Psicodélico

quinta-feira, 24 de julho de 2008

10 Dicas Básicas no Cultivo de Cactos


10 Dicas Básicas no Cultivo de Cactos

1) Não exagere na água
Não enxarque os cactos, isso é muito importante!
Durante o período de crescimentos, os cactos precisam de mais água do que no período de dormência. Como regra geral para plantas, só deve ser regadas quando o solo estiver seco da rega anterior. Tenha sempre certeza que os furos de drenagem não estão obstruídos. Durante o período de dormência (inverno) as plantas devem ser regadas. Excesso de água causa danos as raizes. Em caso de dúvidas é mais seguro esperar alguns dias, tenha em mente que cacto em ambiente natural passam por longos períodos de secas e eles não são "projetados" para se desenvolverem em solos constantemente molhados.

2) Coloque o cacto em um local luminoso
A maioria dos cacto se desenvolvem melhor quando recebem pelo menos algumas horas de sol pleno por dia durante a época de crescimento. Isso não quer dizer que eles não crescam em uma janela virada para o norte, mas se desenvolverão mais devagar e menores. Em todo caso, pode-se deixá-lo perto de uma janela. Não espere que um cactus no meio da sala irá crescer de forma adequada. Cacto que não receberem luz o suficiente, irão "estiriolar", irão se esticarem em busca de luz e apresentarão cores verde claro ou em casos extremos amarelo/branco. A região estiriolada é muito mais fina que o normal e será sempre visível mesmo após o cacto voltar a crescer em condições ideais. Não coloque mudas jovens expostas diretamente ao sol! Se elas se tornarem rosa/roxa estão recebendo muita luz.

3) Use um fertilizante especial para cacto
Ferilizantes liquidos podem ser usados espirrando (via borrifador) somente na faze de crescimento ativo. Use um fertilizante com baixos níveis de nitrogênio como 5-10-10 (NPK) ou similar a cada 2-3 meses. Os fertilizantes para cactus disponíveis também servem desde que tenham baixos níveis de nitrogênio.

4) Use um solo especial para cactos
Os substratos para solos disponíveis normalmente, não servem para a maioria dos cactos, esses substratos ficam demasiadamente molhados, o que promove danos as raízes a a haste.
Na maioria dos paises é possível comprar substrato próprio para cactos em lojas de jardinagem.

5) Use o vaso certo
Quando for trocar de vaso, troque por outro um pouco maior que o atual. Se o cacto vier sem um vaso, olhe o tamanho da "bola de raízes" (rootball) e use um vaso que seja cerca de 1 cm maior dos lados e o fundo. Um vaso muito grande pode levar ao enxarcamento do solo e irá danificar a raiz. Certifique-se sempre de haver furos no vaso para que ocorra a drenagem. Se tiver de escolher entre vasos de plástico ou argila, considere que nos vasos de argila, você terá de regar duas vezes mais do que nos de plásticos. Para iniciantes, os potes de argilas são os mais indicados pois drenam o solo mais rápido evitando o exarcamento do mesmo. Sob condições de muito calor os vasos de argila podem se tornar inviável por secar muito rápido o solo.

6) Regue seus cactos por baixo
Para se prevenir o surgimento de pontos na haste e nas raízes, as regas devem ser feitas preferencialmente por baixo do cacto. Coloque o vaso com o cacto em cima de uma tigela ou pote e adicione água na tigela. O solo irá absorver a água por baixo e manterá a haste seca. Descarte a água que sobrar após alguns minutos (se sobrar). Em caso das plantas estarem a pleno sol e a rega for feita por cima, poderão ocorrem queimaduras, visto que as gotas atuam como mini-lentes concentrando os raios solares.

7) Preste atenção quanto as pestes
A maioria dos insetos são branco / cinzas de cerca de 3mm de largura. Plantas infectadas geralmente ficam cobertas com "wooly spots" e uma substância de aspecto viscoso que é deixada pelos insetos. Pequenas infestações podem ser controladas sem o uso de pesticidas, simplesmente removendo a parte infectada com um estilete ou bisturi. Não recomendamos o uso de álcool no tratamento dessas plantas.
Grandes infestações podem ser tratadas com inseticida, sempre observando as normas de segurança e regulamentos locais sobre o uso de inseticidas.

8) Não atrapalhe o aparecimento de brotos e a floração
Se você quiser que os seus cactos apresentem flores, você não poderá movê-lo ou virá-lo durante a formação dos brotos. Choques fortes durante a formação podem fazer que os cactos perca todos os brotos.

9) Não regue demais o seu cactos!
Só para ter certeza que você não esqueceu: Não regue demais o seu cacto!

10) Relaxe
Não se preocupe, cactos são uma das plantas mais fáceis e resistentes de serem cuidadas. Em caso de dúvida se deve ou não regar, apenas não regue. Seria exagero dizer que cactos se desenvolvem mesmo quando negligenciado, mas existe uma certa verdade nisso.

Fonte: mushmush.nl/

Quanto tempo uma experiência deve continuar até ser declarada um fracasso? (por exemplo, a proibição das drogas)

Quanto tempo uma experiência deve continuar até ser declarada um fracasso?
(por exemplo, a proibição das drogas)


David Borden


Para a lei seca, nossa versão estadunidense, durou cerca de 13 anos. Entre os crimes da máfia, as intoxicações por bebidas adulteradas e a idade declinante em que o pessoal virava alcoólatra, os estadunidenses decidiram que a “Nobre Experiência” – quer deva mesmo ser considerada nobre ou não – era uma idéia ruim. E lhe deram fim. O Estado de Nova Iorque fez a parte dele há 75 anos hoje, ratificando a 21ª emenda para revogar a 18ª, aproximando a Constituição de sua restauração. Foi necessário outro meio ano, até o dia 05 de dezembro, para convencer os 36 estados necessários na época a fazer o trabalho. Mas, os estadunidenses dos anos 1930 reconheceram o fracasso da experiência da lei seca e tomaram providências ao promulgar a legalização do álcool.
O industrialista John D. Rockefeller descreveu a evolução de seu pensamento que conduziu ao reconhecimento do fracasso da proibição em uma famosa carta de 1932:
“Quando a Lei Seca foi apresentada, eu esperava que ia receber o respaldo geral da opinião pública e que um dia os maus efeitos do álcool seriam reconhecidos. Devagar e com relutância, cheguei a acreditar que este não tem sido o resultado. Em troca, a bebida aumentou em geral; o bar clandestino substituiu a taberna; apareceu um tremendo exército de transgressores; muitos de nossos melhores cidadãos ignoraram a Lei Seca abertamente; o respeito pela lei foi grandemente reduzido; e a criminalidade aumentou a um nível nunca dantes visto”.
No contexto da principal proibição de hoje – o combate às drogas -, é importante perceber que aquelas outras drogas foram ilegalizadas mesmo antes do álcool. Foi no dia 17 de dezembro de 1914, quando a Lei Harrison sobre os Entorpecentes [Harrison Narcotics Act] foi aprovada pelo Congresso dos EUA – a propósito de uma lei regulatória para sincronizar o sistema dos EUA com o novo que era adotado pelos países ao redor do mundo. Mas, a força pública a interpretou como se proibisse as drogas – a coca, a papoula e seus derivados como a heroína e a cocaína eram as substâncias em questão naquele então – e se saiu com a sua.
O que quer dizer que as drogas têm sido ilegais há quase um século. E, contudo, apesar do século de proibição – cem anos combatendo o ópio -, o Talibã deu um jeito de ganhar cem milhões com ele no ano passado, tal é a quantidade que ainda se consome. Nos EUA, o índice de dependência é mais alto hoje do que se acredita ter sido no fim do Século XX e embora outras coisas que certamente mudaram podem ter afetado o consumo de drogas, caso se trave um “combate” para acabar com o consumo de drogas, caso a dependência tomar a direção contrária, então há um problema. Um exemplo recente de como os resultados são o contrário do que se pretendera são os preços da cocaína nas ruas das cidades estadunidenses, que, de acordo com os dados da DEA, são um quinto do que eram em 1980 quando ajustados em relação à inflação e à pureza. A meta da estratégia erradicação-interceptação-detenção-prisão é fazer com que os preços subam a fim de inibir o consumo. Ah, e as drogas também ficaram piores – quem ouvira falar da pedra de cocaína antes de 1986, 72 anos depois da aprovação da Lei Harrison?
A proibição da maconha, promulgada em 1937, é uma experiência ainda menos bem-sucedida do que a proibição dos opiáceos e da cocaína. A respeito das drogas mais pesadas, seria possível dizer que pelo menos alguns jovens encontram problemas para adquiri-las, embora, na verdade, esses sejam os garotos que não gostam de drogas. Mas, praticamente qualquer estudante de secundária nos EUA pode comprar maconha em praticamente qualquer colégio secundário dos EUA, e, em geral, de outros estudantes. Quando garotos vendem drogas a outros garotos e isso acontece EM TODO LUGAR, qual é o resultado da experiência? Qual é sua conclusão? É preciso mesmo mais pesquisa a esta altura?
Não, não é preciso. As descobertas acerca da experiência da proibição das drogas são conclusivas – é um fracasso. E embora muitas das pessoas que travam o combate às drogas achem que ela é nobre, tal crença é enganosa – com meio milhão de pessoas presas nas cadeias e prisões estadunidenses por crimes ligados às drogas, a experiência da proibição é tudo menos nobre.
O dia em que legalizarmos as drogas será o dia em que poderemos começar a limpar a bagunça que a experiência da proibição das drogas criou.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Usos não terapêuticos de LSD

USO DE LSD NO DESENVOLVIMENTO
DE HABILIDADES PARANORMAIS
Stanislav Grof, M.D.
Usos não terapêuticos de LSD. Cap. 8, Psicoterapia do LSD, ©1980, 1994 por Stanislav Grof.Hunter House Publishers, Alameda, Califórnia, ISBN 0-89793-158-0.
Tradução:
André Luís N. Soares
Muitas evidências históricas e antropológicas e numerosas observações anedóticas de pesquisa clínica sugerem que substâncias psicodélicas ocasionalmente podem facilitar percepção extra-sensorial. Muitas plantas de culturas visionárias foram administradas no contexto de cerimônias de cura espiritual para diagnóstico e cura de doenças. Igualmente freqüente foi o uso delas para outros propósitos mágicos, como a localização de objetos ou pessoas perdidos, projeção astral, percepção de eventos distantes, precognição e clarividência. A maior parte das drogas usadas para estes propósitos foram mencionadas depois em relação a cerimônias religiosas. Elas incluem a resina ou folhas de maconha (Cannabis indica ou sativa) na África e Ásia; cogumelos fly-agaric dentre várias tribos siberianas e dos índios norte-americanos; A planta Tabernanthe iboga no meio de certos grupos étnicos africanos; A rapé cohoba (Anadenanthera peregrine) e epena (Virola theidora) da América do Sul e Caribe; E os três psicodélicos básicos das culturas pré-colombianas - o cactos peiote (Lophophora williamsii), os cogumelos sagrados teonanacatl (Psilocybe mexicana) e ololiuqui ou sementes de “glória matutina” (Ipomoea violacea). De interesse especial parece ser o yagé, uma bebida fermentada preparada da trepadeira Banisteriopsis caapi na selva, bem como as “vinhas dos mortos”, usadas pelos índios sul-americanos no Vale do Amazonas. Harmine, também chamado yagéine ou banisterine, um dos ativos alcalóides isolados da planta Banisteriopsis, realmente chamado de telepatina. Os estados psicodélicos induzidos pelos extratos destas plantas parecem ser especialmente incrementadores poderosos de fenômenos paranormais. O exemplo mais famoso das propriedades incomuns da yagé pode ser achado nos relatórios de McGovern (69), um dos antropólogos que descreveram esta planta. De acordo com sua descrição, um curandeiro local viu em notáveis detalhes a morte do chefe de uma tribo distante, no momento que ela estava acontecendo; a precisão de seu relato foi verificada muitas semanas depois. Uma experiência semelhante foi reportada por Manuel Cordova-Rios, (53) que com precisão viu, em sua sessão de yagé, a morte de sua mãe e depois foi capaz de verificar todos os detalhes. Todas as culturas psicodélicas parecem compartilhar a convicção que não é apenas a percepção extra-sensorial que é realçada durante a intoxicação real por plantas sagradas, mas o uso sistemático destas substâncias facilita o desenvolvimento de habilidades paranormais na vida diária.
Muitos materiais anedóticos colecionados ao longo dos anos por pesquisadores psicodélicos sustentam as convicções acima. Masters e Houston (65) descreveram o caso de uma dona de casa que na sua sessão de LSD viu a filha na cozinha procurando pelo jarro de biscoito. Ela ainda reportou ver a criança bater no açucareiro de uma estante e derramar o açúcar no chão. Este episódio posteriormente foi confirmado pelo seu marido. Os mesmos autores também reportaram um sujeito em LSD que viu “um navio preso em icebergs, em algum lugar nos mares do norte.” De acordo com o sujeito, o navio estava usando em sua proa o nome “France”. Foi mais tarde confirmado que o France tinha realmente ficado preso no gelo próximo à Groenlândia na hora da sessão de LSD do sujeito. O famoso psicólogo e pesquisador parapsicológico Stanley Krippner (49) visualizou, durante uma sessão de psilocybe em 1962, o assassinato de John F. Kennedy que aconteceu um ano depois. Observações semelhantes foram reportadas por Humphrey Osmond, Duncan Blewett, Abram Hoffer e outros pesquisadores. A literatura sobre o assunto tem sido extremamente revisada num jornal sinótico por Krippner e Davidson. (50)
Em minha própria experiência clínica, vários fenômenos sugerem que percepções extra-sensoriais são relativamente freqüentes em psicoterapia de LSD, particularmente em sessões avançadas. Elas variam de uma antecipação mais ou menos vaga sobre eventos futuros ou uma consciência sobre acontecimentos distantes de cenas complexas e detalhadas na forma de vívidas visões clarividentes. Estas podem ser associadas a sons apropriados, como palavras e frases faladas, barulhos produzidos por veículos a motor, sons de máquinas a fogo e ambulâncias ou o sopro de trombetas. Algumas destas experiências podem mais tarde demonstrar corresponder em graus variados a eventos reais. A verificação objetiva nesta área pode ser particularmente difícil. A não ser que estes exemplos sejam reportados e claramente documentados durante as sessões psicodélicas reais, existe um grande perigo de contaminação dos dados. Interpretação frouxa de eventos, distorções de memória e a possibilidade de fenômenos deja vu durante a percepção de ocorrências posteriores são algumas das principais armadilhas envolvidas.
Os mais interessantes fenômenos paranormais que aconteceram em sessões psicodélicas são as experiências fora-do-corpo e os exemplos de clarividência e clariaudiência. A sensação de deixar o próprio corpo é muito comum em estados induzidos por droga e pode ter várias formas e graus. Algumas pessoas sentem-se completamente destacadas de seus corpos físicos, pairando sobre eles ou observando-os de uma outra parte do aposento. Ocasionalmente, os sujeitos podem perder completamente a consciência do ambiente físico real e seus movimentos conscientes dentro de reinos experimentais e realidades subjetivas parecem estar completamente independentes do mundo material. Eles podem então se identificar completamente com as representações corporais dos protagonistas destas cenas, os quais são pessoas, animais ou entidades arquétipas. Em casos excepcionais, os indivíduos podem ter uma complexa e vívida experiência de mudança para um lugar específico no mundo físico, e fornecer uma descrição detalhada de um lugar ou evento distante. As tentativas para verificar tais percepções extra-sensoriais podem às vezes resultar em confirmações surpreendentes. Em exemplos raros, o sujeito pode ativamente controlar tal processo e “viajar” à vontade para qualquer local ou ponto no tempo que ele ou ela escolher. Uma descrição detalhada de uma experiência deste tipo, ilustrando a natureza e a complexidade dos problemas envolvidos, foi publicada em meu livro Realms of the Human Unconscious, p. 187. (32)
A prova objetiva, através de técnicas padronizadas de laboratório usadas na pesquisa parapsicológica, tem geralmente sido bastante desapontadora e falha em demonstrar um aumento de percepção extra-sensorial como um aspecto previsível e constante do efeito de LSD. Masters e Houston (65) testaram sujeitos em LSD com o uso de um maço especial de cartas desenvolvido no laboratório de parapsicologia da Universidade de Duke. O baralho contém vinte e cinco cartas, cada uma tem um símbolo geométrico: estrela, círculo, cruz, quadrado ou linhas onduladas. Os resultados das experiências em que sujeitos LSD tentaram descobrir a identidade destas cartas foram estatisticamente não-significativos. Um estudo semelhante conduzido por Whittlesey (102), com um experimento de adivinhação de cartas com sujeitos em psilocybin, reportado por van Asperen de Boer, Barkema e Kappers (6), foi igualmente desapontador, entretanto um achado interessante nos primeiros destes estudos foi uma diminuição notável da variância; os sujeitos realmente adivinharam muito próximo em contraposição a expectativa do acaso predita matematicamente. Descobertas não publicadas do pesquisador parapsicológico Walter Pahnke no Maryland Psychiatric Research Center sugere que a abordagem estatística para este problema poderia ser ilusória. Neste projeto, Walter Pahnke usou uma versão modificada das cartas da Universidade de Duke, na forma de painéis de teclado eletrônico. O sujeito em LSD tinha que descobrir qual a tecla que tinha sido iluminada manualmente ou por um computador num painel dentro de um quarto adjacente. Embora os resultados para o grupo inteiro de sujeitos em LSD não foram estatisticamente significativos, certos indivíduos alcançaram pontuações notavelmente altas em algumas das medidas.
Alguns pesquisadores ressoam objeções para a abordagem desinteressante e inimaginável para o estudo de fenômenos parapsicológicos representados por cartas de adivinhação repetitivas. No geral, tal procedimento não tem muita oportunidade para atrair a atenção do sujeito quando comparado a algumas das experiências subjetivas excitantes que caracterizam o estado psicodélico. Numa tentativa de fazer a tarefa mais atraente, Cavanna e Servadio (19) usaram materiais carregados emocionalmente no lugar de cartas; impressões fotográfica coloridas de pinturas incongruentes foram preparadas para o experimento. Embora um sujeito tenha se saído muito bem, os resultados globais foram não-significativos. Karlis Osis (73) administrou LSD em vários “médiuns” que recebiam objetos e pediu para eles descreverem os donos. Um médium foi extraordinariamente bem sucedido, mas a maior parte dos outros se tornaram tão interessados nos aspectos estéticos e filosóficos da experiência, ou insistiram em cima de seus problemas pessoais, que acharam difícil manter a concentração na tarefa.Sem dúvida, os dados mais interessantes foram os emergidos de um estudo piloto projetado por Masters e Houston (65) os quais usaram imagens carregadas emocionalmente com sessenta e dois sujeitos em LSD. As experiências foram conduzidas nos períodos finais das sessões, quando é relativamente fácil focar em tarefas específicas. Quarenta e oito dos indivíduos testados aproximaram-se da imagem alvo pelo menos duas de dez vezes, enquanto cinco sujeitos fizeram suposições bem sucedidas pelo menos sete das dez vezes. Por exemplo, um sujeito visualizou “ondas atiradas” quando a imagem correta era um navio Viking numa tempestade. O mesmo sujeito adivinhou “vegetação luxuriante” quando a imagem era florestas tropicais na Amazônia; “um camelo” quando a imagem era um árabe num camelo, “os Alpes” quando o retrato era o Himalaia, e “um negro escolhendo algodão num campo” quando o alvo era uma plantação no Sul.
O estudo de fenômenos paranormais em sessões psicodélicas apresenta muitos problemas técnicos. Além dos problemas de conseguir um sujeito interessado em manter sua atenção na tarefa, Blewett (12) também enfatizou o fluxo rápido de imagem eidética que interfere na habilidade do sujeito estabilizar e escolher a resposta que poderia ter sido despertada pelo alvo. As dificuldades metodológicas em estudar o efeito de drogas psicodélicas na percepção extra-sensorial ou outras habilidades paranormais e a falta de evidência nos estudos existentes não podem, porém, invalidar algumas observações bastante extraordinárias nesta área. Todo terapeuta de LSD com experiência clínica suficiente colecionou observações desafiadoras o bastante para considerar este problema seriamente. Eu mesmo não tenho nenhuma dúvida que ocasionalmente psicodélicos, durante o efeito farmacológico, podem induzir elementos de percepção extra-sensorial genuína. Oportunamente, a ocorrência de certas habilidades e fenômenos paranormais pode estender-se além do dia da sessão. Uma observação fascinante que é intimamente relacionada e merece atenção neste contexto é a acumulação freqüente de coincidências extraordinárias nas vidas de pessoas que experimentaram fenômenos transpessoais em suas sessões psicodélicas. Tais coincidências são fatos objetivos, não apenas interpretações subjetivas de dados perceptivos; elas são semelhantes às observações que Carl Gustav Jung descreveu em seu ensaio sobre sincronicidade. (44)A discrepância entre a ocorrência de fenômenos parapsicológicos nas sessões de LSD e resultados negativos de estudos laboratoriais específicos parece refletir o fato que um aumento em ESP não é um aspecto normal e constante do efeito de LSD. Os estados psicológicos condutivos para vários fenômenos paranormais relacionados a uma incidência extraordinariamente alta de ESP estão entre as muitas condições mentais que podem ser facilitadas por esta droga; em outros tipos de experimentos LSD, as habilidades ESP parecem estar no mesmo nível que estão no estado ordinário de consciência, ou até mesmo reduzidas. Pesquisa futura terá que avaliar se de alguma maneira a incidência imprevisível e elementar de habilidades paranormais em estados psicodélicos pode ser aproveitada e sistematicamente cultivada, como indicada na literatura shamânica.

sábado, 28 de junho de 2008

PSILOCIBINA

Psilocibina e Psilocina são os alcalóides activos de vários tipos de cogumelos, como por exemplo, o Psylociba Cubensis, e especialmente do Psylociba Mexicana, se bem que existam tipos de cogumelos europeus que também contém estas substancias.

Os cogumelos psilocibinos são usados pelos curandeiros mexicanos. Estes cogumelos também apareceram no mercado na Europa durante os anos setenta, mas inicialmente não eram mais do que sopa de cogumelos instantânea aos quais foi adicionado LSD. Só mais tarde é que apareceram os genuínos cogumelos psilocibina secos.

Foi Albert Hoffmann, o descobridor do LSD, juntamente com colegas de laboratório, quem isolou duas substâncias da Psilocybe mexicana. A psilocibina foi isolada como componente principal e a psilocina foi encontrada em quantidades menores, porém igualmente activa. Desde então, esses alcalóides têm sido encontrados em muitas variedades de cogumelos.

A psilocibina produz uma série de efeitos similares aos produzidos pelo LSD e a mescalina, porém com potência menor.

Os efeitos psicológicos produzidos são geralmente mínimos e tendem a ser transmitidos pelo sistema nervoso autónomo. O mais comum são as alucinações. Já entre os efeitos físicos, os mais comuns são dilatação da pupila, aumento do reflexo dos tendões, ligeiro aumento da pulsação, aumento da pressão sanguínea e aumento da temperatura corporal.

História
Substância de poderoso teor alucinógeno extraída do "cogumelo sagrado", cujo nome científico é Psilocybe mexicana. O uso de cogumelos ficou famoso no México, onde desde antes de Cristo já era usado pelos nativos daquela região.

Ainda hoje, sabe-se que ele ainda é usado por alguns pajés.

No Brasil ocorrem pelo menos duas espécies de cogumelos alucinógenos: um deles é o Psilocybe cubensis e o outro é espécie do gênero Paneoulus.

Alguns índios da América Latina, especialmente na região de Oaxaca no México meridional, praticantes de cultos farmacológicos, utilizam alguns cogumelos nas suas práticas religiosas.

A principal espécie é a Psilocibe mexicana, da qual o principio activo é a psilocibina e o seu derivado psilocina, não diferem na sua composição química e actividade do LSD (ácido lisérgico dietilamida).

O cogumelo vermelho e branco que costuma aparecer nas ilustrações dos contos de fadas, o Amanita muscaria (cogumelo agarico) é outro cogumelo que tem propriedades alucinogénicas que não foram completamente estudadas. Este cogumelo pode ser extremamente importante, já que pode ter sido a fonte natural da bebida ritual dos antigos hindus conhecida por soma comparada à haoma utilizada pelos zoroasterianos.

Química


A psilocibina é um composto indólico derivado da triptamina, e tem a nomenclatura química de éster fosfato 3-[2-(Dimetilamino)etil]indol-4-ol di-hidrogénio, sendo ainda encontrada com a nomenclatura de O-fosforil-4-hidroxi-N,N-dimetil-triptamina.

Fórmula molecular: C12H17N2O4P

Peso molecular: 284,27 g/mol

Ponto de fusão:
cristais a partir de água fervida - 220-228 ºC
cristais a partir de metanol fervido- 185-195 ºC

pH: 5,2 em solução 50% água-etanol

Solubilidade: Dificilmente solúvel em etanol, praticamente insolúvel em clorofórmio ou benzeno.

Estrutura química:


Biossíntese


A psilocibina deriva do metabolismo primário do fungo, uma vez que é encontrada em concentrações aproximadamente iguais em qualquer região do mundo onde seja encontrado o fungo, o que parece indicar que a sua produção não tem relação directa com diferenças específicas do substrato em que cresce, naturalmente ou em cultivo. A psilocibina é encontrada tanto nos corpos frutíferos quanto no corpo vegetativo do fungo.


Aparentemente o fungo sintetiza o triptofano a partir da glicose segundo o caminho de síntese no qual o ácido antranílico fornece o anel benzénico do núcleo indólico, a ribose os componentes C-2,3 e a serina a cadeia lateral de alanina.


Este é o caminho de síntese em bactérias, mas a evidência disponível actualmente, embora ainda fragmentária, sugere que um caminho similar é seguido nos fungos, e mesmo nas plantas superiores.


A biossíntese da psilocibina tem sido investigada através do Psilocybe cubensis com percursores marcados. Utilizando marcadores como a psilocina-3H, a 4-hidroxitriptamina-14C, a N,N-dimetiltriptamina-14C-3H. o DL triptofano e outros. Chegou-se a resultados experimentais que sugerem a seguinte sequência: triptofano ->triptamina -> N-metiltriptamina -> N,N-dimetiltriptamina -> psilocina -> psilocibina.


Síntese da psilocibina e da psilocina

O fungo também pode converter em psilocibina a 4-hidoroxitriptamina por uma rota alternativa.

A triptamina origina várias outras substancias, todas dotadas de actividade alucinogénica. Todas as substancias da família da psilocibina têm estas propriedades. Elas contém a estrutura indólica básica característica da maioria dos alucinogénicos encontrados na natureza.

Toxicologia

A psilocibina é uma "Substância" alucinogénica perturbadora do sistema nervoso central. Provoca experiências do tipo insight, animação, distorção dos sentidos.As "Substância"s perturbadoras, alucinógenas ou psicadélicas são aquelas relacionadas à produção de quadros de alucinação ou ilusão, geralmente de natureza visual. Os alucinógenicos não possuem utilidade clínica (como os calmantes), tão pouco podem ser utilizados legalmente (como o álcool, o tabaco e a cafeína). Os alucinógenos não se caracterizam por acelerar ou acalmar o sistema nervoso central. A mudança provocada é qualitativa. O cérebro passa a funcionar fora do seu normal e sua actividade fica perturbada.

A dose alucinogénica da psilocibina é estimas em 4 a 19 mg. A sintomatologia nos 30 minutos iniciais é caracterizada por ansiedade, tensão, tontura, marcha ebriosa, náuseas, fraqueza muscular, dores musculares e entorpecimento dos lábios.

Nos 30 minutos seguintes aparecem os distúrbios psíquicos e sensoriais, que incluem: visão borrada, os objectos parecem mais iluminados e de formas mais agudas, com sombras maiores, começa-se a ver imagens com os olhos fechados. aumenta a acuidade auditiva e diminui a capacidade de concentração, com raciocínio lento e uma sensação de irrealidade, com o indivíduo sentido-se isolado do mundo, estando consciente mas dele indiferente.

Uma a duas horas após a ingestão as manifestações acima tornam-se mais intensas, em especial os efeitos visuais. Superfícies planas parecem ondular e a percepção das distancias está comprometida.

Esta sintomatologia dura aproximadamente 3 a 7 horas, podendo ser seguida por cafaleia e fadiga.

Foram relatados raros casos graves, com hipertermia, convulsões e coma. Não há registo de acidentes fatais

Os testes feitos até hoje demonstram que o uso regular da psilocibina não produz sintomas a longo prazo, e que ela não tem potencial de dependência física. Quanto a potencial de dependência mental ou de dano físico, até ao presente momento não houve motivos para se suspeitar que tenha, mas ainda não está definitivamente provado.

A tolerancia a psilocibina desenvolve-se rapidamente, de modo a que com o uso continuado, é necessária uma maior quantidade da substancia para produzir os mesmos efeitos.

Imagens


Estrutura da psilocibina

Cristais de psilocibina

quarta-feira, 9 de abril de 2008

segunda-feira, 7 de abril de 2008

DMT E NEUROCIÊNCIAS

DMT E NEUROCIÊNCIAS
por: Marcelo Bolshaw Gomes [1]

JUSTIFICATIVA
O N,N-DMT ou N,N-dimethyltryptamine (C12H16N2), o alcalóide psicoativo existente na “bebidas mágicas brasileiras” (Ayahuasca e Jurema), deve se tornar no principal antidepressivo deste século, indicado para processos terapêuticos de mudança de hábitos, principalmente em tratamentos de dependência química, podendo ainda ser utilizado para o estudo da mente e para o desenvolvimento humano. E, apesar desta substância, só existir em plantas no Brasil e de sua patente científica ser discutido no âmbito internacional, ainda são poucas as pesquisas interdisciplinares realizadas sobre o assunto.

Sobre a Ayahuasca, há uma farta literatura botânica e antropológica, alguns estudos específicos sobre sua farmacologia e uma compilação interdisciplinar recente (LABATE & ARAÚJO; 2002) – que detalhamos adiante. Importante agora é ressaltar a descoberta do “efeito ayahuasca” (HOLMSTEDT-LINDGREN, 1967), isto é, de que a psicoatividade oral do DMT depende da inibição da monoanima-oxidase (a enzina catabólica MAO), causada pela ingestão simultânea de beta-carbonilas. Na Ayahuasca, o princípio simbólico feminino é constituído pela folha da Psichotria Viridis (Chacrona ou Rainha), portadora de DMT; e o princípio masculino, pelo cipó Banisteriopsis Caapi (Jagube ou Mariri), que contém harmina e harmalina, inibidores que geram a psicoatividade. Porém, nem a folha nem o cipó são psicoativos tomados separadamente.

Sobre a Jurema, o estudo contemporâneo mais importante é harmahuasca, anahuasca e jurema preta: farmacologia humana de DMT oral mais harmine de Jonathan Ott (2002), em que se investiga a hipótese de sinergia psicoativa entre o DMT e as b-carbonilas em diferentes preparos: a pharmahuasca (cápsulas de DMT e Harmine sintéticos); a anahuasca (bebidas preparadas com plantas diferentes da Ayahuasca, mas com os mesmos princípios ativos); e, finalmente, a Jurema preta, que apresenta um nível de concentração de DMT muito superior ao de outras plantas e é principal fonte contemporânea de triptaminas para as pharmahuascas e anahuascas. Outra descoberta notável, é que, consumido via oral acima de 25 mg, o DMT é psicoativo por si só, não precisando de inibidores. Não haveria, portanto, o tão propalado “ingrediente perdido” do preparo da Jurema entre os índios nordestinos.

Sobre o DMT propriamente dito, as pesquisas se iniciam com os textos de Terence McKenna (1992, 1993, 1994 e 1996). Hoje, na internet, encontram-se alguns sites com informação detalhada sobre a substância ([2]).
Toda informação disponível referente a estes três pontos (a Ayahuasca, a Jurema e o DMT) será detalhada em diferentes revisões bibliográficas.

OBJETIVOS E METODOLOGIA

Além de investigar o efeito do DMT no cérebro, o objetivo principal desta pesquisa é, observando o aspecto reverso, estudar a mente através do DMT. Ou seja: não apenas estudar o efeito químico da substância no organismo, mas, sobretudo, compreender quais dimensões de consciência que este efeito propicia (telepatia, regressões mentais a traumas infantis, visualização de imagens do inconsciente profundo, mudanças na percepção do tempo e da realidade).
Todavia, há também objetivos secundários bastantes relevantes. Em primeiro lugar, trata-se da importância de se estabelecer um projeto de pesquisa trans-disciplinar de ponta envolvendo pesquisadores locais (psicólogos, antropólogos, médicos, etc) com um assunto regional (uma vez que a jurema é nativa do semi-árido nordestino) dentro do Centro Internacional de Neurociências. Pensamos que a UFRN não deve apenas sediar este instituto de pesquisa, mas também participar desta iniciativa com seus pesquisadores, com temas de interesse público da sociedade potiguar. Mas não é só: o projeto quer também objetiva a elaboração e produção artesanal de um medicamento a base de DMT extraído da Jurema, bem como a possibilidade de sua utilização no tratamento de dependentes químicos. Para tanto, várias outras pesquisas específicas precisam ser desenvolvidas, ampliando assim o campo da investigação. Trata-se assim de um projeto geral a partir do qual outros projetos podem ser desenvolvidos.

A idéia é entrecruzar diferentes metodologias para investigar o DMT: estatísticas de entrevistas qualitativas, hipnose, encefalogramas, tomografias cerebrais, simulações holográficas, experiências com símios e outros animais e até dissecação do cérebro de doadores. Também é preciso colocar que cada sub-pesquisa do macro-projeto comporta uma metodologia específica aos seus objetivos particulares. Por exemplo: extrair DMT da Jurema e sintetiza-lo com b-carnboninas em um medicamento? Ou ainda se a potencialização homeopática do DMT+harmine aumenta a eficácia do medicamento em pequenas dosagens de longo prazo? Essas são investigações que comportariam metodologias e técnicas de pesquisas específicas.

O essencial, no entanto, será demonstrado através do método lógico dedutivo, com ficará claro com a enunciação da hipótese da pesquisa, após as revisões bibliográficas necessárias para colocação do assunto no patamar atual.

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA I – A Ayahuasca

A bebida conhecida como Ayahuasca ou Yajé é preparada através da infusão do cipó do Jagube ou Mariri (Banisteriopsis caapi) e da folha da Rainha ou Chacrona (Psycotria viridis) - naturais da região. A bebida teria origem do Império Inca e seu uso teria se difundido entre várias tribos indígenas, das quais se tem razoável conhecimento antropológico. Ingerindo o chá, os índios absorvem o espírito da planta e, em transe, têm experiências psíquicas e vivenciam fenômenos paranormais, tais como a telepatia, a regressão a vidas passadas, contatos com os espíritos dos seus antepassados mortos, presciência e visão à distância. Há relatos de xamãs usavam a bebida para descobrir qual era a doença de seus pacientes e saber como tratá-la. Diversos antropólogos, inclusive, tomaram o chá e descreveram seus efeitos parapsíquicos. Ainda hoje, várias tribos praticam rituais com o uso da Ayahuasca no Brasil, como as dos Kampas e dos Kaxinawás, localizadas perto da fronteira com o Peru. Desde o início do século, nos contatos culturais entre seringueiros e índios, a Ayahuasca passou a ser usada pelos migrantes nordestinos, que colonizaram a Amazônia ocidental. Destes contatos surgiram diversos grupos que associaram o uso da bebida a um contexto religioso cristão-espírita, dos quais a União do Vegetal, no estado de Rondônia, o Santo Daime e a Barquinha, no Acre, são os maiores expoentes.

Paralelamente ao crescimento desses grupos e à expansão do uso religioso do Ayahuasca, uma forte resistência dos setores conservadores da sociedade brasileira se formou, pressionando o governo para embargar o funcionamento destas instituições nos grandes centros metropolitanos. Porém, no dia dois de junho de l992, o conselho decidiu liberar definitivamente a utilização do chá para fins religiosos em todo o território nacional. Segundo a então presidente do Conselho Federal de Entorpecentes (Confen), Ester Kosovsky, “a investigação, desenvolvida desde l985, baseou-se numa abordagem interdisciplinar, levando em conta o lado antropológico, sociológico, cultural e psicológico, além de análises fitoquímicas”. O relator do processo de investigação, Domingos Carneiro de Sá, explicou que o fato fundamental para a liberação da bebida foi o comportamento dos ayahuasqueiros e a seriedade dos centros que utilizam o chá em seus rituais: “Não foram observadas atitudes anti-sociais dos participantes dos cultos, ao contrário, podemos constatar os efeitos integrados e reestruturantes do Ayahuasca com indivíduos que antes de participarem dos rituais apresentavam desajustes sociais ou psicológicos”.

Contra-indicações e efeitos colaterais

Geralmente se observa uma dieta estrita antes as sessões de ayahuasca: comida sem sal, açúcar, óleo, gorduras e condimentos picantes; e principalmente nenhum álcool ou sexo antes, durante ou nos dias imediatamente após a ingestão, em um marco de repouso, silêncio e isolamento do mundo cotidiano. Está comprovado que a dieta influencia diretamente na qualidade da experiência e, sem dúvida, o maior perigo físico ao ingerir ayahuasca está relacionado com os efeitos da harmala, harmalina e tetrahidroharmina que contém, os que cumprem uma importante função inibidora da enzima monoamina oxidasa (MAO).

A tiramina é um aminoácido que normalmente é metabolizado pela MAO no intestino. Logo de levar compostos inibidores da MAO, a tiramina que se encontra em certos alimentos já não pode ser metabolizada pelo organismo enquanto a MAO se encontre inibida. Isto pode causar um acréscimo dos níveis de tiramina na sangre. Feito que os altos níveis de tiramina podem afectar a produção natural de noradrenalina, esta condição pode conduzir a uma crise hipertensiva. Numa crise hipertensiva a pressão sanguínea pode sobressair 180 e o batido cardíaco pode chegar a mais de 100 pulsos por minuto. Quem sofre de uma crise hipertensiva geralmente reporta uma terrível enxaqueca, e pode se complicar chegando a produzir hemorragias, infartos, problemas neurológicos entre outros.

A tiramina se encontra em queijos, vinhos e geralmente em tudo fermentado. Também as drogas simpatomiméticas (MDMA, benzedrina, etc.) podem causar uma crise hipertensiva, além disso de certas ervas naturais a dar reações alérgicas. Os alimentos com alto teor de tiramina que devem ser evitados nos dias prévios e posteriores de cada sessão: queijos fermentados, molhos picantes, feijões, soja, caviar e sucedâneos, chocolate, enlatados, levedura, fígados, figos secos, pescado seco e encharque, banana, café, cerveja, vinho rosado e tinto, carnes em geral. Há também alimentos com moderado teor de tiramina a serem limitados: frutas (a maioria), produtos lácteos (leite, manteiga, yogurte, queijo fresco, etc.), chá, gasosos, vinhos brancos, missó e amendoim.

Um problema mais sério é a possibilidade de interação com outras drogas como o álcool. Uma das interações mais perigosas com inibidores da MAO é a modificação de inibidores seletivos de serotonina (SSRIs). Isto pode desencadear uma síndrome serotoninérgica, parecida com a crise hipertensiva em quanto aos sintomas de elevação da pressão, mas com certas diferenças. Sintomas como agonia aguda na ponta-cabeça, sangramento pelo nariz, rigidez muscular e febre podem indicar o aparecimento de uma crise hipertensiva, de uma síndrome serotoninérgico ou de ambas.

Incidentalmente, não só antidepresivos como os tricíclicos, heterocíclicos, SSRIs e outros antidepresivos atípicos podem causar interacciones perigosas com os começos ativos da ayahuasca, senão também muitas outras drogas, como os descongestionantes nasais, pílulas de emagrecimento, efedrinas, remédios contra a alergia e opiáceos. Também os medicamentos contra a enxaqueca, como o sumatriptan (Imitrex), são maliciosos à inibição da MAO. Ante a aparição inconfundível dos sintomas hipertensivos é recomendável uma cápsula sublingual de nifedipina 10 mg. cada 8 horas, ou se não tabletes de 25 mg. de clorpromazina (narcótico adrenolítica). Ambas podem abaixar a pressão, em caso de urgência.

Em relação aos aspectos antropológicos do Ayahuasca (tradição indígena, grupos religiosos atuais, farmacologia e comportamento psicológico, na Internet, é possível levantar bastante informação sobre o assunto[3]. Mas, o trabalho científico mais importante publicado sobre o tema certamente é O Uso Ritual da Ayahuasca, (LABATE, B. C. & ARAÚJO W. S. (Orgs); 2002). Neste trabalho, além de trabalhos sobre as tradições indígenas e os principais grupos ayahuasqueiros brasileiros (Santo Daime, União do Vegetal e a Barquinha), encontram-se três estudos médicos coordenados pelo Dr. Glacus Brito, em que se relata os resultados da investigação realizadas em 1993 por um grupo de pesquisadores biomédicos brasileiros, norte-americanos e finlandeses para avaliar os efeitos bioquímicos e psicológicos do ayahuasca.

Porém, o texto mais interessante desta compilação é o trabalho do psicólogo cognitivo israelense Benny Shanon, em que se investiga não apenas os aspectos antropológicos e botânicos do ayahuasca, mas também e sobretudo, no sentido reverso, se pesquisa da mente através da experiência do DMT. Pesquisa essa que queremos retomar no âmbito da neurociência.

Revisão Bibliográfica II – A jurema

Não é difícil entender porque a Jurema seria sagrada para os índios nordestinos antes da chegada dos brancos. Além de seu caráter alucinógeno e do seu comprovado uso nas guerras e ritos de passagem, a Jurema, enquanto planta, desempenha um papel central no ecossistema semi-árido das caatingas nordestinas: durante os longos períodos de estiagem, quando a paisagem do sertão fica cinza e vermelho, apenas ela e o cacto do mandacaru resistem verdes e com reservas de água. Na verdade, no auge da estiagem, a casca da Jurema seca enquanto seu interior permanece viçoso. Quando a chuva volta, a casca seca cai e a árvore reaparece jovem. Esse fenômeno dá margem a uma longa mitologia de lendas e cantos envolvendo os ciclos de sazonalidade e morte/renascimento. Mas, ao contrário do mandacaru, do qual o sertanejo pode extrair água durante a estiagem, a água da Jurema é completamente inacessível ao uso humano. No caso da Jurema, a existência de água atrai a presença de pequenos insetos e de vários níveis de pequenos predadores da cadeia alimentar do ecossistema do sertão. As cobras são habituais no juremal, tanto pela existência farta de seu alimento como pela proteção dos galhos espinhosos, impossibilitando o trânsito de animais maiores. Este fato deu margem a uma extensa mitologia popular, cantada em pontos e chamadas tradicionais, em que as cobras protegem espiritualmente à árvore, assim como esta, com seus espinhos, protege os seus répteis guardiões. Assim, centro da resistência da vida orgânica à seca, em torno do qual todo ecossistema ‘não-humano’ (na verdade, não-mamífero) da caatinga gravita, a Jurema reina no sertão nordestino, desde tempos imemoriais, às margens de qualquer socialização: trata-se apenas um local perigoso e cheio de tabus, sob múltiplos aspectos.

O próprio termo comporta denotações múltiplas, que são associadas em um simbolismo complexo (MOTA & BARROS, 1990:171). Além do sentido botânico[4], a palavra Jurema designa ainda pelos menos três outros significados: preparado líquido à base de elementos do vegetal, de uso medicinal ou místico, externo e interno, como a bebida sagrada, "vinho da Jurema”; cerimônia mágico-religiosa, liderada por pajés, xamãs, curandeiros, rezadeiras, pais de santo, mestras ou mestres juremeiros que preparam e bebem este "vinho" e/ou dão a beber a iniciados ou a clientes; e a Jurema como sendo uma entidade espiritual, uma "cabocla", ou divindade evocada tanto por indígenas, como pelos herdeiros de cultos afro-brasileiros, o Catimbó e a Umbanda.

Antes dos colonizadores apenas os índios do sertão do Rio Grande do Norte, os Kariris e os Jê (ou Tapuios), tomavam Jurema. (SANGIRARDI JR; 1983) Essas tribos, detentoras dos ritos da Jurema, no entanto, se aliaram aos holandeses e foram completamente destruídas pelas forças portuguesas. A Jurema como identidade étnica foi então construída historicamente em segredo durante o período de colonização, chegando até tribos litorâneas distantes que não tinham tradição com a bebida. O uso da Jurema foi tolerado e aceito pelos portugueses católicos quando era canalizado para lógica de guerra contra invasores franceses e holandeses, enquanto seu uso religioso era condenado como feitiçaria. Há vários registros históricos (século XVI e XVII) sobre a eficácia militar dos guerreiros-juremeiros. Esta dupla permissão/condenação favoreceu uma expansão secreta e silenciosa da Jurema, levando o uso da bebida a ser conhecida até o Maranhão. (ANDRADE, 1992:9)

Numa primeira fase da colonização, a resistência dos povos indígenas no Nordeste, não permitiu que a Jurema, enquanto árvore sagrada, fosse conhecida, em seus usos e significados, não sendo assim documentada pelos colonizadores e estrangeiros. Numa segunda fase histórica a Jurema representa um elemento ritual ligado à própria resistência armada dos povos indígenas ou à guerra empreendida contra inimigos inclusive em suas alianças. Ainda nesta fase na qual a Jurema começa a ser documentada, seu significado ainda não é entendido mas seu uso já é motivo de repressão, prisão e morte de índios, (...). Na medida em que avança o rolo compressor da colonização, processo de genocídio ou tentativa de dominação, não só política e econômica como também cultural, aparece uma nova forma de resistência: a Jurema assume um lugar central na religiosidade popular, não só indígena regional - Catimbó. Diante do componente negro a Jurema garante seu reconhecimento, como entidade (espírito, divindade, cabocla) autóctone, "dona da terra". A Jurema é absorvida pelos cultos afro-brasileiros, tendo surgido inclusive os "Candomblés de Caboclos". Nas últimas décadas é no contexto da Umbanda, religião nascente e em pleno processo de sistematização e de expansão nacional, que a Jurema é integrada na cosmologia sagrada, no panteão da religião nacional. Constatamos em vários estados nordestinos as "Linhas da Jurema", dentre as linhagens e filiações religiosas da Umbanda. Nesses últimos anos, e paralelo ao movimento religioso propriamente brasileiro, a Jurema continua como "núcleo duro", segredo, bandeira ou símbolo, para os remanescentes indígenas, em pleno "movimento étnico", num contexto de defesa de seus direitos humanos, de suas áreas de reservas e de sua autonomia e reconhecimento no pluralismo da sociedade e das culturas brasileiras. (ANDRADE, 1992:2)

E foi assim, neste contexto contraditório, que a Jurema se firmou como prática étnica indígena e se misturou com os cultos africanos. E não se trata, nesses cultos, de reduzir a planta a um ‘espírito’ de uma cabocla como conhecemos na umbanda: o candomblé africano reconhece a Jurema como orixá, o único genuinamente brasileiro.[5] A Jurema chegou ao império como uma forma religiosa de resistência cultural bastante complexa, mantendo viva seu caráter guerreiro e marginal e conheceu ainda um novo ciclo de religiosidade popular - o dos mestres da jurema no catimbó nordestino, que, até a primeira metade do século XX utilizavam a bebida para desfazer feitiços e encantamentos no CE, PB e RN (CASCUDO, 1978).

Porém, apesar de se constituir como um complexo rico em variações, a maioria dos estudos antropológicos sobre a Jurema descreve apenas o Toré, festa dos índios nordestinos em que a bebida é ritualmente consumida. O relato mais antigo data de 1946, quando Oswaldo Gonçalves de Lima descreve o contínuo uso xamânico do vinho da jurema entre os índios Pankararu do Brejo dos Padres, no sul de Pernambuco.

Por volta de 1980, alguns pesquisadores advogam na extinção dos cultos da Jurema (SCHULTES & HOFMANN, citados por OTT, 2002:673). No entanto, sabe-se que algumas formas cerimoniais associadas ao Toré têm sobrevivido entre os Xucuru da Serra de Ararobá/PE; os Kariri-xocó de Colégio, na divisa entre AL e SE (MOTA, 1987); os Atickum-Umã/PE (GRÜNEWALD, 1995); os Truká (BATISTA, 1995) e numerosos outros grupos espalhados pelo sertão nordestino (PINTO, 1995). Além disso, durante a segunda metade do século XX, a cerimônia indígena do Toré tem sido adotada simbolicamente por grupos umbandistas ao longo do litoral nordestino.

Em A Jurema em “Regime de Índio”: o caso Atikum (GRÜNEWALD, 1995) observa-se o contraste de alguns aspectos simbólicos desta reconstituição do uso cerimonial da Jurema em um contexto religioso contemporâneo e entre seu contexto tradicional. O texto trata de como, entre 1943 e 1945, os caboclos da Serra do Uma, descendentes de tribos indígenas desconhecidas, sabendo de que o governo brasileiro tinha como critério para concessão de terras para reservas indígenas a realização do Toré, procuraram a tribo dos Tuxá para aprender o ritual e conseguir o benefício. O que realmente acontece em 1949, quando os caboclos de Umã são elevados a categoria de índios Atikums (nome de um suposto ancestral mítico da tribo). Assim, o Toré e o uso ritual da Jurema são tradições a serem exibidas como certificados étnicos, devidamente reconhecidas pelo SPI (Serviço de Proteção ao Índio) e depois dele, a FUNAI. Grünewald observa, no entanto, que não se trata de um mero ardil para garantir a posse coletiva da terra, mas que os caboclos de Umã realmente passaram a acreditar em sua nova identidade Atikum. A Jurema deu a esses homens mais do que um pedaço de terra: uma identidade étnica une um grupo separando-o de outros, dando a ele um lugar no tempo e no espaço social.

Outro episódio, narrado de passagem neste texto, cita o trabalho desenvolvido por uma fundação holandesa, Friends of the Forest – Ethnopharmacological agents & rituals and drug dependency treatment research. A fundação, em conjunto com universidades e autoridades públicas holandesas, aplicava tratamento gratuito para reabilitação de viciados em drogas (heroína, cocaína, álcool, etc) utilizando-se principalmente da Ayahuasca. No entanto, devido ao corte de fornecimento pela entidade que gerencia o Santo Daime, que considerou o uso terapêutico da bebida fora dos seus preceitos religiosos, “os amigos da floresta” passaram então a pesquisar e utilizar os mesmos princípios psicoativos extraídos de outras plantas similares. Nesta “ayahuasca analógica”, a Jurema Preta (Mimosa Hostilis) passa a ser utilizada em combinação com sementes de Perganum Harmala, um arbusto do oriente médio muito conhecido por suas características sedativas[6].

Mas não é só: os próprios pesquisadores da fundação Friends of the Forest descrevem seu contato com os índios Atikum e como introduziram o uso desta nova fórmula em alguns de seus rituais (BARBOSA, 1998:27-28). Segundo eles, os Atikum não apenas reconheceram a potencialização dos efeitos da Jurema pelo Perganum Harmala, como também ficaram com sementes do arbusto para plantar no sertão. O texto insinua que houve uma assimilação cultural de técnicas de preparo científicas, importadas do exterior, pela “cultura Atikum” e que tal fato poderá ressuscitar a tradição da Jurema.

Não sabemos se realmente os Atikum levarão adiante os ensinamentos dos pesquisadores holandeses. Também não é possível saber, pelo menos através da pesquisa antropológica, se realmente existe uma tradição secreta da Jurema, que detenha o conhecimento do ingrediente inibidor. O certo é que hoje é mais fácil encontrar trabalhos espirituais com a utilização da Jurema na Europa que nas caatingas do nordeste brasileiro. Vivemos um processo de reconstrução mítica globalizada, em que uma planta genuinamente brasileira, símbolo de parte de nossa consciência étnica, está sendo reinventada em um contexto global contemporâneo e até mesmo re-importada de volta para as classes médias culturalmente mais sofisticadas da sociedade brasileira.

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA III - O DMT

N,N-DMT ou N,N-dimethyltryptamine (C12H16N2) é um psicoactivo da família tryptamine, causa intenso visuais e forte estado mental psicodélico quando fumado, injetado, bufado, ou (quando levado com um MAOI tais como harmaline) quando engolido oralmente. N,N-DMT é muito chamou freqüentemente só "DMT", embora este nome cause confusão algumas vezes com seu primo químico 5-MeO-DMT. Ele está presente em milhares de espécie de plantas e foi usado tradicionalmente em América do sul ambas em Ayahuasca e rapés.

DMT é um neurotransmissor químico presente naturalmente no corpo humano bem como em plantas muitas. Ele não causa dependência física ou psicológica. Mas há contra-indicações: os efeitos de fumado N,N-DMT são dramaticamente aumentado se usados por indivíduos usando MAOIs. MAOIs são enzimas comumente encontradas nos anti-depressivos Nardil (phenelzine), Parnate (tranylcypromine), Marplan (isocarboxazid), Eldepryl (l-deprenyl), e Aurorex ou Manerix (moclobemide). Indivíduos com casos de esquizofrenia em sua história familiar, com tendências à psicose depressiva ou ainda em estado emocional fragilizado devem ter cuidado com psicolédicos pois eles podem ser um ‘gatilho’ para a manifestação desses desequilíbrios.

NOME: N,N-Dimethyltryptamine
NOME QUÍMICO: N,N-Dimethyl-1H-indole-3-ethanamine
OUTROS NOMES: 3-[2-(dimethylamino)ethylindole, DMT
FÓRMULA QUÍMICA: C12H16N2
PESO MOLECULAR: 188.27
PONTO DE FUSÃO: 44.6-46.8°C (116°F) (crystals)
PONTO DE EBULIÇÃO: 60-80°C (crystals)

Fumar DMT é muito diferente que usar ayahuasca. Usar Jurema ou DMT sintética e um IMAO farmacêutico também não são o mesmo. Há significativas diferenças tanto químicas como na experiência subjetiva. Os inibidores também apresentam diferenças relevantes. A maior diferença entre P. harmala e B. caapi reside nos níveis de harmalina e tetrahidroharmina. Na P. harmala os níveis de harmalina são mais altos (o que explica sua maior efetividade IMAO) e os níveis de tetrahidroharmina são muito menores ou estão ausentes.

O uso de DMT em rapés dos índios da América do Norte e Central é documentado desde o início do Século VIII DC, mas suspeita-se que seu uso seja muito mais antigo. Os rapés Cohoba (da árvore Yopo) foram documentados em Columbia nos Séculos XVI até XIX. Em 1931, o primeiro DMT químico foi sintetizado por Richard Manske e chamado de "nigerine". É ilegal possuir ou vender DMT nos Estados Unidos e na maioria dos países desde 1971.

Porém, o DMT ganhou notoriedade significante nos últimos 15 anos com Terence Mckenna. McKenna, foi o pioneiro no estudo sistemático das tradições de consumo de substâncias químicas. Autor de vários livros sobre diferentes substâncias psicoativas e religiosidade contemporânea (1993, 1995 e 1996) – estabelece uma associação estratégica entre duas hipóteses de outros autores, que se tornarão os cânones do movimento entheogênico[7]:

1. A hipótese de que foi através da ingestão de substâncias químicas psicoativas (principalmente o DMT) que os macacos se tornaram conscientes de si, dando início à evolução da espécie humana. Nesta hipótese, sugere-se que toda nossa experiência com o sagrado derivou originalmente do consumo de substâncias químicas.

2. A hipótese de Gaia (James Lovelock e Lynn Margulis) segundo a qual a biosfera da Terra é na verdade um organismo vivo. De forma que, mais do que dispositivos de poder para o controle social (as drogas), as substâncias psicoativas teriam como função primordial à re-ligação dos homens com a consciência telúrica do planeta.
Na mesma linha de raciocínio, Jeremy Narby, em seu livro A Serpente Cósmica, compara a dupla hélice do DNA às duas serpentes do símbolo do Caduceu e advoga a tese de que o DMT é a chave para o processo de evolução humana (o “programa lógico do mundo vegetal para rodar no cérebro humano”) do ponto de vista da biologia molecular.

Tais abordagens vêem suscitando grandes debates no campo da neurociência e psicologia cognitiva. Debates esses, que queremos, neste projeto, revisar e aprofundar. Como já adiantamos no início, de todas as contribuições recentes sobre o tema, consideramos o mais relevante o de Benny Shanon, sobre a Ayahuasca como instrumento de investigação da mente (in LABATE, 2002; pág. 631), através dos parâmetros teóricos da psicologia cognitiva. Para ele, há questões fenomenológicas de primeira ordem (o que está sendo experimentado?) e de segundo ordem (Há uma ordem e um sentido no que está sendo experimentado?). Há também questões de dinâmica, de contexto e teóricas gerais a serem discutidas sobre o uso do Ayahuasca. Por exemplo, em relação às questões fenomenológicas de primeira ordem, Shanon distingue as questões de conteúdo das de domínio e de estrutura. Assim, felinos, pássaros e répteis são as imagens mais recorrentes nos transes, seguidos de perto pelos palácios, tronos e imagens arquitetônicas celestiais.

A pesquisa destaca que as imagens são ‘universais da mente’ (semelhantes ao que Jung chamou de arquétipos[8]) pois surgem em indivíduos social e culturalmente diferentes. Esses conteúdos podem surgir de diferentes formas ou domínios e o encadeamento dessas formas com estes conteúdos forma estruturas narrativas paralelas aos rituais. E Shanon entrevê, através deste sistema cognitivo de conteúdos/domínios, os parâmetros estruturais da consciência e destaca pelo menos quatro aspectos relevantes em relação ao efeito do Ayahuasca: a percepção do pensamento como uma cognição coletiva, a indistinção entre o interior e o exterior, e as experiências desindentificação pessoal e de tempo não-linear.

Ou seja: quando tomam Ayahuasca as pessoas percebem que seus pensamentos não são individuais mas sim ‘recebidos em rede’ (a mente como um rádio); que não existe a distinção entre o sensorial e o sensível; podem se transformar em animais (jaguares e águias são freqüentes) ou em outras pessoas; e finalmente percebem o transcorrer do tempo de forma desigual, em que alguns segundos demoram séculos e horas se sucedem rapidamente e em que alguns momentos se experimentam a simultaneidade (ou a eternidade) temporal.

Quando baixamos arquivos no computador, pode-se perceber que alguns segundos demoram mais que outros, em função do peso do arquivo e da aceleração da conexão da internet. O que Shanon suspeita é que o mesmo acontece com o cérebro sob o efeito do Ayahuasca.

HIPÓTESE

Acredito que no aprofundamento neurocientífico das teses de Shanon. Nossa principal hipótese de pesquisa é que o DMT poderá, dentro de um setting clínico não-religioso, funcionar com uma substancia vital ao desenvolvimento psicológico humano no século que se inicia.

Acredito também que os países e regiões detentores das plantas ricas nesta substancia (como o nordeste em relação à Jurema e a Amazônia em relação à Ayahuasca) não podem ser privadas dos benefícios sociais e culturais decorrentes desta realidade.

Assim sendo submeto este primeiro esboço de projeto de pesquisa à avaliação crítica dos interessados, na esperança de que, com novas contribuições, ele se consolide e vingue em seus objetivos estratégicos.
Natal, 29 de outubro de 2003. Marcelo Bolshaw Gomes

Bibliografia

ANDRADE, J. M – Jurema: da festa à guerra, de ontem e de hoje. João Pessoa, UFPB, 1992

BARBOSA, W. M. da S. A Jurema Ritual in Northern Brazil. From the Newsletter of the Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies (MAPS) - Volume 8 Number 3 Autumn 1998 - pp. 27-29 http://www.maps.org/news-letters/v08n3/08327yat.html

CASCUDO, L. da C. Meleagro; pesquisa do catimbó e notas da magia branca no Brasil. Natal: Agir/Fundação José Augusto, 1978.

GRÜNEWALD, R. A. A Jurema e o "Regime de Índio" Atikum. Trabalho apresentado no 1o ERSUPP. Salvador, 1995. http://users.lycaeum.org/~room208/jurema/Rodrigo/index.htm

LABATE, B.C. & ARAÚJO, W. S. (org.s); O Uso Ritual da Ayahuasca. Tradução de Claudia Rosa Riolfi e Valdir Heitor Barzotto. São Paulo: Fapesp/Mercado de Letras, 2002.

MCKENNA, T. - Alucinações Reais' Rio de Janeiro: Record/Nova Era, 1993.
Alimento dos Deuses Rio de Janeiro: Record/Nova Era, 1995.
Retorno à cultura arcaica Rio de Janeiro: Record/Nova Era, 1996.
(com Ralph Abraham e Rupert Sheldrake) 'Caos, Criatividade e o retorno do Sagrado - triálogos nas fronteiras do Ocidente' São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1994.

MOTA, C. N. Jurema and Ayauasca: Dreams to Live by. In: Ethnobiology: Implications and Aplications. Vol. 2. Belém, Museu Goeldi, 1990.

MOTA, C. N. & BARROS, J. F. P. de. Jurema: Black-Indigenous Drama and Representations. In: Ethnobiology: Implications and Aplications. Vol. 2. Belém, Museu Goeldi, 1990.

OTT, J. Pharmahuasca, anahuasca e jurema preta: farmacologia humana de DMT oral mais harmine, in MAPS: http://www.maps.org/news-letters/v06n3/06332ott.html

SANGIRARDI Jr. Jurema. In: Os Índios e as Plantas Alucinógenas. Rio de Janeiro, Editorial Alhambra. 1983.
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[1] Jornalista, professor de comunicação da UFRN, doutorando em ciências sociais, currículo Lattes: http://genos.cnpq.br:12010/dwlattes/owa/prc_imp_cv_int?f_cod=K4792219T9

[2] V. http://dmt.lycaeum.org/ e http://www.erowid.org/chemicals/dmt/dmt.shtml

[3] V. principalmente www.santodaime.org; www.ayahuasca.com e http://yage.net/

[5] A Jurema como nação: http://www.geocities.com/Athens/Atlantis/5418/

[6] Também conhecido como Syrius Rue, essa planta é conhecida desde tempos pré-históricos do Mediterrâneo até Ásia central. Está associada à tradição dos tapetes voadores árabes e das bebidas sagradas da Antiguidade (o Soma do Rg Veda e do Haoma do Avesta da Pérsia).

[7] Entheogênesis significa 'origem divina' (Theo = Deus, Gênesis = Origem). A palavra 'entheógenos', no entanto, surgiu em contraposição a denominação de 'alucinógenos' para designar a utilização de substâncias químicas com finalidades místicas, religiosas ou cognitivas. Segundo seus defensores a denominação de 'alucinógeno' para as substâncias químicas de efeito psíquico é preconceituosa, pois embute o sentido de entorpecimento. A enteogênesis seria, então, o uso não alienante das drogas.

[8] Para Jung os arquétipos eram elementos estruturais do inconsciente coletivo e para psicologia cognitiva, os universais da mente são determinantes da vida psíquica.