Psicodélico

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Download - A Guerra da Erva (Weed Wars)




Steve De Angelo tem duas missões: de fornecer o melhor produto possível para os pacientes que compõem sua base de clientes e educar o resto do país sobre a regulamentação e tributação dessas mercadorias. Guerra das Ervas tem um olhar de perto e pessoal para a realidade de administrar um negócio controverso de cannabis medicinal.


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quinta-feira, 14 de junho de 2012

CIA traficava drogas para financiar guerras !!

Operação sustentou incursões no Vietnã
Salvador Capote
Do Alainet
Após várias décadas da “guerra contra as drogas”, acompanhada por um custo colossal em vidas humanas e recursos materiais, os narcotraficantes hoje são mais fortes do que nunca e controlam um território maior do que em qualquer época.
Nos últimos seis anos, ocorreram no México mais de 47 mil assassinatos relacionados ao tráfico de drogas. O número de mortes foi de 2.119, em 2006, para cerca de 17 mil, em 2011. Em 2008, o Departamento de Justiça estadunidense advertiu que as OTDs (Organizações de Tráfico de Drogas), vinculadas a cartéis mexicanos, estavam ativas em todas as regiões dos Estados Unidos. Na Flórida atuam máfias associadas ao cartel do Golfo, aos Zetas e à Federação de Sinaloa. Miami é um dos principais centros de recepção e distribuição de drogas. Além dos mencionados, outros cartéis, como o de Juárez e o de Tijuhana, operam nos Estados Unidos.
Os cartéis do México ganharam maior força depois que substituíram os colombianos de Cali e Medellín nos anos 1990 e controlam agora 90% da cocaína que entra nos Estados Unidos. O maior estímulo ao narcotráfico é o alto consumo estadunidense. Em 2010, uma pesquisa nacional do Departamento de Saúde revelou que aproximadamente 22 milhões de estadunidenses maiores de 12 anos consomem algum tipo de droga.
Esses, que são apenas alguns dos mais inquietantes dados estatísticos, permitem questionar a eficácia da chamada “guerra contra as drogas”. É impossível crer que exista realmente uma vontade política para por fim a este flagelo universal quando observamos o papel desempenho o narcotráfico a serviço da contra-revolução, para a expansão das transnacionais e para as ambições geopolíticas dos Estados Unidos e outras potências.
Tráfico da CIA
Repassemos, em síntese, a história recente. A administração de Richard Nixon, ao iniciar a “guerra contra as drogas” (1971), desenvolve ao mesmo tempo o tráfico de heroína no Sudeste Asiático com o propósito de financiar suas operações militares nessa região. A heroína produzida no Triângulo de Ouro (de onde se unem as zonas montanhosas do Vietnã, Laos, Tailândia e Myanmar) era transportada em aviões da “Air America”, propriedade da CIA (Agência Central de Inteligência). Em uma conferência de imprensa televisionada em primeiro de junho de 1971, um jornalista perguntou a Nixon: “Senhor presidente, o que você fará com as dezenas de milhares de soldados estadunidenses que regressam viciados em heroína?”
As operações do “Air America” continuaram até a queda de Saigon em 1975. Enquanto a CIA transportava ópio e heroína do Sudeste Asiático, o tráfico e consumo de drogas nos Estados Unidos se convertia em tragédia nacional. O presidente Gerald Ford solicitou ao Congresso, em 1976, a aprovação de leis que substituíssem a liberdade condicional com a prisão, estabelecessem condenações mínimas obrigatórias e negassem as fianças para determinados delitos envolvendo drogas. O resultado foi um aumento exponencial do número de condenados por delitos relacionados com o tráfico e consumo de drogas e, por conseguinte, conversão de Estados Unidos no país com maior população prisional do mundo. O peso principal desta política punitiva caiu sobre a população negra e outras minorias.
As administrações estadunidenses durante os anos 1980 e 1990 apoiaram a governos sul-americanos envolvidos diretamente no tráfico de cocaína. Durante a administração Carter, a CIA interveio para evitar que dois dos chefes do cartel de Roberto Suárez (rei da cocaína) fossem levados a juízo nos Estados Unidos. Ao ficar livres, puderam regressar a Bolívia e atuar como protagonistas no golpe de estado de 17 de julho de 1980, financiado pelos barões da droga. A sangrenta tirania do general Luis García Meza foi apoiada pela administração de Ronald Reagan.
A participação mais conspícua da administração Reagan no narcotráfico foi o escândalo conhecido como “Irã-Contras” cujo eixo mais propagandeado foi a obtenção de fundos para financiar o conflito nicaragüense mediante a venda ilegal de armas ao Irã, mas está bem documentado, ademais, o apoio de Reagan, com este mesmo propósito, ao tráfico de cocaína dentro e fora dos Estados Unidos.
O jornalista William Blum explica essas conexões em seu livro “Rogue State”. Na Costa Rica, que servia como Frente Sul dos “contras” (Honduras era a Frente Norte) operavam várias redes “CIA-contras” envolvidas com o tráfico de drogas. Estas redes estavam associadas com Jorge Morales, colombiano residente em Miami. Os aviões de Morales eram carregados com armas na Flórida, voavam à América Central e regressavam carregados de cocaína. Outra rede com base na Costa Rica era operada por cubanos anti-castristas contratados pela CIA como instrutores militares. Esta rede utilizava aviões dos “contras” e de uma companhia de venda de camarões que lavava dinheiro da CIA, no translado da droga aos Estados Unidos.
Em Honduras, a CIA contratou a Alan Hyde, o principal traficante nesse país (“o padrinho de todas as atividades criminais” de acordo com informações do governo dos Estados Unidos), para transportar em suas embarcações abastecimento aos “contras”.  A CIA, de volta, impediria qualquer ação contra Hyde de agências anti-narcóticos.
Os caminhos da cocaína tinham importantes estações, como a base aérea de Ilopango, em El Salvador. Um ex-oficial da CIA, Celerino Castillo, descreveu como os aviões carregados de cocaína voavam em direção ao norte, aterrizavam impunemente em vários lugares dos Estados Unidos, incluindo a base da Força Aérea no Texas, e regressavam com dinheiro abundante para financiar a guerra. “Tudo sob o guarda-chuva protetor do governo dos Estados Unidos”. A operação de Ilopango se realizava sob a direção de Félix Rodríguez (aliá, Max Gómez) em conexão com o então vice- presidente  George H. W. Bush e com Oliver North, quem formava parte da equipe do Conselho de Segurança Nacional de Reagan.
Em 1982, o diretor da CIA, William Casey, negociou um “memorando de entendimento” com o fiscal geral, William French Smith, que exonerava a CIA de qualquer responsabilidade relacionada às operações de tráfico de drogas realizadas por seus agentes. Este acordo esteve em vigor até 1995.
Reagan e seu sucessor, George H. W. Bush, patrocinaram  o “homem da CIA no Panamá”, Manuel Noriega, vinculado ao cartel de Medellín e à lavagem de grandes quantidades de dinheiro procedentes da venda da droga. Quando Noriega deixou de ser útil e se converteu em estorvo, os Estados Unidos invadiram Panamá (20 de dezembro de 1989) em um bárbaro ato sem precedentes contra o direito internacional e a soberania de um país pequeno.
Michael Ruppert, jornalista e ex-oficial do setor de narcóticos, apresentou em 1997 uma larga declaração, acompanhada de provas documentais aos comitês de inteligência (“Select Intelligence Committees”) de ambas Câmaras do Congresso. Em um dos parágrafos afirma: “A CIA traficou drogas não só durante a época dos “Irã-contras”, mas o tem feito durante todos os cinqüenta anos de sua história. Hoje lhes apresentarei evidências que demonstrarão que a CIA, e muitas figuras que se fizeram célebres durante o ‘Irã-contras’, como Richard Secord, Ted Shackley, Tom Clines, Félix Rodríguez e George H. W. Bush , venderam drogas aos estadunidenses desde a época do Vietnã.”
Em 1999, sob a administração de Bill Clinton, os Estados Unidos bombardearam impiedosamente o povo iugoslavo durante 78 dias. De novo aqui aparece o narcotráfico no fundo das motivações. Os serviços de inteligência dos Estados Unidos e seus homólogos da Alemanha e Grã-Bretanha utilizaram o tráfico de heroína para financiar a criação e o equipamento do Exército de Libertação de Kosovo. A heroína proveniente da Turquia e da Ásia Central passava pelo Mar Negro, Bulgária , Macedônia e Albânia (Rota dos Balcãs) com destino a Itália. Com a destruição da Sérvia e o fortalecimento – desejado ou não – da máfia albanesa, a administração Clinton deixava livre o caminho da droga desde o Afeganistão até a Europa Ocidental. De acordo com informes da DEA e do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, cerca de 80 % da heroína que se introduz na Europa passa através de Kosovo.
“Planos” Colômbia
Várias administrações estadunidenses, e em particular a de George W. Bush, foram cúmplices do genocídio na Colômbia. A “guerra contra as drogas” sustentada pelos Estados Unidos com recursos financeiros multimilionários, assistência técnica e volumosa ajuda militar, não conseguiu deter o fluxo de cocaína e, pelo contrário, tem sido determinante no surgimento e desenvolvimento dos grupos paramilitares a serviço dos proprietários de terras com plantações de drogas, e também como pretexto para manter o domínio sobre os trabalhadores e a população camponesa. O Plano Colômbia resultou num completo fracasso, mas serviu como tela de fundo para a ingerência dos Estados Unidos no país e mostrou claramente seu verdadeiro objetivo, a contra-revolução.
Muitas vezes se esquece que o narcotráfico é provavelmente o negócio mais lucrativo dos capitalistas. Com a guerra na Colômbia lucram as empresas químicas que produzem os herbicidas, a indústria aeroespacial que abastece helicópteros e aviões, os fabricantes de armas e, em geral, todo o complexo militar-industrial. Os bilhões de dólares que gera o tráfico ilegal de drogas, também incrementam o poder financeiro das corporações transnacionais e da oligarquia local.
A recente declaração do Secretariado de Estado Maior Central das FARC-EP, em vista do quadragésimo oitavo aniversário do início da luta armada rebelde, denuncia este vínculo drogas-capital: “os dinheiros do narcotráfico se convertem em terras, inundam a banca, as finanças, os investimentos produtivos e especulativos, a hotelaria, a construção e a contratação pública, resultando funcionais e necessários no jogo de captação e circulação de grandes capitais que caracteriza a capitalismo neoliberal de hoje. Igualmente ocorre na América Central e no México.”
O Tratado de Livre Comércio Estados Unidos-México (NAFTA) obrigou numerosos camponeses, ante a competitividade de produtos agrícolas estadunidenses, a cultivar em suas terras papoula e maconha. Outros, frente à alternativa de trabalho escravo nas indústrias “maquiladoras”, preferem ingressar nas redes mafiosas da droga. O grande aumento do tráfico de mercadorias através da fronteira e dos controles bancários para combater o terrorismo, provocou a lavagem de dinheiro dos bancos até as corporações comerciais.  A complexidade e o volume das operações financeiras, e o fluxo instantâneo e constante de capitais “on line”, tornam extremamente difícil seguir o rastro das transações ilícitas.
Uma das conseqüências do NAFTA é a impunidade quase total que acompanha o fluxo de narcodólares em ambos lados da fronteira. Igualmente como no México, o Tratado de Livre Comércio recentemente em vigor na Colômbia estimulará a violência, o narcotráfico e a repressão sobre os trabalhadores e camponeses. A “Iniciativa Mérida”, apor sua vez, é somente a versão ‘México-Centroamericana’ do Plano Colômbia.
Devemos meditar sobre o fato de que em todos os cenários de onde os Estados Unidos têm intervindo militarmente, principalmente naqueles onde tem ocupado a sangue e fogo o território, o narcotráfico, sem diminuir, como seria de esperar, está multiplicado e fortalecido. No Afeganistão, o cultivo de papoula se reduziu drasticamente durante o governo dos talebãs para alcançar logo, sob a ocupação estadunidense, um crescimento acelerado. O Afeganistão é atualmente o primeiro produtor de ópio do mundo, mas, ademais, já não exporta somente em forma de pasta para seu processamento em outros países, mas fabrica a heroína e a morfina em seu próprio território.
Se nos atemos aos fatos históricos, poderíamos afirmar que a política dos Estados Unidos não tem sido a de “guerra contra as drogas”, senão a de “drogas para a guerra”. (da alainet.org)
Tradução: Eduardo Sales de Lima

terça-feira, 12 de junho de 2012

Tudo sobre as drogas - Almanaque é lançado para informar quais os efeitos reais dos entorpecentes


Fonte : Revista Galileu
Editora Globo
PARA DEBATER: Política, economia e saúde estão em Almanaque das Drogas, livro que pretende informar ao público quais os efeitos dos entorpecentes
O jornalista Tarso Araújo, que editou a reportagem de capa desta edição, terá publicado, na segunda quinzena de maio, O Almanaque das Drogas (Editora Leya, R$ 69). Aproveitando que ele estava em nossa redação, dei uma lida na prova do seu livro e, perto da máquina de café, o abordei: “ô, Tarso, vem cá: topa uma entrevista?”. No que ele aceitou, começamos a conversa reproduzida a seguir. 

* Na introdução do livro você fala que não quer incentivar nem demonizar o consumo de droga. E diz que o leitor deve tirar suas próprias conclusões. Mas o que você, autor, concluiu? 
Tarso: 
Cara, minha conclusão é que as pessoas sabem muito pouco sobre as drogas. O melhor jeito de lidar com elas e com os problemas que elas eventualmente podem causar é se informar melhor. Por isso fiz o livro. A maioria das pessoas nem se dá conta que álcool e café, por exemplo, são tipos de droga que agem no cérebro. 

* Esse café que a gente está tomando é droga? 
Tarso:
 No livro trato de drogas psicoativas, que alteram o funcionamento do cérebro. Cafeína é uma delas, por isso está lá. 

* Você fala que o homem usa drogas desde milhares de anos antes de Cristo. E que isso está associado a religiões. Como é essa história? 
Tarso:
 As religiões xamânicas, em geral, usavam drogas para falar com Deus. Existem registros do uso de plantas alucinógenas por povos ali da região do Irã, em livros sagrados de antes de 4000 a.C. Eles faziam infusões de ervas alucinógenas e essa bebida era a parte central do culto de duas religiões ancestrais, que deram origem ao hinduísmo e ao zoroastrismo. O nome usado para a bebida era o mesmo usado para Deus: haoma ou soma, dependendo da religião. 

* Maconha é antiga também? 
Tarso:
 Existem registros do uso da maconha como droga psicoativa na China, há cerca de 2000 a.C. 

* E quando surgiu a proibição? 
Tarso:
 É uma coisa de 100 anos atrás. A humanidade passou milhares de anos usando drogas e só começou a proibir nos últimos 100. Isoladamente, há registro de proibição desde o século 16, pelo menos. Os chineses, por exemplo, proibiram o fumo por razões econômicas. Na Europa algumas dioceses ficavam enfurecidas porque os padres passaram a fumar tabaco durante a missa. Proibiram. Mas a proibição como doutrina começou no começo do século 20. 

* Para finalizar: qual é a droga mais perigosa afinal? 
Tarso:
 Depende do critério. Para a saúde, crack e metanfetamina estão entre as piores, mas a nicotina é uma das que mais vicia. Para a sociedade, álcool e tabaco são muito prejudiciais, porque também são as mais populares. A conta delas é alta. Mas o importante é saber que até beber água pode ser perigoso. Paracelso, um alquimista, dizia: o que faz o veneno é a dose.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Jobs consumiu maconha semanalmente por 5 anos




A revista Wired, através do Freedom of Information Act, teve acesso a documentos que mostram fatos pouco conhecidos sobre Steve Jobs, o fundador da Apple que morreu em outubro do ano passado, envolvendo mais detalhes sobre uso de drogas, e até uma breve detenção.

Em 1975, Jobs foi preso por não ter pago uma multa de trânsito. A detenção ocorreu na cidade de Eugene, no estado do Oregon, quando Jobs estava sendo interrogado pela polícia por suspeita de consumo de álcool - na época ele ainda não tinha idade para beber legalmente.

Outra revelação contida no documento preenchido por Jobs, que já teria dito que todo mundo deveria experimentar LSD pelo menos uma vez na vida, é de que ele usou a droga entre 10 e 15 vezes no período de 1972 a 1974. Jobs também consumia maconha semanalmente, entre 1973 e 1977 - e o ex-CEO da Apple ainda afirmou ter feito uso de haxixe cinco vezes, segundo o site Business Insider.

Drogas e prevenção: sobre o risco


O que consistiria em uma “questão das drogas”? Quais termos ou meios poderíamos usar para formular esta questão?
“O que leva uma pessoa a usar drogas?”, ou inversamente e talvez mais adequado: “o que leva alguém a não usar ou experimentar drogas?”
“Os riscos de experimentações são calculáveis?”
Há interação bioquímica e resposta orgânica padrão para determinados grupos de substâncias?
Dificilmente se encontrará respostas fáceis ou rápidas para as questões acima. Mas para tratar do tema, não são raras as ocasiões em que surjam premissas como se tais questões já estivessem respondidas. Das questões levantadas acima, uma questão das drogas, sem dúvida só pode ser traçada com o apoio de registro e desenvolvimento de elementos históricos e antropológicos. Ainda que, esta palavra ‘drogas’, mesmo que seja explorada e trabalhada etimologicamente, não necessariamente revele, sob quais ditames se engendram os discursos que buscam endereçar um entendimento sobre o momento no qual são mobilizadas uma série de comoções sobre o tema.
O que sem dúvida podemos afirmar aqui, é que o termo ‘droga’ enquanto questão nunca conseguiu uma separação entre os campos da saúde e da segurança. O termo e as falsas questões, insistem enquanto catalizadoras que mesclam as duas áreas e provam o quanto uma leva da outra. Mais especificamente, o quanto a saúde pode ser policialesca e, não inversamente, o quanto a segurança pode ser insalubre.
Interessante que no campo das mercadorias, droga ganha valor místico. No caso das ilícitas, carregam consigo uma infinidade de possibilidades e surpresas, todo o mistério, o não saber de onde vem, como foi feito, transforma uma substância em um “kinder ovo”, objeto a ser desvelado, sempre a ser, já que todo uso não se encerra em si, envolve interação de diversos fatores que interagem com o efeito, possibilitando uma infinidade de viagens mais ou menos variáveis, geralmente com volta.
Talvez a palavra risco, seja essencial para pensarmos sobre como a experiência com drogas é apresentada a alguém. A imagem de ultrapassamento de uma linha da qual se perde alguma garantia de segurança pode ser uma imagem emblemática para a forma como o tema é tratado. Devo a perspicácia deste recorte, ao artigo de Maurício Fiore, publicado no livro “Drogas e Cultura: outras perspectivas”, neste trabalho, o autor se implica, ainda que brevemente, em discutir uma noção de risco. Para a psicanálise a noção de risco, é imanente a uma concepção de desejo. Ao menos para a vertente lacaniana, a partir do momento em que se deseja, se assume um risco. Ainda que tal risco não seja necessariamente uma atitude heróica ou ousada por excelência. No trabalho com a psicanálise lacaniana, frequentemente o desejo surge ilustrado pela metáfora do “salto no escuro”. Ainda que o movimento de saltar no escuro, sem saber se encontrará solo firme ou um completo vazio a sugar o corpo, exija uma forte dose de coragem de quem salta, não é necessariamente neste ponto que esta metáfora se basta. Ela se complexifica, a partir do momento em que àquele que não salta, também não pode garantir que o solo sob seus pés não se abrirá feito um alçapão também resultando em uma terrível queda.
O solo simbólico sobre o qual vivemos não oferece garantias, e o risco, não necessariamente é ganha tom alarmista por toda parte. Apesar de discursos sobre as drogas buscarem tons alarmistas, uma espécie de enaltecimento do risco avança sobre diversos campos da vida subjetiva. Me refiro a “uma espécie de enaltecimento” pelo fato de que este enaltecimento não necessariamente oferta um risco, se não apenas um jogo de espelho deste. Assim como em vídeo-games, o que chamam de risco muitas vezes envolve em perder “um crédito”. E até mesmo a ideia de viver perigosamente pode desembocar em viver igual a todo mundo, ainda que com todos se sentindo diferente. A publicidade vende risco enquanto sorteio, promoção, loteria dos bens, neste caso o lema é: “quem não arrisca não petisca”. Já as campanhas de prevenção buscam antecipar o fracasso que também faz parte do risco e nas imagens de cadáveres e feridas reforçam o dito: “o seguro morreu de velho”. Este processo de algo de extremamente violento e desleal. Funciona como uma espécie de terceirização da fantasia. Explico: a forma como o sujeito lida com o risco, comumente se dá por via da fantasia. Há um cálculo permeado de variáveis imaginárias: “se fizer tal e tal coisa tenho mais chance de ganhar e portanto: tento porque acho que vou ganhar”, ou “diante de tais e tais dados é possível que não dê certo e por isso prefiro ficar como estou”. A questão é que as probabilidades adentram às contingências e toda a construção acerca de uma previsão pode ruir sem qualquer aviso prévio. Portanto, na medida em que uma propaganda ou campanha adianta um resultado, há uma operação de assédio e tentativa e de destituição do lugar de sujeito, a captura do olhar costuma ser cruel e petrifica aquele que olha precipitando à imagem o posicionamento diante do risco. Pela via analítica, a condição de sujeito implica um posicionamento diante de um impasse do desejo, é justamente este impasse que é sabotado pela terceirização da qual me referi acima.
Vale ressaltar, que conforme considerado acima, para a psicanálise, ideais como o de “prevenção ao uso de drogas” não se adequam minimamente à uma ética. Curioso é que: mesmo com uma forte campanha amedrontadora, com uma torrente de alertas embrutecedores, ainda se ouse experimentar drogas como o crack. Neste caso, ao contrário do cálculo dizer “pode dar certo”, diz “há muito mais chances de dar errado” e portanto o que prevalece é uma lógica de Ulisses, quanto maior é o desafio, maior é a tentação de sobreviver ao mesmo. O ato de buscar à pedra tão mal dita, pode indicar um apego desesperado à uma condição desejante, ainda que traiçoeiro e iludido por um brilho próprio ao fracasso, típico engodo, também propagandista de uma “vida como obra de arte”.
Bibliografia:
FIORE, M. Prazer e risco: uma discussão acerca do saber médico sobre o uso de drogas. In: Drogas e cultura: novas perspectivas. Labate, B. C. e Carneiro, H. et al. 2008
LACAN, J. Seminário 7: A ética da psicanálise. 2008.

Por que a guerra às drogas? Do crack na política ao crack do sujeito



Texto de apresentação da dissertação :

O projeto inicial desta pesquisa, na passagem do ano de 2009 para 2010, tinha por objetivo investigar a presença ou ausência da noção de desejo nos documentos de saúde pública. No entanto, a campanha de enfrentamento ao crack com o slogan “o crack causa dependência e mata” estava circulando nos meios de comunicação de modo que chocou minha percepção. Já fazia alguns anos que não presenciava as diretivas embrutecedoras da moral de um discurso que antagoniza drogas e vida.
O retorno a um discurso de terrorificação, como presenciei nas campanhas “Drogas, nem morto!”, parecia ter voltado e, pautado sobre o crack, o julgamento a respeito de como estabelecer uma melhor comunicação sobre as drogas novamente parecia frouxo. A onda internacional de revisão das políticas de atenção às drogas parece ter esmaecido antes de tocar os litorais brasileiros.
Portanto, ao longo do desenvolvimento desta pesquisa o Ministério da Saúde renovou seu slogan para “Crack: é possível vencer”. Na medida em que visualizei estas mudanças em curso, ficou evidente a necessidade da pesquisa não se deter em um recorte restrito a um curto período de tempo. Assim, durante o levantamento bibliográfico buscamos algo de estrutural no discurso que aborda as drogas pela via da política governamental. Desse modo, foi possível perceber as claudicações que acompanham esta questão a pouco mais de um século. Graças aos escritos de Freud que tratam do funcionamento grupal, pudemos identificar um lugar estrutural do inconsciente nas ações políticas, atualmente ocupado pelas drogas. Este lugar, indubitavelmente se presentificou como o lugar do inimigo.
Desde os alardes em relação ao ópio, facilitado com o uso da morfina em larga escala, passando pela cocaína, paixão de Freud que antecede à gênese das ideias psicanalíticas, até a atual questão brasileira denominada de “epidemia de crack”, notamos um certo furor que toca às drogas como uma ameaça para a ordem social. Não é por acaso, que um dos maiores críticos do texto “sobre a coca” seja Erlenmeyer, químico contemporâneo à Freud que nomeou o pó branco de terceiro flagelo da humanidade.
Assim, iniciamos nossa pesquisa com a hipótese de que há uma abordagem das drogas que a circunscreve como uma peste. Esta peste, incapacitante, afastaria as pessoas de uma vida produtiva e de seus compromissos morais. Neste processo os aparelhos de regulamentação junto das tecnologias farmacêuticas, operando por meio de uma técnica fria, estabelecem o que é remédio e o que é veneno, demarcando e administrando como e do que se deve gozar.
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Freud, em um período anterior à gênese da psicanálise, depositou sobre a cocaína a expectativa de sutura do sujeito moderno. Em suas expectativas, uma substância milagrosa como a cocaína poderia aliviar homens e mulheres de diversos sentimentos que se apresentassem como inerentes à insistência de existir. No entanto, após consecutivos fracassos e duras críticas, Freud recuou para em seguida avançar com sua descoberta que o marcou como autor fundamental do pensamento moderno: o inconsciente.
Conhecedor de diversas obras oriundas da antropologia, Freud, em seu receituário para a vida civilizada, prescreveu aquilo que reconheceu como imprescindível para viver em sociedade, a saber, uma boa dose de renúncia de satisfação das pulsões primitivas. No entanto, assim como tantos outros remédios, esta dose de renúncia não é sem efeitos. Assim o mal-estar surge como efeito colateral da vida civilizada. Devido a este efeito colateral, muitos sofredores recorreram ao seu consultório. Este, sabendo do risco de novas receitas, buscou a cura a partir deste efeito colateral, visto que ao Dr, bem como a seus pacientes, a dose de renúncia é um remédio sem o qual não se pode viver.
Portanto, frente ao colateral civilizatório, os humanos comumente lançam mão de alguns recursos por conta própria. Freud, em sua lista de recursos paliativos para encarar este sofrimento, identifica ao menos três que damos destaque: as artes, a ciência e as drogas. Este último, que fique bem avisado, é extremamente eficaz, assim como altamente perigoso se não se atenta para a dosagem. Caso haja uma overdose, a receita principal: ou seja, a renúncia pulsional, parece ter sua ação anulada. Só parece, como veremos adiante.
Quando os três recursos paliativos falham, surge a neurose. Esta, reagente ao efeito colateral da vida civilizada convida o psicanalista à ação. Portanto, este trabalho aborda as construções advindas da ambiguidade na assimilação da prescrição traçada na receita da vida civilizada. Assim, se o sujeito constrói sua existência a partir de um traço no qual se identifica, quando falamos das drogas este traço é um garrancho. Típico hábito médico na prescrição de uma receita que tenta calar as dores da alma.
Após a morte do psicanalista austríaco, alguns de seus discípulos se fiaram cegamente nos aspectos vitorianos do mestre, desse modo, ao trabalharem sobre a cota de renúncia pulsional, apelaram para uma regulação das dosagens, buscando administrar as cotas de renúncia e de recursos paliativos. Assim, a civilização respiraria mais sadia, com indivíduos bem adaptados e comedidos.
Frente à iminência deste fracasso, coube a Lacan uma descoberta que segundo Foucault, foi salvadora da psicanálise. A regulamentação e administração desta dose de renúncia não parecia mais estar surtindo efeito. Portanto, se antes a renúncia era um remédio amargo, a engenharia das dores e dos prazeres a transformara em modo de gozo, tornando o efeito colateral cada vez mais cínico e sinistro. Frente ao impasse, Lacan, buscando identificar os garranchos das traduções e do tempo, reafirmou de maneira radical os elementos presentes na marca do carimbo de Freud na experiência moderna: o sujeito do inconsciente e a singularidade de seu desejo.
Por conseguinte, quando a questão das drogas surge sob a categoria nosológica de toxicomania, Lacan é categórico ao afirmar que o tratamento desta questão só se faz de modo policialesco. Aqui acrescentamos ao dito de Lacan que a abordagem das toxicomanias é policialesca e governamental. Por este motivo, nosso interesse neste trabalho foi situar o lugar das drogas enquanto assunto de governo e de polícia, reservado à psicanálise, a crítica e o tratamento dos fatores inconscientes que atravessam esta questão.
Dentre estes fatores, podemos destacar: fantasia e angústia. Coube-nos a entrada no material do qual alguns sujeitos refinam a sua existência para o mundo, apresentando-o em seu avesso, o imundo. Assim, passamos do segredinho sujo frequente nos consultórios à excrecência ornamental das práticas higienistas urbanas.
Portanto, se o desenvolvimento civilizatório cobra seu preço, quando nos referimos às drogas reconhecemos que há uma sobretaxa, gerando dívidas comumente pagas com a carne, levando ao limiar da vida àqueles que sobrevivem e caminham portando consigo somente pele, osso e pulsão.
Curiosamente, a cocaína, substância da qual Freud lançou mão para tentar curar a angústia inerente ao sujeito, ao ser manejada no campo político em combinação com o vazio de sentido apropriado na confecção de inimigos, produziu este polêmico derivado chamado crack. Já os usuários nomeados como nóias, comportam uma identidade paradoxal que alimenta a persecutoriedade daqueles que estão no seu entorno. Desse modo, o nóia,enquanto identidade, detém alta cotação no mercado de estratégias políticas e econômicas.
Reconhecemos que é pela via do medo que identificamos a aplicação dos mecanismos da psicologia de grupo apresentados por Freud no discurso do mestre trabalhado por Lacan. Estes mecanismos operam de modo conservador, impedindo o giro discursivo no qual o mestre apareceria como castrado. Esta imagem, possibilitaria a sociedade a percepção de que mais importante que o mestre, é o furo, que nos possibilita redimensionar nossas formas de se fazer política, sendo o desejo, o agente de mudança a ocupar o lugar do medo.
Pois, se no início desta pesquisa vivi um choque diante da brutalidade das palavras, no final da confecção desta obra, já em período de conclusão, o choque não ocorreu por meio de palavras mas por meio de imagens. Desta vez não foi campanha de saúde, mas campanha militar, como aquelas discutidas por Clausewitz. A operação sufoco, lançando mão de estratégias que aplicam doses cavalares de dor e sofrimento provou que novamente Freud estava errado. Este, ao responder a Einstein sobre como enfrentar a guerra recomenda: “tudo o que estimula o crescimento da civilização, trabalha contra a guerra”. Infelizmente, o avanço do que chamamos de civilização facilmente cede ao obscurecimento da repetição pulsional.
Por fim, talvez seja necessário reconhecer que o advento do crack, que hoje ocupa um lugar que já foi habitado por tantos inimigos, acentuando a miséria e o desamparo presente na pólis bem como nossa dificuldade em fazer política de modo distinto à reprodução da barbárie. Cabe considerarmos que o lugar ocupado pelo crack nos dias de hoje faz interrogação pública ao desejo de cada um.
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O texto da dissertação em breve estará on-line no portal da biblioteca da PUC-SP.

EUA usam tráfico de drogas como fonte para financiar guerras



Nos últimos seis anos, ocorreram no México mais de 47 mil assassinatos relacionados ao tráfico de drogas. O número de mortes foi de 2.119, em 2006, para cerca de 17 mil, em 2011. Em 2008, o Departamento de Justiça estadunidense advertiu que as OTDs (Organizações de Tráfico de Drogas), vinculadas a cartéis mexicanos, estavam ativas em todas as regiões dos Estados Unidos. Na Flórida atuam máfias associadas ao cartel do Golfo, aos Zetas e à Federação de Sinaloa. Miami é um dos principais centros de recepção e distribuição de de cocaína, Maconha e Heroína. Além dos mencionados, outros cartéis, como o de Juárez e o de Tijuhana, operam nos Estados Unidos.

Os cartéis do México ganharam maior força depois que substituíram os colombianos de Cali e Medellín nos anos 1990 e controlam agora 90% da cocaína que entra nos Estados Unidos. O maior estímulo ao narcotráfico é o alto consumo estadunidense. Em 2010, uma pesquisa nacional do Departamento de Saúde revelou que aproximadamente 22 milhões de estadunidenses maiores de 12 anos consomem algum tipo de droga.

Esses, que são apenas alguns dos mais inquietantes dados estatísticos, permitem questionar a eficácia da chamada “guerra contra as drogas”. É impossível crer que exista realmente uma vontade política para por fim a este flagelo universal quando observamos o papel desempenho o narcotráfico a serviço da contra-revolução, para a expansão das transnacionais e para as ambições geopolíticas dos Estados Unidos e outras potências.

As administrações estadunidenses durante os anos 1980 e 1990 apoiaram a governos sul-americanos envolvidos diretamente no tráfico de cocaína. Durante a administração Carter, a CIA interveio para evitar que dois dos chefes do cartel de Roberto Suárez (rei da cocaína) fossem levados a juízo nos Estados Unidos. Ao ficar livres, puderam regressar à Bolívia e atuar como protagonistas no golpe de estado de 17 de julho de 1980, financiado pelos barões da droga. A sangrenta tirania do general Luis García Meza foi apoiada pela administração de Ronald Reagan.

A participação mais conspícua da administração Reagan no narcotráfico foi o escândalo conhecido como “Irã-Contras” cujo eixo mais propagandeado foi a obtenção de fundos para financiar o conflito nicaragüense mediante a venda ilegal de armas ao Irã, mas está bem documentado, ademais, o apoio de Reagan, com este mesmo propósito, ao tráfico de cocaína dentro e fora dos Estados Unidos.

O jornalista William Blum explica essas conexões em seu livro “Rogue State”. Na Costa Rica, que servia como Frente Sul dos “contras” (Honduras era a Frente Norte) operavam várias redes “CIA-contras” envolvidas com o tráfico de drogas.