Psicodélico

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Jornal Feira Hoje - Discurso da Deputada Federal Perpétua de Almeida em defesa da Ayahuasca

Jornal Feira Hoje - Discurso da Deputada Federal Perpétua de Almeida em defesa da Ayahuasca


Discurso da Deputada Federal Perpétua de Almeida em defesa da AyahuascaDiscurso da Deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC) no Congresso Nacional Brasileiro, em 29 de março de 2010.


Sr. Presidente, Srs. e Sras. Parlamentares, antes de falar sobre o assunto principal do nosso pronunciamento, quero render minhas homenagens a um acriano, reconhecido no Brasil inteiro como um grande estadista, que morreu na madrugada de hoje, nosso amigo e conterrâneo Armando Nogueira. À família dele a nossa saudação e a certeza de que Armando desempenhou um papel importante para o Acre e para o Brasil inteiro.

Nosso Governador, Jorge Viana, percebendo os problemas de saúde de Armando, já o homenageou dando seu nome a uma das mais belas escolas-modelo do Estado, o Colégio Estadual Armando Nogueira. Esse homem revolucionou o esporte brasileiro e deixa seu legado.

Sr. Presidente, quero aproveitar este momento para prestar minha homenagem a todos os centros e a todas as comunidades ayahuasqueiras do meu Estado. Foi com pesar, com tristeza e às vezes até com revolta que acompanhei setores da imprensa brasileira tratarem de forma preconceituosa a Amazônia brasileira e os seguidores do Santo Daime, da União do Vegetal e da Barquinha.

Para não cometer deslizes ou esquecimentos, fiz questão de, num discurso um pouco mais elaborado, prestar uma homenagem, um pedido de desculpas às famílias dos três precursores do uso do chá da ayahuasca fora dos centros de floresta no Brasil: o Mestre Irineu, o Mestre Daniel e o Mestre Gabriel, criadores do Alto Santo, cujas linhas ficaram conhecidas como Santo Daime, Barquinha e União do Vegetal.

Neste momento, Sr. Presidente, o seu legado está sendo atacado de forma preconceituosa e descabida. Durante mais de 15 dias saíram artigos em jornais e revistas. O que se viu, diante de uma tragédia urbana, foi a falta de conhecimento de alguns setores da imprensa, inclusive deste Parlamento, e a tentativa de influenciar o pensamento de toda a população, de forma discriminatória, contra a região do País onde nasceu o uso da ayahuasca. Aliás, estamos falando da única religião genuinamente brasileira — e amazônica.

Quero relembrar aqui que o crime que tirou a vida de um artista brasileiro, o cartunista Glauco, foi uma atrocidade, e que não existe nenhum precedente em nenhuma das comunidades ayahuasqueiras do meu Estado, o Acre, nem mesmo do Brasil. De forma vil tentaram fazer do réu uma vítima e da vítima o próprio culpado e sua morte.

Quando a própria família do Glauco afirma de forma incisiva que o algoz que lhe tirou a vida tinha perturbações comportamentais e que não estava mais frequentando com frequência a comunidade, aprofunda a tese de que não há influência do chá nas atitudes extremadas que influíram no seu assassinato.

Lá no meu Estado, Sr. Presidente, onde foram criados os centros que utilizam a ayahuasca há mais de 5 décadas, nunca, em momento algum, presenciamos qualquer crime, qualquer escândalo, qualquer atrocidade. Sequer vimos alguma comoção social oriunda dos frequentadores das comunidades que usam aquele chá, homens e mulheres simples, trabalhadores da agricultura, funcionários públicos, autônomos, gente humilde e ordeira. Os filhos das pessoas que iniciaram o uso do chá hoje são advogados, juízes, médicos, professores, promotores públicos e até Parlamentares e estão todos inseridos no contexto social e cultural acriano. Repito: nunca houve um único caso de desequilíbrio ou atrocidade que levantasse suspeita sobre o uso do chá no meu Estado do Acre. Agora, claro, é preocupante a forma como usam esse líquido sagrado em rituais que não são religiosos. A sua mistura com outras substâncias é um fato e uma preocupação. Nas comunidades indígenas, usuárias da bebida há séculos, não existem distúrbios ligados ao uso da ayahuasca, porque os índios a usam em rituais próprios, como instrumento de se harmonizarem com a natureza e com a espiritualidade. Isso precisa e deve ser considerado como a cultura dos povos da Amazônia.

A nossa Lei Maior define e garante a liberdade de prática religiosa. Essa contribuição, trazida inclusive pela bancada do meu partido, dos comunistas, na Constituinte de 1934, é para garantir que não haja monopólio da fé e que todos possam manifestar sua religiosidade, sua espiritualidade, com a defesa do Estado brasileiro.

Nesse sentido, Sr. Presidente, na busca de regulamentar de forma consensual o uso do chá ayahuasca, é que o Governo do Presidente Lula, através do Conselho Nacional Antidrogas, publicou portaria apontando o norte a ser seguido pelas comunidades que usam o chá.
Ressalto aqui que a resolução é consensual com várias entidades que se comprometem a beber o vegetal, ou daime, em rituais estritamente religiosos.

Essa é a diferença, esse é o tesouro que não faz do chá produzido por duas plantas amazônidas uma brincadeira, ou a busca da curtição, como alguns preferem dizer. Para nós, para os amazônidas e para os usuários do chá, é algo que vai além da sua espiritualidade: é o encontro consigo mesmo.

O Juiz Federal Jair Facundes, de quem tenho a honra de ser amiga e que é uma das pessoas mais respeitadas no meu Acre, publicou recentemente um belo artigo. Aqui relembro um trecho do seu artigo que diz o seguinte:
Enquanto construção humana a ayahuasca reflete a velha questão que diz respeito a considerar, ou não, se a realidade se exaure na exata composição física e química. A ayahuasca, enquanto elemento religioso, é bem mais, muito mais, do que a folha Psycotria viridis, o cipó Banisteriopsis caapi e água, fervido ou não: são aqueles elementos acrescidos de uma constelação de pequenos atos, sentimentos, posturas, crenças, hábitos, detalhes que emprestam significado e valor a símbolos, objetos, natureza, plantas, permitindo a experiência religiosa humana no que de mais profundo e transcendente isto representa.

Como percebemos, Sr. Presidente, dissociar o uso religioso da ayahuasca contraria os preceitos da doutrina trazida pelos nossos grandes mestres e responsáveis originários: Mestre Irineu, Mestre Daniel e Mestre Gabriel, que nos ensinaram que as atitudes se diferenciam, junto com a questão religiosa, de qualquer outra prática.

Nobres colegas, entretanto, faz-se necessário que haja um estudo acadêmico, que a comunidade científica e autoridades médicas se posicionem e conheçam as características e as influências que a bebida causa aos seus usuários. Nada mais justo, necessário e precioso. Neste caso específico, tanto a União do Vegetal, como o Alto Santo e a Barquinha fazem questão de que haja pesquisa e haja estudos nesse sentido.

Em nenhum momento se viu qualquer uma das autoridades dessas comunidades ayahuasqueiras se posicionando contrariamente a quaisquer pesquisas que sejam necessárias, porque nós achamos importantes e necessários os estudos e as pesquisas, porque é dessa forma que as pessoas falam e se posicionam com conhecimento de causa.

Para isso, o Governo brasileiro já incentiva e edita o seu reconhecimento. Nessa mesma argumentação, a Suprema Corte dos Estados Unidos da América aprovou, por total unanimidade, a liberação da ayahuasca naquele país. Essa decisão é uma contestação irrefutável do quanto é certa a postura do Governo brasileiro, do quanto é certa a postura das pessoas comprometidas com o uso da ayahuasca em suas práticas religiosas.
Sr. Presidente, recentemente, Frei Betto, numa das suas publicações, abordou o tema religião e espiritualidade. Argumenta que a espiritualidade é uma dimensão constitutiva do ser humano e que uma pessoa desprovida de espiritualidade prescinde da percepção da profundência de sua subjetividade. Entendo isso quando percebo em meus amigos mais próximos, vários homens e mulheres no Acre e no Brasil que fazem da religião da floresta um jeito bom de viver, a necessidade de manter viva a sua espiritualidade.

E é nesse sentido que me dediquei a requerer que o Ministério da Cultura, através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — IPHAN, fizesse um estudo e reconhecesse o uso da ayahuascaem rituais religiosos como patrimônio imaterial da cultura brasileira.

Acho mais do que justo esse reconhecimento, porque é a única religião genuinamente brasileira, nascida na floresta amazônica, que precisa e merece ser reconhecida como um patrimônio imaterial do povo brasileiro.Esse reconhecimento, com o devido respeito e defesa de todas as práticas e de outras religiões, é uma demonstração de que o nosso Brasil é realmente de todos. Sendo este o mote e a política de Governo implementada pelo Presidente Lula, temos o dever de também reconhecer a religião da floresta como uma prática cultural nascida no seio da floresta, nascida em nosso país.

Ressalto aqui que, paralelamente a essa nossa proposta, o Governo peruano já faz esse reconhecimento da ayahuasca como patrimônio imaterial do Peru.

O Estado do Acre, através das fundações culturais do Estado e da Capital Rio Branco, já tem em suas ações o reconhecimento e incentivo dessa prática religiosa. São inúmeros os centros que utilizam o chá; o Alto Santo é tombado como patrimônio do Estado, o Poder Público criou uma Área de Proteção Ambiental no entorno de vários templos, onde se usa a ayahuasca como ritual religioso.

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Parlamentares, O Deputado Estadual Moisés Diniz, Líder do Governo acriano, também do PCdoB, num brilhante artigo recém-publicado, afirma que a utilização da ayahuasca pelo homem branco é uma acolhida da espiritualidade das florestas tropicais, um banho de rio milenar e sentimental do tempo em que os povos amazônicos viviam em fraternidade econômica e religiosa. Diz ainda que o líquido, usado com objetivos espirituais, envolve a mais límpida tradição de amar o próximo e reencontrar os valores que perdemos na caminhada do planeta que se dividiu em castas, cores, fronteiras e etnias.

É desta forma como o Deputado Moisés Diniz aqui se expressou que nós, acrianos e amazônidas, nos relacionamos como o uso da ayahuasca. E é nesse contexto que a Organização das Nações Unidas, em resolução de 1961, reconhece o uso de plantas psicoativas em rituais religiosos. Várias nações são signatárias desse reconhecimento.

Lembro aqui também as palavras do General Uchôa, que iniciou no CONAD os estudos da ayahuasca. Suas palavras são contundentes quando afirma em entrevista numa rádio que o chá é inofensivo à saúde quando não é misturado com outras substâncias que alteram o funcionamento do organismo.

Reitero que não podemos, sob hipótese nenhuma, permitir a criminalização de uma prática religiosa que se constitui como manifestação genuinamente brasileira e de forma gradual e respeitável se consolida em vários Estados brasileiros e em outros países.

Devemos, sim, firmar concordância com o que a resolução do CONAD aponta. Garantir que a bebida sagrada não seja comercializada, que seja usada estritamente em rituais religiosos e não seja misturada com outras substâncias proscritas.

Sr. Presidente, tenho profundo respeito, e, assim como eu, o povo de meu Estado tem profundo respeito pelas lideranças do Alto Santo, da Barquinha e da União do Vegetal. Todos eles inclusive têm vários centros, tanto na capital como em vários municípios do Acre.

A Madrinha Peregrina, pessoa simples e cativante, trabalha com dedicação e afinco para dar esperança e conforto às centenas de pessoas que lhe procuram. Viúva do Mestre Irineu, constitui-se como uma referência espiritual, uma liderança do povo acriano. É uma senhora que criou seus filhos, inclusive os de coração, com um brilhantismo que é exemplo para muitas mães em nosso Estado. Amável e, ao mesmo tempo, austera quando precisa, orienta para que os signatários do Alto Santo e do Santo Daime sejam respeitosos e se comportem bem na sociedade do Acre e do Brasil inteiro.

Relembro Toinho Alves e Altino Machado, jornalistas de grande prestígio no meu Estado, que se firmam com as palavras dessa grande mulher, madrinha Peregrina, quando fazem a defesa do Santo Daime.

Vejo também no meu Acre, uma liderança jovem, Francisco Araújo, uma pessoa carismática. Sendo o responsável pela Barquinha, orienta, afaga e dá esperança a quem o procura. Tem em volta de si pessoas simples, profissionais das mais diversas áreas. É um grande acriano que tem contribuído para que o respeito e o uso sério do chá ayahuasca seja uma constante no nosso Estado, no Brasil e no mundo.
Refiro-me ainda à irmandade da União do Vegetal e à Mestre Pequenina, amazônida, mulher guerreira que enfrentou os desafios da floresta junto com o seu esposo, Mestre Gabriel.

Esse exemplo de mulher, junto com a direção da UDV, faz com que os discípulos que estão em todos os Estados brasileiros, na América do Norte e na Europa sigam a orientação do grande criador daquele centro.

Tenho ainda, Sr. Presidente, Sras. e Srs. Parlamentares, meus padrinhos de batismo — tanto o padrinho Gaim, como a madrinha Maríades — , que lá em Porto Walter, quando fui batizada na Igreja Católica, me acolheram como filha. A eles, ao Edson Lodi, ao Edson Saraiva, uma das autoridades da medicina e meu médico, e aos inúmeros amigos que tenho no Acre, dedico este pronunciamento desta tribuna do Congresso Nacional.

Continuem e sigam em frente, porque foi em busca dessa liberdade de credo que sempre nós, comunistas, e o povo brasileiro lutamos.

O exemplo dado pela natureza — desde a mais robusta sumaúma até a mais simples planta na floresta, ao canto dos pássaros e ao nadar dos peixes — afirma que é válido e honroso lutar por dias melhores e garantir o inalienável direito de construírem uma espiritualidade onde o amor e o respeito ao próximo sejam práticas quotidianas.

Por fim, tomo emprestada uma frase do Toinho Alves, um hoasqueiro de fino trato, um poeta lá do meu Acre, que diz:
Nós, que habitamos as cabeceiras dos rios da Amazônia, podemos mostrar ao mundo que bebe nossas águas o quanto é válido e necessário nos desenvolvermos com a natureza e constituirmos uma nova prática de vida. Seja a florestania, o jeito de viver na floresta, a prática desse novo milênio.

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Parlamentares, eu esperei alguns dias para fazer este pronunciamento, colocando o uso religioso da ayahuasca no meu Estado e em alguns outros centros brasileiros como referência da minha sociedade, lá da nossa comunidade e de nosso pequeno Acre.

Sou católica, mas respeito as diversas religiões, sou defensora dos diversos credos. Não sou usuária do chá, mas tenho a responsabilidade, acriana e amazônida que sou, de vir a esta tribuna prestar a minha homenagem aos centros existentes no Acre e aos diversos centros no País e no mundo. O Brasil já superou a fase em que os comunistas eram perseguidos por defenderem o PCdoB, o PCB e outros partidos comunistas da época.

Acredito também que o Brasil já superou a fase em que os usuários da ayahuasca eram discriminados, maltratados e inclusive presos. Lá no Acre, existe uma escola pública na comunidade da Barquinha, porque, há pelo menos 40, 50 anos, os filhos de usuários do chá ayahuasca sequer podiam frequentar as escolas públicas, porque eram ali discriminados, e os pais buscaram uma forma de educá-los.
O Estado do Acre reconhece ali uma escola que esteve a serviço da educação, de bem orientar o nosso povo. Naquele centro — além de ser um centro histórico, como o de Alto Santo e de algumas comunidades, a exemplo da União do Vegetal — , existe aquela escola que serve à comunidade acriana.

Hoje, as comunidades do uso da ayahuasca no Acre convivem pacificamente com as demais comunidades religiosas do meu Estado. Este é o nosso desejo: a busca de liberdade de credo.

Por isso, Sr. Presidente, volto a dizer, amazônida que sou — inclusive por ter o privilégio de ter centenas de amigos nas comunidades usuárias do chá, alguns que trabalham diretamente conosco, muitos que pertencem ao meu partido, o PCdoB — , senti-me na obrigação de vir aqui prestar a minha homenagem, o meu respeito e o meu reconhecimento aos usuários do chá ayahuasca.

Continuarei a lutar neste Congresso para que o Ministério da Cultura, por meio do IPHAN, reconheça o uso religioso da ayahuasca como única religião genuinamente amazônida e que ela seja reconhecida como patrimônio imaterial do povo brasileiro. O mínimo que se pode fazer hoje é o reconhecimento dessa religião e dessas comunidades religiosas.

Sr. Presidente, não podemos de forma desrespeitosa e preconceituosa achar que os atos de pessoas com problemas psicológicos, como é o caso do assassino do nosso amigo Glauco, sejam ligados ao uso da ayahuasca. Não podemos tratar a situação dessa forma. Há de se respeitar a forma correta como se utiliza o chá nas comunidades religiosas não só do Acre, mas de muitos centros urbanos do País.

Em nome do Francisco, da Mestra Pequenina, da Madrinha Peregrina, presto minha homenagem e, ao mesmo tempo, deixo registrado o meu respeito a todos os usuários da ayahuasca em qualquer da Amazônia brasileira, em qualquer lugar deste Brasil ou deste planeta.

Que essa grande irmandade esteja entre todos eles, entre todos nós, e que o respeito e a liberdade de credo sejam o nosso marco e o nosso guia.

Muito obrigada.

(Obs.: texto sem revisão da oradora.)

domingo, 18 de abril de 2010

Reportagem sobre Alucinógenos no Fantástico !

Acabou de sair uma boa reportagem sobre Alucinégenos no Fantástico, segue abaixo um link para quem quiser assistir:



Alucinógenos são usados em tratamento de doenças psíquicas

A psilocibina foi descoberta pela ciência nos anos 1950, banida nos anos 1960, em meio à febre das drogas psicodélicas. Agora redescoberta, legalmente, nos laboratórios.

A ciência acaba de fazer as pazes com drogas proibidas há muitas décadas. Pesquisadores voltam a apostar nas substâncias alucinógenas, que alteram a consciência e provocam visões, para tratar de distúrbios como depressão, ansiedade e transtornos de compulsão.

A substância proibida que fez uma revolução na vida do aposentado Clark Martin é um alucinógeno encontrado em mais de cem espécies do chamados cogumelos mágicos.



A psilocibina foi descoberta pela ciência nos anos 1950, banida nos anos 1960, em meio à febre das drogas psicodélicas. Agora redescoberta, legalmente, nos laboratórios.

Nem a psicanálise nem todos os remédios da medicina moderna. Como nada curava a depressão, depois de anos com um câncer no rim, o aposentado se ofereceu como voluntário em uma pesquisa da Universidade John Hopkins, uma das mais respeitadas dos Estados Unidos. E teve, pela primeira vez na vida, uma experiência alucinante.

No laboratório, recebeu uma cápsula com psilocibina - a mesma substância dos cogumelos, só que na forma sintética. Deitado, com uma venda nos olhos, passou seis horas ouvindo música clássica. Foi uma viagem completamente segura.



"No começo é muito assustador, porque todas as imagens e representações da realidade são de certa forma desligadas, elas começam a se dissolver”, diz o psicólogo aposentado.

Cenas multicoloridas e formas completamente estranhas. Os relatos de usuários de alucinógenos, a doideira da música dos Beatles, não foi exatamente assim na experiência científica.

"Não vi cores, não tinha nenhuma sensação ou pensamento na minha cabeça, era um vazio, e eu não me sentia drogado. Lembrei agora do sentimento que tive enquanto estava sob efeito da substância: minha filha e todos os meus velho amigos", descreve.

Depois disso, o aposentado parou de ter medo da morte e resolveu um enorme problema: "Eu era muito inacessível para a minha filha, e quando eu estava sob os efeitos da psilocibina, me dei conta de que o que ela precisava de mim não era orientação, era meu amor e minha compreensão", lembra. "Minha vida começou a mudar naquele momento, mas continua, porque o efeito continua sendo reforçado. A maneira como o cérebro processa as coisas fica diferente", diz.

A experiência que mudou radicalmente, e para melhor, a vida do psicólogo aposentado Clark Martin fez parte de um dos maiores estudos com alucinógenos já realizados nos Estados Unidos. Depois de mais de 40 anos de proibição, um pequeno grupo de cientistas recebeu autorização para lidar com substâncias que sempre foram vistas com desconfiança.

O doutor Charles Grob é responsável pela pesquisa com psilocibina na Universidade da Califórnia, em Los Angeles.



"Não temos uma droga milagrosa. Temos um modelo de tratamento que pode ser muito efetivo, até mesmo em pacientes que não têm bons resultados com os medicamentos convencionais", explica Charles Grob.

Foi ainda no século passado que a ciência descobriu a força dos alucinógenos. Mas os exageros transformaram as substâncias psicodélicas em drogas malditas. Agora, só vencendo muito preconceito para transformar a pesquisa em tratamento.

"Da maneira que imagino - e estamos décadas distantes disso - haverá centros de tratamento onde as pessoas poderão ser auxiliadas em uma experiência com substâncias como psilocibina", comenta Charles Grob.

A estátua de louvação ao cogumelo teria mais de dois mil anos. Foi encontrada no México, de onde chegaram também as primeiras notícias sobre as propriedades medicinais da psilocibina. Paul Stamets já descobriu cinco novas espécies do tal cogumelo mágico.



Paul é um dos maiores especialistas em cogumelo do mundo e comemora as novas pesquisas científicas: "Acredito muito na evolução da consciência e vejo isso como um passo importante em nosso avanço no uso de substâncias naturais para ajudar na saúde mental das pessoas."


O ilustre morador da floresta concorda com outros pesquisadores: acha que a ciência já perdeu tempo demais ignorando uma substância tão misteriosa quanto promissora.



domingo, 28 de março de 2010

HISTÓRIA DA CANNABIS

A Cannabis Sativa é uma das mais antigas plantas psico-ativas conhecida pelo homem,sua adaptação a quase todos os climas do globo terrestre e diferentes solos, foi a força motriz de sua proliferação na sociedade. Seja como recreação, medicamento ou matéria prima de diversos artigos industriais. A erva já caminha com a humanidade há alguns milênios. Confira os principais eventos históricos da maconha, ou pelo menos do que se tem registro.

• 8000 A.C.

K(a)N(a)B(a), assim chamada pelos antigos sumérios, deu origem a palavra Cannabis.

• 6000 A.C.

Suas sementes forneciam grande parte das necessidades nutricionais na china.

• 4000 A. C

Tecidos feitos com a erva foram usados na China. Foram encontradas fibras de maconha neste período e também no Século I na Turquia.

• 2727 A. C.

Primeiro registro da maconha sendo utilizada pela medicina como fármaco. Em diversas partes do mundo a humanidade tem utilizado a maconha para curar os mais diversos problemas de saúde.

• 1500 A. C.

A maconha é cultivada na China para alimentação e vestuário. Suas fibras eram utilizadas para se tecer os mais finos panos.

• 1200 – 800 A.C.

A planta da maconha é citada no Atharva Veda, livro sobre medicina sagrada para os hindus, como uma das 5 ervas mais sagradas da Índia. Era usada na medicina e em rituais de oferenda para Shiva.

• 700-600 A. C.

O Zend-Avesta, livro sagrado para a religião persa , composto por diversos volumes, se refere à maconha como um bom narcótico.

• 700-300 A. C.

Tribos bárbaras deixam folhas da erva em tumbas como uma oferenda aos mortos.

• 500 A. C.

As tendas dos bárbaros eram decoradas com folhas de Cananabis.

• 500 A. C.

A erva é introduzida no norte da Europa pelos bárbaros. Uma grande quantidade de folhas e sementes da planta datada desta época foi encontrada próximo a Berlim na Alemanha.

• 500 – 100 A. C.

A maconha se espalha pela Europa.

• 430 A. C.

O filósofo grego Heródoto registra o uso da maconha como recreativo e ritualístico .

• 100 – 0 A. C.

As propriedades psicotrópicas da maconha são mencionadas no livro sobre ervas do inperador chinês Pen Ts´ao Ching.

• 70

Dioscorides menciona o uso da maconha como medicamento romano.

• 170

O romano Galeão declara os efeitos psicológicos do uso de semente de maconha.

• 500-600

O Talmud judeu menciona a sensação de euforia ao utilizar maconha.

• 900 – 1000

Estudiosos debatem os prós e contras de se comer maconha. Seu uso é difundido pelas arábias.

• 1090-1256

Na Pérsia, o velho da montanha convocava comitivas de homens para se tornarem assasssinos. Esta lenda se desenvolveu , associando os assassinos ao uso de haxixe. Esta lenda foi descrita em diversos contos que relatavam os inebriantes efeitos da Cannabis e dos usos do haxixe.

• 1200

A Cannabis é introduzia no Egito durante a dinastia de Ayyuib na ocasião em que o país foi influenciado por místicos devotos da erva oriundos da Síria.

• 1155-1221

A lenda persa do mestre sufi, o Shiek Haidar´s ok Khorasan´s declara como descoberta pessoal a Cannabis e sua subseqüente difusão pelo Iraque, Egito e Síra. Muitas narrativas da época declara que o uso da maconha é inebriante.

• 1200

A monografia mais antiga sobre o haxixe foi escrita. Seus escritos, infelizmente, perdidos.

• 1200

Os árabes levam plantas da erva para à costa de Moçambique na África.

• 1231

O haxixe é introdizido no Iraque pelo calife Mustansir.

• 1271-1295

Durante os relatos da viagem de Marco Polo ao oriente ele relata a história dos assassinos do velho da montanha e do uso de haxixe feito pos estes. Foia primeira vez que um relato sobre a Cannabis teve repercussão na Europa.

• 1378

O otomano Emir Soudoun Svheikouuni foi o primeiro soberano a se manifestar contra o uso do haxixe para aliemntação.

• 1526

Babur Nana, o fundador do império Mouro, aprende sobre o uso do haxixe no Afeganistão.

• 1549

Escravos angolanos trazem brotos de Cannabis para as plantações de cana-de-açúcar no nordeste do Brasil. Os senhores permitiam que eles plantassem Canabis entre as canas e que fumassem ela durante a colheita.

• 1550

O poema épico Benk u Bode, escrito por Mohameed Ebn Soleimam Foruli, de Bagdá, desenvolve uma alegoria dialética a respeito da batalha entre o vinho e o haxixe.

• 1600

O uso de haxixe, álcool e ópio se dissemina pela população de Costantinopla.

• 1606-1632

Os franceses e britânicos cultivam a erva de cannavis nas colônias de Port Royal, Virgínia e Plymouth.

• 1690

O haxixe se torna a principal moeda de troca entre a Ásia central e o sul da Ásia.

• 1798

Napoleão dercobre o habitual uso de haxixe pelos egípcios. Ele proíbe seu uso, mas os soldados retornam a França com a tradição de seu uso.

• 1800

A produção de haxixe se expande pela Rússia e China.

• 1809

Antoine Sylvestre, um estudioso árabe , associa a eimológia das palavras haxixe e assassino.

• 1840

Na América, a preparação medicinal da cannabis é permitida. O haxixe se encontra a venda em farmácias persas.

• 1841

É inaugurado o clube do haxixe em Paris, França.

• 1843

O haxixe aparece na Grécia.

• 1870-1880

Primeiro relato do fumo de haxixe na Grécia. O cultivo da erva é difundido pela região.

• 1890

O governo grego poribe o uso e cultivo do haxixe. O haxixe se torna ilegal na Turquia.

• 1893- 1894

É criado, na Índia, um comitê de drogas feitas de maconha.

• 1893-1894

80 toneladas de haxixe são legalmente importandas da Ásia Central para aÍndia.

• 1906

É regularizado, na Ásia, o comércio de produtos que contenhma álcool, ópio, cocaína, Cannabis, entre outros.

• 1910

No Oriente Médio, o fumo de haxixe é extremamente popular.

• 1915-1927

A maconha se torna proibida nos estados americanos de Califórnia, Texas. Louisiania e Nova Iorque.

• 1920

Metaxus, ditador grego, proíbe o uso de haxixe.

• 1920

Haxixe é proibido no Egito, Grécia, Turquia e Ásia Central.

• 1926

A produção libanesa de haxixe é proibida.

• 1928

O uso recreativo da cannabis é proibido na Inglaterra.

• 1920-1930

Uma maconha de alta qualidade é produzida na Turquia na região de fronteira com a Grécia.

• 1930

A China exporta cerca de 90 toneladas de haxixe legalmente para a Índia.

• 1930

Os impostos sobre haxixe continuam sendo cobrados legalmente na índia e Ásia Central.

• 1934-1935

O governo chinês acaba com os cultivos de Cannabis, assim como seu tráfico. O haxixe produzido legalmente e ilegalmente se torna totalmente ilegal em toda a China.

• 1936

Uma porpaganda produzida pelo governo norte-americano tem como objetivo evitar que jovens se utilizem de maconha

• 1937

A maconha se torna ilegal em todos os estados na América do Norte

Samuel R. Caldwell, um pequeno fazendeiro, é a primeira vitima da proibição da maconha. Foi sentenciado a cadeia no dia 2 de outubro de 1937.

• 1938

O estoque de haxixe na China quase se esgota.

• 1940

A tradição grega de fumar haxixe cai por terra.

• 1941

O governo indiano considera cultivar haxixe na região da Kashemira, já que a produção chinesa sessou.

• 1941-1942

A região do Nepal se torna fornecedora de haxixe para a Índia durante a Segunda Guerra Mundial.

• 1945

O consumo de haxixe continua legalizado na Índia.

• 1945-1955

O uso de haxixe floresce na Grécia novamente.

• 1950

O comércio de haxixe entre Índia e China continua proibido.

• 1962

Marrocos produz sua primera leva de haxixe.

• 1963

A polícia turca apreeende 2,5 toneladas de haxixe.

• 1965

Primeiro relato da produção de haxixe no Afeganistão.

• 1965

O Governo marroquino destrói todas as plantações de Cannabis em sua cadeia de montanhas.

• 1967

O primeiro óleo a base de haxixe é produzido na Califórnia.

• 1969

O haxixe afegão se populariza

• 1970-1973

Imensos campos de Cannabis são cultivados pelo Afeganistão. Muitos anos depois, a produção desse cultivo estaria disponível à venda.

• 1972

O governo do presidente norte-americano Richard Nixon estuda que o uso medicinal da maconha seja legalizado, mas o pedido é negado. Pesquisas médicas sobre o assunto dão continuidade.

• 1973

Uma maconha libanesa de alta qualidade é exportada pela Europa.

• 1973

A produção da varoação afegã da maconha é introduzida na América do Norte.

• 1973

O Nepal bane as lojas de canabis, bem como sua exportação.

• 1973

O governo afegão torna a produção e venda de haxixe ilegal

• 1975

As nações unidadas criam um comitê para estudar o uso medicinal da maconha.

• 1978

Algumas plantações de Cannabis ainda são encontradas pelo Nepal, apesar da proibição.

• 1980

O Marrocos é um dos poucos países há ainda produzir e exportar maconha.

• 1980

Haxixe é produzido na fronteira do Paquistão com o Afeganistão durante a guerra entre soviéticos e afegãos.

• 1980

A qualidade do haxixe libanes decai.

• 1983-1984

Algumas levas de haxixe turco de alta qualidade aparecem no mercado.

• 1985

Uma pequena produção de haxixe é feita ilegalmente na China.

• 1986

Os estoques de haxixe afegãos se esgotam completamente na Holanda e América.

• 1987

O governo marroquino novamente destrói cultivos de Cannabis em seu território.

• 1988

O uso medicinal de maconha é legalizado pelas Nações Unidas.

• 1993

A maconha é erradicada totalmente do Marrocos.

• 1994

A produção de haxixe ainda é feita na fronteira do Paquistão.

• 1995

Amsterdam cria os coffe-shops para uso e apreciação de maconha.

• 2001

O secretário de Estado da Inglaterra, David Blunkett, propõe que a maconha não seja mais classificada como droga ilegal mas seu pedido é negado.

• 2003

O Canadá torna-se o primeiro país no mundo a utilizar marijuana de forma medicinal.

• 2004

A Inglaterra libera o uso da maconha.

•2005

Coffee shops holandeses,onde há venda e consumo legal de derivadas da cannabis, são fechados.

•2008

Califórnia aprova a venda de maconha para pacientes que consomem a droga para fins medicinais..A Inglaterra volta atrás e proíbe a maconha, devido ao cenário de descontrole que se instalou no país.

•2009

Dallas abre o primeiro restaurante que serve maconha em seus pratos.

sábado, 27 de março de 2010

Supremo Tribunal Federal é instado a se manifestar sobre legalização da Cannabis

Associação Brasileira de Estudos Sociais do Uso de Psicoativos apresenta considerações na qualidade de Amicus curiae, em processo que tramita no STF sobre Cannabis

Notícia enviada por Mauro Chaiben (mauro@mauriciocorrea.adv.br)

Tramitam no Supremo Tribunal Federal duas ações propostas pela Procuradoria-Geral da República – ADPF 187 e ADI 4274 –, as quais trazem à baila antiga celeuma jurídica no que diz respeito ao crime de apologia versus liberdade de expressão, envolvendo grupos que militam a favor de mudanças nas políticas públicas acerca do uso da maconha.

Em março deste ano, a Associação Brasileira de Estudos Sociais do Uso de Psicoativos – ABESUP protocolou na Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental suas considerações na qualidade de amicus curiae (amigo da corte). Pedido idêntico será protocolado na outra ação, tão-logo o relator admita o ingresso da associação no feito.

Além do cerne da questão propriamente dito, as razões apresentadas pela associação sugerem ao Supremo Tribunal Federal avançar em temas ainda pouco debatidos pela sociedade em geral, como a possibilidade do cultivo caseiro, do uso medicinal, terapêutico e religioso e, ainda a utilização da Cannabis como insumo na produção de bens de consumo.

Espera-se que a Corte Suprema avalie todas as questões suscitadas, interpretando os princípios fundamentais consagrados na Constituição brasileira, sem que isso enseje invasão das competências dos Poderes Legislativo e Executivo.

A proposta mantém incólume a Lei 11343/2006 – sobre o uso e tráfico de drogas – e, ao mesmo tempo, apresenta uma solução ponderada, de modo que o STF poderá, se preferir, tão-somente interpretar os valores constitucionais envolvidos e, após essa definição, eventuais interessados nos temas poderão buscar a devida regulamentação via SENAD/CONAD, seguindo caminho idêntico ao traçado pela ayahuasca.

MTV Debate : Daime: droga ou religião? (23/03 - Na íntegra)

http://mtv.uol.com.br/debate/naintegra/2303-daime-droga-ou-religiao

Vale a pena dá uma olhada, as opiniões do Carlos Maltz são bem sinceras !

[LIVRO] Drogas e Cultura - Novas Perspectivas.


O livro contra com texto de apresentação assinado em parceria com Gilberto Gil. A organização foi feita pelo professor Henrique Carneiro e tem participação, dentre outros, do doutor em antropologia social, Edward MacRae.
Drogas e Cultura: Novas Perspectivas.

Editora: EDUFBA
Apoio: MinC e Fapesp
ISBN: 978-85-232-0504-1
Formato: 17 X 24 cm, ilustrado – 440 p.
Preço: R$ 40,00
ORELHA DO LIVRO :

Luiz Eduardo Soares (Professor da UERJ e da Universidade Cândido Mendes; Secretário de Valorização da Vida e Prevenção da Violência do Município de Nova Iguaçu).

Drogas são um tema paradoxal e enigmático. Importantíssimo, onipresente no dia a dia, capaz de sensibilizar, mobilizar, provocar controvérsias, alterar o rumo de disputas eleitorais, disseminar dissensos, inquietar autoridades, perturbar famílias, desestabilizar a ordem pública; ainda assim, quase ausente da pauta política e da agenda acadêmica –se excetuarmos esforços isolados de pioneiros e desbravadores. Nenhum repertório das grandes questões nacionais e globais estará completo sem a inclusão das drogas; entretanto, por mais extraordinário e surpreendente que seja, permanecem raríssimas as incursões intelectuais e políticas mais ousadas, que as tratem com profundidade e consistência, para além dos preconceitos. Paira esta curiosa e lamentável maldição sobre o tema, envolvendo-o em silêncio, cúmplice da irracionalidade que domina seu tratamento oficial mais freqüente.
Por isso, louve-se a iniciativa de Beatriz Caiuby Labate, Sandra Goulart, Maurício Fiore, Edward MacRae e Henrique Carneiro, pesquisadores do NEIP (www.neip.info), que organizaram este volume, e a participação qualificada de seus autores, graças aos quais um dos debates essenciais de nosso tempo sairá do armário, do ostracismo, da negligência. Trata-se de uma contribuição de muitos méritos, que se tornará referência tanto para os estudos acadêmicos, quanto para a reflexão pública, que mobiliza audiências mais amplas.
Os ensaios aqui reunidos nos ensinam que as drogas, as dinâmicas de sua produção e os circuitos de sua circulação semântica, conceitual-científica, econômica, social, religiosa, política, estética, psicológica, ideológica e simbólica constituem fenômenos complexos, multidimensionais, que exigem abordagens transdisciplinares. Em uma palavra, as drogas não existem; são invenções datadas, cujos significados variam conforme os contextos culturais, seus repertórios específicos, seus vocabulários particulares. Drogas são ministradas por médicos ou xamãs; são objeto de fruição individual ou coletiva; servem para excluir, excomungar, reprimir, prender ou violentar os que as consomem ou os que não as consomem, conforme o caso; são sacralizadas em rituais místicos; são institucionalizadas em celebrações familiares e sociais; são objeto de consumo; têm valor comercial; são alvo de legislações; saberes; terapias. Elas são criadas por dispositivos prático-discursivos, historicamente constituídos, os quais acionam regras morais, categorias de acusação, exercícios de poder, estratégias econômicas, padrões de fruição, linguagens que organizam a consciência e a sensibilidade, orientações valorativas e experiências de sociabilidade.
Abrindo-se a esta quase ilimitada pluralidade de apropriações, as drogas carregam consigo um potencial extraordinariamente rico para quem se disponha a pensar as sociedades. Talvez por essa razão represente risco, perigo, ameaça e incerteza. Fonte de prazer e de morte, as drogas nos interpelam e, pela mediação do presente livro, exigem que as incluamos no centro de nossa agenda política e intelectual.

segunda-feira, 15 de março de 2010

A Ketamina está se tornando a droga favorita das classes altas inglesas

O jornal The Independent declarou esta semana que a "Ketamina tirou o lugar da cocaína como nova droga predileta", após novos dados publicados pela instituição de caridade britânica DrugScope revelarem que os preços estão caindo drasticamente, enquanto o número de usuários aumenta.

"K está se tornando muito popular", declarou Martin Barnes, principal executivo da DrugScope. "É uma droga que muitas pessoas estão falando", acrescentou.

A história apareceu no The Independent duas semanas após o Daily Mail marcar o Special K "a nova droga de escolha entre alta sociedade" num artigo explicando "por que os ricos estão trocando a cocaína pela mortífera droga ketamina".

"Antes reservada apenas aos clubbers mais hardcor, o consumo deste produto químico triplicou ao longo da década passada e este ano se tornou imensamente popular entre as classes altas da Grã-Bretanha," a correspondente disfarçada do Mail Topham Laura revelou.

"Embora doses leves causem euforia e aumentem a energia, maiores quantidades deformam a realidade com alucinações e delírios. Às vezes os usuários se encontram em um 'buraco-K" (K-hole) - um estado semi-consciente em que se encontram completamente a parte do mundo externo, praticamente paralisados e incapazes de falar.

"Mas, inacreditavelmente, estes resultados perturbadores são exatamente o que os usuários querem", ela acrescentou.

O viciado auto confesso David Eggins falou abertamente de suas próprias experiências para o Guardian, em abril do ano passado, descrevendo os terríveis problemas urinários e cãibras abdominais depois de ingerir grandes quantidades.

"Eu já estive em um estado cósmico, me comunicado com forças universais que são os nossos verdadeiros deuses, que me disseram que a morte deve ser encarada como o próximo nível de tudo. Tudo besteira, evidentemente, mas eu nunca tive esse tipo de coisa com a cocaína", confessou ele, descrevendo suas experiências inicialmente eufóricas.

"A maioria das pessoas que experimentam não vão desenvolver quaisquer problemas maiores, mas uma minoria de utilizadores fica muito doente", disse ele, "Um amigo meu perdeu tanto controle sobre a sua bexiga que ele teve que colocar um catéter quando tinha 21 anos, e lá se vão muito mais casos como este. Ele também não sabia que era um viciado", acrescentou.Depois do artigo do mês passado, David admitiu ainda estar utilizando ketamina "a cada quinze dias" e que tem sido "uma constante por mais de um ano", disse ele, em uma triste admissão do impacto que a ketamina continua a ter em sua vida.

"Sei que as pessoas me odeiam por isso, mas é a única hora em que eu vejo algo de bom na minha vida", ele explicou, "Me faz pensar que tudo vai ficar bem, que eu não arruinei minha vida completamente e que eu não estou destinado a ficar sozinho ", disse ele.