sexta-feira, 4 de março de 2011
Texto retirado do livro "Growing Gourmet and Medicinal Mushrooms" - Paul Stamets.
" O uso de cogumelos durante a história da humanidade extende-se desde o Paleolítico. Poucas pessoas - mesmo antropólogos - entendem quão influenciadores foram os cogumelos ao longo da evolução humana. Cogumelos tiveram papéis importantíssimos na Antiga Grécia, India e Mesoamerica. Por conta de sua natureza, os fungos sempre elucidaram profundas respostas emocionais: da adulação dos que os entendem até o medo descontrolado dos que não.
O registro histórico revela que cogumelos foram usados não só com propósitos benignos. Cláudio II e o papa Clemente VII foram ambos assassinados com amanitas mortais. Buda morreu, de acordo com a lenda, de um cogumelo que nascia abaixo do solo. Ele recebeu o cogumelo de um camponês que acreditava ser uma guloseima. Nos versos antigos, este cogumelo foi associado ao nome 'pé de porco' mas nunca foi identificado. (Apesar das trufas nascerem abaixo do solo e porcos serem usados para achá-las, nenhuma espécie venenosa é conhecida até hoje.)
O uso arqueológico de cogumelos mais antigo descoberto até agora provavelmente é uma imagem Tassili em uma caverna, que data de 3.500 anos antes do nascimento de Cristo. A intenção do artista é clara. Cogumelos com auras 'elétricas' estão ao redor de um xamã que dança. A interpretação espiritual da imagem transcende o tempo e é óbvia. Não há dúvidas de que a palavra "bemushroomed" tenha evoluído para refletir o estado mental do amante dos cogumelos.
No inverno de 1991, alpinistas no Alpes italianos encontraram os restos bem conservados de um homem que morrera 5.300 anos atrás, aproximadamente 200 anos depois do artista Tassili. Descrito pela mídia como 'homem do gelo', ele estava bem equipado com uma bolsa rústica, um machado lascado e alguns poliporos(Piptoporus betulinus) secos, além de outro cogumelo ainda não-identificado. Os poliporos podem ser usados como um combustível para acender fogos e como um remédio para curar feridas. Além disso, um rico chá com propriedade de aumentar a pode ser preparado fervendo estes cogumelos. Equipado para enfrentar o selvagem, este aventureiro já havia descoberto o valor destes nobres fungos. Até hoje este conhecimento pode salvar vidas.
O medo de envenamento por cogumelos atravessa todas as culturas, às vezes chegando a níveis fóbicos extremos. O termo 'micofóbico' descreve os indivíduos e culturas em que os fungos são vistos com medo e desconfiança. Culturas micofóbicas são representadas principalmente pela americana e pela irlandesa. Em contraste, sociedades micófilas podem ser encontradas especialmente entre os poloneses, russos e italianos. Estas sociedades desfrutam de uma longa história de uso de cogumelos, com diversos nomes comuns para descrever as variedades de cogumelos que adoram.
O uso de cogumelos em diversas culturas foi intensivamente estudado por um banqueiro investidor chamado Gordon Wasson. Seus estudos concentraram-se no uso de cogumelos pelos culturas mesoamericana, russa, inglesa e indiana. Com o micólogo francês Roger Heim, Wasson publicou pesquisas sobre cogumelos que contém psilocibina na mesoamerica, e sobre amanitas na Euro-Ásia/sibéria. Os estudos de Wasson demonstram uma vida marcada por amor aos fungos. Suas publicações incluem: "Mushrooms, Russia, & History"; "The Wondrous Mushroom; Mycolatry in Mesoamerica"; "Maria Sabina and her Mazatec Mushroom
Velada"; e "Persephone's Quest: Entheogens and the Origins of Religion". Mais que qualquer indivíduo do século 20, Wasson incentivou o interesse na etnomicologia até o presente estado de estudo. Wasson morreu no dia de natal, em 1986.
Uma das descobertas mais provocativas foram encontradas em "Soma: Divine Mushroom of Immortality" (1976) onde ele postula que o misterioso Soma da literatura védica, um fruto vermelho que levaria à iluminação espontânea aqueles que o ingerissem, é na verdade um cogumelo. O simbolismo védico cuidadosamente encobriu sua verdadeira identidade: Amanita Muscaria, o alucinógeno Fly Agaric. Muitas culturas tomam Amanita Muscaria por um cogumelo arquetípico. Apesar do desacordo de alguns estudiosos védicos, a pesquisa exaustiva de Wasson permanece (ver Brough (1971) e Wasson (1972).
Aristóteles, Platão e Sófocles participaram de cerimônias religiosas nos Elêusis, onde um templo honrava-se Demétris, Deusa da Terra. Por mais de dois milênios, milhares de peregrinos viajaram 14 milhas de Atenas aos Elêusis, pagando o equivalente ao imposto de um mês pelo privilégio de participar da cerimônia anual. Os peregrinos eram ritualmente abusados em seu caminho até o templo, aparentemente de bom-humor.
Chegando ao templo, reunidos no centro da sala, um grande Telesterion. Dentro do templo, peregrinos sentavam-se em fileiras que desciam a uma câmara central escondida, em que cocção de fungos era servida. Um detalhe intrigante é um arranjo de colunas, apesar de qualquer estrutura ser desnecessária, que ainda não teve seu propósito descoberto pelos arqueólogos. Os peregrinos passavam a noite juntos e iam embora eternamente modificados. Neste pavilhão lotade de pilares, as cerimônias ocorriam, conhecidas pelos historiadores como os Mistérios de Elêusis. Nenhuma revelação dos segredos destas cerimônias poderia ser feita, sob pena de aprisionamento ou morte. Estas cerimônias persistiram até serem repreendidas, nos primeiros séculos da Era Cristã.
Em 1977, numa conferência sobre cogumelos na penísula olímpica, R. Gordon Wasson, Albert Hoffman e Carl Ruck postularam que os Mistérios Elêusis centravam-se sobre o uso de fungos psicoativos. Seus escritos foram publicados num livro chamado "The Road the Eleusis: Unveiling the Secret of the Mysteries" (1978). Aristóteles e outros fundadores da filosofia ocidental empreenderam aventuras intelectuais; esta cerimônia persistiu por quase 2.000 anos. Estes fatos corroboram o profundo impacto que os rituais fúngicos tiveram na evolução da consciência ocidental. "
Amanita Muscaria como a Planta/Deus Soma do Rigveda
Por quase 150 anos, acadêmicos védicos procuram a misteriosa planta do Rigveda (5.000a.c) conhecida como Soma. Soma foi a planta em torno da qual sacrifícios védicos se deram, conhecida por causar um prazeroso estado de consciência . Mas Soma era mais que uma planta, ela e seu suco eram considerados Deuses que eram comumente usados alternadamente com Agni, o Deus do fogo. Espero ser capaz de mostrar que 'Soma' na verdade não é uma planta comum, mas um fungo com efeito inebriante e alucinógeno. Pretendo primeiro apresentar evidências textuais do próprio Rigveda, e então apontar o uso deste fungo em específico em outras culturas, sempre conferindo a tese geral.
A idéia que o Soma era um fungo, especialmente o cogumelo do chapéu avermelhado Amanita Muscaria, foi primeiramente apresentada pelo etnomicólogo R. Gordon Wasson e sua esposa Valentina Wasson na década de 1960 e publicada em 1968, no volume "Soma: The Divine Mushroom of Immortality". Um considerável número de teorias para a identificação do Soma circula há alguns anos, mas todas careciam de similaridade às descrições poéticas da planta descritas no Rigveda. Algumas plantas que poderiam ser o Soma são o Bhang (Cannabis), Ruibarba, Periploca aphylla, Sarcostemma brevistigma e Ephedra vulgaris, para mencionar somente algumas, sendo Peganum harmala a suspeita mais recente. Uma das evidências mais fortes de que estas não poderiam ser o Soma é que o Rigveda não faz menção à planta divina ter raízes, folhas, flores ou sementes. O que achamos no Rigveda, entretanto, são referências poéticas aos atributos que poderiam ser aplicados ao cogumelo. Para ver estes atributos, nós devemos primeiro ter um entendimento de onde o cogumelo Amanita Muscaria nasce e com o que ele se parece.
O Amanita cresce em associação micorrízica com alguns tipos de árvores, especialmente os pinheiros, os 'firs' (**), e sobre todos, as bétulas, de onde eles se alimentam. Sendo árvores de clima temperado as que crescem em temperaturas mais baixas, podemos assumir que o Amanita nasce em elevações nas porções nórdicas da penísula índica, especificamente no perímetro de Hindu Kush e da montanhas do Himalaia. O Rigveda afirma repetidamente que o Soma cresce nas altas montanhas, e em nenhum outro lugar. Por exemplo, Mandala V 43 afirma que o Soma é "uma planta da montanha...", e a Mandala IX 46 diz que o Soma está "sentado no topo da montanha...". Com o posicionamento do Soma nas altas montanhas, seria ingênio acreditar que o Soma possa ser alguma daas plantas anteriormente citadas, que crescem em vales ou em planícies áridas.
Entendendo a grande importância do Soma na cultura védica, por que na moderna India há um acordo que o que é utilizado nos sacrifícios é substituto do Soma? Poderiam os arianos, em sua migração dos planaltos do norte para os vales e planícies, ter ficado sem alternativas de trazer sua planta consigo mesmos, por conta de sua inabilidade de ser cultivada, devido a sua necessidade de relação micorrízica com plantas que só crescem em maiores altitudes?
O Amanita Muscaria em si é um cogumelo vermelho brilhante que tem pontinhos brancos no chapéu, que são fragmentos do véu de onde o cogumelo emerge assim que sai do chão. Essas manchinhas parecidas com lã, que lembram verrugas, levaram este cogumelo à designação "toadstool". Amanita pode crescer 8 polegadas (* aproximadamente 20 cm) e ter até 10 polegadas (*aproximadamente 25 cm) em diâmetro de chapéu, assim que totalmente aberto.
Uma indicação de que o Soma pode ser o vermelho Amanita é que descreve-se o Soma como o sol."Ele (Soma) se veste com as queimaduras do sol..." (Mandala IX 17). Mesmo antes de estar totalmente aberto, o Amanita pode tranquilamente lembrar o sol, os pontos brancos como os raios de órbita. A Mandala IX 86 diz que " O Soma se envolve todo com os raios do sol...". O Soma também é comparado ao brilho da luz (Mandala IX 22), fazendo o poeta "queimar como fogo iniciado por fricção"(Mandala VIII 48). W.L. Reese, em seu dicionário de filosofia e religião, diz que " Agni (Soma) representa a trindade do fogo terreno, luz e sol. Neste sentido ele era o mediador entre o homens e Deuses. Como em muitas outras culturas, parece possível que um alucinógeno, neste caso Amanita Muscaria, seja uma porta para adentrar a realidade dos deuses.
Uma metáfora comum para o Soma é o touro, símbolo Rigveda da força. "Ele (soma) abaixo, touro aterrorizante...A pele é de touro, o vestido é de ovelha" (Mandala IX 70). Na Mandala IX 97 nós encontramos uma referência ao 'touro vermelho'.Podemos assumir que a pele do cogumelo representa o couro vermelho do touro, enquanto as manchas brancas representam o 'vestido' de ovelha? Muitas referências ao úbere da vaca também podem ser encontradas no Rigveda. Já que o Soma era 'ordenhado' do seu suco parece possível que o próprio Amanita pode ser este couro. Isso fica ainda mais plausível se a pessoa já viu um Amanita jovem. Não há dúvidas de que um Amanita pode sugerir poeticamente este órgão. Mesmo o talo, ou amsu, é parecido com uma teta. "Quando os amsus(*talos) engolidos foram ordenhados como vacas com úberes cheios..."(Mandala VIII 9). O que também é interessante é que o 'leite' do Soma é descrito como tendo uma cor amarelada, mais próxima à cor do leite e do suco feito com Amanita do que seria se se tratasse de um suco feito de qualquer planta produtora de clorofila.
Outra referência interessante é do Soma ser um olho único. "Acelerado pelas sete mentes, ele (Soma) encarou os rios sem mágoa, o que fortaleceu seu olho único" (Mandala IX 9). E na Mandala IX 97, "Soma que tem por olho o sol". Apesar da falta de outras evidências que o Amanita é o olho único, Wasson sugere em "Soma: The Divine Mushroom of Immortality" que peguemos um Amanita e perguntemos se uma Ruibarba preenche melhor o conceito do 'olho único'. Outra Mandala sobre o olho ajuda a encaixar as muitas metáforas descritivas do Soma. "Eu tomei o (***) 'corpo'(Soma) pra dentro do 'corpo'(Estômago) pelo nosso motivo. Inclusive, o olho está junto ao sol. Eu ordenhei os filhos dos sábios"(Mandala IX 10). Neste trecho podemos ver muitas metáforas em ação; 'navel', uma palavra com história arcaica em várias culturas e que comumente tem o significado duplo de 'cogumelo'; o olho, que pode tanto significar o formato como o poder de abrir a visão de alguém; o sol, que o chapéu vermelho pode representar, e a ordenha, que é o que foi feito com o Soma e que encaixa no conceito do úbere.
O mais interessante, e provavelmente a prova mais forte a favor da teoria de que o Soma é o cogumelo Amanita Muscaria é a menção no Rigveda de duas formas de Soma. "Com estas duas formas que estão frente a nós, Ó Soma, tu reinas sobre todas as coisas" (Mandala IX 66). Wasson, em seus estudos sobre Amanitas em outras culturas, também encontrou duas formas do Amanita. A primeira é o suco de um cogumelo fresco ou rehidratado, e a segunda é a urina daqueles que já tomaram o suco. O melhor exemplo de alguém bebendo urina após ingerir os cogumelos Amanitas vem dos estudos de Filip Johann von Strahlenberg sobre a tribo Koryak, no começo do século 18 (* a partir de 1701). Strahlenberg afirma que os koryak
" fazem um banquete, jogam água em alguns cogumelos e os cozinham. Então eles bebem o líquido, que os intoxica; as pessoas mais pobres, que não podem pagar pelos cogumelos, ficam ao redor do chalé dos ricos e esperam a oportunidade do convidado precisar urinar; aí, seguram uma tigela de madeira para receber a urina, que depois é bebida com prazer, por ter ainda algum traço dos cogumelos, e desta forma eles também ficam inebriados. "
Já que o princípio ativo dos Amanitas é pouco alterado através do corpo humano, a possibilidade de interpretar as referências do Rigveda a uma segunda forma de Soma ser a urina é simplificada. Espero que esta citação nos permita um melhor entendimento da tese de Wasson. "Soma, nuvem de tempestade embebida em vida, é ordenhada do leite. 'Corpo' do caminho, Princípo Imortal, pulou para a vida de uma grande distância. Atuando em concerto, aqueles encarregados do ofício, dotados ricamente, honram integralmente o Soma. O homem que o engoliu urina o Soma fluente."(Mandala IX 74).
Apesar de outras Mandalas do Rigveda poderem ser interpretadas às luzes do Amanita Muscaria, e de outras informações sobre o seu uso em outras culturas poderem ser examinadas, isso tudo vai além deste ensaio. Eu simplesmente acredito que este belo cogumelo seja a melhor explicação do Soma até hoje e que deva ser levado a sério por todos os acadêmicos interessados no Soma divino do Rigveda. "O Fly-agaric (Amanita Muscaria) produz intoxicação, alucinação e delírio. Formas leves de intoxicação são acompanhadas por algum grau de animação e espontaneidade de movimentos. Muitos Xamãs, antes de suas sessões, comem o Fly-Agaric para chegar a estados de êxtase... Sob forte intoxicação os sentidos ficam confusos; objetos ao redor parecem maiores ou menores do que realmente são, alucinações se dão, movimentos espontâneos e convulsões. Até agora, pude observar que ataques de grande animação alternam-se com movimentos de profunda depressão. A pessoa intoxicada com os cogumelos senta-se quietamente movendo-se de um lado a outro, até conversando com sua família. De repente os olhos se dilatam, ela começa a gesticular convulsivamente, conversa com pessoas que imagina ver, canta e dança. Então um intervalo de descanso se coloca novamente. Entretanto, para manter a intoxicação, novas doses do fungo são necessárias...Esta é a razão pela qual os efeitos do Fly-Agaric seriam mais fortes se as toxinas não fossem retiradas da urina. Os Koryak sabem disso por experiência, e a urina dos intoxicados com os cogumelos não é disperdiçada. O próprio alucinado bebe sua urina para prolongar suas visões, ou a oferece a outras pessoas, como um presente."Waldemar Jochelson, início do século 19.
fonte:http://leda.lycaeum.org/?ID=14032
créditos: M. S. Smith
Considerações:
(**) Firs - não há tradução literal para esta palavra, uma vez que é um tipo de pinheiro. Segue a taxonomia dele e um link para consulta.
Reino : Plantae
Divisão: Pinophyta
Classe: Pinopsida
Ordem: Pinales
Família: Pinaceae
Gênero: Abies
consulta: http://en.wikipedia.org/wiki/Fir
(***) Corpo - a palavra é usada em dois sentidos. Podemos pensar algo análogo em português.
ex: 'um corpo (de frutificação) pra dentro do corpo (humano)'
link original: http://leda.lycaeum.org/?ID=14032
Cogumelos alucinógenos no México: uma visão geral
Introdução:
Cogumelos alucinógenos, conhecidos também como enteogênicos, mágicos, medicinais, neutrópicos, psicodélicos, psicoativos, sagrados, santos ou visionários foram usados por diferentes grupos indígenas no México antes da conquista espanhola (fig. 1 - no final), mas eram desconhecidos da ciência até o século 20. Desde a década de 1950, quando seu uso cerimonial por povos indígenas foi redescoberto (Wasson 1957; Heim and Wasson 1958) , os cogumelos alucinógenos têm recebido grande atenção científica, médica e também popular. A explosão do uso recreativo desses cogumelos durante a década de 1960, e a consequente aplicação de medidas duras pelas agências legais de repressão, produziu consequências negativas e dificuldades legais tanto para os pesquisadores como para os os seguidores do uso tradicional de cogumelos (Guzmán 2003), contudo o uso cerimonial persiste entre certos povos do México. O presente artigo traça algumas das confusões históricas que circundam a identidade desses cogumelos e os comentários sobre a sua taxonomia, distribuição e uso tradicional no México.
A redescoberta dos cogumelos alucinógenos no México
As referências ao uso de cogumelos sagrados no México são encontradas nos mais antigos documentos ou códices produzidos no novo mundo espanhol. O frade franciscano Bernardino de Sahagún (1569–1582) menciona os cogumelos usados em cerimônias especiais pelos índios Nahuatl; ele chamou tais cogumelos de teonanácatl, o que significa “carne dos deuses”. No códice Magliabechiano Sahagún apresenta uma ilustração colorida de um índio comendo um cogumelo de coloração azul, provavelmente Psilocybe caerulescens (será discutido posteriormente). Os espanhóis, contudo, suprimiram o uso cerimonial de cogumelos, e toda menção dos cogumelos sagrados desapareceu da literatura, levando um botânico americano (Saffor 1915) a colocar que teonanácatl não era um cogumelo mas sim Lophophora williamsii (Lemaire) Coulter, o cacto aluginógeno peyote do México e sudoeste dos Estados Unidos.
A identidade de teonanácatl como um cogumelo foi afinal confirmada pelo renomado etnobotânico Richard Schultes (1939). Schultes se baseou em informações fornecidas a ele pelo médico austríaco Blas Pablo Reko, que realtou que os índios mazatecas na cidade montanhosa de Huautla de Jiménez, no norte de Oaxaca, usavam cogumelos em rituais religiosos. Reko recolheu espécimens dos cogumelos, os quais ele enviou para o antropólogo Roberto Weitlaner. O antropólogo norte-americano Jean Bassett Johnson, seguindo a orientação de Weitlaner, foi a Huautla de Jiménez em 1939 e foi, até onde sabemos, o primeiro cientista ocidental a observar uma cerimônia noturna de cogumelos sagrados, apesar de não ter ele próprio ingerido os cogumelos (Schultes 1940; Reko 1945; Wasson and Wasson 1957; Heim and Wasson 1958; Singer 1958).
Ambos, Schultes e Reko, retornaram a Huautla em 1938 e trouxeram duas espécies de “cogumelos sagrados”, porém Schultes recolheu no campo uma terceira amostra de cogumelos, e todas as três foram depositados no herbário Farlow na Universidade de Harvard. Somente uma das três amostras foi identificada naquela ocasião, como Panaeolus campanulatus var. sphinctrinus (Fr.) Bres., melhor conhecida como P. sphinctrinus (Fr.) Quél. Aparentemente subestimando a complexidade e diversidade do uso de cogumelos sagrados no México, Schultes (1939) assumiu que os P. Sphinctrinus coletados na área de Oaxaca era o teonanácatl dos Nahuatls (Davis 1996; Guzmán 1959).
Na década de 1940 o micólogo Rolf Singer estudou a coleção de Scultes na Universidade de Harvard. Ele confirmou a identificação da amostra de Panaeolus sphinctrinus, e identificou as outras duas amostras como Psylocibe cubensis e Deconica sp. Singer (1949) publicou duas pequenas notas, uma sobre Panaeolus e outra sobre Psylocibe, nas quais ele se referia a eles como os cogumelos narcóticos usados pelos índios mexicanos. Apesar de Singer (1975) posteriormente retirar Panaeolus da lista de cogumelos usados no México baseado em informação fornecida por Guzmán (1959), a citação continuada da nota de Singer (1949) levou a uma persistente concepção errônea que espécies de Panaeolus estão entre os cogumelos sagrados do México.
Apesar de espécies alucinógenas de Panaeolus ocorrerem no México, por exemplo P. subbalteatus Berk. and Broome e P. cyanescens Berk. and Broome (=Copelandia cyanescens [Berk. and Bromme] Sacc.), nenhuma espécie de Panaeolus parece ter sido usada de alguma maneira pelos povos indígenas no México; de fato eles são comumente considerados venenosos (Guzmán 1959). Como foi então a amostra de Panaeolus de Schultes e Reko tomada de forma errada como um dos cogumelos sagrados mazatecas? Aparentemente uma amostra – a que foi identificada como Panaeolus – foi coletada pessoalmente por Schultes, enquanto as duas outras foram vendidas a Schultes por um índio mazateca (Davis 1996). É possível então que Schultes tenha confundido o cogumelo de esterco Panaeolus sphinctrinus com um dos cogumelos sagrados, por exemplo Psylocibe mexicana, que tem aparência muito parecida.
A verdadeira identidade dos cogumelos sagrados mazatecas e a natureza do seu uso foi finalmente reveladas por R. Gordon Wasson e sua esposa, Valentina Pavlovna. Eles vieram primeiro ao México em 1952, procurando pistas para entender os cogumelos esculpidos em pedra dos antigos Maias. Seguindo os passos de Schultes, eles chegaram a Huautla de Jiménez em 1953, acompanhados por Weitlaner, e então eles encontraram a xamã mazateca Maria Sabina. Dois anos depois Wasson retornou, acompanhado pelo fotógrafo Allan Richardson. Desta vez ele participou do ritual de cogumelos sagrados, com a direção de Maria Sabina, sendo o primeiro cientista a ingerir cogumelos sagrados em um contexto ritual (Wasson 1957; Wasson et al. 1974).
Wasson subsequentemente persuadiu o micólogo francês Roger Heim a acompanhá-lo a Huautla de Jiménez em 1956, quando eles ingeriram cogumelos sagrados com Maria Sabina (Heim and Wasson 1958). Heim (1956) foi o primeiro a identificar várias espécies de Psylocibe como os principais cogumelos sagrados do México. Heim forneceu ao químico suíço Albert Hofmann espécimens cultivados de Psylocibe mexicana coletados em Huautla de Jiménez, e a equipe de Hofmann (que isolou o alcalóide indol semelhante ao LSD) subsequentemente isolou o indol que eles chamaram de psilocibina.
Após trabalhar com as coleções iniciais de herbário de Schultes uma década antes (Singer 1949), Singer chegou ao México em 1957 para estudar os cogumelos alucinógenos, com Gáston Guzmán como seu assistente (Singer 1958). Singer também colaborou com o micólogo Alexander Smith para produzir a primeira monografia sobre as espécies aluginógenas de Psylocibe (Singer and Smith 1958). Guzmán, que também colaborou com Schultes, Wasson e Heim começou a trabalhar com Psylocibe nesta época (veja Guzmán 1959, 1960). Durante seus estudos no herbário Farlow na Universidade de Harvard Guzmán descobriu que o segundo pacote de cogumelos comprado por Schultes e identificado por Singer como Deconica sp. era na verdade Psilocybe caerulescens, um importante cogumelo sagrado entre os mazatecas (ver tabela 1 no final).
Heim e Wasson (1958) também relataram o uso cerimonial de Cordyceps capitata (Holms.:Fr.) Link e C. ophioglossoides (Fr.) Link assim como de Elaphomyces spp. pelos Nahuatls. Estes relatos foram confirmados, como descrito abaixo. Hofmann foi incapaz de detectar qualquer composto alucinógeno em C. Capitata, mas uma vez que os especimens que ele analisou estavam secos e envelhecidos investigações posteriores são necessárias.
Fora Cordyceps e Elaphomyces, e o hipotético uso ancestral de Amanita muscaria (L.:Fr.) Pers. ex Hook. (veja Lowy 1974; Schultes and Hofmann 1979; Mapes et al 1981), definitivamente Psilocybe é o único gênero de cogumelos sagrados usado no México. Todavia, vários outros cogumelos “narcóticos” tem sido dubiamente ou erroneamente relatados no México (Schultes 1939, 1940, 1976; Reko 1945; Heim and Wasson 1958; Schultes and Hofmann 1979). Estes incluem espécies de Conocybe, Clavariadelphus (como Clavaria), Dictyophora, Gomphus (como Nevrophyllum), Lycoperdon, Panaeolus (como descrito anteriormente), e Psathyrella. O motivo da confusão difere em cada caso. Com Lycoperdon, por exemplo, o erro pode ser traçado a um único informante ébrio (Ott et al. 1975), enquanto Clavariadelphus e Gomphus foram falsamente implicados porquê compartilham com Cordyceps o nome popular de hongo amarillo (cogumelo amarelo).
Os Psylocibes alucinógenos do México
Guzmán (1983) demonstrou que espécies alucinógenas de Psylocibe ocorrem em todos os continentes. Todavia, somente no México e talvez na Nova Guiné (ver Heim et al. 1967) eles foram confirmados serem tradicionalmente usados como cogumelos visonários ou “sagrados”. Há também algumas evidências que sugerem uso cerimonial de Psylocibe na Colômbia e na África (Samorini 2001; Guzmán et al. 2004). Uma revisão recente de todos os taxa conhecidos de Psylocibe (Guzmán 2005) levantou cerca de 250 espécies, das quais 150 são alucinógenas. Destas, 53 espécies alucinógenas foram identificadas no México (Guzmán 2005), apesar de que pelo que se conhece menos de um terço delas são utilizadas cerimonialmente (ver tabela 1).
Via de regra, as espécies alucinógenas de Psylocibe podem ser distinguidas das não alucinógenas pela sua tendência (em quase todos os casos) a oxidarem assumindo uma cor azulada, e pelo seu odor e sabor farináceos. As espécies alucinógenas do México podem ser divididas em três amplos grupos correspondendo a diferentes áreas ecológicas-geográficas (fig. 1 no final). O primeiro grupo é encontrado em áreas montanhosas com clima temperado, tipicamente em prados ou áreas abertas de florestas de coníferas com cobertura de capim. Psilocybe aztecorum, P. muliercula, e P. sanctorum são membros proeminentes deste grupo. O segundo grupo é encontrado emtípicas terras baixas, e inclui espécies pouco conhecidas como P. uxpanapensis Guzmán, P. weldenii Guzmán, P. singeri Guzmán, e P. veraecrucis Guzmán e Pérez-Ortiz, assim como as espécies cosmopolitas que ocorrem em esterco P. cubensis e P. subcubensis. O terceiro grupo, compreendendo a vasta maioria das espécies alucinógenas do México, é encontrada em áreas intermediárias onde um clima chuvoso e subtropical e terreno montanhoso promove a formação de florestas mesofíticas úmidas em elevações de de 1.000 a 1.600 metros. Psilocybe yungensis, o grupo de P. fagicola e P. candidipes são espécies comuns nesta área, enquanto P. mexicana e P. cubensis são encontrados nos prados, e P. zapotecorum, P. subzapotecorum Guzmán, P. caerulescens, e P. hoogshagenii são encontrados em barrancos de solo erodido e lamacento, frequentemente sem vegetação (Guzmán 1978, 1983, 1990).
Uso de cogumelos sagrados no México Moderno
Vários grupos indígenas foram confirmados como praticantes de uso cerimonial de cogumelos sagrados no México: os Nahuatls nos estados do México, Morelos e Puebla; os Matlazincs no estado do México; os Totonacs no estado de Veracruz; e os Mazatecas. Mixes, Zapotecas e Chatins no estado de Oaxaca.
No oeste do vulcão Popocatépetl (estado do México) os Nahuatls consomem ritualmente Psilocybe aztecorum, que cresce nos prados montanhosos que se alternam com coníferas. O nome deles para eles, apipitzin (ou niño de las aguas em espanhol), significa criança das águas da chuva (Heim and Wasson 1958; Guzmán 1978). Na vertente sul do mesmo vulcão (mas no estados de Morelos), na floresta subtropical úmida que circunda Tetela del Volcán, os Nahuatls consideram Psilocybe muliercula, que eles chamam de siwatsitsintli ou mujercitas (pequenas mulheres), frequentemente aparecendo junto com Cordyceps capitata or C. ophioglossoides, conhecidos como hombrecitos (pequenos homens). Nas suas cerimônias com cogumelos sagrados algumas pessoas comem somente mujercitas e outras comem somente hombrecitos (aparentemente, ninguém come ambos, e o sexo do consumidor do cogumelo não determina o “sexo” dos cogumelos que ele come). Uma ou mais espécimens de Elaphomyces (o cogumelo hipógeo semelhante a trufa do qual Cordyceps cresce) tipicamente ocupa o centro do ambiente durante o ritual, normalmente no altar ou numa esteira no chão. No fim da cerimônia todo mundo reparte el gran mundo (“o grande mundo”), como Elaphomyces é chamado.
Também na região de Nevado de Toluca, mas a oeste dos Nahuatls, estão os Matlazincs. Seus cogumelos sagrados são Psilocybe muliercula e P. sanctorum (Guzmán and López-González 1970), que eles chamam santitos (“pequenos santos”).
Mais adiante para o leste, os Nahuatls de Necaxa usam Psilocybe caerulescens e P.mexicana como cogumelos sagrados (Guzmán, 1960). Eles chamam estes cogumelos de teotlaquilnanácatl, o que significa “sagrados cogumelos que desenham ou contam”. Como o cogumelo de coloração azul apresentado no códice Magliabechiano de Sahagún tem uma forte semelhança com P. caerulescens, e a palavra Nahuatl contemporânea tem uma evidente semelhança com o enigmático nome teonanácatl relatado originalmente por Sahágun no século 16, este autor hipotetiza que eles são um só e o mesmo.
Mais adiante para o leste os Totonacs (estado de Veracruz) usavam P. caerulescens assim como P. cordispora intensivamente no passado, apesar de que a tradição agora está quase extinta (Stresser-Péan and Heim 1960). Guzmán et al. (2005) também encontraram cogumelos alucinógenos do grupo de P. fagicola crescendo frequentemente na região dos Totonacs.
Finalmente, no estado de Oaxaca, o uso de cogumelos sagrados é bem documentado pelos Mazatecas de Huautla de Jimenez, pelos Mixes de Mazatlan, pelos Zapotecs de San Agustin Loxicha, e pelos Chatins de Yaitepec. As bem conhecidas espécies P. caerulescens, P. mexicana, P. cubensis e P. zapotecorum, assim como várias outras (ver tabela 1) são usadas nesta região.
Somando-se ao relatos confirmados listados acima, há evidência vestigial de uso de cogumelos em outro lugares do México. Pedaços de cerâmica encontrados em sopés montanhosos no leste de Nevado de Colima (estado de Colima) sugerem que os Capacha e talvez os Nahuatls usavam cogumelos sagrados. Uma peça (veja Schultes and Hofmann 1979) mostra quatro índios com olhos de espanto em torno de um cogumelo muito alto que é muito parecido com P. zapoteco. Outra peça (Doniz et al. 2001) mostra uma mulher com grandes olhos segurando um cogumelo alto na sua mão direita. Em ambos os casos os grandes olhos podem indicar pupilas dilatadas, enaqunto os cogumelos altos podem ilustrar a alteração de percepção conhecida como gigantismo; ambos são efeitos alucinógenos comumente notados no consumo de Psilocybe (e.g., Guzmán 1990). Ainda outros grupos indígenas podem ter usado cogumelos alucinógenos, como os Purepechas do estado de Michoacan, onde Guzmán (1983) encontrou Psilocybe caerulescens. Os Tzotil Mayas de Chiapas podem também ter sido usuários no passado distante, mas não há indícios de uso nos dias de hoje ou em tempos recentes (Laughlin 1975).
A cerimônia do Cogumelo Sagrado
Quando Reko (1945), Schultes (1939, 1940), Wasson e Wasson (1957), e Guzmán (1959, 1960) conduziram suas pesquisas eles notaram como as cerimônias com cogumelos sagrados foram influenciadas por cinco séculos de contato com o catolicismo. Agora, após cinco décadas de contato com usuários de drogas recreativas e turistas, as cerimônias de cogumelos mais uma vez mudaram. Cogumelos sagrados são comumente comercializados, e até as próprias cerimônias viraram um tipo de atração turística. A despeito das diferenças regionais e de linguagem, além das diferentes espécies de cogumelos usadas, as cerimônias de cogumelos sagrados mostram alguns elementos comuns por todo o México.
A cerimônia é sempre realizada à noite, aparentemente para reduzir distrações e intensificar a concentração mental dos usuários dos cogumelos. A cerimônia é sempre realizada sobre a direção de um xamã ou de uma pessoa mais velha e experimentada, mulher ou homem, e é geralmente realizada no lar do guia em frente a um altar católico.
Tipicamente os cogumelos são colocados em uma cabaça de abóbora, ou jicara (Crescentia cujete L.), e perfurmados com resina de copal (na maioria das vezes de Protium spp.). As cerimônias mostram uma mistura de elementos nativos e católicos; as preces podem ser em espanhol e/ou em línguas indígenas. Os cogumelos são normalmente contados em pares de “macho-fêmea”, apesar de que somente uma espécie de cogumelo é usada para uma dad cerimônia (exceto na região de Nevado de Toluca, onde, como relatado acima, Cordyceps e Elaphomyces são usados juntos com Psilocybe. Aos participantes são normalmente oferecidos seis pares de cogumelos, apesar de que com o advento do turismo psicodélico podem ser oferecidos aos forasteiros somente um ou dois pares, e solicitado pagamento extra se eles quiserem um dose maior. Se acredita normalmente que doses excessivas (mais que doze cogumelos) podem produzir desordens mentais, e que diferentes espécies de Psilocybe não devem ser misturadas. Os cogumelos são ingeridos com o estômago vazio, e álcool e remédios são evitados antes e durante a cerimônia, e outras restrições (por exemplo, evitar viajar nos dias seguintes à cerimônia) podem ser colocadas (Guzmán 2003).
Conclusões
Apesar de uma grande confusão na literatura, é claro agora que os cogumelos alucinógenos do México são quase exclusivamente do gênero Psilocybe. Apesar de várias espécies de Psilocybe alucinógenos ocorrerem em baixas altitudes no México, o uso cerimonial tradicional sobrevive hoje somente em regiões de maior altitude (1.500 m e acima, ver figura 1). Isto provavlemente se deve à perseguição da adoração dos cogumelos pela Igreja Católica durante o período colonial espanhol, de modo que a cerimônia persistiu somente em ou restrita a áreas montanhosas remotas.
Um relato moderno sobre a “Igreja do Cogumelo” dos Nahuatls perto de Chignahuapan no estado de Puebla (Guzmán et al. 1975) é somente tangencialmente relacionada ao uso de cogumelos sagrados, contudo ilustra a tenacidade da adoração indígena dos cogumelos e os contínuos esforços da igreja para suprimi-lá.
A “Igreja do Cogumelo” foi construída em honra a um espécime do cogumelo de madeira Ganoderma lobatum (Schwein.) G.F. Atk. Que mostra uma imagem de Cristo desenhada em sua superfície inferior porosa e pálida. O cogumelo foi encontrado na floresta há mais de 200 anos por um nativo Nahuatl, um evento considerado como um milagre pela população local. Guzmán et al. (1975) sugerem que este “milagre” pode ter sido fabricado por algum padre criativo do século dezoito, como meio de atrair os Nahuatls para fora da sua oculta adoração e consumo de cogumelos alucinógenos, e redirecionar esta reverência ao cogumelo em direção a Cristo. Por dois séculos o cogumelo sagrado foi guardado e venerado em particular pelas famílias locais. Finalmente, na década de 1950 foi construída uma igreja em honra ao cogumelo milagroso. O cogumelo era exposto em uma caixa de cristal e a igreja era chamada de Nuestro Señor del Honguito ("Nosso Senhor do Pequeno Cogumelo"). Recentemente, todavia, as autoridades católicas, sempre vigilantes quanto a renascimentos pagãos, mudou o nome da igreja para Nuestra Señora del Sagrado Corazon de Jesús ("Nossa Senhora do Sagrado Coração de Jesus"), e mudou o cogumelo do cento de adoração para uma alcova de canto, onde eles o colocaram em uma caixa de metal com uma cruz. Contudo os Nahuatls continuam a adorar o cogumelo, orando em frente à caixa de metal antes de irem para o altar principal.
Figura nº 1
The principal hallucinogenic species of psilocybe in mexico and the indigenous groups that use them
| Species | Indigenous Group | |||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
|
| Chatins | Matlazincs | Mazatecs | Mixes | Nahuatls | Purepechs | Totonacs | Zapotecs |
| P. aztecorum R. Heim emend. Guzmán | X | |||||||
| P. barrerae Cifuentes and Guzmán emend. Guzmán | X | |||||||
| P. caerulescens Murrill var. caerulescens P. caerulescens var. mazatecorum R. Heim = P. caerulescens var. nigripes R. Heim = P. caerulescens var. albida R. Heim | X | X | X | ? | X | X | ||
| P. caerulescens var. ombrophila (R. Heim) Guzmán P. caerulescens var. mazatecorum f. ombrophila R. Heim = P. mixaeensis R. Heim | X | X | ||||||
| P. candidipes Singer and A.H. Smith | X | |||||||
| P. cordispora R. Heim | X | X | X | |||||
| P. cubensis (Earle) Singer = Stropharia cubensis Earle | X | X | X | X | X | |||
| P. fagicola R. Heim emend. Guzmán = P. wassoniorum Guzmán and Pollock | ? | ? | ||||||
| P. hoogshagenii R. Heim var. hoogshagenii | X | X | ||||||
| P. mexicana R. Heim | X | X | X | X | X | |||
| P. muliercula Singer and A.H. Smith = P. wassonii R. Heim | X | X | ||||||
| P. sanctorum Guzmán | X | |||||||
| P. subcubensis Guzmán | X | X | X | X | X | |||
| P. yungensis Singer and A.H. Smith = P. acutissima R. Heim | X | |||||||
| P. zapotecorum R. Heim emend. Guzmán = P. zapotecorum f. elongata R. Heim | X | X | X | X | ||||
Heim and Wasson (1958) also reported the ceremonial usage of Cordyceps capitata (Holms.:Fr.) Link and C. ophioglossoides (Fr.) Link as well as Elaphomyces spp. by the Nahuatl. These reports have been confirmed, as described below. Hofmann was unable to detect any hallucinogenic compounds in C. capitata (see Heim and Wasson 1958), but since the specimens he assayed were dry and stale, further investigation is warranted.
Aside from Cordyceps and Elaphomyces, and the hypothesized ancient usage of Amanita muscaria (L.:Fr.) Pers. ex Hook. (see Lowy 1974; Schultes and Hofmann 1979; Mapes et al 1981), Psilocybe is the only genus of sacred mushroom definitely used in Mexico. However, a number of other “narcotic” mushrooms have been dubiously or erroneously reported from Mexico (Schultes 1939, 1940, 1976; Reko 1945; Heim and Wasson 1958; Schultes and Hofmann 1979). These include species of Conocybe, Clavariadelphus (as Clavaria), Dictyophora, Gomphus (as Nevrophyllum), Lycoperdon, Panaeolus (as already described), and Psathyrella. The causes of confusion differ in each case. With Lycoperdon, for instance, the error can be traced to a single inebriated informant (Ott et al. 1975), while Clavariadelphus and Gomphus were falsely implicated because they shared with Cordyceps the vernacular name hongo amarillo (“yellow mushroom”).
Drogas: nem vícios nem virtudes
Drogas: nem vícios nem virtudes
Autor: Edson Passetti
publicado em: Libertárias, São Paulo: Imaginário, 1998, 43 - 45 pp.
Fonte : Nu-Sol
Muito se comenta a respeito do uso de drogas, a partir da década de 1950 com os artistas da contracultura e depois, mais amplamente, com o movimento hippy. A geração pós-guerra já contestava com a música popular, roupas extravagantes e gestos inusitados o conservadorismo abalado pelos efeitos da bomba atômica. As certezas políticas democráticas e socialistas entravam em rota de colisão e não tardou para que o movimento de 1968 fizesse pulsar novamente o sentido desejante da anarquia. Até tradicionais historiadores como George Woodcock que imaginava o anarquismo como matéria da memória se retrata, reconhecendo que guerra civil espanhola fôra apenas um episódio a mais nas perseguições aos anarquistas.
Com 68 o anarquismo voltou à cena como a mais completa análise crítica da sociedade hierarquizada. Oxigenou pensamentos e posturas além de dialogar com diversos movimentos sociais que foram aparecendo: os dos ecologistas, os punks, os abolicionistas penais, as feministas, os gays, os anti-nucleares e os liberacionistas de drogas.
Em cada um deles deixa sublinhado o caráter pluralista do anarquismo ao mesmo tempo em que se revê como utopia universalista encontrando sentido para lutas micropolíticas. O anarquismo também se libera dos feitos dos séculos XIX e da primeira metade do século XX para se redimensionar tomando cuidado para que novas vertentes libertárias pudessem aparecer e que os escritos dos seus militantes estivessem sempre sendo atualizados. No anarquismo não existe lugar para o respeito ou a reverência.
O anarquismo não deve correr o risco de se tornar uma droga para os seus supostos herdeiros. Bakunin alertava para o perigo de nos deixarmos nas mãos dos cientistas ou dos que se arvoram em defensores das grandes causas em nosso nome. Eles não passam de imperadores da nossa liberdade. Da mesma maneira a droga não é designativo apenas para produtos que levam a ilegais estados alterados de consciência ou a substâncias que tem seu uso regulado e regulamentada a partir da ciência médica. Por droga se designa principalmente tudo aquilo que, preconceituosamente, a moral conservadora considera inadmissível.
Antes mesmo de 68, e durante muito tempo, as drogas hoje consideradas ilegais foram amplamente consumidas sem que o usuário fosse considerado marginal, perigoso, doente, incapaz, imoral, traficante ou decadente. Por muitos séculos diversas drogas consideradas perniciosas foram largamente usadas sob uma forma de controle social engendrado pelas próprias pessoas sem a necessidade de se recorrer aparatos policiais. Elas serviam a pessoas comuns e a reis, como Pedro o Grande e Catarina da Rússia, Frederico II da Prússia e William II da Inglaterra.
O cânhamo na Mesopotâmia serviu como incenso cerimonial. Na tradição brâmica era tido como potencializador dos desejos sexuais e prolongador da vida. Entre os celtas foi produto de exportação para toda a região mediterrânea, até o século VIII, através de Massília, hoje Marselha, um dos mais importantes portos atuais de tráfico de drogas. Este rápido exemplo nos mostra que droga é ao mesmo tempo vida e crime. É crime, convêm lembrar, como atribuição histórica de significado a um ato. Portanto crime e drogas nada mais é do que um casamento gerado sob determinadas circunstâncias históricas. Numa sociedade como a nossa, o que é crime hoje poderá deixar de sê-lo amanhã ou vice-versa. Tudo depende da maneira pela qual nos posicionamos, criando ou equacionando os acontecimentos à nossa volta.
No Brasil, devido a tradição africana, não tardou para que se relacionasse a maconha a escravos e à subalternidade racial. Criou-se, rapidamente, a associação do crime como racismo e pobreza e a suposta ignorância de quem é diferente. As drogas passaram a fazer parte do que se convencionou caracterizar como classes perigosas que, por conseguinte, devem ser combatidas.
Não devemos deixar de lembrar que a guerra às drogas foi antecedida por um grande negócio colonial capitaneado pela Companhia das Índias Orientais, em nome da liberdade de mercado, para instalar-se na Ásia. Em 1838, o mandarim Lin Tse-Hsiu destrói, jogando no mar, no porto de Hong Kong, mais de 1.400 toneladas de ópio. Mesmo destituído pelo imperador isto não impede a declaração de guerra pelos ingleses assim como a cessão do referido porto à Inglaterra. Vinte anos mais tarde, a imperatriz Tseu-Hi, opiômana, surpreende a Companhia das Índias Orientais e legaliza a importação e o consumo, gerando nova guerra. Assim caminhando, o século XIX oscilou entre políticas coloniais contrárias e favoráveis ao contrabando e a legalizações. O Parlamento inglês também oscilou. Em 1838, defendeu os interesses empresariais e a guerra em nome da liberdade de mercado; em 1880, declarou ser o tráfico uma empresa moralmente injustificável, depois da Inglaterra se estabelecer na China. O que os historiadores mostram, entretanto, é que a legalização forçou em direção a um decréscimo de usuários. Se entre 1884 e 1886, sob o regime proibicionista na China, os usuários giravam em torno de 5%, , segundo os da Royal Comission on Opiun, em 1906, com a legalização, apenas 0,5% da população era de usuários regulares.
Nunca tão poucos serviram de causa para batalhas tidas como imprescindíveis pelos moralistas e que levam às sanguinárias guerras anti-drogas. Nos EUA, em 1886, com a lei seca (cuja primeira manifestação ocorreu em 1785), se suprime o álcool da coca-cola que é comercializada como refrigerante levando ao aparecimento das dugstores. Os puritanos norte-americanos passam a desconfiar cada vez mais dos imigrantes urbanos. Atribuem aos chineses a corrupção infantil, aos negros os ultrajes sociais, aos mexicanos a introdução da marijuana e aos beberrões irlandeses e judeus a difusão do álcool. São as classes perigosas caracterizadas como sendo formadas por imigrantes, pobres, marginais, imorais e perigosos. Em 1895, por exemplo, a Liga Anti-Saloon exigirá uma “América” limpa de bêbados, jogatinas e fornicações. Não tardará para, em 1903, a Associação Médica e Farmacêutica unir-se ao movimento puritano e daí para frente consolidar-se a aliança puritanismo e terapêutica.
A história não pára e desde a Conferência de Shangai, liderada pelo presidente norte-americano Roosevelt, em 1906, foram sendo preparadas as formas pelas quais irão sendo legalizadas as drogas: parte para a indústria farmacológica e parte ao mercado ilegal.
Quando falamos de sociedade com produção capitalista, a distinção entre mercado ilegal e legal é apenas uma mera formalidade. Da mesma maneira, a distinção entre ricos cumpridores dos deveres e ricos marginais se dá apenas no âmbito do reconhecimento social, ainda que temporário, e identifica-se aqueles que contestam a fragilidade e falsidade dos moralistas como membros das classes perigosas. São os diferentes que, de imediato, são estratificados pelo saber repressivo como criminosos políticos (subversivos) ou comuns.
O anarquismo é um pensamento e uma prática que para capitalistas e socialistas autoritários (aqueles que levaram em nome das melhores intenções a ditaduras como as chefiadas por Lenin, Stalin, Fidel ou Mao-Tsé-tung) se torna insuportável. Apenas os conservadores admitem a liberação das drogas. Mas com uma frontal diferença com os anarquistas. Eles admitem a legalização como parte da liberdade de mercado enquanto os anarquistas defendem sua liberação como liberdade de auto-governo pelas pessoas. Como bem salientou Errico Malatesta, a infelicidade continuaria a existir mas “as pessoas inteligentes e desinteressadas poderiam perguntar-se: uma vez que as leis penais se mostraram impotentes, por que não tentar, mesmo que a título de experiência, o método anarquista?”. É de atitudes abolicionistas contra a punição como esta que precisamos! Eis uma das atualidades do anarquismo.
Os jovens de 68 não pretendiam transformar-se em “serviçais do narcotráfico”, como lembrou o poeta e compositor Caetano Veloso. Nem fazer do uso de drogas, como formas para alcançar outros conhecimentos e sentimentos, meio para a matança entre jovens e policiais nas periferias dos centros urbanos das grandes capitais, negócio de massivo lucro como o narcotráfico, ou ainda propiciar a insólita associação entre guerrilha e narcotráfico como ocorreu desde os anos 80, no Peru e na Colômbia.
A perseguição voraz ao usuário de drogas, que era também um contestador da autoridade do pai, do professor, do político, do patrão e do governante, enriqueceu os narcotrafiantes, diversificou a indústria armamentista, despolitizou grande parte dos jovens e legitimou a farmacologia do torpor.
Se hoje em dia você se assusta com crianças semi-acordadas caídas pelas sarjetas intoxicadas de crack, com colegas e amigos cheirados e fumados, contaminados por HIV por uso múltiplo de seringas, não se faça de chocado, não espere pela estatística no jornal da grande imprensa, não se iluda com o programa de TV, e não levante as mãos para o céu agradecendo a Deus por não ter acontecido com você para a partir desse momento começar a cagar regras, condenar os outros, posar de bonzinho ou boazinha. Sem olhar e ver a realidade que está na sua cara, o que é segurança hoje poderá se transformar em vestígios de ruínas amanhã.
Livro - O Evangelho Segundo Sebastião Mota
"...a sabedoria da floresta na simplicidade das palavras de um seringueiro capaz de criar uma comunidade espiritual (ashram) no coração da amazonia. um registro autentico dos primordios de uma Doutriana viva, sintonizada com a natureza criadora, atual e em pleno desenvolvimento. a sintese de conhecimentos espirituais cristãos, xamanicos e enteogenos."
Link's para baixar :Parte 1:
http://sites.google.com/site/santasflores/livros/OEvangelhoSegundoSebastiaoMota.part1.rar?attredirects=0&d=1
Parte 2:
http://sites.google.com/site/santasflores/livros/OEvangelhoSegundoSebastiaoMota.part2.rar?attredirects=0&d=1
Outra Fonte :
http://search.4shared.com/q/90/sebastiao
Para ler no Computador :
http://www.youblisher.com/p/17485-O-Evangelho-Segundo-Sebastiao-Mota/
quarta-feira, 2 de março de 2011
Livro As portas da percepção - Aldous Huxley [Download]
Sinopse:Dois importantes ensaios sobre o efeito da ingestão de drogas e suas implicações mentais e éticas. Em "As portas da percepção", de 1954, o romancista inglês descreve suas experiências pessoais com a mescalina, alcalóide extraído de um cacto mexicano, sob supervisão médica. "Céu e inferno", de 1956, faz uma análise crítica do uso de drogas. Ele constata que , se as alucinações produzidas pela droga podem alcançar uma atmosfera mística, também podem conduzir o paciente às margens da auto-aniquilação.
Formato: PDF
Páginas: 76
Autor: Aldous Huxley
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Livro Moksha - Aldous Huxley [Download]
Sinopse:Em meados da década de 50, quando surgiram As portas da percepção e Céu e inferno, de Aldous Huxley, neles encontrei descrições de experiências e a articulação de idéias que, desde a descoberta do LSD doze anos antes, vinham ocupando constante-mente o meu pensamento. Nessa época, pesquisas científicas a respeito do LSD já tinham sido efetuadas nos campos da medicina, biologia, farmacologia e psiquiatria, e mais ou menos mil estudos já tinham sido publicados. Mas me parecia que uma potencialidade fundamental desse agente químico ainda não tinha sido suficientemente estudada ou reconhecida: sua capacidade de produzir experiências visionárias. Fiquei portanto muito contente ao saber que uma pessoa de tão alto nível literário e espiritual como Aldous Huxley, usando mescalina, que produz efeitos qualitativamente semelhantes aos do LSD, voltara-se para um estudo profundo desse fenômeno. Desde o início do século haviam-se feito pesquisas sobre a mescalina, mas depois o interesse por essa droga decaiu bastante....
Formato: PDF
Páginas: 219
Autor: Aldous Huxley
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