até 15 horas. Também são freqüentes crises de choro ou de riso .

Fontes: Edward MacRae, antropólogo, professor da UFBA (Universidade Federal da Bahia); Gê Marques, cientista da religião, do grupo de estudos religiosos da PUC-SP; e Wladimyr Sena Araújo, antropólogo e historiador, autor de "Navegando sobre as Ondas do Daime - Historia, Cosmologia e Ritual da Barquinha" (editora Unicamp)

Busca por Saberes da Selva tem Relação com a Crise Ecológica
por Henrique Carneiro
Muitos fenômenos religiosos atuais vêm se caracterizando por traços de purismo, fundamentalismo e intolerância. Nesse sentido, é reconfortante ver que no Brasil, como já ocorrera com o fermento do misticismo afro-brasileiro, repete-se nas últimas décadas, a partir de uma matriz de origem indígena amazônica -a dos cultos da ayahuasca-, um processo de mestiçagem cultural que vem dando origem a diversas formas híbridas de religiosidade, marcadas por grande permeabilidade e plasticidade, onde divindades diversas convivem sem maiores atritos.
O psicólogo William James, em 1902, já identificava na força da ebriedade o poder de estimular as faculdades místicas nos homens. Assim como o vinho de uva acompanhou a difusão da cristianização, um outro vinho, desta vez indígena, o ''cipó das almas'' (uma das traduções possíveis da palavra ayahuasca, de provável origem quéchua), vem sendo o veículo psicoativo sagrado de um xamanismo abrasileirado com traços caboclos que alcançou abrangência global. Não são apenas os cultos televangélicos das igrejas da prosperidade material que o nosso país tem exportado para todo o mundo, mas também as religiões ayahuasqueiras em suas múltiplas ramificações.
A mais conhecida é o Santo Daime, que, nascida no Acre na década de 1930, alcançou os centros urbanos desde os anos 80 e, uma década mais tarde, já possuía adeptos organizados em países que iam do Japão aos da Europa. A União do Vegetal (UDV) notabilizou-se ao obter um reconhecimento oficial da Suprema Corte dos Estados Unidos, em 2006, para a sua sucursal no Estado do Novo México.
A importação das religiões orientais, especialmente o budismo e o hinduísmo, já havia marcado a contracultura juvenil dos anos 60, trazendo uma ampliação da influência desses cultos que extravasou o campo de sua devoção estrita para incorporar elementos mais amplos na cultura de massas ocidental, tais como o vegetarianismo, a meditação, as técnicas de ioga, o uso de incensos e de substâncias psicodélicas.
Da mesma forma, também ocorreram processos de vulgarização e mercantilização desses cultos, que a escritora indiana Gita Mehta denominou ironicamente de ''carma-cola'', e uma próspera economia do êxtase, da meditação e da busca da salvação cresceu tanto na própria Índia como nos países ocidentais -o que deve servir como alerta para os espíritos mais céticos dos riscos de um reencantamento do mundo que também pode ser burocrático e mercantil.
Se o Brasil emerge hoje como nova meca de um impulso de devoção alternativa e de busca dos saberes arcaicos da selva, com o uso de plantas de poder descobertas pelo xamanismo amazônico, isso não é dissociável da expansão de uma nova consciência global diante da crise ecológica, da destruição da floresta e do esgotamento de um modelo agroindustrial insustentável.
O fato de essa cultura de origem xamânica estar hoje sincretizada com várias outras tradições religiosas e de ter como seu denominador comum o uso da ayahuasca pode ter uma rica influência na constituição de novas formas de religiosidade, com a esperança de que mantenham o apreço pela tolerância, algo que se enraíza na luta contra preconceitos, tabus e perseguições que essas religiões tiveram de travar, como também ocorreu em tempos não tão distantes com o candomblé e a umbanda, tanto diante do Estado como das grandes religiões, já consagradas.
Henrique Carneiro é professor no departamento de história da USP e autor de ''Pequena Enciclopédia da História das Drogas e Bebidas'' (Campus/Elsevier).

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

AYAHUASCA COMO OPÇÃO ESPIRITUAL

AYAHUASCA COMO OPÇÃO ESPIRITUAL
RÉGIS ALAIN BARBIER
As plantas sagradas, como um remédio, podem nos auxiliar a conscientizar um senso ampliado de identidade, provendo o estímulo necessário para a superação do hábito de restringir a nossa consciência de "eu" ao mundo das abstrações ou ao dos desejos egóico e pueris.

Com certeza, uma poção com a Ayahuasca, (assim como a seiva de outras plantas tradicionais e de uso ritualista), é capaz de proporcionar o auxílio que precisamos para redirecionar o nosso destino; orientar a humanidade em direção à realização do homo-sapiens verdadeiro: um ser ponderado, compreensivo, compassivo, tolerante, flexível e integrado.

O caminho dos vegetalistas, ou ayahuasqueiros, por ser mais intenso que muitas outras disciplinas, pode parecer de alguma maneira mais fácil por proporcionar um contato mais precoce e mais intenso com o numinoso. Tal contato pode inspirar compromisso e abrir as portas para mais força e criatividade, mais graça, para superar os conteúdos incômodos.

Certamente, com um investimento enorme de tempo e esforço, estas mesmas experiências podem ser obtidas pelos que dominam a ciência da meditação.

Para investigadores cuja prática espiritual deve ser integrada com a necessidade de trabalhar e prover ao seu sustento, o uso adequado dessa tecnologia milenar pode tornar o pro-cesso da realização exeqüível. Para os que, mergulhados nessa nossa "sociedade de competitividade e consumo", encontram o tempo para meditar essas experiências poderão vir a representar
um salto qualitativo nas suas práticas.

Porém, a Ayahuasca não é um caminho para todos; substâncias psicoativas não são pontes, ou atalhos, apenas vias mais rápidas. A escolha deve ser baseada no conhecimento amplo dos fatores envolvidos. Esclarecer-se requer a resolução de materiais e conflitos inconscientes; aqueles que aspiram a essa realização precisam avaliar a sua disposição e coragem, decidir o compasso e a intensidade com a qual desejam se encontrar com essa psicodinâmica, essa
"purgação" ou purificação na linguagem dos adeptos da Ayahuasca.

A Ayahuasca revela que o conhecimento que temos do mundo, da existência, é um estado ou processo psicossomático. A experiência mística realiza a descrição cientifica da relação ecológica de todos os seres, do campo quântico e unificado; essa experiência implica desapego e transformação, isto é a drenagem do conceito de "ego".

Se a nossa intenção é sincera, se temos coragem e generosidade o suficiente, então vale a pena estudar todas as técnicas úteis para a realização espiritual - a Ayahuasca, utilizada com motivação certa, habilidade e integridade, pode contribuir muito para o alívio do sofrimento, dando acesso à sabedoria e visão necessária para a união mística.

AYAHUASCA COMO INSTRUMENTO DE AUTO-OBSERVAÇÃO:

A percepção, habitualmente embotada, permite apenas aprender e acessar uma fração distorcida de realidade; uma realidade revestida de projeções pessoais e pressuposições. A propriedade central dos "enteógenos" ou "psicointegradores" é com certeza levantar o véu, amplificando a experiência.

A Ayahuasca amplifica a capacidade psicossomática de responder a gradações mais sutis de estímulos além de muitas vezes integrar as diversas faculdades sensoriais em processos sinestésicos. Esse efeito de aumentar a capacidade de experienciar, de avaliar e apreciar por si mesmo, é central para a compreensão do seu significado.

Esta amplificação, como uma lupa, permite uma (re)visitação intensiva e absorta dos conteúdos mentais - recordações, idéias, fantasias, pensamentos, emoções, medos, esperanças, sensações em gerais. Na dependência da ética e valores morais atuais do indivíduo, além de influir na intensidade e no foco das percepções, a experiência pode motivar a re-significação dos conteúdos
sendo observados. Valores morais e atitudes são revistas.

Aqui temos uma tecnologia que alterando a composição bioquímica do instrumento e dos meios de processamento da informação, permite a inativação temporária dos filtros culturais e psicodinâmicos que nos bastidores da mente agem determinando, formatando e hierarquizando, nossas experiências quotidianas.

Pode se de fato aprender muito, crescer e liberar energia psíquica revendo, transformando, eliminando, aceitando e se reconciliando com conteúdos incômodos.

COMO CAMINHO INICIÁTICO: SINCERIDADE E CORAGEM:

A função de uma substância com a Ayahuasca é muitas vezes mal entendida. Muitos pensam que pelo fato de terem tido experiências maravilhosas, já obtiveram as respostas e foram de alguma maneira transformados. Em alguns aspectos foram, mas muitos descobrem a realidade de que existem muitas camadas de condicionamento e ignorância a separar a mente superficial do
núcleo do ser.

A Ayahuasca e outras plantas instrutoras podem levar à transposição dessas barreiras permitindo o acesso à nossa essência, necessitando, contudo persistência e comprometimento no sentido de mudar e remover os velhos hábitos que tendem a reaparecer.

Muitos imaginam que a repetição da experiência irá manter um estado de lucidez e visão, de fato pode, mas freqüentemente, a mudança requer trabalho duro e esforço dedicado; algumas vezes a experiência transforma, outras vezes mostra o possível, aponta o caminho, a responsabilidade de implementar as mudanças nos pertence.

Para o investigador espiritual sério, assim como para os que buscam conhecimento verdadeiro, a característica mais importante é a honestidade.

Isto significa a coragem para olhar para o que se apresenta no processo, pela habilidade de admitir as suas falhas quando se tornam aparentes e pela determinação de mudar os seus comportamentos em função do que se revela.

O contéudo e natureza das experiências que essa substância induz não são, portanto, produtos artificiais resultantes da sua interação farmacológica com o cérebro, mas expressões autênticas da psique que revela seu funcionamento e potenciais em níveis inacessíveis no estado ordinário de consciência.

Para aquele cuja intenção real é instalar uma transformação psico-espiritual, a ayahuasca pode funcionar como catalisador natural a revelar e liberar intuições e conhecimentos oriundos das facetas mais elevadas do ser, permitindo o acesso a uma sabedoria fundamental relativa ao universo e à nossa posição como indivíduo.

O grande valor da Ayahuasca, trazidos à nossa atenção pelas sociedades indígenas, é que ela dissolve os limites da mente inconsciente; ela dá acessos aos conteúdos reprimidos e esquecidos. Ela possibilita o reconhecimento das configurações universais da psique, os arquétipos de humanidade, junto com um leque mais abrangente de conhecimentos e maneiras de conscientizar, até eventualmente a vivência dos diversos aspectos da união mística.

COMO CAMINHO INICIÁTICO: TOLERÂNCIA:

Uma substância como a Ayahuasca oferece opções terapêuticas já que tende a dissolver a fragmentação e a compartimentagem interna, a revelar mecanismos de defesas diversos como "projeção", "negação" ou "deslocamento", possibilitando o esclarecimento dos sectarismos e pontos de vistos intransigentes.

Na medida em que o indivíduo consegue ver as coisas de uma maneira não distorcida, vendo claramente não apenas o seu passado mais também a presunção e cegueira da sua própria cultura e grupos de referencias, ele necessita, além de tolerar a decepção e o sofrimento, superar sentimentos de desamparo.

Nem sempre é fácil ter de ver e aceitar que não somos assim tão vítimas, mas sim responsáveis pelas nossas vidas; aceitar ser capaz, reconhecer o seu potencial e a responsabilidade que isso requer implica coragem e determinação.

Podemos até recusar crer que fazemos jus a muita beleza e alegria, bem estar profundo, sem nada ter de pagar além de ser o que já se é; apenas sendo o que já somos. O gerenciamento emocional produtivo dessa reavaliação, a reorganização psíquica, implica um grau suficiente de equilíbrio e bom senso para que se tomam atitudes judiciosas sem precipitações.

TRIANGULAÇÃO – AYAHUASCA COMO UM FENÔMENO TRÍPLICE:
A PESSOA, O AMBIENTE E O CHÁ.

Sobre a influência da Ayahuasca, a intensidade dos estímulos – tanto por amplificação e enriquecimento de detalhes e pontos de vistas perceptuais quanto pelo maior influxos de dados perceptivos – aumenta consideravelmente as possibilidades de respostas à experiência.

Devido a essa magnificação da percepção, uma atenção especial tem se dado à qualidade dos estímulos provenientes tanto do indivíduo quanto do meio onde o chá esta sendo utilizado.

A hipótese denominada em inglês de "set and setting" foi inicialmente formulada por Timothy Leary nos anos 60 no âmbito das pesquisas iniciais com agentes psicoativos e foi rapidamente aceita pelos demais pesquisadores da área. A teoria geral determina que o conteúdo de uma experiência com substância psicoativa é uma resultante da interação de três fatores básicos.

Os fatores essenciais são: o "set", que traduzo como sendo o "fator pessoal", isto é aquele que o individuo traz consigo, os seus conteúdos (intenção, atitudes, personalidade, humor, etc.); o "setting" ou "fator ambiental" corresponde a todos os elementos externos ativos e capazes de influir a experiência (fatores interpessoais, social, ambiental, o âmbito). A substancia em si, o "Chá" age como um gatilho, ou catalisador, a conectar e por em interação os fatores citados numa dinâmica especifica, criativa e intensa.

É evidentemente impossível definir qual dos fatores é o mais importante tanto quanto é impossível dizer qual o lado mais essencial de um triângulo isóscele.

Contudo "o âmbito" é a vertente da experiência que pode ser programada, estudada, ensaiada e cuidadosamente preparada para um melhor proveito.

TRIANGULAÇÃO – O FATOR PESSOAL:

Como a Ayahuasca revela o nosso lado oculto, abrindo as portas do inconsciente numa linguagem psicológica, um enorme leque de opções e qualidade de experiência se apresenta. Na realidade essa poção psicoativa revela e liberta o que está dentro da pessoa, tornando a mente manifesta (ou seja, efeito "psicodélico" como "manifestação da mente"). A mente se torna sujeita a observação e, por isso mesmo, a transformação.

A fluidez e a qualidade do deslocamento do ayahuasqueiro nesse labirinto psíquico depende antes do tudo do fator pessoal, do "conteúdo" que inclui os elementos do inconsciente pessoal, o registro da experiência de vida, assim como os mecanismos condicionantes em operação - recatos e defesas - a determinar a liberdade de opções, a qualidade, riqueza e legitimidade das
interpretações, enfim, os principais desafios do indivíduo.

Outro aspecto importante do conteúdo consiste nos valores e critérios pessoais; atitudes, aspirações, expectação, intenção e ética. Estes elementos irão influenciar a atração da atenção e determinarão o modo da pessoa lidar com o material psíquico revelado.

TRIANGULAÇÃO – O FATOR AMBIENTAL:

O fator ambiental se refere aos fatores externos ao indivíduo e capazes de influenciar a experiência: o lugar onde o chá é servido; a atmosfera do ponto de vista cultural, espiritual e emocional; como o indivíduo está sendo atendido; a quantidade de pessoas envolvidas; o tipo de liderança aplicada na experiência são alguns dos fatores a considerar.

Normalmente o indivíduo se torna bastante impressionável quando sofre os efeitos de substâncias como a Ayahuasca, estado decorrente da magnificação perceptual já mencionada. Esse efeito acoplado como o aumento da perspicácia, capacidade metafórica e habilidade em gerar psico-associações criativas, alimenta o lado noético e o imaginário da experiência.

É obvio que essa "impressionabilidade" não significa que o ayahuasqueiro é mais facilmente suscetível de influência do que o homem comum ou do que os fiéis das religiões de massas, por exemplo. O grau de credulidade, ingenuidade, ou então de cepticismo (ver nota) de um indivíduo reflete opções cognitivas, filosóficas, assim como traços de personalidade profundos e estáveis, até mesmo inerentes, que não serão transbordados pela "força e influência" do chá.

Ao contrário, são justamente esses conteúdos profundos do indivíduo - inclusive tendências básicas como credulidade ou cepticismo – que determinam a maneira de significar a experiência.

O tipo e da qualidade do sistema de crenças, da visão, pertinente ao âmbito social no qual a experiência irá ocorrer assim como o tipo de liderança e dinâmica dos trabalhos são fatores essenciais, capazes de influenciar em grande parte a harmonia e tranqüilidade da experiência; possuir uma boa descrição do âmbito onde se irá comungar a poção é um fator importante. Uma
liderança não muito interventiva e tranqüila favorece o acesso e estudo dos conteúdos pessoais, o exame e integração da sua própria trajetória, o encontro de caminhos e conceitos próprios.

Um facilitador precisa ser paciente, empático, familiarizado com os processos da experiência; ele pode ser muito efetivo sabendo refletir os pontos essenciais, fazer perguntas, observações aparentemente casuais. Cantos, músicas, atitudes e até mesmo orientações diretas bem dosadas, podem ser importante para facilitar uma experiência suave e rica.

O ayahuasqueiro descobrirá que dividindo possíveis dificuldades com companheiros receptivos e compreensivos poderá gerar claridade e conforto.

Finalmente, e na maioria das vezes, o melhor guia é a nossa própria consciência e esse processo interno não deve ser interferido a não ser quando solicitado.

Rituais inspiradores, universais e holísticos, ambientes naturais, atividades espontâneas e criativas, permitem a focalização da atenção para regiões psíquicas interessantes.

Os próprios conteúdos, junto com a configuração de ambiente, a qualidade do chá, a própria intenção e a do grupo, configuram um processo singular, uma "gestalt", um "ser maior", o próprio eu transpessoal da experiência. Reconhecer e ter certeza de estar em sintonia e harmonia com esse "ser maior" gerado pelo evento é a chave de uma experiência de grupo bem sucedida.

(Nota) Cepticismo: atitude ou doutrina segundo a qual o homem não pode chegar a qualquer conhecimento indubitável, quer nos domínios das verdades de ordem geral, quer no de algum determinado domínio do conhecimento.

TRIANGULAÇÃO – O CHÁ:

Investigações demonstram a variabilidade do chá na sua composição química. Fatores dependentes, das plantas e lugar de origem, da hora da colheita, do preparo (quantidade relativa das duas plantas, grau do apuro e tipo de água utilizada - fatores com pH, teor mineral da água) todos influenciam a qualidade do chá e, portanto os seus efeitos. A quantidade utilizada durante uma cerimônia é também um fator decisivo.

Quantidades habituais ou moderadas permitem uma observação melhor dos seus próprios conteúdos, um estudo detalhado da sua própria psicodinâmica. Quantidades maiores são necessárias para se "viajar no astral" na linguagem dos usuários de algumas seitas. A utilização de grandes quantidades de chá, acima de 300 mililitros, numa única tomada é mais bem aproveitada em ambiente especifico, mais reservados com uma supervisão adequada e
favorece o tipo de vivência descritas na fenomenologia como "experiências místicas".

Com uma prática adequada e um considerável trabalho sobre si mesmo é possível se chegar aos mesmos resultados com dosagens menores.
INTEGRAÇÃO DA EXPERIÊNCIA – REAÇÕES:

Como as defesas do ego são desafiadas, sentimentos reprimidos e recordações afloram na consciência, podendo criar algum nível de ansiedade - uma reação semelhante ao enfrentado em situações inusitadas ou de desfecho incerto como praticar esportes radicais, participar de competições esportivas ou ainda se submeter a alguma prova. Uma experiência desse tipo é geralmente muito proveitosa por ensinar mais.

Reações adversas mais sérias ainda não foram descritas com o uso da Ayahuasca, em parte porque o chá tem sido utilizado com critério e responsabilidade, em doses adequadas, e que a Ayahuasca não tem sido promovido como sendo remédio e solução para curar as crises emocionais de pessoas seriamente transtornadas.

Triagens para eliminar os prováveis candidatos a reações adversas, como as personalidades esquizóides e pre-psicóticas, os neuróticos com instabilidade de identidade e níveis altos de ansiedades, os usuários de drogas e medicamentos psico-ativos possibilitam a realização de Cerimônias tranqüilas, seguras, criativas e de inestimável valor espirituais.

INTEGRAÇÃO DA EXPERIÊNCIA – EFEITOS PRÁTICOS:

Experiências como as proporcionadas pela Ayahuasca são por natureza transcendental, transpessoais, porque alargam a experiência e visão da realidade, diminuem o império do ego sobre a personalidade, facilitam uma mudança de valores.

Torna-se evidente que a utilização de uma substância como a Ayahuasca é mais útil dentro de um contexto e de uma disciplina tendo como objetivo o crescimento e a evo-lução espiritual, um programa chamando atenção para os valores éticos e morais fundamentais. Uma disciplina adequada fornece um corpo de ética capaz de apoiar as mudanças requeridas, clarificando os
objetivos, mantém a mente focada e aberta para o aprofundamento crescente da experiência.

É o indivíduo, a sua intenção que determinam se a experiência será mística e religiosa, evolutiva ou não. Bastante preparo é necessário para se chegar a uma experiência mística, mesmo usando Ayahuasca e um trabalho de integração efetivo é necessário para que a experiência seja de fato
transformadora. Se o estado de consciência ampliado induzido pela experiência conduz ou não a mudanças positivas e duradouras, depende da intenção e dedicação do usuário. Uma visão, mesmo rápida, de uma realidade maior pode mudar a vida de uma pessoa se ela resolve integrar essa visão à sua realidade.

Receber uma luz não é igual a aplicar essa luz no dia a dia; não há conexão inerente entre uma experiência mística de unidade e a expressão ou manifestação daquela unidade na vida cotidiana. Este ponto é talvez óbvio, contudo freqüentemente esquecido por aqueles que debatem se, em princípio, um agente psicoativo pode ou não ter valor no âmbito da busca espiritual.

Qualquer que seja a fonte ou a origem da iluminação, as revelações só poderão ter efeitos práticos com a permissão e dedicação do indivíduo.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Os Oito Circuitos da Consciência

Os Oito Circuitos da Consciência

(do livro de Robert Anton Wilson"Cosmic Trigger: Final Secret of the Illuminati"- ["Gatilho Cósmico: O segredo final dos Illuminati"]


Vamos tentar entender a perspectiva do Dr. (Timothy) Leary a respeito desses mistérios. Para compreender o espaço neurológico, o Dr. Leary supõe que o sistema nervoso consiste de oito circuitos potenciais, ou "engrenagens", ou mini-cérebros. Quatro desses cérebros estão no lóbulo esquerdo, geralmente ativo, e estão preocupados com nossa sobrevivência terrestre; quatro são extraterrestres, residem no lado direito, "mudo" ou inativo, e são para uso em nossa evolução futura. Isso explica porque o lóbulo direito é geralmente inativo nesse estágio de nosso desenvolvimento, e porque se torna ativo quando a pessoa ingere psicodélicos. (A visão do cérebro simplificada por hemisférios direito-esquerdo é hoje contestada, mas a idéia permanece válida enquanto metáfora, já que a localização dos "cérebros" não interessa na verdade. N. do T.)
Timothy Leary

Iremos explicar brevemente cada um desses oito "cérebros".



I. O CIRCUITO DA BIO-SOBREVIVÊNCIA


Este cérebro invertebrado foi o primeiro a evoluir (2 a 3 bilhões de anos atrás) e é o primeiro ativado quando a criança humana nasce. Ele programa as percepções em uma tabela dividida em Coisas úteis-alimentíceas (das quais se aproxima) e Coisas prejudiciais-perigosas (Das quais ele foge, ou as quais ataca). A impressão desse circuito condiciona a atitude básica de confiança ou suspeita a qual sempre afetará os gatilhos de aproximação ou esquiva.




Saul Paul-Sirag
II. O CIRCUITO EMOCIONAL

Esse segundo bio-computador, um pouco mais avançado, formou-se quando os vertebrado apareceram e começaram a competir por território (talvez 500.000.000 AC). No indivíduo essa realidade-túnel ampliada é ativada quando a fita mestre de DNA aciona a metamorfose de rastejar para caminhar. Como qualquer pai sabe, o neném já não é mais uma criança passiva (bio-sobrevivência) mas um mamífero político, cheio de exigências territoriais (e psíquicas), em pouco tempo se meterá nos negócios da família e na tomada de decisões. Novamente a primeira impressão desse circuito permanece constante pela vida inteira (exceto quando eliminado por lavagem cerebral) e identifica os estímulos aos quais engatilhará comportamentos dominantes/agressivos ou submissivos/cooperativos. Quando dizemos que uma pessoa está se comportando emocionalmente, egoisticamente ou 'como uma criança de dois anos', estamos querendo dizer que ele/a está seguindo cegamente uma das realidades-túnel impressas nesses circuito.



III. O CIRCUITO DA DESTREZA/SIMBOLISMO


Esse terceiro cérebro se formou quando os hominídeos começaram a se diferenciar dos outros primatas (cerca de 4 a 5 milhões de anos atrás) e é ativado pelas funções lineares do lóbulo esquerdo do cérebro, determina nossos padrões convencionais de manufatura de artefatos e pensamento conceitual. Esta é a terceira "mente" circuito.



Não é por acidente portanto que nossa lógica (e nosso desenvolvimento de computadores) siga a estrutura binária desses circuitos. Não é acidente que nossa geometria, até o século passado, tenha sido Euclidiana. A geometria de Euclides, a lógica de Aristóteles e a física de Newton são meta-programas sintetizando e generalizando as programações para frente/para trás do primeiro cérebro, para baixo/para cima do segundo cérebro e esquerda/direita do terceiro cérebro.



IV. O CIRCUITO SEXUAL/SOCIAL



O quarto cérebro, lidando com as transmissões de cultura étnica ou tribal através das gerações, introduz a quarta dimensão, tempo. Já que cada uma dessas realidade-túnel consiste de impressões bioquímicas ou matrizes no sistema nervoso, cada uma delas e especificamente acionada por neurotransmissores e outras drogas.



Para ativar o primeiro cérebro tome um opiáceo. Mamãe Ópio e Irmã Morfina trarão você lá para baixo, até a inteligência celular, até a passividade da bio-sobrevivência, até a consciência flutuante do recém nascido. (Esta é a razão pela qual os Freudianos identificam vicio aos opiáceos como um desejo de retorno a infância.)




Robert Anton Wilson

Para ativar a segunda realidade-túnel, tome uma quantidade abundante de álcool. Padrões territoriais dos vertebrados e política emocional mamífera aparecem imediatamente enquanto a bebida desce, como Thomas Nashe intuitivamente percebeu quando categorizou os vários estados alcóolicos com rótulos: "bêbado como um asno", "bêbado como um bode", "bêbado como um porco", "bêbado como um urso", etc



Para ativar o terceiro circuito, tente café ou chá, uma dieta rica em proteínas, anfetaminas ou cocaína.



O neurotransmissor específico para o quarto circuito ainda não foi sintetizado, mas é gerado pelas glândulas após a puberdade e flui vulcanicamente através dos condutos sangüíneos dos adolescentes.



NENHUMA DESSAS DROGAS TERRESTRES ALTERAM AS IMPRESSÕES BIOQUÍMICAS BÁSICAS.


Os comportamentos que elas acionam são aqueles que foram armazenados no sistema nervoso durante os primeiros estágios de vulnerabilidade à impressão. O circuito II bêbado exibe os jogos emocionais aprendidos dos pais na infância. O circuito III "mente" nunca vai além das permutações e combinações dessas realidades-túnel originalmente impressas, ou com abstrações associadas com essas impressões através de condicionamento posterior. E assim por diante.



Mas todo esse robotismo Pavloviano/Skinneriano muda drasticamente e dramaticamente quando nos viramos para o lóbulo direito, os circuitos futuros e os químicos extraterrestres. Os quatro futuros "cérebros" são:



V. O CIRCUITO NEUROSSOMÁTICO



Quando esses quinto "corpo-cérebro" é ativado, configurações planas Euclidianas explodem multi-dimensionalmente. Mudança gestalt, nos termos de McLuhan, do ESPAÇO VISUAL linear para um todo-penetrante ESPAÇO SENSÓRIO. Uma excitação hedonística ocorre, uma surpresa extasiante, um desprendimento dos mecanismos compulsivos dos primeiros quatro circuitos. Eu acionei esses circuitos com maconha e Tantra.



McLuhan

Esse quinto cérebro começou a aparecer cerca de 4.000 anos atrás nas primeiras civilizações que mantiveram uma "classe de lazer" e tem aumentado estatisticamente nos séculos mais recentes (mesmo antes da Revolução das Drogas), um fato demonstrado pelas artes hedonísticas da Índia, China, Roma e outras sociedades influentes. Mais recentemente, Ornstein e sua escola demonstraram com eletroencefalogramas que este circuito representa o primeiro salto do linear lóbulo esquerdo para o analógico lóbulo direito.



A abertura e impressão desses circuito tem sido a preocupação dos "técnicos do oculto" — xamãs tântricos e hatha yogis. Enquanto a quinta realidade-túnel pode ser atingida por privação sensorial, isolamento social, estresse psicológico ou choque brutal (táticas de terror cerimonial praticadas por gurus patifes tais como Don Juan Matus ou Aleister Crowley), tem sido mais tradicionalmente atingida pela aristocracia educada das sociedades de lazer que resolveram os quatro problemas de sobrevivência terrestres.



Cerca de 20.000 anos atrás, o quinto neurotransmissor específico foi descoberto por xamãs na área do Mar Cáspio na Ásia e rapidamente se espalhou por outros magos através da Eurásia e África. É, claro, a cannabis. Erva. Mamãe Maria Joana.



Não é acidental o fato de que o "cabeção-emaconhado" geralmente refere-se a seu estado neural como "alto", ou "fora do espaço". A transcendência das orientações planetárias gravitacionais, digitais, lineares, ou Aristotélicas, ou Euclidianas, ou Newtonianas (circuitos I-IV) é, numa perspectiva evolucionária, parte de nossa preparação neurológica para a inevitável migração de nosso planeta natal, hoje em seus primórdios. Esta é a razão pela qual tantos "cabeções-emaconhacos" são freaks de Jornada nas Estrelas e adeptos da ficção científica. (Berkeley, California, certamente a Capital da Cannabis dos EUA, tem um Posto de Troca da Federação na Avenida dos Telégrafos, onde o abonado pode facilmente gastar US$500 ou mais num único dia, comprando contos, revistas, bugigangas em geral.)



O significado extraterrestre de estar "alto" é confirmado pelo astronautas; 85% daqueles que já entraram na queda livre da gravidade zero descrevem "experiências místicas" de êxtase típicas do circuito neurossomático. "Nenhuma foto pode mostrar quão bela a Terra parecia," delira o Capitão Ed Mitchell, descrevendo sua Iluminação em queda livre. Ele soa como qualquer yogi ou "cabeção-emaconhado" bem sucedido. Nenhuma câmara pode mostrar essas experiências, já que elas ocorrem dentro do sistema nervoso.



QUEDA LIVRE, NO MOMENTO EVOLUCIONÁRIO CORRETO, ACIONA A MUTAÇÃO NEUROSSOMÁTICA, crê Leary. A princípio essa mutação foi alcançada "artificialmente" por treinamento yogico ou xamânico ou pelo estimulante do quinto circuito, a cannabis. Surfar, esquiar, mergulhar e a nova cultura sexual (massagem sensual, vibradores, arte Tântrica importada, etc.) evoluíram ao mesmo tempo como parte de uma conquista hedonista da gravidade. O estado "Ligado" é sempre descrito como "flutuante", ou na metáfora Zen, "um pé acima do chão."



VI. O CIRCUITO NEUROELÉTRICO



No sexto cérebro o sistema nervoso se torna consciente de si mesmo como separado de mapas de realidade gravitacionais (circuitos I-IV) e mesmo separado do êxtase-corporal (circuito V). O semantista Conde Korzybski, chama este estado de "consciência da abstração." O Dr. John Lilly chama ele "metaprogramação", i.e., consciência de programar a própria programação.




Dr. John Lilly

Essa conteligência (consciência-inteligência) Einsteiniana relativística reconhece, por exemplo, que os mapas da realidade Euclideanos, Aristotélicos e Neutonianos são somente três entre bilhões de possíveis programas ou modelos para a experiência. Eu liguei esse circuito com Peyote, LSD e os metaprogramas de "Magick" de Aleister Crowley.




Peyote

Esse nível de funcionamento cerebral parece ter sido primeiro relatado lá por 500 BC entre vários grupos "ocultos" ligados pela rota da Seda (Roma - Norte da Índia) Está tão além das realidades-túnel terrestres que aqueles que o alcançaram mal podem falar sobre ele para a humanidade comum (circuitos I-IV) e podem dificilmente ser entendidos mesmo pelos Engenheiros do Êxtase do quinto circuito.



As características do circuito neuroelétrico são alta velocidade, escolha múltipla, relatividade, e a fissão-fusão de todas as percepções em universos paralelos de possibilidades alternativas como os da Ficção Científica.



As políticas mamíferas que monitoram as lutas por poder entre a humanidade terrestre são aqui transcendidas, i.e., vistas como estáticas, artificiais, uma charada elaborada. A pessoa não é nem manipulada coercivamente até uma realidade territorial alheia nem é forçada a lutar contra ela com um joguinho emocional recíproco (o costumeiro dramalhão de novela). A pessoa simplesmente escolhe, conscientemente, se vai ou não, e até onde, compartilhar o modelo-de-realidade do outro.



Táticas para a abertura e impressão do sexto circuito são descritas e raramente experimentadas em rajah yoga avançada, e nos manuais herméticos (codificados) dos alquimistas e Illuminati medievais-Renascentistas.



Nenhum químico específico para o sexto circuito é disponível ainda, mas psicodélicos fortes como a mescalina (do cactus sagrado, o peyotl) e a psilocibina (do "cogumelo mágico" Mexicano, teonactl) abrem o sistema nervoso para uma serie misturada dos canais V e VI. Isso é apropriadamente chamado "viajar", como distinguido do "se ligar" ou "ficar alto" exclusivos do V circuito.



A supressão de pesquisa científica nessa área tem trazido o resultado desafortunado de trazer a cultura marginal das drogas de volta ao hedonismo do quinto circuito e as realidades-túnel pré-científicas (a revivescência do ocultismo, solipsismo, Orientalismo Pop, etc.). Sem a disciplina e metodologia científicas, poucos conseguem decodificar com sucesso sinais de metaprogramação que são muitas vezes assustadores (mas filosoficamente cruciais). Cientistas que continuam a estudar esse assunto não ousam publicar seus resultados (que são ilegais) e cada vez mais as largas realidades-túnel somente são percebidas em conversações privadas — como os eruditos da era da Inquisição. (Voltaire anunciou a Era da Razão dois séculos atrás. Nós ainda estamos na Era Negra. A maioria dos alquimistas underground desistiram de tal desafiante e arriscado trabalho individual e restringiram suas viagens aos túneis eróticos do quinto circuito.)

A função evolucionária do sexto circuito é permitir a nós uma comunicação na relatividade Eisteiniana e na velocidade neuro-elétrica, não usando os símbolos laringísticos do terceiro circuito mas diretamente via feedback, telepatia e ligação computadorizada. Sinais neuroelétricos irão continuamente substituir a "fala" (grunhidos hominídeos) depois da migração espacial.



Quando os humanos tiverem escalado para fora do meio de atmosfera-gravidade da vida planetária, a conteligência acelerada do sexto circuito tornará possíveis a comunicação de alta-energia com "Inteligências mais Altas", i.e., nós-mesmos-no-futuro e outras raças pós terrestres.

Daniel Pinchbeck: 2012 como uma transição para uma nova forma de consciência

Daniel Pinchbeck é considerado como o novo cabeça do movimento psicodélico.
Vale a pena ler esse trecho abaixo.
É uma pena que os livros deles não tenham sido lançado no Brasil.


O trecho a seguir foi traduzido de entrevista concedida pelo escritor Daniel Pinchbeck ao site Neofiles em 2005. Pinchbeck é autor dos livros "2012: The Return of Quetzalcoatl" (2006) e "Breaking Open the Head: A Psychedelic Journey into the Heart of Contemporary Shamanism" (2003), além de colaborador de revistas como Wired e Harper's Bazaar.

"Não devíamos nos fixar no ano 2012. Eu diria que já estamos num período de transição, uma transição para uma nova forma de consciência humana, e esse processo deve se completar em algum ponto próximo dessa data. É importante notar que o processo está tomando forma agora, e está aumentando sua intensidade. Mas o que é esse processo? Eu tenho encarado o assunto por uma série de perspectivas filosóficas e esotéricas. Por exemplo, [...] [o psicanalista Carl] Jung propunha que mente e matéria na verdade não são separáveis, e a relação entre as duas se manifesta através de sincronicidades, conexões telepáticas e de várias outras maneiras. Ele percebia que a humanidade está suprimindo a "realidade da psique", e que essa supressão não pode durar para sempre. Antes de morrer ele viu diversos sinais que interpretou como possíveis passos rumo a uma mudança na natureza da psique.

O filósofo do século 20 Jean Gebser escreveu uma obra-prima sobre a evolução da consciência humana, "The Ever-Present Origin" (1986), na qual ele divide tal evolução em várias estruturas e estágios. De acordo com sua tese, a humanidade está à beira da passagem do que ele chama de estrutura "mental-racional" para uma que ele denomina "integral-aperspectiva". A essência dessa transformação seria uma mudança no modo como compreendemos e vivenciamos o tempo. Nós também passaríamos a considerar estruturas antigas de consciência, como o misticismo e a magia, ao invés de rejeitá-las, como fazemos agora.

Gebser nota que ainda nos imaginamos contidos num tempo definido por metáforas espaciais - "o tempo está acabando", "não temos mais tempo", "estou gastando meu tempo" etc. Tratamos o tempo como uma quantidade - pode-se ter o suficiente ou não. Mas, como Gebser aponta, o tempo não é nada disso - o tempo é um elemento estruturador subjacente da realidade, e nada tem a ver com espaço. Essa má-interpretação da natureza do tempo seria a causa de nossa atual crise - algo que ele descreve como o mesmo que tentar pilotar um jumbo dentro de uma salinha.

Gebser não sabia sobre o calendário Maia, mas o que para mim é tão interessante sobre o calendário é que ele apresenta uma orientação diferente em relação ao tempo, uma que eu diria ser muito mais útil. Os dias são considerados "tons" que possuem uma relação harmônica entre si, girando em ciclos de 260 dias. A sincronicidade é parte integrante do calendário Maia, em oposição ao linear e arbitário calendário Gregoriano que nós usamos e que nos impõe um certo modelo de tempo linear. A visão de Arguelles [José Arguelles, líder espiritual new age e autor do livro "The Mayan Factor: Path Beyond Technology", sobre o calendário Maia] é que os calendários eram originalmente usados para nos sintonizar com os ciclos naturais, mas os calendários solares usados pela civilização ocidental têm sido artificialmente desincronizados, e não correspondem aos ciclos lunares. Isso acaba por nos afastar cada vez mais da ordem natural das coisas, rumo a padrões de comportamento cada vez mais artificiais, desincronizados e talvez até dementes.

Especificamente, a data de 21 de dezembro de 2012 no calendário Maia conclui um ciclo de 5.125 anos, o que, para eles, é um movimento completo na história humana - englobando desde as origens da civilização (com a construção do Stonehenge e das pirâmides) até o período diante de nós, que eles pareciam considerar como um ponto de transformação inevitável para a evolução humana.

Em termos astronômicos, naquela data o sol do solstício de inverno estará alinhado com [...] uma fenda escura no centro da Via Láctea. Hoje sabemos que existe um enorme buraco negro neste ponto - astrônomos de hoje descobriram-no vários anos atrás, mas o calendário Maia já chamava a fenda de "buraco negro" em sua época, de acordo com John Major Jenkins [autor de diversos livros sobre o assunto, entre eles "Maya Cosmogenesis 2012" (1998)]. Teríamos que aceitar a noção de que o movimento de enormes corpos celestes poderia estar exercendo algum tipo direto de efeito energético sobre a consciência humana na Terra - claro, esse tipo de idéia é a base da Astrologia, tal como da teoria egípcia para a Precessão dos Equinócios. Num nível intuitivo, uma coisa que eu enxergo sobre a transição é que a realidade parece estar reagindo sutilmente cada vez mais, ao mesmo tempo em que se torna menos densa em sua forma material. Isso parece acontecer em fases. Mais e mais pessoas que eu conheço - e isso é totalmente verdade - estão experimentando mais sincronicidades, mais pensar em algo e esse algo acontecer; pensar em alguém e esse alguém aparecer. É como se a atmosfera psíquica estivesse se aquecendo - ou, nos termos de Gebser, como se a consciência estivesse se intensificando. É claro que o único modo de afirmar que isso está acontecendo é cuidadosamente tomando nota de suas próprias experiências, observações e estados de consciência."

Viagem ao Juruá - Daniel Pinchbeck

Viagem ao Juruá

Por : Daniel Pinchbeck




Recentemente, visitei alguns centros do Santo Daime com Jyoti, nossa guia da rede Kayumari, e outros dez ocidentais da Europa e dos Estados Unidos, em uma viagem que durou três semanas. Nossa primeira parada foi Brasília, a capital do Brasil, uma cidade modernista construída a partir do nada em 1960. Ficamos na comunidade do Santo Daime nos arredores da cidade, e participamos de duas cerimônias enquanto estávamos lá.

Inicialmente, senti uma resistência profunda ao trabalho com Santo Daime. Nas cerimônias shamânicas que participei anteriormente, nós tomamos ‘medicina’ no escuro, e o foco era na experiência de visões individuais. Nas cerimônias do Santo Daime, as luzes ficaram acesas, e a energia focalizada em criar um tipo de mente grupal. Mais tarde, José Murilo e Fernando La Rocque, nossos anfitriões, explicaram que chamam isto de “shamanismo coletivo”. Também levei algum tempo para me acostumar com os hinos, que pareceram muito estranhos a princípio. Além disso, senti uma poderosa reação negativa à idéia de uma estrutura religiosa formal onde as pessoas usam uniformes, sentam em filas, e os homens são separados das mulheres.

Eu tive que sair constantemente da igreja. Saía para me sentar perto do fogo aceso do lado de fora ou andar a esmo olhando as estrelas. Há guardiões designados a tomar conta da cerimônia e eles sempre vinham até mim para me convencer a voltar para dentro. Para mim, naquele momento, me pareceu uma violação da minha liberdade pessoal ter de participar do trabalho. Voltei mas com grande relutância. Eu senti raiva de suas tentativas de restringir minha independência.

De Brasília, nosso grupo voou seis horas até a Floresta Amazônica no Oeste do Brasil. Ficamos em uma comunidade Daimista chamada Céu do Cruzeiro do Sul. Eles têm um lindo centro de cerimônias, pintado em branco e azul, com faixas coloridas. Para nossa única noite, organizaram um trabalho que implicava em dançar a noite toda. A dança era simples, de apenas dois passos, todos indo de cá para lá dentro de um espaço mínimo de um metro. Dancei um pouco, então minha resistência cresceu de novo. Saí e me sentei perto do fogo, depois voltei à minha rede. Nesta comunidade, ninguém parecia se preocupar se eu estava ou não em meu lugar.

Voltei sozinho para meu quarto de hóspede e percebi que não queria mesmo participar da cerimônia. Minha resistência desapareceu instantaneamente. Voltei e dancei o resto da noite, e comecei a entender porque o Santo Daime têm trabalhos de uma forma tão rigorosa. Quando eu me permiti entrar “na corrente”, como eles dizem, senti que a ‘medicina’ não estava apenas me apresentando a uma força ou presença divina, mas também limpando minha psique. Era parecido com a meditação Budista da não/mente onde pensamentos aparecem e desaparecem sme nossa interferência.

Na manhã seguinte, voltei e sentei por um instante na igreja vazia. Pela primeira vez em minha vida, senti que entendia a natureza da devoção como prática espiritual. Me pareceu que a devoção era uma vibração ou um tipo de freqüência que ajudava a segurar a estrutura da realidade. Me emocionei e senti muita gratidão por ter sido apresentado a esta prática cerimonial.

Daí entramos num barco, viajando com Padrinho Alfredo e Luís Fernando por dois dias e meio, descendo o rio Juruá. Paramos brevemente para visitar o centro Daimista de Ipixuma e depois viajamos até a vila dos Estorrões, também conhecida como Céu do Juruá. Por alguma razão, eu estava um pouco amedrontado com essa viagem antes de sair de Nova York, e não podia nem mesmo me forçar a olhar no mapa para ver nosso destino. Tudo que sabia era que íamos entrar fundo na Amazônia.

Na primeira noite, depois de um lindíssimo pôr do Sol, entramos em nossa redes e balançamos com o barco. A minha estava armada no convés superior, sob um pequeno telhado. Foi uma experiência incrível. À noite eu acordei e descobri tudo encoberto pela neblina, as árvores eram como fantasmas nas margens. Me senti flutuando no vazio, em direção ao abismo, tremendamente libertador.

Finalmente o cais. Parte do nosso processo de iniciação foi aprender como se faz o sacramento do Santo Daime (ayahuasca), trabalhar com as duas plantas que são cozidas juntas, o cipó e a folha. Assim que atracamos, fomos levados à casa comunitária onde um enorme monte de folhas nos aguardava. Elas deviam ser limpas individualmente, folha por folha. Geralmente só as mulheres realizam este trabalho mas por alguma razão eles decidiram que os homens deveriam tentar também.

No começo, limpar as folhas parecia uma tarefa impossível e interminável. Mas, nos deram Daime para tomar, e depois de algum tempo toda tarefa transformou-se em algo intensamente prazeroso. Senti como se cada folha estivesse se apresentando como um divindade feminina que demandava atenção. Parecia que a ‘medicina’ me ensinava como cuidar dela. Imerso no trabalho, perdi a noção do tempo.

Paramos para o almoço depois andar por quatro horas dentro da floresta, até a comunidade do Céu do Juruá que é considerada um dos centros espirituais mais importantes do Santo Daime. Pelos padrões ocidentais, é um lugar rudimentar – sem telefone, eletricidade ou água encanada. As casas ficam penduradas em longas trilhas na floresta como peças de um colar. Uma grande ponte liga a parte baixa ao centro da comunidade onde há uma cozinha central, uma área para refeições, um santuário a céu aberto e uma pequena igreja.

Fomos levados ao nosso grande e único quarto, onde armamos as redes e mosquiteiros. Foi preciso algum esforço para me acostumar com o calor e a umidade da floresta.

Logo aprendemos a seguir o exemplo dos moradores, que sabiam como ficar quietos e conservar suas energias durante as horas mais quentes do dia. Eram muito amigáveis, e pareciam nos ajudar por termos realizado esta longa viagem para visitá-los e participar de seus rituais. Fomos bem recebidos, sem julgamento, na vida da comunidade.

Durante os próximos dias, nosso trabalho centrou-se ao redor da casa de feitio onde o Daime é preparado. Aprendi como trabalhar com o Cipó – limpando as partes mofadas e podres e depois batendo até reduzi-lo a filamentos para o cozimento.

Tivemos duas cerimônias, presididas por Padrinho Alfredo, que é o líder da igreja. Fiquei muito impressionado com ele. Muito gentil e, apesar disso, confiei imediatamente nele e em sua maestria no Daime. As cerimônias foram extraordinariamente belas e emocionantes. Descobri que realmente queria estar conectado com esta tradição que tinha estabelecido um contato tão direto com o sagrado. Dois de meus amigos sentiram o mesmo. Antes de sairmos da selva, decidimos que nos fardaríamos. Contamos nossa decisão a Luís Fernando.

O último trabalho foi de cura. A energia foi tão enorme, as visões tão intensas, que tive medo de não suportar, mas Alfredo permaneceu firme mesmo durante o pior. De vez em quando eu podia ver a “Mãe da Floresta”, como um ser astral grandioso, dançando acima de nossas cabeças. Senti algo que só posso descrever como Presença Divina no centro da sala, acima do altar, onde a energia das cantoras estava centrada. Eu podia ver seres astrais que pareciam vir a mim trazendo flores e frutos.

Por um longo tempo tive a sensação que havia uma figura escura do meu lado esquerdo, e fiquei com medo de ser algo ameaçador. Finalmente, em meu estado visionário, eu olhei e percebi que era Alfredo me oferecendo uma mão. Em minha visão, eu apertei sua mão. Ele me deu um sorriso maravilhoso e desapareceu.

No dia seguinte, depois de nos juntarmos para um último abraço e uma foto grupal com Alfredo e sua família, deixamos o Juruá. Pegamos uma canoa pelos afluentes menores até alcançar nosso barco no rio. Por quase uma hora e meia, uma águia voou junto de nós, planando de árvore em árvore enquanto prosseguíamos. Parecia um sinal de boa sorte.

Esta viagem foi a experiência mais bonita da minha vida.